7/18/2008

ENTRANHA 12... Paulema (Lançamento público dia 3/Out/2008 às 19 H, no Museu da Resistencia, Est. de Benfica. Sinta-se convidado (a).


"Estou convicta que há muito tempo, talvez anos, não tenha lido algo tão forte, intenso, denso. Mas de que é que estes atributos são feitos? De uma história? Sim, mas é pouco. De uma forma? Sim, mas não chega. A sensação é que é isso, claro, mas está muito para além disso. Porquê? Como? Porque toca em coisas muito secretas e profundas, daquelas que temos medo de tocar en nós próprios? Tanbém mas ainda é pouco. Porque articula de forma assonbrosa vários discursos sobre o Eu e sobre o Outro? (...) Acho que é sobre o Amor."

Graça Costa sobre Paulema, uma das narrativas (trata-se de uma trilogia) que dá titulo ao livro.




"Devora-se, identificamo-nos, sente-se. É forte, muito forte. É bom, sim, é bom"

Gabriela Fonseca, sobre a narrativa Paulema



Nota: Paulema só se encontra à venda, que eu saiba, na Livraria Rodrigues, Rua do Ouro, 188 em Lisboa. A Fnac recusa distribuir o livro.


Paulema


Tinha quinze anos, passava as madrugadas a olhar as baratas no soalho do quarto, as horas no relógio da parede e não gostava de nada.
Nada da minha sorte - por morte dos pais criava-me uma tia beata que nem para si tinha juízo - nada da minha vida de estudante do secundário, nada, enfim, de nada, e o meu livro de cabeceira tinha por título "A Náusea" de um tal Sartre! Até já me imaginara morto! A ideia de obrigar o meu melhor amigo - o Luis - a uma cerimónia fúnebre satisfazia-me. Não íamos ao café, a seguir ao jantar, e não me abandonava ele logo?
- Vou-me deitar.
- Já?
- A noite fez-se para dormir.
E eu, só, com as baratas e as horas.
Um dia conheci Firmino que, bem mais velho, passou a convidar-me para fins-de-semana na sua casa em Sintra. Connosco Filó, a empregada, e uma cadela, a quem ele chamava "filha". Dedicava ao meu venerável companheiro o afecto que um adolescente, sem progenitor, dedica a alguém que lho evoca, quando, num fim-de-semana em que a empregada tinha ido de visita à terra e a "filha" dormia, Firmino quis meter-se à força na minha cama! Mal o convenci a regressar à sua, abandonei-lhe a casa para só parar na de um primo, duzentos kilómetros adiante. Pelo caminho entrei num barbeiro para a primeira barba e, enquanto ele ma fazia, prometi-me ao espelho: "Quinze anos! Tens quinze anos para atingir um outro lado das coisas, o que gostas. Senão matas-te."
Mas seria capaz?
Teria, caso perdesse a partida, a coragem de fechar a porta? Receoso de não cumprir a aposta, uma noite em que estava de novo só, com as baratas, as horas e a tia numa das suas intermináveis peregrinações aos lugares santos, peguei numa lâmina e fendi os pulsos.
Ensaiei o suícidio.
A caminho do hospital exultava.
Tudo era possível porque de tudo me veria livre!
No fundo, talvez seja um cobarde.
Os quinze anos terminam agora.




Iniciava uma caminhada e queria ser o unico responsavel pelos meus actos. O deus familiar, a quem a minha tia sacrificava, era um fantoche de feira ao qual ela atirava bolas - no caso velas, viagens ou promessas - da mesma forma com que adoçamos a boca do animal que se domestica. Ora, eu exigia um deus indiferente à chantagem e a sua autonomia custar-me-ia a solidão. Mas a certeza de que só eu sofreria a minha morte embriagava-me de independencia. E se, pelo caminho, adoptasse algum numen, ele seria, já, uma criação minha.
A solidão foi, pois, a minha primeira conquista.




Queria melhorar a vida, torná-la risonha em vez de monótona mas não sabia como fazê-lo.
Tomava o café com o Luis, depois do jantar e regressava a casa cedo. Porem de madrugada, cansado de esperar pelo sono, saía porta fora para galgar ruas e avenidas até chegar aos cafés do Saldanha, onde, fechados os teatros, reunia uma certa boémia artística. Mas, ai, o meu desejo de luz esbarrava ainda na cegueira dos que me olhavam unicamente como a um sexo.
De manha, tendo regressado a casa ainda mais vazio do que dela saira mas, pelo menos, também cansado, a empregada afugentava-me o sono com uma toalha molhada nos olhos, pondo-me a caminho das aulas.
Ficar na cama sem estar doente não era permitido.
O primeiro tempo das aulas passava-o a bocejar, a tirar os óculos para limpar as lágrimas que o bocejo causava e a recolocá-los para voltar a abrir a boca de sono. Ao fim do dia teria bebido dez cafés, senão mais, e as mãos tremiam-me como se atingido pelo mal de Parkinson.
Mas o meu problema não se resolvia e mesmo piorava.
Que fazer à vida?
Que direcção tomar?
O curso de direito que aceitara tirar, quando ainda usava chupeta, estava afastado e, academicamente, só me comprometia a uma coisa: acabar o secundário. Mas, amestrado desde os cueiros, senão antes, para me tornar num funcionário da Pátria, lá ia, apesar das noites, conseguindo boas notas. Elas permitiam-me aliar, ao meu descontentameto em relação a tudo, o prazer de uma soberba indiferença. Na escola, que destestava, era intocável e mesmo aluno modelo.
O Dr. Jekill ia às aulas, o Dr. Hyde lá tinhag as suas noites.



Luis continuava a ir cedo para casa e, quanto mais a angustia me crescia, mais o invejava! Ele dormia, como o próprio apregoava, um sono de justo, em breve conheceria, se é que já não a tinha, uma namorada, e seria um cidadão feliz, depois de assinado o ponto do seu percurso. Pelo contrário, eu fora condenado ao Outro, ao seu inferno. Seduzir era a minha sina? Mas não sabia gerir essa atracção e só encontrava uma saída: detestar o corpo e sobrevalorizar o espírito. Ou seja: dividir-me.
- O Sr. Firmino voltou a telefonar - informou a empregada.
Em vez de mentir, como até aí, mandando dizer que partira em viagem, liguei-lhe. Pedi desculpas pela fuga e dispuz-me a novo fim de semana.
Firmino era fisicamente disforme e nunca me atrairia. Mas Narciso passara a odiar o lago e, licenciando o corpo para o que ele entendesse, observar-lo-ia à lupa. Não recebia dinheiro mas tornara-me no meu próprio proxeneta.
Na segunda visita ao barbeiro encarei já o espelho com um sorriso distante: do outro lado sentava-se um outro. A travessia para a qual me oferecera os quinze anos levar-me-ia ao seu encontro? Ignorava-o e só numa coisa me comprazia: o ódio.
A tudo. A começar por mim mesmo.


A minha tia, com tanta viagem santa, deu em ver Deus com mais frequencia do que o costume e isso preocupou-a. Tinha alucinações, o diabo visitava-a em sonhos e, se o deus a enchia de graça, uma noite na companhia do demo, por mais gozada que fosse, punha-a em pânico. O "bem" e o "mal" são aspectos do mesmo, constituem-no e, nessa medida, inevitaveis. Mas ela não o sabia, eu, à altura, também não lho podia explicar, pois andava às voltas com os meus problemas e a solução que a minha parente encontrou foi a de marcar consultar num psiquiatra: sonhar com o Diabo, depois de ver Deus, era um adultério criminoso. Ora, a minha tia era uma pessoa sensata e a desmesura não lhe estava nos hábitos. Pediu-me que a acompanhasse ao médico e, num fim de tarde, fiz-lhe a vontade.
O consultório ficava na Avenida da Liberdade, forrava-se a conforto de poltronas e damascos e a minha tia desapareceu num seu corredor fundo. Só, entretive-me a observar os que estavam na sala de espera. Não eram, como eu, adolescentes, tinham mesmo grossos bigodes, fartas barbas ou usavam máscaras pintadas. Que acontecera? Haviam-se extraviado? Feito apostas que não podiam cumprir? Sentiam-se incapazes, como eu algum tempo atrás, de tomar uma decisão, por receio de descobrirem que escolhiam a errada? Pensanso nisso senti-me orgulhoso: Deus não me visitava, o Diabo também se abstinha e as insónias tinham-se entrado na rotina. Por ultimo, ocupava-as com alguma felicidade, pois descobrira que certos teatros de revista faziam sessões às duas da manhã. Então, sentava-me na plateia e regressava a casa pronto para as indispensaveis horas de sono, até que a empregada me expedisse para as aulas. A coisa funcionava e as notas saíam sem sobressaltos.
A minha tia reapareceu na sala. Trazia no rosto o sorriso confiante de quem confirma que tudo é Deus e pediu-me, no seu tom delicado, se não me importava de acompanhá-la ao gabinete, para me apresentar ao médico. Li-lhe o orgulho pelo seu salvador e o desejo de partilhar comigo a felicidade do seu conhecimento.
A porta do consultório estava entreaberta, ela murmurou um conlicença cumplice e eu descobri, atrás de uma imensa secretária, a figura do seu herói envolta numa sobrecasa negra. O homem ergueu-se, mandou-nos sentar e a minha tia, apontou-me com um dedo acusador:
- Sr. Dr. o meu sobrinho não é normal! - Depois, com o sorriso comprometido de quem sabe que traíu mas possui um bom alibi para a traição, encarou-me como se dissessse "Julgas que não dou por nada? Eu ao menos ainda vejo Deus!"
- Deixe-me ficar a sós com o seu sobrinho - Pediu o clínico.
O rosto do psiquiatra talhava-se em degraus, abrupto, escavacado e caótico. O nariz dominava a pique a desvastação mas nada fazia supor que, de um e doutro lado da face, as coisas fossem idênticas. O caos ameaçava-lhe o semblante e a boca poderia subir um pouco mais, tragando o resto, ou os olhos descerem até ao queixo. Mais tarde, perante quadros de Van Gogh, tive a mesma impressão de ameaça telúrica que a qualquer momento rebenta, como a onda que engole uma costa pacifica. Em nenhum dos pacientes que esperavam na sala havia descoberto tão grande tormento.
- A sua tia encontrou-lhe uns papéis nos quais diz que quer morrer...
Lembrei o desabafo onde imaginara o meu próprio funeral. Teria sido isso que lançar a suspeitar sobre minha normalidade? Ou fora mais outra coisa? O ensaio do suícidio tinha sido discreto e as ligaduras que, durante algum tempo usara, haviam-se confundido com as que me apertavam os pulsos nos treinos do ténis.
- Ah sim... - retorqui... - São histórias que escrevo. Essa calhou na primeira pessoa... - atirei como primeira pedra no combate que devia provar a minha sanidade mental. Mas... a minha luta era honesta? Continuava de facto normal? Ou dera de todo em doido? A travessia dos quinze anos conduzia-me já ao manicómio? A felicidade seria uma quimera que enlouque os que a procuram? O alheamento de mim próprio, de modo a tornar-me carne do meu próprio laboratório era um projecto louco? Mas a própria propaganda politica não preconizava a criação de um homem novo. E não era o que, na minha modesta fábrica, eu fazia? O médico olhou-me e percebi que considerava a validade da minha resposta.
- Tem por habito escrever? - perguntou, e intui-lhe uma curiosidade benevolente e tambem uma certa inquietação. Como se a arte me pudesse salvar e... destruir.
- Sim - Disse, se bem que a minha escrita só tivesse a seu favor a imperiosidade das coisas que nos mantêm a cabeça fria, pois por ela analizava as situações e tentava evitar que também eu visse Deus e o Diabo. A escrita organizava-me o caos e desde os oito anos que escrevia longos diários. Eles tinham-me ajudado a resolver a morte dos pais, assim como a adaptação aos hábitos da tia.
(E agora que faço?)
O médico olhava-me fixamente e, para tornar mais crível o relato, sintetizei-lhe o entrecho do "meu" suicidio: um individuo que organizava o seu funeral com vista a enganar uma companhia de seguros.
Mantivemo-nos calados.
Lá fora, na avenida, o tráfego fazia um pano de fundo calmo e aquela conversa entre um homem e um adolescente poder-se-ia realizar em qualquer parte do mundo: o mais velho avaliava da conduta do mais novo e este aguardava o veredicto.
Teria de levar a cabo, mais cedo do que alguma vez previra, o corte dos pulsos? O mundo parecia-me louco mas, por enquanto usufruía a meu-bel prazer da sua demencia e momentos havia em que me divertia, sobretudo quando analisava alguns dos efeitos das minhas experiencias. Firmino, por exemplo, para obter um encontro mais prolongado, assediava-me com um cruzeiro na Grécia. Eu respondia que sim, não porque a viagem me interessasse mas pelo desejo de saber o que sente um prostituto. Em nome do conhecimento dispunha-me pois a mentir.
O clínico tocou uma campainha, falou para a assistente e a minha tia tornou a entrar na sala. No entretanto eu tinha concluido duas coisas: uma era que, se escapasse ileso à analise psiquiátrica, devia pelo menos melhorar a representação do "rapaz normal" que queria parecer, outra é que devia deixar com toda a urgencia a casa da minha parente. Não queria arriscar um segundo exame.
- O seu sobrinho é normal, minha senhora - disse o medico para a minha tia, ja sentada na sua frente. É possivel que venha a ser um homem de letras.
Respirei como há muito não fazia. A minha salvação fora a literatura? A arte evita o manicómio?
Por isso aqui estamos?



A moda era o jovem ou a jovem da classe dominante abandonar o conforto familiar para viver em comunidades, trabalhar, experimentar a "vida". Aproveitei o mote e comuniquei à minha tia o desejo de fazer o mesmo. Ela concordou desde que não eu largasse os estudos. Mas o meu problema é que continuava só que nem um cão vadio e o teor dos convites que grangeava entre os conhecimentos da madrugada nada tinham a ver com o "peace and love", o lema da época. Ora, no meio do meu desaire, eu tinha-me resolvido pelo ascetismo embora me divertisse a atiçar as feras ao meu cheiro. Raramente mordiam a não ser que estivesse ou disposto ou distraído. Mas se a dentada fosse de alguém do mesmo sexo, logo orava ao divino, mais ou menos nestes termos: "Oh meu deus, não me deixes ser paneleiro!" Em conformidade com uma visão estreita e reprodutiva do amor, nada, religião, escola ou familia me havia preparado para a hipótese de amar um homem e o conflito do dia seguinte era tanto mais grave quanto maior tivesse sido o meu desejo pelo parceiro. A época ajudava à ressaca com o seu ideal "hyppie" mas as flores não abundavam no Portugal dessa época, e oferecê-las à policia de choque que atirava a matar, ou apostar num ramalhete de papoilas para depôr o ditador seria insano. Se tivesse passado a noite com um macho, à manhã seguinte havia, pois, algo de comum entre mim e a minha tia: ambos rezariamos para que o diabo nos não fodesse. Mas ela sabia a quem se encomendava enquanto eu, no melhor dos casos, e citando outro livro que no entretanto lia, dirigir-me-ia a um deus desconhecido.



Fui aceite num estudio fotografico onde necessitavam de um assistente. O patrão, um homem de cerca de sessenta anos com aspecto cuidado, chamava-se Patrício. No meu trabalho eu endireitava os queixos das madonnnas, tocava rocas para os bébés não chorarem e Patricio explodia-lhes o magnésio à frente aos olhos.
O "Photo-Eterna" ficava numa das ruas da baixa, tinha uma tabuleta à porta em estilo arte nova e, na montra, exibia uma colecção de crianças, famílias e mancebos, estes em dia de casamento com as respectivas noivas. Tudo muito decente, ou nas regras e eu, cujas notas na escola continuavam aceitaveis, alem de garantido pelo certificado de sanidade mental passado pelo psiquiatra, alcancei então da minha tia licença para concluir o secundario no turno da noite. Deste modo resolvia a questão das insónias e tinha o dia livre. O trabalho no Photo Eterna era à tarde.



Durante algum tempo as coisas decorreram normalmente. Depois das aulas demorava-me neste ou naquele café aberto até mais tarde e, em casa, dormia até à hora de entrar no estudio. A minha salvação do status de doido pela narração de uma história no psiquiatra fizera-me aumentar o apreço pela dos livros e, concluida a "Nausea" e o "A Um Deus Desconhecido" saltara para o "Amor de Perdição" do Camilo. De um texto para o outro o critério era apenas o desejo de me libertar do tempo e, de facto, os quinze anos da aposta estavam esquecidos.
Em plena viagem.
Uma tarde o Patricio, no estudio, veio com um convite:
- Reúno um grupo de jovens para certas fotos. Queres participar?
- Certas fotos?
- Sim. Nus. Os olhos aparecem tapados. Ninguem vos reconhecerá. - Fez uma pausa, a avaliar a minha reacção, e lançou o argumento que sabia coincidir com o meu interesse, pois tinha-lhe confessado o desejo de abandonar a casa da minha tia - É claro que - e acentuou a expressão - é um trabalho bem pago. Poderás deixar a velha...
A sua forma de falar era abusiva mas não podia exigir de um tipo encontrado ao acaso de um anúncio de jornal que se expressasse como um príncipe. De qualquer modo emendei-o:
- Da minha tia, quer dizer.
- Claro! Claro! Da senhora sua tia - reconsiderou o tipo vendo que calculava mal a razão da minha saida de casa, pois, àparte a ameaça do psiquiatra, nenhum outro motivo me levava a procurar apartamento - Reflicta no assunto - concluíu o homem.
Nos dias seguintes continuei a tocar rocas e a fazer momices para que os fedelhos não largassem em choro e estragassem as fotos. Mas, claro, matutava na proposta. Exibir-me nu não seria apenas uma outra experiencia? E alugaria um apartamento... Quanto ao problema da identificação, resolvido em todo o caso pelo traço negro sobre os olhos, era-me indiferente: levava tempo a decidir-me por uma coisa mas quando a fazia entregava-me de cabeça. Ora exibir o que até ali só me trouxera complicações - o meu "perfeito" corpo - parecia uma ironia. Ou uma vingança?
No barbeiro, da vez seguinte que lá fui, nem reparei no espelho à minha frente. Nas paredes havia uns cartazes do Estado Novo, de raiz futurista, e através do vidro entretive-me a olhá-los. A máquina acima de tudo.



O ordenado de ajudante de estúdio passou a vir acrescido de uma boa maquia e deixei a casa da tia que umas tantas pilulas e mais umas viagens peregrinas tinham reconduzido ao estado de só ver o lado pacífico das coisas.
Na Rua da Imprensa Nacional aluguei um apartamento e, surpresa das surpesas, tornei-me caseiro! Como se a exibição a que me sujeitava no estudio me tornasse eremita. Mas as minhas relações limitavam-se a meia duzia de boémios que na vida buscavam droga ou sexo e, na escola, as conversas dos meus condicípulos ainda me entediavam mais. Ou seja, os da minha idade procuravam namoro, quando eu cria que já me tornara asceta, e os mais velhos, vivendo como formigas entre o trabalho, o estudo e a casa, não tinham tempo para mais nada. Quanto ao Luis, o meu companheiro d' "A Brasileira" passara à categoria de recordação e eu já media o meu andamento na vida pela velocidade a que as coisas me deixavam de fazer sentido. No entretanto conhecera um grupo de universitários que se encontravam para ouvirem musicas e canções portuguesas que o estado proibia e eles, convencidos de que, tarde ou cedo, a polícia política os prenderia, entregavam-se, pelo meio da audição, a exercícios de resistencia à tortura.
- Vá! Confessa tudo!
- Não. Não digo nada!
- Olha que levas mais!
Na vez em que assisti a este diálogo, no quarto amansardado de um deles, com a lâmpada pendurada do tecto a projectar as sombras em redor, como nos filmes de serie B, o "preso" resisistiu tanto que, inanimado, houve que levá-lo ao hospital.
Achava-os doidos, embora me divertissem aquelas sessões onde carrascos e vitimas se revezavam em nome da nação. Mas, ou eles notaram o meu fraco interesse pelo sacrifício ou os encontros assumiram um aspecto mais secreto e, face ao perigo dos "presos" confessarem o inonimável perante estranhos, deixaram de me convidar para as sessões. Em todo o caso serviram-me para perceber, pela primeira vez, que vivia sob uma ditadura. Na verdade sob duas: a de Salazar sobre todos e a minha sobre mim. Da segunda, porém, continuava inconsciente e, assim, da relação entre ambas. Fazia parte das coisas.
No entretanto a minha vida dupla no Photo-Eterna prosseguia sem rebuço e, ao cabo de mais uma sessão de nu, Patricio propôs uma nova modalidade: fotos de sexo em grupo.
- Com quem? - foi a minha questão, pois o hábito ja me distanciara suficientemente do corpo para lhe permitir tudo.
- Com outros da tua idade.
Patricio deu tempo para reflectir.
A questão "com quem?" denotava o meu maior problema: a solidão. O meu percurso isolava-me do grosso da manada, não encontrava iguais e, abandonada a casa da tia e comendo por restaurantes, sentia-me estranho a jantar sozinho. Na bela praia onde passeava havia um unico problema: era o unico veraneante. Em compensação enchia páginas e páginas de uma escrita bem caligrafada que me eram o bafo dos dias, a conversa com o outro, a minha companhia. Por seu intermédio mantinha a distancia que tanto prezava em relação às coisas mas era infeliz. Magoava-me sem saber porquê e chorava frequentemente com pena da vitima que me era. No entretanto levava a cabo as tarefas do dia com tanta frieza quanta a eficácia e, metido no meu novo apartamento, afastei-me ainda mais dos poucos com quem me relacionava. Alguns heróis dos filmes negros pareciam-se-me.
A proposta de Patricio enquadrava-se num crescendo de comprometimento com o mercado sexual mas eu não o percebia e via apenas cada coisa por si: as fotos isoladas, o sexo em conjunto... Intuindo que a minha aceitação do trabalho dependeria do "com quem", (aconteceria o mesmo com os outros a quem ele convidava?) Patrício, numa tarde, fechou o estúdio mais cedo e apresentou-me a duas raparigas e um rapaz da minha idade: a Ema, a Silvia e o Lúcio. Abrindo sucessivas garrafas, o nosso patrão entreteve-nos com histórias da guerra de Espanha, quando combatera ao lado de Franco. Prisioneiro dos "anarcas" a sua fuga sob sol, tiros e sangue lembrava uma tourada. Ouviamo-lo divertidos embora algo, no ambiente, enquanto se bebia e ria, soasse a vertigem. Uma espécie de carta viciada que, caindo da manga, ameaça põr o jogo do batoteiro a descoberto. Ninguém, no entanto, parecia interessado em dar por ela e a tarde correu fácil com Patricio a encher os copos e a contar aventuras.
- Agora que se conhecem troquem contactos. - Recomendou-nos à saída. Nem uma palavra sobre o trabalho.




A táctica do patrão estava correcta: quando eu e os meus companheiros de oficio nos reunimos no estúdio para a primeira sessão porno, ja nos conheciamos das festas que no entretanto haviamos frequentado.
Lucio tinha quinze anos, era moçambicano e devido a uma bala perdida que o atingira na perna coxeava um pouco, um pequeno senão num corpo de resto esbelto. Um capitão tina-o recolhido e trazido para a metropole no regresso a Portugal. Mas o homem morrera e o miudo vira-se tratado como mais um criado na familia que o herdara. Desprezado, Lucio veio viver para a rua e ha dois anos que deambulava por sua propria conta. Conhecera Patricio num dia em que pedia boleia na Marginal. No entretanto tivera varios empregos entre os quais um na Casa Africana, a celebre loja de modas na baixa pombalina cujos sacos das compras exibiam um preto a carregá-las. Durante algum tempo, Lucio foi, pois, porteiro do estabelecimento e seu ex-libris. Com um misto de divertimento e desprezo gostava de contar a primeira vez em que se prostituíra:
- Nessa altura eu vendia jornais na rua e um cliente perguntou-me o preço. Depois fomos para uma pensão que ele conhecia e o recepcionista, como eu não tinha b.i. apontou-me com um dedo e perguntou-lhe:
- Onde arranjou "isso"? "Isso" - estão a ver...?
Silvia, aos quinze anos, tinha sido posta fora da casa da avó a qual já fizera o mesmo com a mãe dela, quinze anos antes.
- Na minha familia aos quinze anos mandam-nos à vida. Já a mãe da minha avó fez o mesmo à minha avõ!
Sem abrigo, um advogado pusera-a por conta.
- Mas ele era casado e a mulher descobriu. A seguir fui criada de um coronel reformado. Mas ele batia-me e preferi vir para a rua. No serviço público não há patrão. - A cicatriz abaixo do queixo recordava-lhe um mau encontro e mostrava-a como quem exibe uma condecoração de guerra. - Foi um tipo que me fez mal. Mas respondi-lhe com um pontapé nos colhões!
E Ema.
Por Ema apaixonei-me e tudo mudou. Ou assim o julguei.



O mundo feria-me e, lambendo as cicratrizes, crescia. Um ano antes e ser-me-ia impossivel imaginar os meus novos companheiros. Um ano depois eles eram os seres mais próximos que até ali tinha encontrado. A nossa cumplicidade fazia-se de desespero e talvez fosse eu quem, mesmo assim, pudessse ver mais adiante. Lucio acalentava a esperança de uma operação que lhe equilibrasse as duas pernas - "o problema é o preço..." - e lhe viesse a permitir o ingresso numa equipa de futebol, Sílvia achava que um dia encontraria na rua um principe encantado e Ema...
Ema era a mais velha do nosso grupo pois ia fazer dezoito anos. Trabalhava há quatro no cabaré do "Principe Negro", à rua da Glória, e convidou-me para ir vê-la dançar. Percebi então que o fazia da mesma forma que eu vivia, sacudindo o corpo com um frio desprezo. Sob a sua aparencia frágil era alguem tambem disposto a tudo. Mas se eu era o viajante que se deitaria fora com a bagagem, quando o passeio azedassse, Lúcio o às de futebol da perna escangalhada e Silvia a prostituta que no esgoto encontraria o seu homem encantado, a todos unia um mesmo objectivo: gastarmo-nos até à exaustão. O preço seria naturalmente a morte mas a guerra colonial prolongava-se há alguns anos, os canhões continuavam insaciaveis e o valor da vida era para todo o país cada vez mais baixo.






- Apaixonei-me por ti. Ema. Não consigo esquecer-te. Ajuda-me! Não posso viver sem ti.
Procurava pôr em pratica a minha capacidade de frieza, o meu distanciamento, apelava à racionalidade e aos argumentos mais objectivos para deixar de te querer: ela tem outro, talvez muitos, ela nem se lembra de ti, ela... mas nada resultava. A cada tentativa para me afastar mais te aproximava e, como qualquer insano, só desejava mais amarras. A reolta contra tão grande dependencia, eu que lutara por ser de ninguém, humilhava-me. No entanto o luto pelo que fora mitigava-se na esperança de que me dissesses "Sim, também te amo".
Sentavamo-nos num café e o empregado trouxe os copos com o absinto. Mergulhei ma cor da minha bebida como se nos teus olhos.
´- És muito belo - Disseste e, pela primeira vez, soube a carícia o que, dito pelos que me queriam só em parte, me havia tornado parte tambem.
- Amas-me?
- Espera. Não tenhas pressa.
- Mas... - Não sei que diria. Da tua boca dependia a minha reunião e os meus destroços olhavam-na, rezando cada um para si: que ela diga sim, que ela diga sim...
- Não quero amar. O amor tira-nos a independencia. Quem ama escraviza-se. Desculpa se te magôo...
Tive vontade de destruir tudo, tornar o mundo num montão de restos idênticos aos que me ameaçavam.
- Mas eu amo-te... - E citei-te a Carta aos Coríntios que a minha tia, no intervalo das suas ausencias, costumava ler antes das refeições: "o amor perdoa tudo, esquece tudo, sabe tudo".
- Eu nem amo o próximo!
- Só quero que me ames a mim...empregado trouxe novas bebidas e pedi ao alcóol forças para levar de vencida a tua frieza. Mas como eu próprio a conhecia!
- Ouve-me. Até te conhecer era outro. Nada me dizia e era incólume e incorruptivel, embora nenhuma dessas palavras me tivessem significado. Só queria a experiencia e ver-me no efeito. Confundia as coisas, entregava-me por cálculo e nunca pela entrega. Agora a cortina caiu, estou em tudo e tudo me é. Foste-me a passagem, a ponte. Seja eu a tua... Sejamos um para o outro e o mesmo. Nada receies. Amo-te, eu amo-te...
- Não consigo amar. Não insistas.
- Porquê? Achas que...
- Ouve o que te vou contar e não falamos mais disto. Um dia fui com a minha mãe a casa de uma sua amiga que também tinha uma filha da minha idade. Brincavamos no jardim e a certa altura ela puxou-me pela mão e disse:
- Sei uma coisa. Queres ver? - Passámos uma arrecadação e fez-me espreitar pela fechadura de uma porta. Do outro lado um homem fodia a minha mãe e a minha amiga murmurou-me ao ouvido: - A tua mãe é uma puta. - Bati-lhe mas ela tinha razão. A sua mãe era proxeneta e a minha ia a casa dela atender clientes. A partir daí, sempre que a minha mãe dizia dos sacrificios que fazia para me criar, só desejava uma coisa: crescer para pagar a minha parte. Aos treze anos, Patricio, um dos seus homens, apanhou-me só e vendi-lhe a minha virgindade. Nunca amei, percebes? Está fora de questão. Um comerciante não sabe a beneficiencia. Mas sou feliz. Tenho o que quero.
- Eu ensino-te o amor!
Ema riu.
- Façamos uma aposta!
Debrucei-me sobre a mesa e beijei-te. No entretanto veria o que propôr-te, como prolongar aquele momento. Mas Salazar proibia os beijos em público e o empregado aproximando-se, tocou-me discretamente no ombro:
- Desculpem mas não podem fazer isso aqui. O patrão acha mal.
Obedecemos e desvendei a aposta:
- Amo-te e manténs-te distante. A ver quem ganha.
Nos olhos de Ema li a curiosidade pelo jogo que nunca se jogou e, encorajado, disse-lhe ao ouvido:
- Vamos aos lavabos. Quero beijar-te à vontade.
Num cubículo, encostados contra a parede, possuímo-nos. O teu corpo redimiu-me das experiencias a que tanto obrigara o meu e na rua, na alegria dos homens libertos, perguntei-te:
- Gostaste?
- És um bom amante. Mas não te enganes. Os deuses dominam e os apaixonados servem.
Ouvi e acatei porque eras - e és - o meu Senhor.





A minha tia adoeceu e, num fim de tarde chuvoso, recebida a extrema-unção, partiu definitivamente para um lugar santo. Deixando o apartamento da rua da Imprensa, voltei à sua casa que me cabia já em herança. Ema veio morar comigo.
No estudio as sessões porno tinham o frio brilho do profissionalismo e todos faziamos gala em nada sentirmos, parecendo o mais possivel envolvidos. Ema era mestra na simulação, Lúcio e Silvia faziam por segui-la e eu participava cada vez mais distanciado porque, vítima da paixão, já me repugnava aquele teatro. Decidira despedir-me quando Patrício surgiu com um convite.
- Uns clientes das fotos dão uma festa e gostariam de convidar-vos. É gente fina. - Esfregou o polegar no indicador à frente dos olhos, e acrescentou: - E claro, pagam bem.
Nunca me prostituíra - a ida no cruzeiro grego com Firmino nunca se realizara e, em todo o caso, ela não envolvia dinheiro - e lembrei a história da primeira vez de Lúcio. Como seria estar com alguém que nos acaricia apenas porque nos aluga? Quem mais se rebaixa? O comprador ou o cliente? Ambos, para cumprir os respectivos papéis, abandonam o dialogo essencial, do ser para ser para se encontrarem no do rendimento, no da mais-valia: pago e por isso recebo - diz-se o cliente - dou e por isso sou pago - explica o vendedor. Mas no tempo deste negócio ambos estão distantes um do outro e mesmo se ignoram, levados no desejo de trocarem serviços. Não à moda aristocrática do meu avô que possuía trinta criados a viverem sob a sua casa mas os conhecia a todos, do mais antigo ao recém-nascido, que andara ao colo do primeiro e apadrinhava na igreja o baptismo do último, que praticamente nada pagava pelo trabalho que deles recebia mas, em troca, dava-lhes casa, comida, dias de festa e convívio, como se fossem da família, e, por fim, o eram, pois como tal os defendia: os criados do meu avô não tinham preço mas trocavam serviços, numa entrega mútua de vidas: de um lado o suor, do outro a protecção de um sangue. O meu avô explorava trinta homens e mulheres sem direitos mas eles eram a sua gente a quem, por feitos e obras, devia honrar para que se orgulhassem de pertencer-lhe.
A puta entrega o corpo a cair de pôdre mas ao cliente, desde que sorria e mantenha as pernas na posição contratada, tanto faz: é a relação burguesa, a objectivização do mundo e a sua transformação em moeda de troca, a ignorancia do dentro para melhor dominar o fora, a destruição dos conteúdos e a salvação pela forma.
Em ambas, finalmente, o desencontro e a imperfeição humana. O paraíso talvez não seja d' agora.
O meu desejo de perceber cada vez melhor Ema - que continuava a relacionar-se comigo amavel mas friamente - levou-me a querer passar pela experiência de ser também uma coisa, perceber que relação estabelece com o cliente, ou sobretudo consigo, o que leva às ultimas consequencias a objectivação do próprio corpo. A incapacidade de Ema em amar seria, pois, uma consequencia do seu afastamento de si, da distancia que tivera que colocar entre ela e os sentimentos para melhor vender o corpo. Naturalmente à altura não a compreendia mas, amando-a, quis passar pela sua experiencia.




Quantas vezes escrevo e reescrevo isto? Dez, vinte? Uma centena? A lembrança esfuma-se à medida da sua repassagem de folha para folha e o que resta nem sei donde provém: da própria escrita, do acto de fazer letra ou da memória? Literatura? A nossa história...
No dia aprazado - terça? Quarta? Um dia tão anónimo como o de hoje e no entanto...
Páro.
Recomeço.
A lassidão toma-me e apetece baixar os braços, ficar mudo, pairar na ausencia das palavras e que elas, opacas e surdas não digam. Porque a verdade...
Patricio conduziu-nos de carro - uma viatura luxuosa, com asas de peixe como então se usava - pela estrada marginal. Ema sentava-se entre mim e Lucio e à frente Silvia e Domingos, um tipo apresentado por Patrício como seu sócio. Falava pouco mas parecia importante na festa, dando a ideia de unico a saber para onde nos dirigiamos. Durante algum tempo mantivemo-nos em silencio até que Patrício, carregando num botão, fez surgir um tabuleiro com copos e uma garrafa de espumante. O ambiente ficou menos tenso, Silvia que costumava rir por tudo e por nada retomou as gargalhadas, Lucio contou de novo das suas intenções de jogar futebol e Ema a meu lado pareceu menos alheada. Se ninguem soubesse da nossa história, diria que eramos um qualquer casal de namorados. Mas a distancia de Ema em relação a tudo e sobretudo a mim, mesmo nos momentos altos da relação, impunha-se, relegando-me sempre para o espaço do outro, o do intruso. Ela não permitia a ninguem a entrada no seu intimo, nem tanto por um desejo consciente de que assim fosse, mas porque nunca experimentara outra forma. A sua tensão era constante e nem a fazer amor se abandonava. O seu espírito, que exigia o comando do corpo, não lhe dava repouso e neste exercício era quase perfeita. Dirigia-a o interesse e, mesmo o convite para morar comigo, não fora aceite pelo prazer da companhia mas por uma questão de utilidade: ficava perto do cabaré onde dançava, propunha-lhe uma vida independente e a coisa apresentava-se funcional. Aliás, funcionar era o termo que melhor se aplicaria a Ema. Funcionária de si, ela era a peça adequada da engrenagem que servia um único fim: fazer dinheiro com a dança, alugar o corpo quando calhava e mais nada. Mas isto que pareceria pouco afinal estragava-a. Talvez por isso, por uma necessidade de recuperação inconsciente, dormia imenso e havia dias em que a unica coisa que fazia era suster-se na pista do cabaré para, acabado o trabalho, regressar à cama. Na realidade, percebo-o agora, Ema fugia ao mundo porque o detestava, porque lá atrás a sua infancia fora desfeita pela necessidade de tomar conta de si, de se tornar o mais cedo possivel independente e pagar a divida para com a mãe, o sacrificio que esta lhe atirava sempre em cara. Depois, do exercicio de se fingir adulta quando ainda precisava de ser criança nunca mais se libertara e acabara dupla. No fundo, talvez intuisse que a sensibilidade a ameaçava e que, mal abrisse a mais pequena escotilha no seu sistema, tudo desabaria para surgir uma pessoa carente, só e desesperada. Até lá, no entanto, a imagem e o agir eram o da auto-suficiencia, o sorriso de quem levou muitas batalhas a cabo. E porque, de facto, as tinha cumprido e voltado sempre ao campo de batalha, havia-se feito a pele dura, uma couraça a protegê-la de si mesma. Em consequencia, imaginava-se a partir do que via no espelho, pois para alem já não lhe interessava. Depois de fazermos amor agradecia-mo com uma palavra tranquila que, no fundo, dizia: "Foi bom, gozei mas nada se passou e tudo continua identico." Ema não sentia com medo de si própria.
No Estoril o carro envedou por uma ruela estreita, entrou pelo portão aberto de um jardim e, ao fundo, parou junto de um palacete. A sua arquitectura lembrava os contos da mil e uma noites: pequenas torres, abóbodas, vitrais e nenhuma vida. Domingos indicou com um dedo a porta principal do edifício, alcandorada numa escadaria ladeada por duas cabeças de leão.
- Entrem por ali. Lá dentro esperam-vos.


A noite caíra, estavamos nervosos e com Ema, á frente, ou não fosse ela o nosso modelo, empurrámos a porta que Domingos tinha indicado.
Num vestíbulo de mármore iluminado por luzes indirectas a estátua de um efebo nu, rodeado por pequenos repuxos de água oferecia-nos um cacho de uvas. A seus pés uma pantera identificava-o como um jovem Diónisos mas a ignorancia não nos permitia adivinhá-lo nem perceber que, assim colocado à entrada da casa, simbolizava um convite para passar além da forma, dissolvendo-a no fundo que a todos subjaz: o caos.
Uma escada forrada a veludo vermelho erguia-se para um primeiro andar de que se via a balaustrada encimada por vitrias com figuras de pássaros. O único ruído era o da água que ia e vinha nos repuxos, como que um aviso da inutilidade do esforço, a melhor validar o convite a que aceitassemos as uvas: "toma e embriaga-te. O resto não importa." Silvia rompeu o silencio com os seus risinhos. Então, uma voz, vinda do cimo das escadas, como se para lá de tudo, interrompeu-nos:
- É disso mesmo que precisamos: companhias alegres e bem dispostas! Subam. É aqui!
Era um homem elegantemente vestido e conduziu-nos por um corredor cheio de retratos. Havia senhores barbudos, cavaleiros de espada, um com ar de bispo e senhoras de missal na mão. A todos, comandados já por Silvia, que à nossa frente mas atrás do anfitrião continuava aos guinchos, faziamos caretas. POr fim abriu-se uma porta de par em par e o anfitrião anunciou-nos:
- Ei-los! Melhores do que nas fotos!
No grande salão de tecto azul e ouro, uma orquestra de anjos tocava clarins. Mas a música vinha do piano prateado a que se sentava uma mulher loura vestida de negro até aos pés. Levantou-se para nos apreciar.
- Magníficos! - e chamou Lucio: - Vem cá minha pérola! Anda tocar comigo!
- Minha Lolita!- disse um deles para Sílvia sentando-a nos seus joelhos. Outro, de monóculo, tratando-me por Valentino, puxou-me a si e Ema, na posse do que nos fora buscar à escada, recebeu a alcunha de "Marilyn". No carro ela ciciara-me:
- Não te preocupes comigo. Aprendi no berço...
A pianista, com uma risada aguda, tirou a cabeleira: possuia uma calva luzidia e os companheiros soltaram um "Oh!" cúmplice de falso espanto.
Qualquer dos individuos podia ser nosso avô mas o que até ali mais me chocara, tinha sido, logo à entrada no salão, o perceber que todos me conheciam. Alem de prostituto, tornara-me num modelo porno e, pela primeira vez, o realizava.
- Façamos uma saúde!
Propôs o "travestti".
- E apresentemo-nos - disse o de monóculo, concluindo - Nós somos os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
De copo cheio pedi ao alcóol que me guiasse e o de monóculo encaminhou-me para um quarto no piso superior. Lá, uma cama de dossel e um candelabro com velas. Acendeu-as e justificou:



- É a estátua do deus do nada. Está à entrada para lembrar que lhe pertencemos. Empurrou uma porta e surgiu uma cama coroada por um gigantesco dossel. Numa cómoda um candelabro de sete braços, com velas, e ele lentamente acendeu-as.
- O sagrado vê-se na sombra. – E num tom que era de ordem mas também uma súplica, uma doce ordem ou, ainda, um imperioso rogo, disse: - Despe-te.
Obedeci.Havia qualquer coisa na atmosfera como se estivessemos ali para tudo menos para uma venda. Ou que as coisas se faziam de tal forna que eu esquecia já a forma crua como me Patrício me tinha contratado. O tipo pôs um cd e uma voz de mulher entoou uma área. Percebi que gostava de ópera. Depois, iluminando-me com o candelabro, comentou:
- És um deus!
Estranhamento, ao contrário doutros elogios que já ouvira, os quais sofrera como se quase um insulto, como se à vitoria estética do meu corpo me correspondesse uma derrota, ou um motivo de vergonha, o cumprimento soou-me natural e sem importancia, como se finalmente entre mim e a carne se fizesse paz. Comigo desnudo mandou que me deitasse na cama.
- De barriga para baixo – pediu.
- Sentado na cama a observar-me, exclamava.

- És um deus! És um deus! Depois, ja ambos nus, mandou-me deitar de barriga para baixo. A sua língua afagou-me por algum tempo e ouvi que pedia: - Faz-me para a boca!
- Fazer...?
- Sim. Merda. Dá-ma...

Lembrei Firmino da vez em que o recusara: "Não vives cosmicamente. És um preconceituado."
- Vá! Esforça-te um pouco. Deixa-a sair...
Fora eu quem quisera a experiência-todas-as-experiências, analizar-me em todos os resultados, descobrir-me no inimaginavel, porventura o inhumano. Mas... E de novo as palavras que ouvira a Firmino: quem não é capaz de tudo é porque é limitado...
Na disciplina de quem cumpre um contrato obriguei-me então a satisfazer-lhe o desejo. Mas durante algum tempo senti que me recusava, que aquilo era superior ao que pensava que me poderiam pedir. POr fim no entanto, e ja no meio de um cheiro nauseabundo ouvi-o atras de mim exclamar:
- Isso! Isso! Dá-ma inteirinha! - E concluiu, como se fosse o mais esperado ou o meu acto tivesse atingido o seu objectivo: - Oh sim, sinto... Sinto...
Olhei por cima do ombro e superior à minha vontade de contenção, o nojo tomou-me. Ele continuava:
- Oh que boa! Oh que magnifica!

Ergui-me. A cabeça do meu cliente bateu vezes seguidas na cama, o candelabro com as velas caiu no chão e, pegando na minha roupa, vesti-a e saí para o corredor. Desci as escadas a correr e no salão onde deixara Ema e os outros, encontrei-a sozinha com o "anfitrião". Embalava-o como uma pieta bêbada e o tipo ressonava.
- Vamos embora!
- Vamos? Porquê?
Puxei-a e atirei-lhe a roupa que estava por perto. Ela percebeu que algo se passava e depôs o velho no chão que ressonou ainda mais forte. Descemos para o res-do-chão, cruzámos de novo a fonte e saimos para o jardim.
- Mas o que aconteceu? Porque estamos a ir embora?
- Não importa! Vamos! Isto acabou - gritei para Ema e puxei-a ainda com mais força. Neste momento soou uma sirene e um carro de bombeiros entrou pelo portão. Um homem que não tinhamos visto, talvez um criado, correu direcção ao carro.
- É aqui! É aqui!
Ja na rua corremos tambem e por fim demos com uma praça de taxis. Ema parecia ter-se resignado a seguir-me mas na verdade a bebedeira impedia-a de reagir. De vez em quando, no entanto, perguntava como quem se certifica do que acontece: mas estamos a ir embora? É isso?
Dei a nossa direcção ao motorista - um tipo pouco mais velho que nós - e ele, pondo o carro em andamento, indicou o radio:
- Pode-se ouvir, chefe?
Uma nova sirene de bombeiros, passando em sentido contrário, abafou por momentos o emissor. Ema, com a cabeça no meu ombro tinha caido num sono profundo e, na marginal, surgiu-nos um mar borrado de luar, enquanto na radio o vocalista de um conjunto em voga gritava a plenos pulmões: "I'm free!"
Eu e o motorista imitávamo-lo por sobre o ressono de Ema.












- Se mataste o tipo teremos problemas. Se não... Enfim, passará por excesso de festa - tentava tranquilizar-me Ema. Talvez ela tivesse razão mas eu atormentava-me. Batera com força? Ou fora só um toque? E onde? De encontro ao colchão ou a uma parte dura da cama? Embora tivessem passado várias horas sobre o acontecimento, nos telefones dos nossos colegas ou no de Patrício ninguém atendia. Quis voltar ao palacete para ver o resultado do fogo.
- Deixa o tempo passar - aconselhou Ema. - De manhã telefona-se para o estúdio ou talvez os jornais tragam alguma coisa. Não é assim que fazem os "gansters"'? - Ela sorria mas eu não achava piada alguma e uma questão sobretudo preocupava-me: porque não me tinha dominado? A suspeita da minha tia sobre a minha saude mental corroborava-se? Era, inclusive, perigoso? O pedido do homem não fora apenas um pretexto, uma voz a dizer "Destrói!" que eu há muito desejava, da mesma forma que um toxicómano anseia pela morfina? No meu gesto, mais do que o nojo, não houvera sobretudo o prazer de que vinga uma obediencia de séculos, uma opressão herdada com os bens de familia, a exaltação do caos e a ressureição da vida? Não fora eu, afinal, um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse? O telefone tocou.
- Patrício? - perguntei para o outro lado
- Sim, sou eu. Fizeste-a boa!
- Como?
- Preparem-se para ser presos! - Por momentos fiquei parado de auscultador na mão, pois do outro lado tinham desligado.
- O que foi?
- Patricio.... Disse que nos prendiam.
- Falava a sério?
- Acho que sim...
Matara? Lembrei as palavras da minha hipotetica vitima. "Gosto de merda... Faz-me sentir! Preciso de sentir!..."
- Ele queixava-se de não... - balbuciei.
- De não...?
Subitamente parecia-me descobrir um aliado para a minha causa junto de Ema e explicitei:
- Isso que pretendes, o não ter paixões, se calhar necessitamos delas. Para... praticar os sentimentos.
- Queres que a sensibilidade nos domine? Ela engana.
- Não sei. A dor se calhar faz parte disto... Não nascemos deuses... Temos limites.
- A cada um os seus. Mas que ninguém diga o que não posso. Não me cortem as asas!
- Um dia o homem voou até ao Sol e queimou-se...
- Há quedas que não envergonham... - concluiu Ema e desembrulhando um comprimido enfiou-mo na boca. - Toma e dorme! É o que precisamos!
Fui o primeiro a acordar na manhã seguinte e tive a sensação de haver sonhado orgias onde os corpos pesavam chumbo. Atraves das persianas o Sol projectava na parede fronteira estrias a lembrarem grades. Todavia o calmante, cuja propaganda anunciava "adormeça bem e desperte melhor!" produzia um efeito euforico ao acordar e sentia-me bem disposto, optimista até. Não voltaria ao estúdio e acabaria de vez com a porno. A resolução tornava-me leve como se tivesse terminado um trabalho dificil. E se o meu romance com Ema não correspondia ao ideal das histórias cor-de-rosa, onde os protagonistas se entregam em vida e marcam reencontro no Além, possuía, pelo menos, a consistencia das coisas reais. A vida era de novo possível e se decidir cada coisa por si me deixava indefeso e incapaz de teorias gerais - admitindo que tal prática não instituísse uma - oferecia-me no entanto a sensação de uma grande disponibilidade. Talvez devesse a minha felicidade matinal ao comprimido que Ema me deta mas ela era real.
Na disposição de quem vagueia o olhar pelas coisas sem se dar ainda à fábrica do dia, percebi na estante frente à cama o "Crime e Castigo" do Dostoievski. Fui buscar o livro e voltei para a cama. Ema despertou e olhou o que eu lia.
- Sentes-te em pecado, meu querido?
- Não. Porquê? Devia?
Levantou-se e fechou-se na casa de banho. Falava alto para que a ouvisse:
- O sentimento da culpa conduz ao castigo. A maioria é o seu próprio carrasco. Tem o que merece.
Elevei também a voz:
- Queres dizer que uma total disponibilidade pressupõe a ausencia de escrúpulos?
Ema abandonou a casa de banho. As nossas vozes retomaram o volume normal.
- A verdade é que só muito poucos conseguem encará-Lo. Reconheci a doutrina e pousei o livro.
- Deixa-te de teorias! Já me amas, minha fora-da-lei?
Abracei Ema mas ela libertou-se.
- Vai comprar o jornal - ordenou. - Anseio por saber o teu crime. - E com um sorriso de entendida, concluíu - De qualquer forma nunca chegamos ao fim sem cometer um... Logo respondo à tua pergunta. - Ema enroscou-se de novo nos lençõis e eu, acicado pelo desafio, vesti-me e saí.
Na rua parei frente a uma banca de jornais. A maioria das primeiras páginas anunciava para a noite o "Festival da Eurovisão" e todas perguntavam se, daquela vez, Portugal obteria o prémio máximo. A excelencia do adjectivo fez-me vir à memória as palavras do "Monóculo": "És um deus! És um deus!" Mas que deus tinha sido? Uma divindade pequenina e susceptível, um deus que vomitava de nojo! Mal impressionado com a descoberta - o efeito do suporífero passava e voltava à minha deprimente realidade? - obriguei-me a comprar o jornal.
Em casa Ema dormia e observei-lhe o cabelo platinado e a boca vermelha, como se pintada. A minha esperança em conquistá-la continuava intacta. Tarde ou cedo o meu cerco ganhá-la-ia. Ela acordou e espreguiçou-se.
- Olá, meu criminoso! Então, qual é o teu crime?...
Ela sentou-se na cama e eu fui para junto dela. Abrimos o diário. Com a cabeça no meu ombro Ema seguia o passar das paginas mas nada nos dizia respeito.
- Patrício quis-nos meter medo - disse Ema no meio de um bocejo e eu ia a concordar quando, na secção das "ultimas notícias", demos com o "Monóculo" vestido de fato de gala e uma legenda por baixo: "Incêndio em casa de ministro".
Por momentos fiquei sem palavras. Ema, com quem verifica que a sua crença não foi defraudada, olhava-me gulosa: o meu crime valia a pena. Por fim, como que resignado ao feito e consciente do meu direito a um prémio, abracei-a e exigi, fingindo que a estrangulava: - Vá! Confessa que perdeste a aposta! Diz que me amas!
Rolavamos pela cama quando bateram à porta. Sem nos darem tempo a ir abri-la, quatro homens à civil e com metralhadoras em punho, irromperam pelo quarto.
- Polícia Internacional de Defesa do Estado. Estáo presos! - disse um.
Puxaram-me para um lado, Ema para outro e ao ver que nos separavam, gritei-lhe:
- Vá! Diz que me amas! Diz!
- Eu... - ia ela a dizer mas um pide, pensando porventura que falariamos por código, tapou-lhe a boca ao mesmo tempo que outros dois me arrastavam para fora de casa.
Na rua empurraram-ne para dentro de um carro sem qualquer sigla de polícia.



Na sede da Pide, na Rua António Maria Cardoso, fizeram-me descer.
Ladeado de dois homens à civil percorri uma ala cheia de portas. Delas vinha o barulho de máquinas, a azáfama das grandes empresas. Um indivíduo, transportado em bruços por outros dois, cruzou-nos. Os meus acompanhantes pararam para perguntar aos colegas se as coisas iam bem.
- Óptimas - respondeu um deles, e seguiram.
Um dos meus carcereiros abriu a porta de um cubículo escuro e empurrou-me lá para dentro. Era uma divisão sem janela, de paredes altas e a luz coava-se pelo vidro pintado de amarelo fosco que encimava uma porta fechada. A sua grande altura impedia-me de espreitar para o outro lado e mesmo assim seria necessário que bocados de tinta caida o permitissem. Do lado de fora continuava a passar gente mas nao se ouviam palavras. Finalmente surgiram dois homens vestidos à civil. Alias desde que fora preso não vira ninguem fardado. A policia politica não tinha uniforme ou servia-se do que usavam o homem e a mulher comum de modo a melhor se diluirem na sociedade e caçarem com mais eficácia as suas presas. Eu e Ema tinhamos-lhes caido na teia. Mas que saberiam de nós? E se eu contasse que o ministro comia merda? Por momentos a ideia pareceu-me um trunfo mas logo percebi que de nada me serviria. Pelo contrario seria mesmo conveniente esquecê-la...
Um dos homens entrou na cela enquanto o outro se encostou à ombreira da porta.
- Vamos dar um passeio - disse o primeiro, e no tom onde o mais importante seria tudo excepto a minha resposta, quis saber: - Gostas de passear?
Estava sentado no chão - na cela não havia uma unica peça de mobiliario - e ergui-me para lhe responder. Mas quando fiquei à altura do guarda ele socou-me e tornei ao chão. Pareceu que ia desmaiar mas sustive-me.
- Levanta-te! - Ordenou o mesmo homem. Depois, num tom já dócil, como se falasse a uma criança, explicou - Uma pergunta é como uma carta: tem sempre resposta. Não sabes disso? E voltou ao registo anterior: - Gostas ou não de passear?
Desde que fora preso tinha tido tempo para pensar. O efeito euforico do calmante da vespera havia desaparecido e ficara a sós com a realidade. Que por sinal se tornara inesperada. Tentei soerguer-me mas o individuo, abandonando o tom afavel, deu-me um pontapé na cara. Senti-a quente, levei a mão aonde sentira o embate e retirei-a suja de sangue. Nesse momento o homem que tinha ficado na porta comentou:
- Lá se vai sujar o chão!
- Bom - disse o outro como se lembrado ao que tinham vindo. Ao mesmo tempo levou a mão ao bolso da calça e estendeu-me um lenço: - Limpa isso e vamos embora. Não foi por mal... Depois voltou ao registo violento: - Mexe-te!
Consegui levantar-me, a cabeça andava-me à roda e fui contra uma parede.
- Vamos ajudá-lo - disse um dos homens e cada um deles me pegou num braço. No corredor, na longa ala cheia de portas, levado em bruços, eu era o indivíduo que à minha entrada arrastavam.





Conduzido até uma porta que dava para um patio fui entregue a outros dois homens que entraram comigo para um novo carro. O individuo que estava ao volante pôs logo o veiculo em movimento e um quarto pide, ao lado do condutor, abriu o radio: transmitiam o Festival da Eurovisão anunciado pela manha nos jornais e a maioria dos portugueses seguiriam o pleito nos cafés de bairro, cuja grande maioria ultimamente instalara a derradeira novidade tecnologica: um aparelho de Tv. As famílias passavam o serão bebendo café e olhando o pequeno écran. Talvez por ser noite do concurso das canções europeias, não se via ninguém nas ruas. Portugal desde a inauguração do certame, anos atrás, que concorria mas nunca alcançara uma grande votação e muito menos o primeiro prémio. O orgulho luso feria-se no que achava uma suprema injustiça mas o concerto das nações ditas "civilizadas" talvez naquela noite se redimisse e reconhecesse o valor do som luso. Na telefonia o locutor, num tom grandiloquente, relançou a pergunta "Será desta que Portugal ganha?" e deu entrada à entrevista com os autores da canção a concurso. O seu estribilho dizia:

"O lar é o nosso ninho
Sem ele nada somos,
tu, eu e os nossos filhinhos
e mais nada, nada, nada..."

A primeira pergunta foi para o cantor:
- Que sente por participar no festival da canção?
- Orgulho por defender a pátria.
A seguir ouviu-se o autor da letra:
- Honra por defender o país, os valores que fazem a nossa tradição. Os portugueses são um povo que extirpou de si o ódio, um povo pacífico que dá lições de tolerância ao mundo, um povo que..."
O sangue do nariz tinha estancado e, apesar de ver ainda mal percebi que enveredavamos pela mata de Monsanto. A minha cultura cinematografica, alimentada à base de filmes de serie B, dizia-me que, em dado momento, o carro pararia para me fazerem sair e, depois de me levarem a caminhar um pouco, para não sujarem a viatura, encher-me-iam de furos. Tinha lido, como fazem os "gangsters" no dia seguinte ao do seu crime, o anúncio da minha obra nos jornais e preparava-me para morrer "em passeio" como era habito entre eles. A vida pareceu assaz parca: meia duzia de sensações e, em seguida, o nada. Afinal não havia chegado a lado algum. Não teria sido melhor que não me metesse em aventuras, contentando-me com o quotidiano que me destinavam?
No rádio passavam de novo a canção "nacional".
"O nosso lar, o nosso lar..." E Ema? Parei o pensamento porque ele doía. Tinha a certeza que ela me amava. Ainda não o assumia mas já agia como a presa que, sem salvação, pactua com o caçador, na esperança de lhe escapar na primeira altura. Mas o meu ardil não deixaria de cavar hábitos, de levá-la a conhecer-se doutra maneira. E, no entanto, tudo era inutil... Manietado entre os meus carcereiros até o suicídio, a minha última esperança, se tornara impossivel.
Restava a dor.
Perdido nos meus "últimos" pensamentos nem reparei no edificio iluminado por projectores brancos que, ao longe, surgia no cimo de uma colina. Mas um pide, com uma gagalhada clara, anunciou-o, separando-lhe com prazer as silabas:
- Cá xias.
Lembrei os estudantes que ensaiavam a resistencia à tortura. Fizera mal em não entrar nos seus jogos.




De manha fui acordado pelo apito de um arbitro como se estivesse num campo de futebol. Com mágoa, reconheci a realidade: era o unico ocupante do cubículo onde me tinham encerrado. Nele havia uma cama, um armário, uma mesa feita a partir de um parapeito de pedra que saía da parede e uma sanita. A janela gradeada dava para uma parede que quase se lhe encostava. Na cela havia também uma cadeira.
Ouvi o ruído de portas que abriam e fechavam e chegou a vez da minha. Um homem de elegante fato cizento, entrou e, vendo-me deitado, avisou:
- Quando de manhã vier para a inspecção quero-o em sentido ao lado da cama. E saiu. O barulho das sucessivas portas a abrirem e fecharem voltou ao corredor.
- Vai ao médico. - Anunciou dai a pouco o carcereiro.
O consultório era no topo do corredor.
O homem mediu-me, pesou-me e não deu sinal de me ter visto antes. Mas eu reconheci-o: era o psiquiatra a que a tia me havia levado.
- Tudo normal. - concluíu sem que desta vez eu lhe contasse qualquer história.
O tempo não apaga a violencia que em tempos se sofreu. Pelo contrário, a sua consciencia agudiza-se como se a passagem dos anos oferecesse à memória a certeza da sua injustiça, o julgamento definitivo de que a dor poderia evitar-se. A cicatriz do mal, que entretanto só é visivel para a vítima, reabre-se e embora não sangre nem doa, inunda-nos de uma mágoa que diz sempre o mesmo: sofreste em vão, nada daquilo era necessário. E o que na altura em que o verdugo exercia o seu poder se suportava com o estoicismo de uma estranha necessidade, que nos dispunha à entrega heróica da vida, aparece, à medida que o tempo passa, contaminado pela lepra do castigo. Vítima e carrasco, uma pela urgencia de se libertar, o outro por dever do ofício, trabalharam ambos, cada qual a seu modo, pela justificação do insuportavel. Depois de três meses sem que me dissessem nada, ou visse alguém além dos guardas, perguntei ao barbeiro a que, com a eficácia da repetição, me levavam de dois em dois dias:
- Afinal quanto tempo se pode estar aqui? - O homem, com um esgar de desiquilibrado, tranquilizou-me:
- Oh, aqui? Aqui tudo é possível!


De noite via Ema.
Corríamos um para o outro mas quando nos iamos a abraçar, soava o apito e a porta da cela abria-se para o homem do fato cinzento.
O sonho e a sua interrupção repetiam-se todas as manhãs e, por fim, recusei-me a adormecer. Mas na vigilia ouvia vozes. Dizia uma:



- Esqueceram-te! Nunca mais te lembraram nem têm razões para fazê-lo. Quem dará pela tua falta? No estúdio? Mas foram eles que te mandaram prender! Estás só e fazem de ti o que quizerem. E com Ema na mesma situação como se ajudarão? Foi o fim. O fim, percebes? Nunca mais tornarão a casa, à vida em conjunto. E a Ema quer-te. Tu conseguiste que te amasse! Mas para quê? Não seria melhor nem a teres conhecido? Não sofres agora com as saudades? Claro, podes chamar o carcereiro e prometer-lhe que nunca contarás nada do sucedido, que nunca falarás do "Monóculo" mas isso, precisamente, denunciar-te-à. Ele mandou-te prender e nem quer que te interroguem! Preso e incomunicavel! Arranjaste-a boa!
A seguir falava outra voz:
- Não. Não é verdade o que dizes. Tu vais sair. A prisão não pode durar toda a vida. O tipo um dia há-de morrer. Podia ser teu avô! E depois da sua morte perguntar-se-ão por que estás preso. Vá: prepara-te para a longa espera! Vinte anos! Isso! Vinte anos! Mais do que vinte anos nunca será! E o importante é que não te deixes ir abaixo! Entretém-te! Não tens papel nem lápis mas podes desenhar em imaginação ou andar de um lado para o outro para manteres a forma. Cinco passos para lá e outros tantos para cá. Ao fim de uma hora terás andado um kilómetro, quem sabe se dois. Mas não desistas! Queres voltar a ver Ema, não é verdade? Então..."
Esta voz dava lugar a uma terceira.
- Não penses! O melhor é não pensares! Deixa-te ir! O que eles querem é que te preocupes, que te tortures, que sejas o teu próprio carrasco. Reduz a actividade. Não te podes deitar senão à noite mas é-te permitido sentar. Tenta a Yoga. Vá, não penses!
E outra fala substituía ainda a anterior:
- Mas tu quiseste matá-lo, não foi? Então cumpre! Isso, cumpre! Vá lá, tiveste sorte e o fulano não morreu! Mas o que importa é a intenção, portanto cumpre! Não passas de um asssassino! Sim, reconhece que o és. Se te dá outra fúria? Não vês que és perigoso? Como poderá a sociedade confiar em ti? Ter a certeza de que não agrides? Não. O melhor é estares preso. Ao menos enclausurado, todos estarão em segurança e viverão tranquilos.
- Estou mas é a ficar doido! - Dizia-me por fim de viva voz, fazendo valer uma última:
- Ora, aquilo era uma festa, portanto é natural que se tenham cometido excessos! E eu não matei! Eles não se diziam os Cavaleiros do Apocalipse? Então... Mas porque não me libertam? Porque não dizem nada? Esqueceram-me? Nem o nome ainda me perguntaram! E se se enganaram? Se era a outro que procuravam e e não a mim?...
As vozes reapareciam, repetiam-se uma e mais outra vez, como nas sessões contínuas de cinema até que, de extenuado, adormecia, para de novo sonhar com Ema. Na altura do encontro vinha o apito e surgia o homem do fato cinzento.
Uma manhã o carcereiro avisou:
- A seguir ao almoço tem direito a recreio.
Não foi como se dissessem "Está livre! Pode ir embora!" mas quase! Fazia seis meses que estava preso e finalmente lembravam-me, iria ver outros e, quem sabe se não também Ema, lá no pátio das mulheres! Ou, pelo menos, conversaria sobre tudo aquilo! A minha ansiosa imaginação, o mal em que se me tornara, chegava ao fim: a solidão, pelo espaço de algum tempo, tornar-se-ia doce companhia.
Antevendo os momentos de convivencia no patio da prisão fui feliz. O carcereiro tinha dito que eu passava a ter "direito a recreio" e isso talvez significasse que dali em diante a minha situação melhoria, tratar-me-iam com mais deferencia, dar-me-iam, enfim, atenção. Talvez tivessem até concluido pela inutilidade do meu isolamento. Ou, pelo contrario, e lembrando as palavras do barbeiro, eu tinha ja direito a recreio apenas porque... sim, porque ali tudo era possivel?
Enquanto esperava que me viessem buscar para me conduzirem ao pátio cuidei do meu aspecto o melhor que pude. Não queria apresentar-me desmazelado, dar aso a que dissessem - ou relatassem a Ema - mas continuaria ela presa?... - que me estava a ir abaixo, que a prisão ganhava sobre a minha resistencia! Com as costas da mão escovei as calças e os dedos serviram-me de pente. E quando o almoço veio, comi-o pela primeira vez com apetite. Depois, a cada novo barulho no corredor, parecia que me abriam a porta da cela. Finalmente o carcereiro destrancou a porta.
- Preparado para o recreio?
Ora essa! Eu estava lá pronto para outra coisa!
Segui, com o coração a bater desenfreadamente, o homem pelo longo corredor, na direcção oposta à do consultório do psiquiatra até desembocarmos num patamar. Deste saia saía uma escada e subimos dois pisos. A seguir percorremos uma galeria funda, de tectos baixos. A certa altura o guarda parou e abriu uma porta. A minha excitação não podia ser maior. Finalmente ia acontecer, a minha solidão tinha um fim.
- Venho buscá-lo daqui a um quarto de hora - disse o tipo e deixou-me, fechando-me por fora.
A cela era em tudo identica à que pouco antes deixara mas com a diferença de que não possuía tecto. O Sol entrava a rodos pelo quarto e a minha sombra erigia-se negra numa parede.
Só. Completamente só.





Dias mais tarde o carcereiro fez outro aviso:
- Prepare-se que vai à investigação.
Desconhecia o que deveria fazer para me "preparar" mas voltei a escovar as calças com a mão e a pentear o cabelo com os dedos.
A porta abriu-se e um outro guarda veio buscar-me.
Descemos a escadaria que, em sentido contrário, conduzia às celas do recreio e entrámos num pátio afogado entre paredes altas. No cimo um céu azul, como a tampa brilhante de um taparuere. Um resto de viatura, uma coisa sem capota nem portas, aguardava-nos de motor a fungar. Tomei lugar entre dois homens e um terceiro, ao volante, pôs aquilo em andamento. Com a magia de um castelo de Drákula a parede à nossa frente fendeu-se e surgiu um túnel. O seu tecto brilhante de humidade assombrava-se nos reflexos oscilantes de uma lâmpada algures. Fazia uma forte corrente de ar e um morcego soltou-se de uma parede. Que estaria do lado de lá? Mas, passada uma curva no tunel, surgiu a luz do dia e um segundo pátio. Neste fizeram-me sair do carro e entregaram-me a novos carcereiros. Estes conduziram-me até um porta e abriram-na. Um deles deu-me um empurrão e logo trancou a porta sobre a minha pessoa. Olhei em volta. Estava fora da prisão. Tinha sido libertado.
Nunca soube porque me prendiam ou alguma vez os jornais falaram no meu nome. Teria sido um sonho?
É possivel.




Odense.
Não saber aonde mas tomar o bus número dois todas as manhãs, comparecer nas aulas, aprender o presente do indicativo do "estou feliz e contente com a mudança". Se a loucura é branca, porque o branco resulta da anulação de todas as cores, de todas as sensibilidades, numa amálgama indistinta do ser e estar, então a paisagem enlouqueceu e a neve o seu manto louco. Nos caminhos, nos pátios, nos jardins, aonde fosse.
Não.
Não quero começar assim.
Segunda tentativa:
Em Odin havia muita gente à espera, não dessa vez, quero dizer, mas da outra, a da chegada à pequenina ilha de Fyn, na Dinamarca, lá onde nos aguardavam, à porta do Hotel Axelhus, como se nos conhecessem de antemão, a mim, a Ema e aos outros, fossem nossas familiares e os houvessemos deixado, nós, os ingratos, os pródigos, os finalmente reaparecidos, vindos, então, de camioneta, a carga de refugiados do dia.
A viagem, desde Lisboa, tinha durado cerca de um mês e sentia um grande enjôo, uma vontade irresistivel de fazer nada, de ficar quieto, em silêncio, num canto, sem pronunciar palavra ou saber de coisa alguma. Precisava de nada.
Mas elas lá estavam, as assistentes, e cada um de nós fora destinado à sua. Mas ainda não o sabiamos e ali estavamos, desembarcados à porta do Hotel Axelhus, numa rua orgulhosa dos seus saldos todo o ano e onde não faltavam, nas lojas da especialidade, os caixões rodeados de terra fingida e cobertos de flores artificiais. No entretanto elas, as assistentes, aguardavam-nos a descida da camioneta - ou do camião de carga. Eramos os deslocados, os tirados de um sítio e postos noutro, como quem muda objectos da prateleira de baixo para a de cima, ou vice-versa. No caso, a mudança tinha sido de país para país, pois algures foramos proibidos. E - diriam elas não tardaria - íamos receber isto e mais aquilo, tudo objectos importantes, alem de um livrinho de bolso - o guia da cidade - com a foto da casa do Andersen, o d' "o rei vai nu!". Tudo ali, tudo ao dispôr, como se tivessemos ressuscitado num mundo de cartões de crédito, mil facilidades à nossa espera: não podiamos voltar aonde haviamos nascido mas que importava? Embevecidas com a nossa estraneadade, mas profissionais, as assistentes socias de serviço naquela manhã á descarga dos refugiados do dia, tentavam minorar-lhes o cansaço, a insegurança, a dúvida e, sobretudo, a revolta. Mas não o conseguiam.
Eu tinha-me tornado num louco que a nada reconhece, um zero enfeitado de pessoa, um não saber o quê nem o como, ou mesmo qual a pergunta. As coisas haviam mudado tanto que nenhum depois se relacionava com o antes e, se lá atrás, me propusera uma travessia para chegar a um outro lado, a caminhada havia sido de tal ordem, que o propósito se diluíra em pequeninas curvas, bocadinhos minusculos de vida, momentos cheios de existencia, mas sem sentido, glória ou grandeza. Era a estrada? Não. Era um pântano. Perdido o norte, o rumo, o qualquer coisa que faz uma pessoa sentir que vai adiante e não anda às voltas a si própria, entontecida de cansaço, vazio e sentimento de inútil.
- Instalar-se-ão neste hotel enquanto não vos arranjarmos alojamento. Façam o favor de entrarem para o salão. Há um beberete de boas-vindas - anunciou Fru Bende, uma mulher de aspecto seco, há quinze anos no serviço de "Apoio a Refugiados". E tanto os tinha assistido que Fru Bende havia casado um deles.
- Amas-me?
- Amo.
- Para sempre.
- Para sempre!
Afinal a coisa nem durou dois meses e nem tanto pelo amor se ter acabado: isso seria ainda uma forma das coisas chegarem a um termo, digamos, normal, isto é, aceitavel por parte da mulher que, jovem e inexperiente, tinha acreditado nas juras do estrangeiro. Não. Dimitri, refugiado do leste e com quase nenhuns direitos no pais de acolhimento, assim que obteve aqueles a que tinha direito pelo casamento com uma natural do pais, logo abandonou a esposa. E ela, de nome Bende, feia e desengonçada, proibiu para sempre os espelhos em casa. Entregue ao trabalho, a assitente Bende foi subindo compassadamente de posto. Durante muito tempo, a cada nova leva de refugiados que tinha de atender, sofria ainda o amor em que um dia acreditara. Mas a chaga, sob os anos e o hábito, incrustrou-se naquela parte das coisas que, de tão dolorosas, se tornam um dia míticas. Aconteceram? Foram verdade? Só que o passado nunca esquece e a eficiencia, o meticuloso galgar das hierarquias, concederam à outrora doce e crente Bende, a justa fama de mulher fria. Dirigindo-se ao empregado que, no salão, distribuía as bebidas, a "Chefe Gelo", como lhe chamavam, disse:
- Deixe-me por uns momentos servir as bebidas...
Quanto mais cedo percebesse que tipo de gente as suas subordinadas, a maioria ainda inocentes estagiarias com uma longa carreira pela frente, encontrariam ao dia seguinte nas salas de atendimento do Flugtninghaelp, a associação de apoio a refugiados onde todas trabalhavam, mais depressa se evitariam escolhos e demoras.
A manha é a inteligência dos necessitados.





Os que vinham do Leste - russos, checos ou polacos - ostentavam nas lapelas dos casacos, ou pregados nas camisolas, símbolos do ocidente: bandeirinhas dos Estados Unidos, miniaturas da estátua da liberdade, minúsculas cópias de um "dollar". Apesar do cansaço sentiam-se contentes porque realizavam um sonho: radicarem-se no mundo livre. E, em acordo com as promessas das rádios escutadas clandestinamente nos países de origem, esperavam comprar pelo menos uma avioneta ao fim de três meses de salário! Dizer que se sentiam esfuziantes era pouco. Nunca mais - tinha sido o preço da saída - poderiam voltar às respectivas pátrias; mas quem chora a prisão? No brilho do olhar, na excitação das vozes, na descoberta dos mil pormenores de que so tinham ouvido falar - as atrentes decoraçõs das montras, os grandes carros nas ruas, os gigantescos supermercados onde finalmente escolheriam os produtos entre milhares de possibilidades, tudo isso os encantavam, para não falar do singelo prazer de saborearem, ao cabo de tantos anos se secura, uma verdadeira coca-cola! Enfim, o consumo, a nova vida, a posse de uma conta bancária, a certeza de que só trabalhariam se quisessem! Ah, o ocidente! O mundo livre! A liberdade! Quantos deles não tinham ficado, para realizarem aquele sonho, cravejados de balas numa fronteira ou "apenas" retidos num "gulag" perdido no gelo por toda a vida!
Fru Bende, depois de cirandar um pouco pela sala entregando umas tantas bebidas, ao mesmo tempo que apreciando mais de perto este ou aquele recém-chegado, pousou a bandeja e pediu a atenção de todos: era a altura do breve discurso da chegada. Pigarreou para clarear a voz e começou:
- A organização "Apoio a Refugiados" deseja a todos as boas-vindas! Estamos aqui para começar uma nova vida, longe dos problemas que para tras deixaram e o nosso papel, o de vossas asssitentes, consistirá em apoiar-vos em qualquer dificuldade que tenham. Desejamos que se sintam tão bem como se aqui tivessem nascido. No mapa da cidade que receberam vem indicado a localização da nossa associação aonde se devem dirigir ja amanha para receberem as primeiras instruções sobre o que tem a fazer para iniciarem a vossa vida nesta cidade. Para já, posso adiantar que receberão uma bolsa para frequentarem um curso de dinamarque. Dentro de uma semana começam queas aulas de dinamarquês. E depois, naturalmente, obterão emprego. O mundo livre sauda-vos. Muito obrigado.
Houve alguns aplausos, as assistentes retiraram-se, o beberete esmoreceu e pouco a pouco os novos hóspedes recolheraam aos quartos. O nosso aposento, o meu e o de Ema, situava-se no terceiro andar e tinha as paredes pintadas num azul claro. Como condenados antes da execução, entregámo-nos na sofreguidão do desespero. Durante muito tempo seria assim.





Andreas e Rully moravam na vivenda numero vinte e sete, a mesma que o "Apoio a Refugiados" nos destinaria, a mim e a Ema, no bairro residencial de Lindvedparken. Aí, a organização possuía várias e todas se distinguiam pelo pouco arranjo dos jardins, pelas paredes exteriores sujas assim como pela ausencia de ornamentos que as demais exibiam
- Tratar disto para quê? - indagava Stanis igualmente nosso vizinho - A qualquer momento posso regressar ao meu país! Ainda ontem recebi noticias de que se prepara lá um golpe!
A esperança numa rápida reviravolta da situação política que os levara a deixar a pátria, tornava-se pretexto para os refugiados não tratarem das casas que lhes tinham sido emprestadas. Assim, e apesar dos anos decorridos desde que chegados, o primeiro da Polónia e o segundo de um país africano, onde as revoluções se sucediam atirando para o exílio ora uns, ora outros dos seus habitantes, Andreas e Rully, os nossos companheiros da nova habitação, nunca tinham tratado do pequeno jardim que a rodeava. Se a qualquer momento poderiam partir! Mas na verdade eram ha sete anos residentes em Lindvedparken e há cinco amantes.


Se para Stanis a sexualidade era apenas mais um aspecto discordante da leitura do real que, lá na sua terra, o partido que detinha o poder fazia, um factor mais a confirmar a razão dos restantes, como que uma espécie de revolta do corpo para que não restassem dúvidas onde a ditadura se exercia, já para Rully, fugido de um autoritarismo africano, o caso seria diferente. Rully até concordaria com o regimen de que afinal se excluíra se não fosse a cor do seu desejo. Ou seja, a sexualidade havia-o colocado na situação das mulheres do sec. XIX que, pelo simples facto de serem fêmeas, não acediam a certos cargos. O cidadão Rully, vocacionado para assumir as maiores responsabilidades no seu país, vira-se delas, afinal, separado. Admirador dos valores do ocidente, do seu racionalismo, humilhava-o que o desejo, em si, ganhasse à vontade. Porque não me domino? Porque não sou forte? Sou mesmo um animal? Um escravo do sexo? Em última instancia, acusava a sua negritude - que cria, sabe-se lá porquê! - mais perto da natureza - pela violencia com que o instinto o agarrava. A união com Stanis não era, pois, pacífica e havia alturas em que o odiava. O companheiro era então a encarnação do mal, do diabo, da força que ele, Rully, não soubera vencer e a que, talvez sem levar às últimas consequencias a luta - por fraqueza? - se submetera, arruinando o futuro, a vida "correcta" que o partido, em nome das massas, exigia aos seus funcionários.
Para Stanis o desejo tinha razão, para Rully ele era pecado.
Noutros momentos, porém, a carne e a vontade do africano reconciliavam-se e o valor do amigo surgia-lhe enorme, senão sobrevalorizado. Entre os dois extremos, o desprezo e a idolatria pelo amante, Rully não conhecia paragem e, ultimamente, apaziguava-se escrevendo um ensaio.
- Gostaria de ler-vos partes do meu trabalho. Talvez hoje à noite?
Dissemos que sim.
As aulas de dinamarquês funcionavam no edíficio de uma escola onde, pela manhã, crianças aprendiam o b-a-bá e, à tarde, depois do almoço, vinha a nossa vez de soletrá-lo. Muitos refugiados do Leste chegavam ao ocidente na idade da reforma, ou porque o processo de saída levara anos a concluir-se ou porque lhes permitiam a mudança devido precisamente à avançada idade... Alguns, tomados pelo espanto, pela subita desconexão entre o sonho e a realidade, entre as expectativas criadas e a cinzenta realidade de exilado, não raro, por causa de uma palavra mais dificil, ou de um significado menos acessível da nova lingua a que deviam submeter-se, caiam em choro. Então tudo desabava, as vidas pairavam sós, inúteis, vazias, e, no entanto urgia gerir a mudança, adaptar-se à viagem sem regresso marcado.
- Sr. Anton, o que se passa? Porque chora? - perguntava o professor, um jovem dinamarquês que, com as aulas da sua lingua natal, aumentava uma magra bolsa de estudo. Porem o desconhecimento, a inexperiencia, senão mesmo a idade, impediam-lhe a percepção dos problemas dos seus alunos mais idosos.
- Sabe... - Lamentava-se Nikita que tinha trocado o posto de chefia numa fábrica nos arredores de Moscovo pelo lugar de operário subalternizado no "mundo livre" - A gente vem com uma ideia e afinal...
A avioneta que qualquer refugiado ao cabo de três meses de salários adquiriria não tinha afinal passado de mais um sonho e a realidade, com o seu séquito de solidão, saudade e, porventura, arrependimento, irrompia, indiferente a qualquer desejo e projecto. Assim Maria, a bela checa Maria, uma tarde não foi à escola porque ficou em casa a enforcar-se e quando, à aula seguinte, se soube do êxito da sua iniciativa, soou ainda mais estranha a lição do dia: "A Senhora Popova - contava o livro - está radiante com a mudança e convidou os amigos para uma festa na sua nova casa".
Na nossa, à noite, Rully ler-nos-ia parte do seu ensaio.
- "A solução da África... - dizia ele.
Stanis e Rully pensavam que Ema e eu tinhamos sido militantes em Portugal e nós não os desmentiamos. Para quê? Naquela noite ouvimos Rully perorar até de madrugada mas a apatia e, sobretudo, o desencontro, a que não era alheio o alcóol que Ema e eu passaramos a ingerir, tornavam-nos a atenção ao que quer que fosse imposivel.
Em breve desistimos da bolsa de estudo para aprender dinamaquês - que nos interessava aquilo se tudo havia desabado? - e, por nossa conta e risco, arrastámo-nos para Copenhaga.





Alojados em Christanniahavn, a comunidade dos hippies, na qual não pagavamos alojamento, obrigavamo-nos todas as manhas à busca de um emprego. A oportunidade surgiu numa feira de porno que se armava às portas da cidade. Num quiosque ainda sem tecto um letreiro dizia: "Assistentes precisam-se".
- Em que consiste o trabalho? - Perguntamos a um indivíduo que, de mãos nas ancas, apreciava o andamento das obras.
- Têm lata para fazerem sexo à vista de todos?
O homem desconhecia o nosso passado, o meu e o de Ema, mas ali estava algo que não o desdizia. E, sobretudo naquela altura, precisavamos de uma ligação com o lá atrás, o tempo antes da manhã que, como uma gilhotina, nos dividira a vida num antes e depois. Mas interpretando-nos talvez o olhar por uma reprovação, o indivíduo começou aos berros:
- Que raio! - Exclamava - Isto é uma feira do sexo, não é um bordel! Vem nos jornais de todo o mundo, a primeira da história da humanidade! A emancipação do prazer! Do corpo! Não é a idade média mas o agora, a nossa vida, as nossas coisas, as sensações, o gozo pela existencia, aquilo que faz a diferença do estarmos vivos, o sentir, percebem? - Fez uma pausa, como se também ele se quisesse imbuir do que dizia. No entretanto, em redor, pela frente, pelos lados, por detrás, dezenas de robustos trabalhadores furavam, martelavam, punham massa, alçavam andaimes e construções, pregavam cartazes, anúncios, convites, ensaiavam sons, lançavam ordens, tudo como se, no Olimpo, Zeus, sob o signo de Eros, desse por aberta a caça ao prazer sensóreo e os concorrentes, suando na Terra, exaltassem o corpo, a pele, os pequenos orifícios que, convenientemente preenchidos, provocam copiosos deleites. O "fellatio", o "cullingunus", o "minette", a sodomia, enfim, o coito, exibiam-se em mil e uma posições, milhares de imagens, um desfile das infinitas maravilhas a que a raça recorre para suportar a vida e a miséria, a única razão, no fundo, para que as mães ainda acedam em dar à luz, ou não afoguem os filhos à nascença. Pois dos sacrifícios levados a cabo sem a compensação do corpo que nos recebe, e afaga? Do morrer numa batalha sem a memória do abraço que algures nos chama? Ou da semana a correr como doidos se a meta não for a cama? Onde a grandeza que nos leva mais além sem a entrega e a voz, que em convulsões, murmura: "oh sim... Alaga-me no teu ser até à diluição do meu, deste pavoroso eu que me devora e exausta, deixa que me submerja em ti e perca, sê-me, aniquila-me e renasçamos um, sem a separação que condena, a fronteira que afasta, e cerca, e extingue, oh sim, une-me e anula-me, oh sublime desmaio em teu seio, vem! - Aceitam?
O trabalho não tinha nada de especial. Exibiamo-nos num quarto de paredes de vidro, uma campânula que para nós, seus ocupantes, era opaca mas transparente para quantos, do lado de fora, a rodeavam. Um néon indicava: "Encontros Intimos" e lá dentro um colchão. O espectáculo começava com a nossa entrada no recinto. Não havia um programa específico mas do exterior chegava-nos a excitação dos espectadores:
- Vá! Enterra-lho agora! Chupa-lho! Lambe-lhe o cu! Força para cima! - Quando não era um coro cadenciado a bater o compasso com as mãos ou os pés nas paredes da caixa:
- Vem-te! Vem-te! Vem...
Numa altura em que o desespero ainda não se esvaíra em hábito, reviviamos as sessões de Lisboa, no "Photo-Eterna", lá onde foramos inconscientes e felizes.
Antes da queda.





Estava fora da prisão havia uma semana. Ema saíra antes. Mas quem nos ouvisse contar do encarceramento poderia dizer que mentiamos: não possuíamos uma só prova do sucedido.
O "Photo-Eterna" havia fechado, Patrício tinha desaparecido, o Monóculo já não era ministro e os proprietários da casa onde moravam Lucio e Sílvia diziam que eles estavam no Estrangeiro. Mas, pela nossa experiencia, podiamos imaginar tudo e, nas ruas, olhando o movimento do dia-a-dia, perguntava-me se os transeuntes saberiam que, naquele momento, e na sua propria cidade, a Lisboa dos brandos costumes, havia gente retida em salas de sono.
Os cinemas exibiam os filmes, os cafés enchiam-se, os eléctricos andavam de um lado para o outro, os teatros abriam as portas todas as noites mas, para mim, o pano tinha-se rasgado, mostrando a parede do fundo: um quarto de tortura. O carimbo a indicar "visado pela comissão de censura", que sempre vira aposto nas primeiras páginas dos jornais, deixara-me de ser indiferente, perdendo o seu tom rotineiro.
Ema dançava de novo no cabaret e mal saí, procurei-a. Mas a nossa paz durou pouco: quatro dias depois de liberto recebi uma convocatória do serviço militar: devia-me apresentar na tropa. E desde os meus doze anos - quando rebentara a luta pela independencia em Angola - eu sabia que ir para a tropa significava ir para a guerra. De resto, pela altura dos primeiros embarques para a frente de batalha, um tio materno tinha-me levado ao cais de Alcantâra para ver o "adeus aos rapazes" como ele gostava de chamar à partida dos soldados para as colónias. A gare maritima apinhava-se de gente pobremente vestida, camponezes que tinham, muitas vezes pela primeira vez, vindo à capital para a despedida dos filhos e estes entravam no vapor trôpegos e insones, depois de passarem a noite de bar em bar, de cabaré em cabaré, visitando finalmente a capital no desespero de não a voltarem a ver nunca.
Noite de arromba.
Na hora da largada, o barco soltava o ronco da fera que se prepara para enfrentar o mar e as mães desatavam aos gritos acompanhadas pelo choro das crianças de colo tambem trazidas para verem os pais. Sob o Sol e a emoção havia muitos desmaios enquanto os homens, porque assim devia ser, exerciam o auto-domínio e viam os filhos cada vez mais distantes, reduzidos a um ponto pequenino no horizonte, perdidos na vastidão do nada. A banda militar tocava uma fanfarra e o meu tio, que não perdia nunca a oportunidade de me instruir, apontava a sua bengala de pau santo e "S" de Salazar incrustrado no castão de prata, ao povo em redor e, na voz do velho combatente que tinha sido ao lado de Franco, ensinava:
- "Patético" é o adjectivo que se aplica ao que vês.









As grandes decisões, as que levamos tempo a pôr em prática porque implicam atitudes que, assumidas, impossibilitam o fingir de conta que não as adoptámos, causam-nos, depois de levadas a cabo, uma grande tranquilidade. A indecisão, a perturbação entre o sim e o não, a dúvida, extinguem-se e ficamos a sós com o decidido; antes, a luta entre as várias opções, como se atacados por uma matilha onde nenhum animal sobreleva aos demais. Depois, sozinhos com um único, medimos-lhe a capacidade, as manhas, a raça das suas pulgas.
A decisão de ignorar a convocatória para a guerra tornou-se-me clara pois, pela primeira vez, o serviço da pátria me surgia como uma pena, uma forma ainda de me separarem de Ema. Mas quereria ela partir comigo? Apesar do que tinhamos passado ainda não lhe ouvira dizer amo-te. Mostrei-lhe o postal que exigia a minha presença no quartel e perguntei:
- Fugimos os dois?
- Para onde?
- Para o paraíso...
Mas a verdade é que não sabia nem o caminho ou onde ficava e, além de chamado para a guerra, não possuia passaporte.





Nome: Miguel Gomes, nascido em: 12/7/46
pai: incógnito
Mãe: Clara Filomena Gomes
Profissão: bailarino.
Ultima morada: Rua das Gaitas, 32 Lisboa
Observações:
Exibe-se em cabarés vestido de mulher.
Fugiu do internato da Casa Pia aos doze anos.
Viveu em Bruxelas e Paris onde se relacionou com exilados oposicionistas.

Olhavamos o bocado de papel sebento pendurado na parede do camarim e Miguel explicou:
É a cópia da minha matrícula na Pide e neste país todos temos uma. Até o Salazar para dar o exemplo! Esta foi um namorado que ma trouxe. Claro, deixei-o. Mas não foi fácil. Ele era da policia politica e ameaçava prender-me se o abandonasse. Foi cá um "affaire"! Ainda me telefona! Por vezes aparece por aí, a ver o espectáculo. Tremo quando o descubro na sala. De qualquer modo ainda durou cinco anos. E eu sem saber nada. Coitado, apaixonou-se em serviço! Foi ele quem me aconselhou o "artigo dos paneleiros" para me livrar da tropa. "Se tens coragem..." - disse. E não havia de ter? A verdade é como a cortiça: vem sempre ao de cima. - Riu um riso dessengonçado. Tinha acabado um numero e vestia-se para outro - Eles não nos querem na guerra por medo de que beijemos o inimigo! - Atirou o vestido comprido de lantejoulas vermelhas para cima de uma cadeira - Isto aqui é um nojo! Nem temos costureira! - Miguel - ou "Micaela" como o anuncio do show de travesttis anunciava - possuia um corpo escultural e depilado, o peito cheio de silicone e o sexo masculino avolumava sob a cueca. Disfarçou-o melhor na roupa. - Ainda cá está mas é por pouco tempo. Vou voltar a Bruxelas. É lá que me vão operar. Um especialista muito bom. Trabalho há três anos para conseguir pagar a cirurgia. Vai ser agora. - Vestiu umas meias de rede negra com arabescos. - Por enquanto não sou uma coisa nem outra. Nem carne nem peixe. Isto é: cá dentro - apontou a cabeça - sou mulher. - mas por fora... Enfim... Apertou uma cinta de ligas e prendeu as meias - O espírito nasce das águas não é verdade? Ema, que fora em tempos colega de Miguel num mesmo show, lembrou-lhe porque ali estavamos:
- Um dia disseste-me que o teu padrasto era de Elvas... de junto da fronteira. Eu e ele - apontou-me - queremos fugir, ir embora...
- Ah sim, o Rodrigo! Nunca mais soube dele... Se calhar ja nem la está... Mas se lá forem não digam que me viram. Enfim, contem-lhe que me encontraram em qualquer lado. Ele não sabe disto. Não vale a pena. Era o amante da mãe. Vivi com eles até à sua morte. - Miguel tirou uma mini-saia do cabide. Contorcia-se para vesti-la. - Eles discutiam muito. O tipo tinha outra e ela chateava-o todo o tempo: zum... zum... zum... zum... Baixinho, devagar, como um motor com silenciador mas que trabalha à mesma e massacra, massacra muito... - Viu-se ao espelho - Onde está o corpete? - Ema chegou-lho.
Sentado num banco eu observava. De qualquer modo desde que decidira partir, olhava a tudo com outra atenção. Sabia lá quando voltaria!
O corpete de Miguel, dourado, contrastava com o veludo negro da mini-saia. Falava como se tivessemos vindo para ouvi-lo e não para que nos ajudasse a fugir do país, a passar a fronteira sem passaporte. Convocado para a tropa nunca me permitiriam obtê-lo. Teria de ir "a salto" como diziam os emigrantes. Só que não sabia como se fazia nem quais os caminhos. Talvez o Miguel saiba - havia lembrado Ema - Ele sempre disse mal da situação...
- Sim, o meu padrasto é de Elvas e ainda lá vivia há algum tempo. Mas como contei ele e a mãe discutiam constantemente. E sabem porquê? - Ema apertou-lhe o corpete nas costas - Obrigado, querida. Pois eles discutiam porque sabiam que os obrigava a fazerem as pazes. Quando já não conseguia ouvi-los, ia buscar a régua - tinha aí uns onze anos - e fazia-os calarem-se. Era o meu número. Eles achavam muita piada e paravam a discussão. Para mim era a paz na cabeça por algum tempo, um intervalo nas vozes que se me tinham entranhado, nas zangas que interiorizara. Mas o intervalo para eles servia ao retempero das forças, ao estudo das novas estocadas, dos melhores efeitos, sobretudo para a minha mãe que não lhe perdoava a existência da amante, da "outra". E eu, com a cabeça cheia até mais não poder de falas, de berros, pois ouvia-os na sua verdadeira dimensão e não na das vozes baixas, dos ditos aparentemente pacificos com que se diziam as piores coisas, os votos mais desamparados, os insultos mais eficazes, que faziam mal por si mesmos e não pelo volume em que eram pronunciados. Eles falavam num registo educado mas as suas falas entranhavam-se-me, doíam-me talvez mais a mim do que a eles que lhes tinham a autoria, o hábito e mesmo o gozo, sabendo de antemão que se podiam lançar à vontade naquilo porque lá estava o pacificador para reuni-los, para levá-los as pazes, e a recomeçarem uma vez mais. Vozes que ensurdeciam, diziam e desdiziam, que batalhavam a ver qual delas vencia, qual pronunciava a palavra que mais ferisse, no sitio exacto, onde fizesse mais sangue, tudo, tudo jogado em voz baixa e terrivel, e comigo como observador, para entrar na altura exacta, para calá-los... E eu fingia de palhaço e intervinha, quando ja não podia mais ouvi-los, ia buxcar a minha regua da escola e ameaçava-os: "ou fazem as pazes ou levam de regua"! E eles riam e desarmavam... Mas um dia, um dia...
Sentado frente ao espelho Miguel tinha parado de arranjar-se. Hipnotizado pela sua imagem, ou pela evocação, ou ainda representando para si próprio, olhava-se. Absortos, escutavamo-lo. Num ritmo mais lento, como se revisse cada momento do que contava, cada passo da peça, prosseguiu:
- Um dia recusei-me. Eles atiraram-se para mais uma discussão, mais um torneio mas abandonei-os, deixei-os ir até onde eles queriam. Tinha acabado de fazer os doze anos e achei que chegava. Que a minha vida me pertencia e não estava mais para aturá-los. Bah, talvez nunca tivesse chegado a essa conclusão se eles me poupassem às suas disputas. Mas a casa era pequena, faziam dela o inferno e obrigavam-me a servir-los à forja! Queria lá passar a vida a reconciliá-los, a ser o bobo de serviço. Fui para a casa de banho, puz a torneira a correr para fazer barulho - nem para abafar as vozes deles, que eram calmas e terriveis, mas as minhas, as que me altercavam na cabeça, espelhos sonoros das deles, das que ouvia todos os dias, todas as horas, sempre que o tipo chegava a casa vindo da outra, dia apos dia, ano apos ano, desde que me lembrava - e fechei-me. Fechei-me e, como não sabia o que fazer lembrei-me de uma coisa que ouvira na escola e... comecei a tocar-me. Estava quase quando ouvi a voz do Rodrigo, aflito, do lado de fora...
- Estas ai? A tua mãe...
A minha mãe no auge de mais uma discussáo tinha ameaçado lançar-se pela janela e... eu... - Miguel deu uma gargalhada e finalmente olhou-nos: tinha os olhos rasos de lagrimas e a expressão fechada. - Desculpem... nem sei porque comecei a falar disto... Limpou-se a um lenço. Havia um silencio incomodo. Ja nem dava para falarmos da fronteira. Eu sabia por Ema que a mãe de Miguel se suicidara mas pela primeira vez ouvia era as circunstancias. Gotas de suor borravam a maquillage de Micaela, a mulher em que o nosso interlocutor se tinha transformado.
- Desculpem, não sei porque contei isto. - Querem a direcção do Rodrigo, não é? - pegou num bocado de papel e rabiscou uma direcção. Tomem. Se ele la estiver ajuda-vos. - Ema guardou o papel com a marca dos dedos suados de Miguel. Este abriu-nos a porta do camarim e em modo de despedida disse: - Pois foi. Naquele dia decidi acabar com os shows... - Uma mulher surgiu com um chapeu de penas exageradamente grande e entregou-o ao travestti.
- É já o teu número, Micaela - avisou.






Levavamos cada um a sua muxila e dir-se-ía que iamos de férias. Na verdade partiamos angustiados. Não só ignoravamos para onde nos dirigiamos - França? Bélgica? Holanda? - como nem sequer tinhamos a certeza de sair do país.
A consciencia de que, feita uma coisa, nada igualará o antes, torna o tempo da sua execução tão denso como se os ponteiros, no quadrante do relógio, tivessem de rasgar sebes entre cada minuto. Agir tem então a ver com um esforço que nos esgota e faz operários do tempo. A fábrica do mundo.
- Por favor dois bilhetes para Elvas. - Pedi num "guichet" em Santa Apolónia. Eram as seis e meia da tarde e o combóio partiria pelas dai a meia hora.
- Ida e volta? - quis saber o homem.
- Não. Só para lá. - Respondi com um nó na garganta.
De manhã tinha-se comemorado o dia da Raça e muitos camponeses, usufruindo do transporte gratuito que Salazar facultara, tinham vindo à capital assistir ao desfile militar assim como à condecoração dos heróis da guerra, na Praça do Império. Àquela hora regressavam a casa e, no combóio cheio, sentámo-nos junto de um campesino que ouvia no rádio a retransmissão da cerimónia. "Diante deste espectáculo - dizia Salazar - a que, mercê de Deus, me é dado assistir, Portugal unido e fraterno na exaltação patriótica dos seus maiores, diante de tudo isto que é belo, grande e único, temos não só o direito de merecer os mortos, mas também o dever de nos orgulhar dos vivos" - Houve uma interferência e o camponez, diluído nas palavras do ditador, apurou a sintonia: - "Quer hajam de bater-se, quer não, as gerações presentes serão gerações sacrificadas! Sim - esganiçava-se a voz - Gerações sacrificadas! - E concluía: - Fazemos a ascensão dolorosa de um calvário mas ele levar-nos-à a uma nova ordem, ao novo ser!"
Soou um apito e a maquina pôs-se em movimento. A retransmissão interrompeu-se e o camponês, sem resultado, tentou nova ligação. Talvez para se compensar olhou-nos, a nós e ao casal com um filho pequeno a seu lado, e tirando do bolso do casaco uma caixa, abriu-a. Lá dentro, uma medalha ornamentada com duas fitas, uma verde e a outra vermelha. Numa voz que não se sustinha devido à comoção, disse:
- O meu rapaz ganhou-a. É a medalha da Grande Fidelidade. Olhou a condecoração e murmurou: - Morreu ao salvar o batalhão de uma emboscada. - E como se lhe fosse impossível ou continuar a mostrar a insígnia, ou nem fossemos dignos de vê-la, fechou apressadamente a embalagem metendo-a de novo no bolso. - Gostava de ouvir outra vez o nome do meu filho. - justificou para si próprio colando o ouvido ao receptor. Embora mais distante, Salazar reapareceu: "Só os cobardes não defendem a terra onde nasceram, os de baixos sentimentos, os que pensam a seu respeito o mesmo que qualquer réptil que a macula com a baba peçonhenta..." - Porém o combóio tomou velocidade e a transmissão perdeu-se ou talvez o camponez a ouvisse mas nós não. Com a cabeça encostada à telefonia e a mão na algibeira do casaco, onde havia guardado a caixa com a medalha, o homem adormeceu.
Na carruagem-restaurante encomendámos o jantar, a nossa última ceia portuguesa. Se outra houvesse significava que não conseguiramos fugir. Mas até ali haviamos sido cuidadosos. Informados dos hábitos da Pide de vigiar os movimentos dos que pensava um dia prender, ou dos que tinham estado presos, tomaramos vários táxis até à estação. Talvez da mesa ao lado um Judas, apontando-nos o dedo, gritasse: "Ali vão dois répteis! Matem-nos! " mas, embora sem vocação para mártires, e mesmo com um feroz desejo de esplendor, nada podiamos fazer.
No entretanto a viagem já me provocava, olhando do lado de lá das vidraças a noite que sobrevoava tudo, um verdadeiro sofrimento, uma mágoa que aumentava com o rodado do combóio. Quanto mais terra ele galgava, mais me sufocava, mais ficava fora de mim. Com que direito me diziam "Vai e não volta?!" "A pátria tem de ser salva!" - Gritara o caudilho no desfile da manhã. Mas que interessava a sua glória se ela me perdia? O afastamento cavava-me um túmulo e, ao contrário dos que, tendo morrido de bem consigo, jazem em paz, a mim, em nome da glória da nação, enterravam-me vivo. E, como não aceitava o sacrifício, a consciência era-me uma coroa de espinhos. Maldito o deus que me expulsava, pois eu fugia desprovido doutra carga que não a própria fuga e a mudança fazia-se no desespero de saber-me a caminho de terra alguma.
Acabada a ceia voltámos ao compartimento. O camponês tinha descido num apeadeiro no meio da escuridão e tudo pareceu mais vazio, mais vão ainda.
Sós e cegos guiados pelo nada.






- Olha que salto!
- Experimenta.
- Nao passas de um assassino.
- Contigo não há perigo. É tudo teatro.
- Queres que fale a sério?
- Gostaria que te calasses e me deixasses fazer as palavras cruzadas. Sinónimo de...
- Merecias que me matasse. Pesar-te-ia a consciencia para sempre.
Não teria sido eu o culpado. Todos somos livres.
- Dizes isso porque achas que finjo... Mas olha que estou farta... farta, compreendes? Farta!...
E antes que Rodrigo esboçasse um gesto, Ivone pulou para o parapeito da janela e concretizou a ameaça. Ouviu-se um grito agudo e o sopapo seco do corpo seis andares abaixo, no asfalto. Rodrigo, siderado no sofá onde até há escassos segundos ele e a companheira se sentavam, manteve-se imovel por algum tempo. Por fim, a medo, obrigando-se ao irrecusavel, espreitou: a mulher jazia no meio da rua e um pequeno grupo rodeava-a. Alguns transeuntes olhavam para cima, na tentativa de descobrirem donde tinha caído aquilo. Viram o rosto espantado do homem e apontaram-lhe o dedo:
- Dali! Foi dali!
Com o suicidio de Ivone a vida de Rodrigo mudou. Da sua nova fase constava a estadia em Elvas. Naquele domingo de manhã cedo, bateram-lhe à porta
- Da parte do Miguel.
Por instantes o dono da casa imaginou que o filho de Ivone lhe falava e reviu-o, criança ainda, de régua na mão, a exigir que ele e a mãe se calassem. E voltou a ter a impressão, se não a certeza de que, se naquele fim de tarde o garoto tivesse aparecido, Ivone ainda viveria.
Abriu a porta mas não reconheceu nenhum dos jovens que o procuravam.
- Façam o favor de entrar - Convidou.
O "hall" comunicava com a sala maior e o seu despojamento, a quase inexistencia de mobiliário como se o principal elemento decorativo fossem as paredes, chamava de imediato a atenção. Dir-se-ia que Rodrigo decidira guardar apenas o indispensavel mas que tinha utilizado um critério tão severo na sua escolha que mais parecia pôr à prova a sua capacidade de resistencia. Ou que, acabado de mudar, o grosso das suas coisas vinha a caminho ou, prestes a fazê-lo, enviara já para o novo destino os haveres. Todavia, num segundo olhar, o todo completava-se no aspecto sofisticado do anfitrião, de bigode com pontas enroladas e fino aro de prata no mínino direito. O eremita teria abandonado o mundo mas a sua separação fora tão radical que continuava a seu lado, ambos coexistindo na paz de se saberem e não na de se anularem.
- O Miguel está bem? Que é feito dele? Deve estar um homem. Não o vejo desde... - Ia a dizer "desde que ele fugiu do internato" mas interrompeu-se. Que saberia aquela gente do seu passado e, afinal, que quereriam? Pelo traje ligeiro e muxilas era evidente que os dois jovens iam de viagem e teve a intuição de que o enteado se lembrara dele para ajudá-los a continuarem-na. O rapaz na sua frente estava em idade do serviço militar e devia ser esse o problema: não teria documentos. Observou melhor as visitas. Ultimamente tinham rebentado bombas um pouco por todo o país, reivindicadas por uma organização que se identificava como anti-fascista. Os jornais nada contavam mas Rodrigo sabia-o por conhecidos de confiança que trabalhavam no posto fronteiriço. Seriam jovens bombistas? Que tinha a perder? Em Elvas toda a gente sabia o atalho que, evitando a guarda da fronteira, conduzia a Badajoz e era normal alguem da cidade levar a um conhecido do lado de lá um pacote de café e vir de volta com uma caixa de chocolates. Tudo sem documentos, nem pedido de passaporte. Porém ajudar gente que fugia à polícia...
O anfitrião mirou ainda melhor as visitas. A expressão era-lhes dura e decidida ou talves fosse a idade em que os encontrava que o fizesse, a ele, Rodrigo, sonhar horizontes que aos outros nem importavam. Emendou:
- Não vejo o Miguel desde que vim para Elvas.
Na verdade não via o enteado desde que ele tinha desaparecido do orfanato onde o metera depois da morte de Ivone. Um domingo fora visitá-lo e o Director perguntara:
- O rapaz já voltou?
- Voltou?
- Então não sabe que o Miguel fugiu? - Rodrigo não sabia e o Director percebeu que da secretaria se tinham esquecido de avisar o padrasto da fuga do miúdo. Mas eles eram tantos a irem embora que a coisa ja parecia normal. E depois, a competencia dos funcionários! O Director desculpou-se: - Que quer? A gente manda fazer uma coisa e eles baralham tudo! - No fundo, um garoto que na idade do Miguel fugia do internato significava um lugar a mais para os que esperavam entrada. Porque havia tanta criança abandonada? Que época! - Pensei que o tivessem avisado. O Miguel desapareceu há quinze dias. Dizem que foi para o estrangeiro... - O Director calou-se. Não convinha dizer que o miúdo tinha sido durante alguns fins-de-semana o escolhido de Mr. Smith, o "americano", como a garotada lhe chamava, e que não era a primeira vez que um miudo levado a passeio pelo "yankee" desaparecia... Mas que fazer? Mr. Smith era o maior beneficiário do asilo, o seu mais líquido contribuinte e todos os anos escorregavam do seu livro de cheque uns bons milhares de dólares para a instituição. É claro que entravam pela porta do cavalo porque também saiam pela do burro, isto é, sem que ninguém desse por nada. Mas o importante era que a coisa funcionasse: Mr. Smith apreciava a carne fresca e tinha no internato a sua despensa. Mas nem tudo eram rosas: Smith, pessoa educada, no seu intimo sofria com a sua preferencia e tentava resistir-lhe. Sem resultado. Ao cabo de algum tempo la ia bater à porta do asilo, saber se não haveria algum pupilo que lhe servisse de "cicerone" na visita que, mais uma vez, fazia à cidade... Mr. Smith gostava de Lisboa e vinha a passeio pela Europa todos os dois meses, o tempo máximo que conseguia abster-se do seu nefando consumo. E escolhia Lisboa porque, sob Salazar, era facil comprar os produtos da sua escolha. No internato ja tinha sido aflorada a hipótese de lhe descerrarem uma lápide comemorativa das suas benesses mas Mr. Smith repelira a ideia. O carinho dos rapazitos chegava-lhe como agradecimento. Miguel era meigo, carente, bem encarado - havia lá muitos cuja miséria deformara - e Mr. Smith apreciava-lhe a inteligencia e a capacidade de escuta. Naquela caso tinha a certeza que não influíra em nada. Desde o primeiro encontro que Miguel havia demonstrado um gosto claro pelas suas carícias. Amor perfeito. De uma vez, pelo menos... - Não se preocupe - concluiu o Director para o surpreso Rodrigo - O Miguel é um rapaz, vai fazer treze anos e de certeza que começou a vida algures. - O ex-padrasto de Miguel ouviu e calou. Que poderia fazer? Queixar-se a quem, se o dono da instituição era o próprio estado? E ele mesmo, não tinha começado a lutar pela vida ainda mais cedo? Aos dez anos não deixara não entrara para caixeiro de uma loja? Não lavava, de pano enrolado na vassoura, o passeio frente ao estabelecimento onde, a basalto negro no meio do calcáreo, se inscrevia o glorioso nome dos "Boda & Boda"? Naquele tempo considerava-se normal, senão louvavel, que os pobres pusessem os filhos a render mal eles aprendessem as primeiras letras e Rodrigo não foi, pois, excepção: finda a quarta classe, la na terra, tinha descido à capital para servir. Um tio, ha muitos anos na cidade, orientara-o.
Quando a criança se emprega o trabalho é-lhe a tortura e o passatempo. Ora brinca, ora se entrega ao que lhe mandam, e neste balanço se educa e torna adulto. Muitas vezes o caixeirinho Rodrigo esquecia a hora do almoço e ia para o Terreiro do Paço jogar à bola com outros como ele, tambem em pausa de refeição. Ou então, se por exemplo chovia, escapulia-se para a cave e aí brincava sozinho. A descoberta do seu primeiro orgasmo tambem seria no Boda e Boda, precisamente na casa de banho da cave, antes que a voz do chefe o chamasse: "Ha recados a fazer!" Ao atingir a maioridade, o suor de Rodrigo cheirava a organzas, popelines, tafetás, a "Boda & Boda", em suma, e o nome do estabelecimento confundia-se com o seu na memória dos clientes: ir aos "Boda..." era sinomino de encontrar Rodrigo e encontrar Rodrigo significava ter visitado os "Boda".
As lojas vizinhas fizeram obras e remodelaram as intalações. "A Carvoaria Açoriana" passou a "Casa Açores" e o que, em tempos, tinha sido o café Coliseu renasceu "Coliseu's", em acordo com uma onda mais snob que percorreu o país. Mas os "Boda..." nunca alteraram coisíssima nenhuma e os fregueses mais antigos, cujos antepassados lá compravam a fazenda para os fatos, podiam encomendar da mesma flanela que o avô teria usado ou, as senhoras, a renda idêntica à que as respectivas bisavós empregariam para compôrem os punhos. Graças aos "Boda" uma familia conservadora ufanava-se de vestir o mesmo tecido há duzentos anos ou, outra, chamar a si a exclusividade de certa cor. Os Alfeites, por exemplo, desde sempre que tinham em monopólio para o uso masculino, um tal azul escuro e as senhoras da familia o acesso a um certo damasco. Nos salões eram as "damascos".
Rodrigo não casou. Mas anos e anos de permanencia na pensão da Dona Vitória, onde o tio a quem o pai o tinha confiado tambem morava - haviam-no feito íntimo da criada, a Nelma, ela própria servindo na cozinha desde cachopa. Nelma e Rodrigo entabularam, pois, um convívio que, anos mais tarde, perceberam socialmente desnivelado: ele tornara-se no elegante caixeiro da casa de modas mais conceituada da cidade e ela permanecia fiel aos aventais. Quando a burguesa Ivone se apaixonou pelo homem de bom aspecto que lhe mostrava os tecidos nos "Boda", estava, assim, longe de imaginar que o seu galã, sempre bem vestido, sempre barbeado e melhor perfumado, tinha um caso com uma "sopeira".
- Porque não a largas? - Perguntou ao partilhar pela primeira vez a cama com o amante, e este lhe confessou o assunto.
- Há-de acontecer.
Assim não foi.
Se Ivone progrediu no coração de Rodrigo, este não deixou de manter num seu nicho, e bem guardada, a relação com a cozinheira. Nelma que não tinha a elegância nem o saber burguês da rival e, com os anos, havia engordado, parecendo, para quem nunca havia sido alta, que o tempo mais a a atarracara, acabou por manter o seu espaço: Rodrigo não a deixou.
- Há um segredo entre ti e essa mulher. Por isso não a largas! - Defendia Ivone, incapaz de compreender uma relação a seus olhos tão desiquilibrada e, por fim, sentindo-se cada vez mais amarga: não se libertava do amante mas também não vencia a adversária. Rodrigo, no entretanto, dividia-se pelas duas mulheres, indo de uma para outra com a meticulosidade de um relojoeiro: aos dias pares ficava em casa da burguesa, aos impares dormia com a operaria e os domingos e feriados estavam a disputa. A sua proximidade, principalmente os mais assinalados, a Páscoa, o Natal ou o Ano Novo, eram pretexto para longas discussões, semanas antes, quer numa casa quer na outra. A vida de Rodrigo não era fácil. Ivone, sobretudo, não compreendia como era possivel perder a favor de uma criada!
- Há um mistério entre vocês. - Repetia.
Anos depois a situação não se tinha alterado, salvo no tempo que pesava sobre os seus protagonistas. No entretanto os "Boda" tinham aberto sucursais um pouco por todo o lado e Rodrigo, na função de responsável pelo comércio na zona norte do país, transferiu-se para o Porto. Ivone seguiu-o. Mas a esperança de que a mudança estabelecesse finalmente, na relação com "a outra", uma vitória defintiva a seu favor, foi de todo abalada quando, uma manhã, deu com Nelma saindo de um armazém barato. Pouco depois Rodrigo reestabeleceu a divisão dos dias, e voltou tudo ao mesmo, apenas que noutro sítio. Ivone, sem forças para se separar, nunca perdoou a Rodrigo o não ter deixado a rival lá onde ela estava, em vez de trazê-la para a sua companhia. A partir daí as discussões entre ambos tornaram-se constantes, independentemente do calendário indicar, ou não, a proximidade de um feriado. Quando, naquele fim de tarde, ela ameaçou com a janela Rodrigo não levou pois a serio a companheira: nos vinte e poucos anos da relação, as regras da boa compostura nunca haviam sido ultrapassadas e nem um único palavrão, ou palavra mais alta, fora alguma vez pronunciada. Discutiam, sim, mas tudo em voz baixa e por vezes mesmo, quando a raiva era maior, quase ciciada. Talvez ate tivessem gala nisso, em mergulhar as palavras mais contundentes num registo de afavel coloquialidade.
- Tu a suicidares-te! - disse Rodrigo num tom escarninho. E pois que não encontrava a palavra no jogo que construia, perguntou a Ivone: diz lá um sinónimo de mudança!
Miguel foi posto no orfanato e Rodrigo, antecipando a reforma, abandonou quer os ""Boda" quer Nelma. Ele, que durante mais de vinte anos se dividira por duas mulheres, fora as que, casualmente, ainda satisfazia, enojou o sexo. A visão da amante desfeita no asfalto - ou o remorso? - tornaram-lhe impossivel qualquer metafísica, qualquer voo que vislumbrasse na carne mais do que um invólucro de ossos, sangue e fibras, matéria apodrecível. Ao mesmo tempo o mundo da moda, - o seu até aí - deixou de interessá-lo e aquilo que a precoce entrada no trabalho tinha construído - um adulto incapaz de se pensar doutra maneira, ou seja, que não fosse trabalhando - desmoronou-se. Talvez o labor do luto assim o exigisse mas o que noutra pessoa, com acesso a saberes, consultores e cuidados próprios - quem se havia importado que a criança Rodrigo tivesse como brinquedo um balcão e rolos de fazenda? - teria sido analizado e adequadamente receitado, em Rodrigo traduziu-se num definitivo abandono da vida que até ali havia levado. O mundo e o seu sofrimento, a dor, a disputa das amantes, as obrigatórias bobices do Miguel, tudo de repente apareceu a Rodrigo no seu valor de sacrificio a um surdo, de altar à sua cegueira. Andava no mundo mas a pressa com que o fazia, o formigueiro a que, cedo, antes mesmo de se dar importancia, a si e aos seus sentimentos, se obrigara, tinham-no tornado numa máquina antropofágica, trituraradora dos seus mais profundos impulsos e, por fim, do que quer que fosse. A ordem, a lei, a obediencia a regra colocada acima do ser, o prazer dividido em dias ímpares e pares, com os feriados à disputa, a dizerem-lhe, no ruído reivindicador das amantes, que o mal estava ali mesmo, no imponderável onde tudo era possível e a vitória sabia às livres forças da natureza...
O suícidio de Ivone, como um ciclone, varreu a vida e os valores de Rodrigo.
Em Elvas, na casa dos falecidos pais que a vida, logo cedo, fizera abandonar, Rodrigo vivia há alguns anos sem mulheres, perfumes ou fatos caros. Mas finalmente dava-se atenção.
- O Miguel está bem e diz que vem visitá-lo - mentiu Ema. - Nós é que... - ia a dizer "estivemos presos" mas calou-se. O outro podia assustar-se e nem tinha provas de que o carcere tivesse mesmo acontecido! Emendou: - Não temos documentos e precisamos de atravessar a fronteira. Vamos pedir refugio. O Paulo não quer fazer a tropa.
Talvez fossem bombistas mas que tinha ele, Rodrigo, a perder? Na cidade todos sabiam do seu fraco pela sociedade sueca, que tinha visitado um dia ao serviço dos "Boda..." A sugestão saiu-lhe, pois, imediata:
- Vão para a Suécia! Lá é bom. Lá...
A Suécia? - disse a rapariga e Rodrigo, também pelo ar estranho do rapaz, percebeu que nenhum deles deveria saber onde o país ficava. Foi buscar um mapa
- É aqui.
- Suécia... - O nome provocava ao pronunciar-se um pequeno assobio na boca e, em todo o caso, tinham de ir para qualquer lado. - Na Suécia dão apoio aos refugiados - concluiu Rodrigo ao mesmo tempo que, numa folha de papel, traçava a lápis o caminho para Badajoz - Depois rasgamos isto. Será arriscado para qualquer de nós se apanham o papel.
Debaixo da mesa Ema fez uma figa. Ser presa de novo... Passar outra vez pelo que passara. Não o desejava. Nem ao pior inimigo. É claro, tinha sido uma prova mas bastara. Não queria mais. Um dia contaria tudo a Paulo? Até ali quase não tinham tido tempo para se amarem. Olhou de novo o mapa da Europa que Rodrigo estendera em cima da mesa, o bocadinho pintado a cor-de-rosa que ele indicara: a Suécia, a receita para uma boa vida. Mas até lá seriam doze fronteiras, doze trabalhos de Hércules. Porque as coisas não eram fáceis e directas e o prazer custava tanto? Porque o pão sabia sempre ao diabo? Nada na vida lhe fora facil nem estivera à mão. Houvera que conquistar tudo, arrancar o menor prazer à força de dores e ais. Até a alimentação e os cuidados que a mãe lhe dava lhe tinham sido constantemente atirados em cara "nem sabes o valor das coisas, os sacrificios que faço por ti..." - e esta frase, assim como outras do mesmo genero, apesar do seu afastamento e independencia, ainda lhe doíam. Ao lembrar tudo isso, Ema ficava como que impotente, incapaz de distinguir o falso do verdadeiro, a verdade da mentira: a mãe tinha-se mesmo sacrificado ou haviam sido apenas palavras más, usadas só por causa do ralho? Porque ela deixara-a e no entanto a mãe... Não importava. Ema havia mudado tudo e vivia por si. E não queria saber de mais nada e no momento, bom, no momento, até ia a caminho do paraíso, dessa tal Suécia. E claro, custava a alcançá-la mas...
- Lá recomeçarão de novo... - teimou Rodrigo. - Lá... - Abriu um livrinho. Copiou o endereço do centro, em Paris, onde ela trabalhava. - Falem com Mme Nelma. Digam-lhe que a saudo.




Da mesma forma que, ao entrar no salão do palacete senti que a vida me tinha marcado, fazendo-me, aos olhos dos que me esperavam, primeiro um personagem da porno e, depois, um prostituto, assim a palavra "refugiado" se me colava ao corpo e eu acedia ainda a um outro estatuto. Tudo quanto a partir dali fizesse levaria o seu selo. A ditadura marcava-me como à rez queimada com a insígnia do dono e, pela primeira vez, percebia a profundidade da sua mordedura, o poder do seu veneno. Não apenas em relação ao futuro mas, sobretudo, no que dizia respeito ao passado, ao período antes da prisão, pois, até aí nunca a politica me tinha preocupado. Mas o tempo em Caxias confirmou-me que já antes vivia numa prisão, que tomara uma versão das coisas pela sua totalidade, que enfim, crescera num aquário de água contaminada, pensando-a pura e o espaço infinito. As informações recebidas na escola haviam sido condicionadas, os professores nunca haviam provavelmente dito o que pensavam e eu próprio, quando madrugada alta subia e descia as avenidas no desejo de alcançar a exaustão, mesmo esse desejo nascia, não de uma vontade livre e senhora, mas exarcebado pelo nascimento num presídio.
A ditadura tinha-me impregnado e sujo cada um dos meus gestos, deixado neles a sua baba.
O meu horizonte havia sido propositadamente limitado para que alguém - no caso um ditador e os seus beneficiários - usufruissem da minha pessoa, tirassem partido da minha existencia, a colocassem ao seu serviço. O Estado tinha-se confundido com um desejo particular e do meu, e do de tantos outros, haviam feito tábua rasa. Mas precisavam da minha carne para alimentar a guerra e, nesse limite, a minha pessoa ganhava de novo importância: um senhor não sobrevive sem escravos. A minha recusa em partir para as colónias feria, pois, o ditador e ele tentaria tudo para me impedir a fuga. A Suécia surgia, assim, como o lugar onde a vida retomaria o seu verdadeiro carril e se, até Elvas, havia apenas fugido - ouvindo na rádio do camponez o elogio da permanência - a partir do encontro com Rodrigo essa mesma fuga tinha ganho um sentido: "Lá é bom! Lá recomeçarão. Lá..."- afiançara Rodrigo e nós, atletas sem meta, tinhamos acreditado nas suas palavras, não só porque as anteriores se mostravam falsas mas porque, enfim, necessitavamos de crer em alguma coisa. No entanto, compreendo-o agora, outra era a luta de Ema, e fundamentava a sua recusa. Ela queria viver, apenas, sem amor nem crença. Mas é possível?


As nossas sombras resvalavam apressadas pela ladeira a pique, com o Sol a inchá-las. Em baixo, reconhecemos a estrada que Rodrigo desenhara no mapa. A fronteira era dois kilómetros adiante e o nosso guia tinha aconselhado a dar o "salto" pela hora do maior calor. E consegui-lo não era dificil: estavamos em Agosto. "Os guardas pela hora ca canicula abrigam-se nos postos". Algures num campanário deram as treze horas, o Sol rondaria os quarenta graus e o asfalto pegava-se nos às solas dos sapatos. Mas surgiu pela esquerda um caminho de terra batida e recordámos o nosso guia: Na estrada, ao fim de andar um pouco, cortam por um atalho de areia e hão-de encontram um ribeiro. Atravessam-no - ele está seco - e do outro lado vêem logo as casas de Badajoz. Depois... boa sorte!"
Não foi assim.
Passado o leito árido do riacho a planície alentejana estendeu-se ainda e continuou igual. O mundo alagava-se num deserto de terra, sem casa ou viv'alma. O suor encharcava-nos os corpos e o peso da muxilas. ("Que levas"? "Muito pouco" Mas tinhamos trazido quase tudo, como quem agarra o que tem por não possuir mais nada) puxava-nos para baixo. E, asno que a mó tortura, andámos uma hora? duas horas? às voltas e revoltas sem perceber onde íamos. Espanha? Portugal? Para o Diabo? Ou para a Suecia? A Terra tornou-se viscosa e, caídos num seu remoinho, recuar e avançar foram o mesmo. Nas suas tocas os grilos riam-se do nosso paraíso para daí a doze fronteiras. Gri-gri-eles-estão-aqui! Gri-gri-eles eles vão além, gritavam nas nossas costas... Mas onde era trás e frente? Então uma mulher saiu de dentro do bafo quente do calor e parou à minha frente. Talvez fosse uma miragem mas ela chamava-me filho.
- Finalmente! Finalmente! arquejava e, de braços abertos, queria abraçar-me, colar o seu suor ao meu. Empurrei-a e ela parou surpresa, talvez confusa. Um homem e um rapazito tambem apareceram e tomaram-na nos braços. Seria uma louca, uma camponesa que teria dado em maluca por ver tanta terra. Por se perder como nós durante aquela travessia, tambem nela
- Desculpem - disse o homem.
Puxou-a a si e o grupo afastou-se. Mas a fulana, apoiada no braço do homem olhava muito para trás.
Badajoz para onde é? - berrei ja sem me importar que um qualquer guarda fronteiriço ouvisse. Alias com o que andaramos em todas as direcções ainda estariamos entre Portugal e Espanha?
O homem disse falou para o miúdo e este veio de novo até nós
- Sigam-me! - disse.
Obedecemos. Caminhavamos os tres em silencio, o gaiato à frente e nós, Ema e eu, atras, como animais de carga prestes a lançá-la por terra, por ja não a suportarem mais. No entretanto os nossos passos restolhavam na erva seca e os grilos continuavam na sua faina mas não nos ligavam já. Perderamos a importancia. Nisto o miudo parou: - Aquilo da minha mãe... - Fez uma pausa e continuou, como se pedisse desculpa: - É que ela vê sempre o meu irmão a chegar. - E explicou, com o ar de quem dizia coisa mais logica do mundo: - Ele foi garrotado há dois anos! - Depois, espetou um dedo para a frente - Badajoz é além - e correu a toda a velocidade para trás.
Um avião cruzou os céus. Dai a uma hora estaria na Suécia.




Em Badajoz, na estação dos caminhos de ferro, informaram que o próximo combóio para a fronteira francesa partia pelo anoitecer. Mas exigia passaporte e, embora levasse inclusive a Paris, não o podiamos tomar. Deviamos, pois, seguir até ao posto fronteiriço espanhol, junto a Irun, em combóios regionais ou seja, a viagem deveria ficar em dois ou tres dias, contando com imensas mudanças. Alem dos inevitaveis desfazamentos entre a chegada de um comboio e a partida do seguinte.
Deixámos as muxilas a guardar na estação e achámos por bem imitar as famílias que se passeavam na cidade pela tarde de domingo. Descobrimos uma ponte e sob ela, junto ao rio, sentámo-nos. Tinhamos pela frente um túnel de fronteiras e oxalá ele desaguasse na luz, no outro lado. Até ali, enfim, havia resultado.
Em silêncio, na margem arenosa, Ema colhia conchas e eu atirava calhaus à água. Mas dela emergiu um um diabo de cores garridas, com cauda arrepelada e dois cornichos na testa. Sem que Ema visse, segredou-me ao ouvido:
- Não têm hipótese! Vocês serão apanhados! Melhor seria que fossem à polícia e se entregassem! Para os apanhados em flagrante o castigo é bem pior. Aqui em Espanha manda Franco, o do garrote. Olha que ele mata mesmo! Não viste aquela mãe? - e o maligno foi embora com um abanar reprovador da cabeça. Mas outro, com os olhos amarelos e um hálito de fel, substituiu-o:
- Só por inconsciencia ages assim. Se soubesses o que é o exílio, o não poderes regressar aonde nasceste e o teu sangue apela, a mágoa que isso faz, o peso no peito a enegrecer qualquer alegria, o desejo, mesmo nos sonhos, donde não podes ir, lá onde mais desejas. O exílio! O ouvir sempre estrangeiro, as palavras, outrora doces e boas, ja agulhas torturando ouvidos e boca... Há gente fugida há mais de vinte anos e que nunca se adaptou! A saudade mata, sabias? - E este diabo também foi embora, dando lugar a um mais insinuante.
- Que idiotice! Tudo porque não queres cumprir o teu dever! Não nasceste português? Não te cabe defender a terra que te calhou? Quem queres tu que lute por ela? Os que nem a conhecem? Os que não a sentem? Porque foges? Já te imaginaste na guerra, de arma na mão? - Fez uma pausa e retomou num tom que lembrava o ditador: - A guerra, meu querido, é o poder puro. Na guerra a lei suspende-se e manda o desejo. Pode-se fazer tudo! A liberdade, compreendes? O contrato sem compromissos, o senhorio. Pensas que a Suécia é como ta pintaram? Não sejas ingénuo! A propaganda ilude! - E um ultimo diabo, apontando Ema que, longe destas conversas, mergulhava os pés na água, disse:
- Ela vai deixar-te, vais ver. O teu esforço para a converteres a ti é inútil. Ela pertence-me, compreendes? É a minha mais querida esposa. E mesmo que, por uma absurdidade que mal se imagina, a convencesses do teu amor, ainda assim essa tua obra reverteria a favor doutro. - Deu uma gargalhada e concluíu: - Pobre idiota!
Atirei-lhe um calhau e o demo, aos risos, sumiu-se no rio.
Ema veio ter comigo. Parecia transtornada e percebi que algum ou mesmo todos aqueles horrores também a teriam atacado. Agarrou-me e perguntava:
- Aceitas-me, não aceitas?
Mas a sirene de um carro da polícia fez-nos voltar à realidade e deixámos a margem. De qualquer modo estava na hora do combóio. O primeiro.







Espanha tornou-se numa velha fita viscosa de apanhar moscas que queriamo-la atravessar sem que nos agarrasse. De dia. De noite. E outra vez de dia.
Em andamento ou nos transbordos evitavamos os polícias, os chefes de estação, todos quantos - e eram muitos - usavam fardas. A dos guardas civis - chapéu de aço ponteagudo, a lembrar um elmo da idade média - metia medo.
Pouca terra... Pouca terra...
Pó e olheiras.
Outro combóio. E outro ainda. E mais outro. Tantos e tantas vezes transbordos que se perdeu a conta.



Gente entrava e gente saía. À luz fraca das lâmpadas no tecto rombo da carruagem tudo eram sombras, corpos sem consistencia, fantasmas da noite espanhola. Os ossos doíam-nos da dureza dos sucessivos bancos enquanto a nova e gasta composição parava no mais recondito apeadeiro, no mais ínfimo lugarejo: visitas a um primo há muito não visto, regressos à terra depois da ida ao mercado.
Tarefas quotidianas, connosco sempre passando, sempre em viagem.
Olhámos o relógio: nove da noite. No combóio a sério, no que nos preenchia os sonhos e andava à velocidade do ouro, conversava-se nos salões, o sineiro anotava as encomendas para o pequeno-almoço, funcionários de galões dourados abriam os lençois das fôfas camas.
- Na próxima estação descem e aguardam a composição que passará de manhãzinha - disse o revisor mal encarado mas reconhecendo-nos como os que iam lá para o fim do mundo, para Irun, na lonjura da fronteira, à beira do outro lado.
Na sala de espera, gelada, nós e um guarda civil. O homem olhou-nos e, farto de aparentar quem não era, tirou o capacete com as insígnias de Franco mais os sapatos. Um cheiro a muita caminhada invadiu tudo mas acalmou-nos: que mal faz um policia descalço? Na cumplicidade que só a noite permite apagámos a luz da sala e daí a pouco o guarda-civil ressonava. Pela primeira vez senti o conforto de Espanha, a sua enorme vastidão a prodigalizar-me carinho e abrigo. E quando de manhã a luz invadiu o recinto e o chefe da estação veio ver quem seguia caminho o nosso guarda tinha desaparecido.
Outro destino.



Um ponto perdido no mapa ou mesmo sem nome: um nada onde no entanto nascia gente, outra e a mesma morria, o combóio parava, lançava um ou dois apitos como uma ameaça de que nunca mais o veriam e, afinal, voltava.
Descemos para mexer as pernas, comprar pão e encher a garrafa com água.
- Tem bar? - Perguntámos a uma mulher vestida de negro e de olhar arrevezado. Ela entortou a boca como se a palavra a pronunciar fosse mesmo perigosa e repetiu, incrédula:
- "Bar"?!
O combóio afinou nova ameaça de partida e voltámos à carruagem.
No cais de madeira, à moda do velho far-west, a camponeza teimava em olhar-nos como se não acreditasse que, por ali, tinham passado dois turistas.


Os guardas-civis, sentados no banco reservado do apeadeiro, não embarcaram, e a máquina retomou o caminho connosco felizes, como duas crianças a quem deixam ir a passeio sozinhas.


A nova composição, mais gasta e desconjuntada que as anteriores, de madeira carcomida, pareceu abandonada na planície depois de ganhar velocidade. Ninguém entrava, ninguém saia mas ela também não parava. Lá ia, tomada de uma imponderabilidade mítica, e nós, os seus passageiros, mudos num passeio arcaico pelo tempo. O silêncio das vozes, o chio do rodado nos carris, os corpos a inclinarem para o lado contrário à curva, o tédio. E cada vez mais perguntas: como entrar em França?
No jogo da glória certos castigos reconduzem o jogador à primeira casa.



Numa estação seguinte não desciamos mas a carruagem mudou de locomotiva. Aproveitámos para comprar pão e mel: era a hora do almoço, o Sol untava os campos e os trabalhadores descansavam as armas. Há varios dias (quantos?) que íamos a caminho, como se pegados no mesmo sítio. Fora dos vidros a paisagem corria mas tudo seria ilusão, meros desejos de chegadas. O combóio deu um solavanco a dizer que sim senhor, que lhe tinham atado o novo motor. Nomes que as coisas têm porque o andamento, esse...


A roupa cozida ao corpo, o vai-vem no carril, a sensação de que já tinhamos nascido "passageiros a caminho de para Irun"... Mas nunca se chegava e o desejo passava em herança de pais para filhos, assim como a esperança. A caminho, sempre a caminho.
A nova máquina mais lenta ainda.
Irun... Irun...


Outra paragem. Ou a mesma?


O corpo a trepidar como se fosse desfazer-se ou não aceitasse já andar senão em cima de rodas.
- Férias? - Perguntou o passageiro olhando-nos as muxilas.
- Sim - Respondemos afoitos.
- Até onde? - quis ele saber. E eu de pensar: porque não a verdade? Ao menos... E entre o orgulho e a naturalidade do que é assim mesmo, ousei:
- Suécia! Vamos para a Suécia!
Mas a confissão fez-nos ver a temeridade do intento. Suécia? Como? A utopia não é a prima directa do degredo?
O homem, de fato azul com pasta ao lado a indicar negócios, piscou um olho em trejeito cúmplice e, alheio aos meu receio, comentou:
- Ah! Amor livre! - e pôs-se a olhar o fora da janela num devaneio sonhador.
Entre Portugal e Espanha pior que não saber o caminho para Badajoz havia sido a perca do horizonte. E fora só peso, carga, corpo, a impossibilidade de escondê-lo, subtraí-lo ao castigo, ao jugo alheio, à prepotência, ao estado. Mas na Suécia seria de mim mesmo para pertencer a quem quisesse. No entanto nenhuma destas reflexões me ocupava. A ansiedade pregava o pensamento à fuga, adiando a vida até que, atingida a meta, desfizesse a mala. Depois, sim, retomar-se-ía o lá atrás, o no entretanto deixado, sabendo, inclusive, o momento onde as coisas deveriam reatar o seu curso: no segundo anterior à entrada da polícia no apartamento, antes da prisão, das noites a correr um para o outro, do apito do árbitro suspendendo o encontro e a corrida, do acordar, só, na cela gelada.
- Que gozem muito na Suécia! - Desejou o homem preparando-se para descer.
A noite esfriara, estavamos parados junto de um barracão no meio do nada, uma cabana tosca a fazer as vezes de estação. O negociante desvanesceu-se no escuro, ouviu-se o motor de um automóvel a afastar-se e, anestesiados pelo tan-tan do aço nos carris, voltámos ao rosário de apeadeiros até Irun. Mas ali naquele sítio, que não constava em nenhum mapa, que ninguém visitava e nem gare tinha, alguém no entanto sabia da Suécia.



O corpo fez-se dor. Mas o instinto de defesa desorganizava-o para melhor afazê-lo à dureza dos bancos. Por fim era só incomodo quando mudavamos a posição.
A paisagem, um papel que o vento tinha colado nos vidros da carruagem: não apetecia olhar mas também não o conseguiamos descolar: seguia simplesmente connosco enjoando-nos os olhos.
Mas a aproximação de Irun despertava-nos do torpor e o medo reiniciou o seu trabalho, picando-nos o corpo e a lassitude. Como entrariam em França os viajantes clandestinos? Encontraríamos um que no-lo dissesse? No entanto o receio da Gália também se fez hábito e, por fim, só reagiamos à vista de uma farda. Mais perto da fronteira entraram várias. Na inconsciencia que os deuses prodigalizam aos loucos, ou aos poetas, trocámos impressões com o perigo:
- São donde? - Perguntou amigavelmente um dos polícias.
- De Portugal. Fazemos férias.
- Viva Salazar! - Disse um dos fardas para nos agradar.
- Viva Franco! - Retribuimos nós.


Irun!
O combóio que levava à primeira cidade francesa depois da fronteira saía a seguir e não podiamos demorar. Dirigimo-nos ao "guichet".
- Se faz favor, dois bilhetes para Handaya.
As mil e uma paragens do caminho tinham sorvido o já de si escasso dinheiro da viagem e, na carteira, restava-nos uma nota, das mais pequenas, que o banco de Portugal emitia. Trocada por francos nem chegaria a uma dezena e, em França, se lá entrassemos, teríamos de prosseguir à boleia.
Mas na Suécia teríamos tudo.
No cais número dois sediava o "Sud-Express", o da velocidade de lince, acabado de chegar de Lisboa. Finalmente tomavamo-lo. Escolhemos um compartimento vazio e a máquina, como se nos esperasse - e a nossa entrada ali se devesse a uma mera futilidade - apitou, pondo-se em movimento. Acostumavamo-nos ao acolchoado dos bancos, aos espelhos da cabine, à luz indirecta e aos vidros duplos nas janelas, quando, no corredor, surgiu o revisor. Abriu a porta do compartimento, como vinha fazendo com a dos restantes, e avisou:
- Os senhores passageiros em Handaya mudam para o combóio francês. O controlo dos passaportes faz-se no túnel que conduz ao cais dele. Preparem os documentos se fazem o favor. - E, galeria fora, seguiu avisando o resto da carruagem.
As coisas iam definir-se. O jogo da glória chegava ao fim porque em França - havia dito Rodrigo - mesmo que nos encontrassem sem identificação não nos devolveriam a Portugal. O problema era como passar para o lado de lá, como fazer para não voltar à casa numero um...
No entretanto, na cidade de Irun o dia havia chegado ao fim, os chefes de familia regressavam aos respectivos lares, as crianças tinham vindo da escola, serviam-se as refeições, depois o serão frente à Tv, o deitar e o adormecer: um quotidiano que pareceria monótono e corriqueiro. Mas se o nosso, nos últimos dias, tinha ganho em aventura não prestava todavia para viver. Emagreceramos e as olheiras haviam-nos crescido desmesuradamente: o trabalho do medo.
A composição entrou em Handaya.
Tirámos as muxilas do porta-bagagens e também elas pareceram mais vazias. Uma fila de passageiros, dos autênticos, aguardava ja no corredor a saída para o proximo cais. Possuiam a excitação dos grandes percursos moderada na confortavel segurança de quem sabe que os leva a cabo. Pela primeira vez, desde que tinham embarcado em Lisboa, mudavam de combóio e a perspectiva, ainda que incómoda, não era de todo desagradavel: andariam um pouco, pisariam terra firme e respirariam no entretanto o ar livre. Nestas mudanças havia sempre alguém que ficava retido na fronteira mas que tinham eles a ver com isso?
O combóio guinchou e por fim estacou.
Uma voz simpática repetiu, desta vez nos alto-falantes, o que o revisor ja nos dissera:
- Atenção, senhores passageiros, o controlo dos passaportes faz-se no subterrâneo. Por favor...
No corredor do combóio a fila de gente moveu-se. Quando chegou a nossa vez de saltar para o cais já uma multidão descia diligentemente as escadas de acesso ao túnel, lá onde funcionava o posto fronteiriço. Arame farpado impedia ao longo da plataforma a passagem por cima da linha para o cais que servia o edificio da estação. Mas desde quando o rato avança direito para o gato? Se a rede a certa altura acabasse? Cruzando por cima das linhas não alcançariamos o outro lado, o edificio da estação? E por este não entraríamos na cidade?
- Vamos por dentro do combóio... - sugeriu Ema adivinhando-me o pensamento - e, como se esquecessemos qualquer coisa no vagão, voltámos a entrar nele. La dentro percorremo-lo no sentido contrário ao que, cá fora, a multidão seguia. Ninguem nos chamou e na carruagem da cauda descemos finalmente para o cais. De facto o arame farpado poucos metros adiante terminava.
- Senhores passageiros... - repetiu a voz. Fizemo-nos surdos. Saltámos para a linha. Um cão rafeiro, que nos tinha seguido, olhava-nos perplexo de cima da plataforma e descemo-lo tambem, levando-o connosco para o outro cais. Teriamos mudado de lado o mundo inteiro.
Da estação, com os seus guichets e demais serviços, várias portas saíam para a cidade.
Hércules concluíra o terceiro trabalho. Só faltavam nove...



Em busca de sítio para passar a noite, escolhemos o último piso de um prédio em construção. Os casacos serviram-nos de colchão e entre nós e as estrelas pusemos o sonho.
De madrugada o apito de um carro da polícia acordou-nos. Porem a viatura afastou-se e tornamos a adormecer. Embora devessemos manter a vigilancia, dormiamos o sono da vitória sobre as ditaduras portuguesa e espanhola, o medo de, descobertos, tornarmos à prisão. A proximidade da península Ibérica ainda nos inquietava mas a esperança na chegada à Suécia exigia que a esquecessemos. O fugitivo olha em frente.
Mal acordámos fomos à loja de câmbios trocar a ultima nota. A ideia de um pequeno almoço, mesmo que modesto, numa das esplanadas de Handaya enchia-nos de ousadia.
- S' il vous plaît, je veux changer ça en francs.
A empregada aceitou-nos a unica nota com a indiferenca de quem todos os dias manuseia grandes somas. premiu uma tecla na maquina, rabiscou um número e mandou-nos, com fria gentileza, para o "guichet" do caixa. Ele leu a quantia que nos devia e, no gesto rápido de quem tem muito a fazer, separou uma cédula do respectivo maço.
- Voilà! - Mas, em vez dos dez francos a que a nossa pobre nota dava direito, o homem entregou-nos o valor exacto de duas viagens em combóio até Paris!
Há um deus dos trânsfugas?





Paris.
Olho a palavra atento às sensações que me evoca.
Não posso - sinto-o - chegar aqui e acrescentar "fomos à associação procurar Mme. Nelma, a amiga do Rodrigo". Não corresponderia à verdade. Mas não sei, também, se é a ela que procuro, ou outra coisa. Obedeço no entanto ao impulso e narro, enquanto me divido, afinal em acordo com os personagens que me habitam, pelos quais me distribuo, eu o multiplo, a miríade, o incapaz de unidade, do ser na calma sabedoria da existencia, eu, o real trânsfuga, o ansioso por exibição e venda, o prostituto, o retirado e asceta, longe do mundo e do seu excesso, eu tu mesma, a fria e implacável, a mais amada entre todas, a bendita, eu, finalmente e apenas, um outro, o peregrino, o passageiro direcção ao outro lado, o narrador. Faço história? A nossa? Talvez lute pelo tempo que não tivemos e isso seja agora evidente. Mas não nos separaram. Residirá ai a nossa vitória? Ou ela está neste relato, no espaço que ele alcance numa memória alheia comum como outrora Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda ou Genevieva e Lançarote? Não sei, não sei e, no entanto, continuo, mas há um frio, todo vindo de dentro, que me gela, e o silêncio em meu torno é medonho, e minha sombra escrevendo faz-me medo. Serei capaz de chegar a bom termo, contar as voltas que demos, levar a cabo o destino, esconjurando a nossa falta?
Tomo outro comprimido e ele dá-me forças, a memória reactiva-se outra vez em Paris. Porém, mosca presa na teia, não consigo libertar-me e prosseguir a história: partiu-se o fio que a desenrolava, partiu-se qualquer coisa que me rodopia, e atém a este momento, refém da necessidade de ficar contigo, sem palavras a mascararem o tempo, a realidade, tu, eu e mais nada.
Lá fora a rua esvazia-se, passou há pouco o carro do lixo. Mas porquê? Porquê Paris, porque esta palavra há-de ter tal efeito?
Liberta-te, história, e prossiga-se o teu curso como rio a que margem alguma prende.
Nesta secretária, cujo tampo de vidro é mais quente e vivo que todavia eu... Como é desamparado o espaço em volta quando nada o ilumina, o horizonte não brilha, nada anuncia uma qualquer espera.
Esforço-me por galgar este patamar e sair daqui, ir embora, afinal o outro lado não passa de mais um conjunto de palavras vazias, ias, as.
Retomo.
Para o começo chegar a seu cabo, para outra coisa começar ainda, neste movimento cumulativo de começos e fins, como quem colecciona asas de vento, tão inutil como quem se suicida.
Paris que evoca?
A memória desvanece-se e as teclas paralizam-se, criam teias, ferrrugem. O tempo não anda no relógio. Quebra-se. O teu tempo e o meu. O de Paris. Este em que te mantenho. Que se delineia e de fantasmas nos faz possíveis. Tu. Eu. A paixão, o ser tudo demais para a exiguidade dos corpos, dos nossos minúsculos corpos: a contrução obediente e bem comportada da narrativa, no limite do caos, da troca dos verbos pelos adjectivos, o massacre dos complementos, a fuzilaria dos eus.
Paris
Local priviligiado desta página, da linha que me escraviza e não deixa virar a folha.
Todavia, não foi em Paris que alguma coisa se passou. Foi na "Fénix", em Breda... E, mais à frente, em Amsterdam. Onde a neve nos petrificou os corpos e necessitámos de mil alcóois para reaquecê-los. Sim. Tudo foi aí. É esse abismo que ora exige paragem e lembrança? O seu tributo? É ele a querer que finalmente o sinta?
Paris: a vingança da memória. A sua escrita-liquidação como, para outros, o divã do psicanalista, a sessão no terapeuta. O passado não perdoa? O meu crime atormenta-me? Socorro, socorro!
Silencio em volta.
Choro e facas.
A custo retomo.... Paris... O desembarque em Austerlitz. Que fizemos? Ah sim, estavamos exaustos mas satisfeitos. C'os demónios! Passaramos quatro fronteiras! Para a Suécia faltavam apenas oito.
Procurámos a direcção que Rodrigo dera.
Pausa.
Esvazio nova garrafa. Os comprimidos não surtem efeito.





- És um assassino! Foste tu quem a empurrou! Tenho medo de ti! - As palavras tinham saído a Nelma sem querer mas elas ali estavam a minarem o que haviam vivido, a impedirem-lhes o futuro juntos.
- Foi ela que se atirou! - A voz de Rodrigo saía tímida como se ele próprio não acreditasse no que dizia. De qualquer modo tinha a consciencia de que a morte de Ivone exigia luto pesado, e que o seu afastamento se liquidaria com outros afastamentos mais. Miguel havia fugido, Nelma queria sair da sua vida e ele próprio...
- Vou emigrar - disse ela.
- Com a tua idade?
- É sempre altura de recomeçar.
A cozinheira afiou a faca que, de velha, dera em cortar torto. Recomeçar... Deixar o que tinha esgotado as suas possibilidades e explorar lá onde tudo era ainda possivel, a esperança de novo uma virgem de vestido branco.
- Vou para Paris. Tenho lá uma prima. - Disse, ao mesmo tempo que sentia a necessidade de uma força superior à que possuía para, naquela altura, inflectir uma nova direcção às coisas, mudar-lhes o rumo. Mas o vento soprava a seu favor e a convivencia com Rodrigo, depois do suicidio de Ivone, parecia sem sentido. Afinal as duas mulheres, que tanto se desprezavam, faziam parte do mesmo universo e o fim de uma implicava o desaparecimento da outra. Rodrigo para quê?
- Uma prima em Paris? Essa é boa!
- Se ela lá não estiver invento-a! - Respondeu com a secura de quem não se dispõe a tolerar mais atrazos na vida. Aonde já não iria se obedecesse ao coração no preciso momento em que ele lho pedia? Quantas vezes não quizera deixar Rodrigo e a decisão havia amolecido, desfeita no rame-rame do dia-a-dia? Basta! Tinha de dizer basta! Ficar com Rodrigo, agora que a outra morrera, era aceitar um despojo e isso seria descer demais. Deus sabia o que já tinha aturado!
- Deixo-te. É isso.
- Vingas-te? Não. Penso em mim. Volto a ter amor-próprio.
Olhou o homem com quem partilhara trinta e tal anos de vida, que assistira ao seu crescimento, ao seu fazer-se mulher. O seu passado. Mas este tornara-se-lhe estranho e aqueles cuja mala de viagem durante anos e anos havia sido a mesma necessitavam já de uma para cada qual: os destinos de Nelma e Rodrigo separavam-se, ambos deviam perguntar-se: "isto de quem é?"
Numa manhã invernosa Nelma, depois de se desfazer de tudo o que não podia levar consigo, reuniu o que restava e abalou para Paris. Desde esse dia até à sala do "Centre d' Acceuil aux Emigrés" onde atendia os que, como ela um dia, desembarcavam na cidade-luz apenas com uma mão vazia de esperança, distavam quinze anos. A decisão de mudar de vida não tinha sido em vão. Olhando para trás Mme. Nelma concluía pelo menos uma coisa: se o destino pode muito, a vontade humana não lhe fica atrás. Mas naquela manhã o passado visitou-a.
- Rodrigo está bem? - quis saber.
-Sim. Pediu-nos que a saudassemos.
Nunca mais o tinha visto. O esforço que a mudança lhe exigira não se compadecia com olhares para trás. Talvez, se se puzesse questões, devesse perguntar-se porque ficara tantos anos presa a uma situação que, vista ao longe, lhe parecia insustentavel. Mas as coisas são assim: enquanto não surge um novo elemento os restantes não viabilizam um cenário diferente. A inércia. Depois, do ponto de vista do que mudou, o estranho é as coisas não terem acontecido antes. As conjunturas e as suas limitações.
- Queremos ir para a Suécia. Lá...
- A Suécia?
- Sim. A Suécia...- Nelma reconheceu no desejo dos jovens a crença escandinava de Rodrigo, a sua esperança de que as experiencias levadas a cabo naquela parte da Europa fossem aplicáveis a todo o mundo. E.. porque não? Porque não satisfazer o desejo do seu ex-amante? Fez uma pausa para reflectir enquanto fingia consultar um mapa. Havia qualquer coisa de inadiavel nos jovens sentados à sua frente que também a predispunha a atendê-los. Talvez a veemência com que afirmavam quererem o Norte. Se o mundo fosse feito de gente assim, tão decidida, acabar-se-ìa depressa. Sorriu da ideia. Afinal era ela que não acreditava. Percebeu que Paulo e Ema - chamavam-se assim? - aguardavam uma resposta, a decisão sobre as suas vidas. Mas seria isso? Contra todas as aparencias e condicionantes - nunca houvera prima nenhuma em Paris e a vinda para França fora na verdade um salto no escuro, qual cidade-luz! - Nelma mudara o que parecia não ter mudança. Afinal tudo o tem. Mas guardava ainda, no fundo de uma gaveta, o último avental da pensão Vitória. Trinta e cinco anos de cozinha! E afinal...
Encarou os jovens na sua frente. Se aqueles desistissem que seria do mundo? Havia, pois, que ajudá-los, facilitar-lhes a tarefa. A maioria resigna-se ao menor pretexto: o da idade é o mais frequente e, pior que tudo, arrisca-se a ser socialmente aceite. O mundo é tão parvo! Com um gesto decidido premiu uma campaínha e sossegou as visitas:
- Vou ver o que posso fazer. - E não resistiu a acrescentar: - Mas olhem que aquilo lá no norte também não é assim tão bom... - Aliás não o é em parte alguma e o que nos resta é um bom fabrico do dia-a-dia - ía a acrescentar. Mas calou-se. Ruiz, fugido de uma prisão de Franco, aonde aguardava pena capital, entrou no gabinete. Nelma tinha uma especial simpatia por aquele funcionário que servia nos contactos com o mundo latino. Alguém que só no ultimo momento se salva da morte de certeza que experimenta em si a relatividade das coisas. Neste sentido todos, em determinado momento, deveríamos sujeitarmo-nos a uma situação limite. A raça amadureceria mais depressa. Mme. Nelma dirigiu-se a Ruiz:
- Conduza por favor estes jovens a um sitio seguro. Não têm documentos e estão de passagem para a Suécia.- Virou-se para os trânsfugas:
- Se escreverem a Rodrigo digam... - Hesitou. Dizer o quê? Que tinha vencido e esperava que ele também estivesse bem? Que vistos à distancia os anos passados em conjunto haviam sido de espera inútil? Que importava jáisso? Estava tudo tão longe! Por vezes nem já sabia falar português! E os franceses haviam-lhe ensinado tanta coisa! Claro, houvera a sua própria capacidade de adaptação, a sua coragem e inteligencia. A Suécia... Tantas vezes que Rodrigo lhe tinha falado na Suécia. E ela também acreditara. Senão, como explicar a sua mudança, a sua presença ali? A Suécia.... "Lá é bom!" - dissera Rodrigo tantas vezes... Nelma sorriu. Encarou os jovens e concluíu a frase: - ... digam que lhe agradeço.




Ruiz falava um português mesclado de espanhol e conduziu-nos numa carrinha a um apartamento amansardado. Mal ficamos sós, Ema e eu deitámos-nos para dormir. Era apenas meia-dia mas há quanto tempo não usavamos uma cama!
O dia passou quase sem darmos por ele, connosco acordando para o indispensavel mas de madrugada bateram à porta, no modo em que Ruiz tinha dito que poderiamos abrir. Era ele acompanhado por uma mulher elegante, de vestido comprido. Ruiz trazia "smoking".
- Incomodamos? Passámos aqui perto e... - falava na voz presa dos bêbados e, encostando-se a uma parede Ruiz deixou-se escorregar até ficar sentado no chão. A cabeça andar-lhe-ia à roda, pois segurava-a com as mãos. A companheira explicou:
- Chamo-me Rita. Não queria vir mas o Ruiz insistiu que vocês... - Deu a ideia de que procurava os nossos nomes ou uma forma gentil de nos tratar. Ele socorreu-a:
- Peregrinos. Chama-lhes peregrinos. - E num tom jocoso explicou: - Vão a caminho da luz! - Rita olhou-o e percebeu-se que tambem não apreciara a intervenção do companheiro. No tom de quem procura uma conversa que torne possivel a convivencia, perguntou-nos:
- Dormiam? - Ruiz no entanto não deu tempo a que se estabelecesse o colóquio. Continuando num tom agressivo indicou Rita:
- Não lhe liguem. É uma puta! - E para a mulher directamente: - Uma puta é o que tu és e hei-de dar cabo de ti! Por momentos a mulher pareceu não saber como reagir. Ruiz aproveitou a pausa para voltar à carga: - Puta! És uma puta! Vendes-te por tudo! Puta! - E repetiu a palavra "puta" várias vezes como uma criança que, descobrindo um novo vocábulo, o utiliza até à saciedade. - Puta! - Satisfeitos com as visitas que nos animavam a clausura não sabiamos já que atitude tomar. Rita recompôs-se e exigiu-nos por sua vez a atenção:
- Tenho a certeza - Disse num tom onde havia o prazer da vitória que se antegoza - que este senhor não vos contou mas ele esteve na prisão... - Fez uma pausa como um actor entregue a tirar o melhor partido da sua fala e prosseguiu: - E sabem como é ele que se safou? - A troco de lá meter outros! - Encarou Ruiz para lhe ler no rosto o efeito das palavras. No olhar de Rita resplandescia o brilho dos bons momentos do teatro quando, no palco, o intérprete esquece o papel e sobrenada na verdade. - Vá! Confessa! Foi ou não assim como digo? Denunciaste ou não outros?
Dava a ideia de assistirmos a um drama que se repetisse periodicamente, com os protagonistas vestidos a rigor. Era a nossa altura de lhes apreciarmos o número e Rita e Ruiz representavam-no com a solenidade dos grandes rituais. Porem a cada representacão iam ficando mais bêbados e dignos de lástima. No fundo o hábito da pena tornava-os impiedosos e andariam de palco em palco, perdidos pela remissão que nunca vinha. Tinham-se tornado um espectáculo.
- Encostaram-me à parede - Justificou o homem, dando a ideia de retomar o domínio da situação - Iam matar-me! Não sabes o que isso é!
- Sim? E agora, sentes-te vivo? Serviu-te de alguma coisa o sacrificio? Poupaste-lhes trabalho, foi tudo!
- É preciso passar pelas coisas para compreendê-las.
- São precisos príncipios para que as coisas nos obedeçam. Tu sim, és um prostituto e vendeste-lhes a vida. E só agora percebes que o que te deixaram não presta. Por isso te embebedas! Cobarde! Cobarde e palhaço. Houve um silencio e Rita levou a garrafa à boca bebendo um grande trago.
- Tu vendes-te porque queres. Estás em liberdade! - atacou Ruiz.
- E tu? - Perguntou Rita passando-lhe a garrafa num sinal claro de que se as réplicas os afastavam, ambos faziam no entanto parte da mesma peça. - Se queres saber, vendo-me porque gosto de humilhar quem me compra. É a minha vingança. Possuo os meus clientes. Mas a tua venda foi total: deixou-te nada. - Ruiz escondeu o rosto entre as mãos. Talvez necessitasse de uma pausa ou fosse ainda a bebedeira. Rita, à semelhança do entertainer que procura no publico a cumplicidade necessária à sua "blague" apontou com um gesto de cabeça o homem e dirigiu-se-nos: - Coitado! Não passa de um cadáver!
Ema e eu olhámo-nos. A nossa surpresa era enorme. Ruiz, apoiado à parede, levantou-se e retomou a palavra. Porém, como se ambos tivessem esgotado a rábula que lhes dizia respeito, o homem virou-se para nós e vociferou:
- A Suécia, não é? Idiotas! A Suécia! Ah! Ah! Deixa-me rir. - Rita, animada com a intervenção do companheiro começou às gargalhadas tambem, numa cumplicidade que nos pretendia fazer mal. - Com que então a Suécia, hã? - continuava Ruiz. - A Suécia! Olha a Suécia! - E riam ambos a bandeiras despregadas. O homem pegou na garrrafa e atirou-a contra a parede: - Cacos! Cacos é o que há! - E começou aos berros: - Il n'y a que la mort! La mort! Vive la mort!" No andar de baixo uma voz de mulher esganiçou-se, ao mesmo tempo que um pau batia furioso por baixo do soalho:
- Vous n'avez pas le droit! J'appelle la police! Vous n'avez pas le droit!
Que sucedia? A nossa fuga terminaria numa zaragata, ocasionada por quem devia evitar-nos confusões? Quem eram Ruiz e Rita? Porque nos visitavam? O mundo de novo derruía e ali estavamos, indocumentados e à sua mercê: as fronteiras, o medo, a mulher na seara, as salas do sono, a perca, a grande perca, o não saber como, porquê ou onde, o caos, o barbeiro e o seu riso, enquanto a navalha volteava no ar "Ah! Ah! Aqui? Aqui tudo é possível!
A voz de baixo calou-se. Ruiz, encostado de novo à parede, tornou a escorregar. Rita imitou-o e os dois, com o torso direito mas de rostos caídos, eram duas marionetas deitadas fora, depois de intenso uso. No desejo de que nada mais sucedesse, que as surpresas acabassem de uma vez por todas, que a rotina retomasse o seu domínio, mesmo que o imposto a pagar fosse o tedio ou o enjoo, peguei numa manta e cobri-os. Como actores em fim de representação Rita e Ruiz aconchegaram-se para dormir.
De manhã, ao acordar, Ema e eu estavamos sós e o quarto apresentava-se limpo e arrumado. Tinha sido um pesadelo? Coisas há que sucedem numa outra realidade e não são menos eficazes. Teria sido assim aquela noite? Os diabos insistiam em inquietar-me?
Três dias mais tarde um rapaz, da parte de Mme. Nelma conduziu-nos à gare do Norte. Entregou-nos bilhetes de combóio e disse:
- Descem em Maubege. Lá alguém perguntar-vos-à se vão para a Suécia. É o vosso contacto. Sigam-no.


A gare do Norte era grande e cosmopolita, cheia de gente atarefada, alheia uma à outra, cada qual desprezando, com a indiferença das estrelas, o que nao lhe dizia respeito. A multidão saía e entrava nos combóios, tabuletas apelavam Mr. Robinson ou chamavam ao "Hilton Hotel" e todos, ou caminhando de um lado para o outro ou parados, obedeciam a um deus esteta, cujo unico interesse era a excelente apresentação das coisas, fossem elas um desastre, o roubo pelo carteirista ou ainda a nossa fuga. Na gare do Norte a vista curava-se dos apeadeiros minusculos onde o destino não ia alem da estação seguinte, salvo se a miseria, a polícia ou o génio obrigassem à fuga.
Tomámos o combóio, viajámos na paz de quem tem o necessário para fazê-lo, e descemos asisadamente em Maubege. Já desesperavamos de que alguem nos encontrasse, quando um polícia se nos dirigiu:
- Allez-vous pour la Suede?


















Ninguem nos tinha dito que o nosso guia seria um agente duplo mas tambem ainda ninguem afirmara que as coisas eram simples, lineares ou transparentes. A pratica não o confirmava e tendo eu trocado o deus familiar por entidades raras e de culto estranho era, pois, normal que a partir de certa altura a luz fosse ja escura e o Sol sombrio, se outros prodígios não tivessem ainda lugar. Na experiencia da vida até a morte é uma sua declinação. Mas, analizadas as coisas com a calma que a distancia permite, também é verdade que, carentes de poder como estavamos, ninguém melhor que um polícia para nos subtrair às suas devassas. A não ser que o homem de olhar bondoso e gestos suaves que se nos aspresentava como o contacto combinado com Paris não fosse um chui mas uma sua máscara, cuja missão evitaria a atenção sobre a nossa.
- Tenho ali o carro. Desculpem a demora. Allons? - Connosco na viatura e já em andamento, explicou: - Vou conduzir-vos a Mons, a primeira cidade belga. La tomarão o combóio para Antuérpia donde parte ao fim do dia, uma camioneta que leva trabalhadores holandeses de regresso à Holanda. Atravessa a fronteira sem paragem e fica logo em Breda. Ai apanham o combóio para Amsterdam.
Na fronteira franco-belga, os funcionários que nos observaram bateram a pala ao nosso condutor e desejaram-nos boa viagem. As coisas sucediam como em certas fitas do cinema e, com surpresa, descobria o seu realismo.


A jornada no lado belga chegara ao fim e os nossos companheiros da camioneta para Breda, faziam um barulho tremendo dizendo coisas que não percebiamos e que nem eles talvez entendessem. Eram uma necessidade de fala, um sinal de qualquer coisa que não se tinha calado, que recusava fazê-lo, e que dizia, comentava, contorcia-se, tirando vingança das horas passadas por conta de outrém.
Mas tal como o policia dissera a camioneta não parou no posto fronteiriço e o unico senão foi que, na estação de Breda, o comboio para Amsterdam só partir pelas seis horas da manha seguinte. Havia que passar algures a noite.
O tempo ou nos embebe e alaga, ou comprime e suga no seu buraco negro. No caso, retirados da utilidade das coisas, colocados na prateleria de um enorme domingo, voltavamo-lo a ter em excesso, devendo queimá-lo num auto-de-fé onde nos ia a vida.
- Passemos a noite numa discoteca. - Sugeriu Ema. Mas era cedo para bater à porta da "boite"- "The Fenix! The Fenix is really good" - indicou o caixa de um self-service citando-a com os olhos em faísca, como se, tambem ele, não sobrevivesse à escravatura sem a ressureição programada para depois do encerrar das contas - e, sentados num pub assistimos no entretanto à partida dos clientes que foram jantar a casa e ao regresso doutros. No entretanto acompanharam-nos os bêbados confessos, aos quais o vicio desnudara e a quem já não importa a composição das coisas, o afixar a máscara de sóbrios, uma aparencia de todos os dias. Os grandes decadentes que, quanto mais bebem, menos se perdem e olham a colecção de copos com a desesperança de quem não alcança a ilusão e fica irremdiavelmente colado ao vício. Um dia talvez se curem mas no entretanto lambem o tapete.



"The Fenix"...
Talvez o símbolo se adeque a este meu esforço de levantar os actos, cingir os dias como se pudesse deitar fora o que não presta, guardando a boa memória, escrevendo a historia certa, sem engamos nem falhas: "The Fenix"...
Tudo uma vez mais como se o antes não tivesse acontecido ou a ingenuidade nos não impedisse a vida, o seu pleno aproveitamento. A mim nunca ninguem disse nada, aprendi tudo sozinho - e a frase d'algures lembra-me os pais que foram, a tia que não esteve, as casas que não recolheram
Na pista da Fenix os dançarinos mantinham-se há tres mil dias dançando e a musica - sempre a mesma - rodava-os como a bonecos de feira, sobre os quais atiramos bolas de ódio, a impotencia do alvo ser ao lado, mais abaixo ou mais acima mas nunca lá, em nós mesmos. Na Fenix comemorava-se o tempo sem memória nem história, o vazio da existencia, a desnecessidade da esperança e o momento prolongava-se nas vísceras do mito, no ritual dos corpos, na dança arcaica, na matriz. Não estavamos vivos? Não éramos? Não tínhamos a certeza dos sentimentos e das sensações? Que mais queríamos? A Suécia não seria em nós?
Não.
Ainda nao.
O perdão não pode descer sobre o verdugo numa feerie de beijos e palmas como quem não conheceu os tormentos da roda, a dureza dos remos, ou a humidade na gruta de Tantalo.
Na "Fénix", talvez por influencia do nome, talvez por coisa nenhuma ou, ainda, por nada, por esta minha necessidade de fazer historia, de tirar ao passado o lacre dos dias, talvez pela teima em que a morte não leve tudo, talvez, ainda, porque chega um dia em que o cansaço se transmuta em risos e vivas, a viagem, a travessia, a cruzada, a peregrinação, o salto, o voo para o outro lado, deixaram de fazer sentido e surgiu, agudo, percurtante e ferino, o momento, o presente do indicativo do já, aqui e agora.
Na Fénix, fartos de corridas e de metas, a dança foi-nos a chegada e o percurso para o exílio tornou-se numa "passarelle", com os desterrados, ao som de badalos e foguetes, a caminho do degredo.
- Danças?
E não deixámos mais a pista, numa bebedeira de musica e ritmo, de perca, sobretudo ao que, desde há tempos, não éramos: nós mesmos. A união, o reencontro sem apitos ou fronteiras, guardas ou medos, as noites famintas de estrelas, a luz láctea do esplendor. Finalmente.
Páro.
Páro de novo.
Na Fenix as coisas revolveram-se, as palavras tomaram ainda conta da historia e no auge do esgotamento tu disseste:
- Na prisão denunciei-te.
Páro. Páro de novo.
A história tornou-se outra.





Até ali nenhum de nós falara de Caxias. A imediata convocatória para a guerra, a decisão da fuga e a sua preparação, tinham-nos esgotado o tempo do reencontro. E talvez um certo pudor, ou o desejo de esquecer, nos impedisse também a fala. Mas em Breda, na discoteca, no quente da pista, no unto dos suores, no junto aos corpos, dentro da musica, no meio do extenuamento, tu confessaste:
- Sim, amo-te. Mas em Caxias denunciei-te.
Eu nunca tinha tido qualquer actividade política. Pensar que o meu ataque ao "Monóculo" fosse premeditado era perverso e nem mesmo sabia estar-lhe destinado, Patrício é que tratara de tudo. Mas tu, a chorar, repetias:
- Denunciei-te, meu amor. Denunciei-te!
O mundo pode desagregar-se tão depressa como a folha seca que os pés pisam. O riso do barbeiro e os gritos com que me espancavam: "Estás para aí com coisas e já sabemos tudo, estás a ouvir? Tudo!" assaltaram-me de novo. E no entretanto tu choravas:
- Perdoa-me. Ainda não tinha tido coragem para to confessar. Perdoa-me. Quis provar-me que era capaz de fazê-lo. Talvez sucumbisse à tortura e, aí, teria sido a dor, o tempo sem dormir. Assim... Assim foi-me outra prova. A última. Fui capaz. Não foi a tortura do sono. Fui eu, logo ao príncipio. No primeiro dia daquilo, ainda com a lucidez toda. De livre vontade. Para superar o amor que te tinha. Para não me deixar subjugar. Para vencê-lo. Perdoa-me! Perdoa-me! Amo-te tanto, tanto! Porque ganhaste. Tu ganhaste! Amo-te. Amo-te. Perdoa-me. Sou tua. Perdoa-me.




Amsterdam pareceu-nos uma cidade alheia mas eramos nós o distantes. Na direcção que o polícia dera não nos esperavam e insistimos num telefonema para Mme. Nelma, em Paris. Não queriamos a Holanda. A Suécia, mais do que nunca, tinha-se tornado urgente: queriamos recomeçar, esquecer, esquecer tudo.
Mas não foi assim.
Embora quisesse perdoar, a memória impôs silêncios e, para não ouvi-los, embebi-os em alcóol. Aliás aquando da tua revelação logo o propuz: "Celebremos a Vitória do Amor!" e esvaziámos a primeira garrafa.
Ao contrário de Paris, onde não tinhamos deixado o refugio, em Amsterdam saímos todos os dias e sobretudo à noite. Mas nunca ninguem nos perguntou por documentos ou quem eramos. Na verdade também não o sabiamos. De regresso ao hotel, adormeciamos bêbados e acordavamos para nova noite.
A partir dali seria sempre assim.
De Valentino e Marilyn restam os destroços.




Que a tinta sugue o papel como o magma do vulcão que a tudo destrói. Ver de novo com a distancia que a narrativa exige, cegar as meninas dos olhos, sufocar o cheiro e o grito na boca. Nada mude. Eu sou eu, tu és tu, Ema deve ser ela, eu um outro e a intriga faz-se no papel como mandam os manuais da boa convivencia. O sujeito, os predicados, os... Porque a história náo chegou ao fim, ela.
No hotel onde nos hospedaram havia um aviso: no dia seguinte deviamos estar prontos. Um casal foi buscar-nos e encontrámo-nos de novo na auto-estrada
- Entraremos clandestinamente na Alemanha - disse o homem. - Depois tomam o combóio para Flensburgo, junto à fronteira com a Dinamarca. Aí espera-vos um carro.
A viatura trocou a auto-estrada por um caminho secundário, outro, outro mais ainda e encontrámo-nos numa vereda estreita, de terra batida, rodeada de arbustos.
Entardecia.
Os raios róseos do Sol atingiam-nos por entre a folhagem roçando o carro. O destino pintava-nos a fuga a sangue? Ao lado do condutor, a mulher virou-se para trás e informou:
- A Suécia não é possível.
E o homem repetiu como se não a tivessemos ouvido.
- The Sweeden is not possible.
Continuámos calados e ela tornou:
- Vão para a Dinamarca.
Encostaste a boca ao meu ouvido e perguntaste:
- Sabes onde é?
Ora, que importava!



Em Flensburgo, às sete da manha, não havia ninguem à espera. "Se não vos procurarem á chegada é que aparecerão pelas sete da tarde." - haviam dito.
Na cafetaria que acabava de abrir um homem de aspecto ensonado explicou-nos, num inglês aos soluços, que o padeiro não chegara e a máquina do café ainda não aquecera. Agarrados um ao outro, como se por causa do frio, esperámos. Faltavam 12 horas para o encontro e não tinhamos pressa. "Em Flensburgo os dinamarqueses atravessam a fronteira para comprarem electro-domésticos e os alemães vão ao outro lado por causa das "sex-shopes" - haviam igualmente dito os holandeses.
(Que interessava?)
Um rio.
As margens, ao contrário das que ladeavam o de Badajoz, eram arrelvadas. Propuseste um piquenique. Pelas onze horas - depois de mais voltas ao burgo - adquirimos ovos cozidos, pão, fiambre e fruta. Vinho. E voltámos ao rio. Grupos de famílias estendiam-se nas margens, em lazer de dia santo. Crianças brincavam. Uma bola veio parar junto das nossas muxilas.
- Entchuldigung! - Pediu uma petiza. Abraçaste-a lembrei o que, lá atrás, um dia tinhas dito: "Se alguma vez te amar quero ter muitos filhos." A criança deixou-nos e no silencio que se cavou passei-te a garrafa.
Não haviamos trazido copos.
As treze e as quatorze horas. As quinze. Surgiram as famílias que tinham saído de casa depois do almoço. Um grupo de miúdos atirava pedras à àgua. Olhava-os como se os não visse. O meu pensamento, mal afeito às sucessivas ressacas, afastava-se para algures. A meu dormitavas e observei-te. De tão bela fazia mal olhar-te. Decidi ir buscar mais alcóol e deixei-te um bilhete. "Faço compras". No caminho entrei num bar e outro ainda. Um terceiro.
Não apeteceu voltar.
Algures bateram as cinco horas e arrumámos os despojos do piquenique. Depois visitámos ainda alguns bares. Às sete da tarde chegámos à estação.
Bêbados.
- Are you the fugitives? - Perguntou o homem que se nos dirigiu. - Impossível vir de manhã. Houve um problema. - Tiveste um movimento de desiquilíbrio e ele apoiou-te. - Talvez - propôs o individuo - seja boa ideia tomarmos um café...
Mais sobrios, metemo-nos num automóvel.
A noite tinha caído. Na auto-estrada, o condutor apontou umas luzes no caminho.
- Além é a fronteira. Daqui a pouco páro e saem. - Fez uma pausa para confirmar que o ouviamos e prosseguiu: - Durante cinco minutos seguirão pelo bosque na direcção que vos indicar. Depois chamarão "hund!" e, do outro lado, alguém responderá. Decorámos a palavra.
- Hund! - Fiz eu.
- Hund - Experimentaste tu.
- Significa "cão" em dinamarquês." - E o condutor fez um sorriso que pretendia incutir confiança: - O símbolo da fidelidade.
A noite tinha coberto tudo e, aqui e além, viam-se as luzes de casas provavelmente em hora de refeição. Um lar como eu tanto tinha desejado. A Suécia!
O homem, tal como tinha dito, parou. Desaparecemos no meio do bosque e ouvimos o motor do carro a ir embora.
A embrieguês deu lugar a uma lucidez má. Por entre o recorte das árvores, à minha frente, a lua iluminava-te a silhueta.
Um pedregulho.
Depois matar-me-ia a mim. No passeio solitário em Flensburgo havia comprado uma corda.
Nunca mais teriamos que satisfazer este ou aquele senhor, vestir as suas cores ou dar a vida pela sua bandeira. Os nossos corpos, que nunca nos tinham pertencido, repousariam numa terra finalmente de ninguém, entre duas fronteiras. Sem dono.
Não queria falhar o alvo mas tu voltaste-te e surprendeste-me. Iluminado pela Lua o teu rosto era o mais cândido.
- Nunca perdoarás, não é verdade? - Disseste com uma indiferença que me toldou. - Talvez não me ames tanto como queres... - E num movimento surdo ajoelhaste no chão e ofereceste-me a cabeça. - Amo-te. Amo-te muito. Mas preveni-te: o amor perder-me-ia. Mas se a minha te liberta, age e depressa.
Deixei cair a pedra e tombei também. Abraçado a ti chorei, chorámos. Onde estavamos? Que faziamos? Para quê?
- Hund! - Rezámos por fim baixinho
- Hund! - Responderam do outro lado.





O novo guia era uma mulher com cerca de sessenta anos e à luz da sua lanterna atravessámos sucessivos quintais até desembocarmos numa rua de vivendas. Ela abriu a porta de uma:
- It's hear! - e desejou: "Welkomment to Danemark!"
Em vez do jantar aceitámos café com biscoitos e no dia seguinte, pela manhã, partiríamos para Härhus. "Lá espera-vos o "Comité de Recepção"
Naquela noite quisemo-nos amar mas não consegui.
Pensei ser do vinho.





Na gare de Härhus um homem apresentou-se-nos.
- Chamo-me Amilcar. Apontou outro que fazia compras num quiosque e disse - Aquele além é o Carlos. - Este chegou junto de nós, e depois de nos cumprimentar referiu-se ao jornal que trazia na mão e que viera espreitando no percurso desde o quiosque: - Só falam das ditaduras quando lhes convém! São uns filhos da puta!
No carro, onde tomámos lugar com Amilcar ao volante,um dístico no "tablier" dizia "Tudo pela revolução!".
A revolução...
Os estudantes que, lá atras tinha frequentado, os que se exercitavam na tortura, tambem falavam em revolução. E eu? A vida dera tantas voltas desde a noite em que cerrara as veias para ver até onde poderia ir. Revolução... Que me interessava ela? Sim, ganhara a aposta contigo mas o premio sabia a fel.
O carro parou junto de um prédio de três andares e, no terceiro, entrámos para uma sala onde havia um grupo de homens. Carlos fez as apresentações. Emílio, o mais velho, de longas suiças brancas, mandou-nos sentar. No entretanto uma criança veio a correr para junto de um dos circunstantes. Pareceu que lhe chamava pai e logo uma mulher veio buscá-la. Emílio deu-nos atenção:
- O nosso comité encarrega-se da recepção aos refugiados portugueses - E no mesmo tom acrescentou: - Fiquem a saber que isto é uma grande merda! - Alguns dos presentes riram e Emilio, sempre sério, prosseguiu: - Amanhã vão ao ministério dos estrangeiros, em Copenhaga e levam uma carta do comité para eles saberem que estão protegidos. Se houver problema metemos um advogado. Mas todas as semanas chegam dois ou três de lá de baixo e ate agora tudo se tem passado. Depois perguntou:
- E Portugal? Como está aquilo? A revolução é para breve?
A pergunta foi para ti e repetiste o "Para breve?", como quem se certifica de que ouviu bem. Mas que sabiamos da revolução? Nunca fora tema que falasssemos.
- Há algum tempo que não temos notícias directas. - disse Carlos a justificar a pergunta de Emilio.
Fez-se um silencio desagradavel e intervi.
- As coisas acontecem quando menos se espera! - Emilio olhou-me como se eu soubesse mais do que parecia e tentei desfazer-lhe essa impressão. Sem saber bem o que dizia, acrescentei: - À vista desarmada não se vê nada.
Ele anuiu:
- É verdade. Mas cada vez há mais gente a recusar a guerra...
Uma mulher entrou e falou em dinamarquês com um dos homens. Ele desculpou-se:
- Tenho de resolver um problema com o meu miúdo. Já venho.
Na sala o interogatório continuou:
- Estiveram presos?
Qual seria a reacção do grupo se dissessemos que tinhamos sido prostitutos de luxo?
- Vocês são casados? - Quis saber outro mas um terceiro veio em nosso auxílio:
- Deixa-os lá! Devem estar cansados! Vamos mas é escrever-lhes a carta.
Fizeram um rascunho, adaptando a minuta às nossas identidades e uma mulher avisou que o jantar estava pronto.
Numa dependencia contigua uma toalha branca cobria uma mesa comprida. Tu e eu sentamo-nos frente a frente, na fronteira entre a zonas dos homens e a das mulheres com as crianças.
Mas mal começámos a comer entrou um individuo esbaforido.
- Camaradas! Estamos a ser dizimados! A Pide caçou o Oliveira e ele "piou" tudo. Já foram presos mais de vinte dos nossos! - Deixou-se cair num assento, como se as suas notícias fossem as mais pesadas do mundo enquanto Amilcar, levantando-se, exclamava:
- O Oliveira? Não é possível! Há que verificar a informação!
Lembrei Caxias e as suas salas do sono. O Oliveira fora-se abaixo? Em que estado? Em que altura não aguentara mais? Ou teria falado logo de inicio, como... Não gostei da lembrança e no entretanto todos se tinham deisado a mesa. Um gritava:
- Traídor! Mal o apanhemos cá fora ele vai saber o que é a justiça revolucionária! - Nesta altura encostaste-te para tras na cadeira e deu a ideia de que desmaivas. Fui em teu socorro e uma mulher enlaçou-te.
- She is tired. Let her with me - e cheia de carinho levou-te para fora da sala. As outras mulheres tinham-se igualmente levantado e desaparecido com as crianças. No entretanto o "comité" andava de um lado ao outro na sala e todos insultavam o Oliveira, mesmo Emilio que primeiro o defendera.
- Foi-se abaixo. O verme foi-se abaixo! Tem que ser morto para exemplo! O novo homem por que lutamos exige-o!
Vim ao corredor na tua procura e nessse momento tive a certeza que fora o episódio do Oliveira que te impressionara. No fundo terias preferido que eu não ganhasse a aposta e a queda do Oliveira lembrara-te a tua.



EM Copenhaga, no Serviço dos Estrangeiros, onde nos apresentámos como indocumentados e requerentes de refugio, interrogaram-nos cerca de três horas. Relatámos a passagem clandestina das várias fronteiras desde França, segundo a versão que o comité nos tinha ensinado e, finalmente, fomos conduzidos à Pensão Ost. O estado dinamarquês hospedava lá os estrangeiros que requeriam o refugio enquanto não lhes comunicava a resposta. Os hóspedes na sua grande maioria eram do Leste e diziam quase todos a mesma coisa.
- Comunismo? Comunismo é o governo da miséria! Quero é trabalhar para ser rico! Comprar uma avioneta!
Uma manhã, com um grupo doutros refugiados, embarcámos numa camioneta para Odense.
A nossa Suécia.






Breda.
Ontem actuámos na "Fénix", lá onde uma noite as coisas tanto mudaram que nada mais foi possivel. Lembrava-o enquanto em redor o publico gritava e aplaudia.
Afinal nem te perdoei nem tu alguma vez aceitaste a tua perca. Mas precisávamos um do outro: eu para levar a cabo, com a tua ajuda, a vitória do Amor e tu para sentires que não caíras em vão. Há qualquer coisa de errado nisto mas uma vida não corre por carris areados.
Do alcóol passámos a drogas mais duras. Mas a sensação de viver todos os dias o ultimo deu-nos energia para suportar os seguintes. Agora ai estas. Como se dormisses.
"Over-dose" - dirão os médicos
Paulema. De Paulo mais Ema. Passam hoje os quinze anos da minha aposta. Fim.










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