12/12/2008

EUROPA 7




TREMONTI, Giulio, O Medo e a Esperança - Europa. A Crise Global e as Medidas Necessárias Para a Ultrapassar, Lisboa, editorial Presença, 2008 (117 pp. e ca. 12 euros)

 “Foram duas as datas que mudaram a estrutura e a velocidade do mundo em que vivemos: 9 de Novembro de 1989; 15 de Abril de 1994. (…) A primeira é a data-mãe. Assinala a queda do muro de Berlin. (…) A segunda é a data-filha, o dia do estabelecimento (…) do Acordo da OMC (Organização Mundial do Comércio.) (p.37)


“O mercadismo (…) padroniza e anula os velhos diferenciais” (p.39)


“Mercado único, erro visceral. Jamais na história da humanidade um processo político da dimensão do que foi iniciado com a OMC, a abertura do mundo ao mercado, foi aceite e introduzido com uma tão imediata e superficial precipitação.” (p.43)

 

 “A história política da Europa comunitária pode ser esquematicamente dividida em três fases:

a) (…) depois da guerra, a fase heróica, a dos grandes princípios e dos grandes homens.

b) (…) a extensa fase económica: do mercado único à moeda única (…) foi certamente uma fase dominada pela economia.

c) presentemente deverá ter início a fase propriamente política.” (p.106)

 

“Os islâmicos arriscam a própria vida pelo Islão, enquanto nós não sabemos sequer assumir-nos como cristãos. Um continente que fala, com uma só voz, de economia mas não de valores espirituais, é uma entidade meramente nominal” (p.110)

12/11/2008

RUA AUGUSTA 7 A Vingança da Memória


Agora sim, vamos ter em Lisboa um bilhete que dá para vários transportes. 


A crise do petróleo e a ruína geral dos “capitalizados” levou a esfarrapada classe média/média-alta lisboeta pela primeira vez a andar de transporte público (sei o que digo, pois o meu juvenil “voto de despojamento” serviu-me para algo mais do que para empobrecer a escrita) e agora, sim, já a vejo, à boa burguesia, em Lisboa, como em Paris ou Londres, no metro e nos autocarros. 


E não é que surge finalmente um bilhete único para os vários transportes? 

Não há como os que mandam usarem aquilo sobre que legislam! 

Sim, porque até agora quem andava de transporte público bem podia clamar contra as diferenças entre o metro, a carris, a CP ou Transtejo que obrigavam à compra de um bilhete para cada qual, a fim de se fazer a tal hora de trajecto, coisa que encontrei já na Dinamarca em 1972 e, finalmente, é possível em Portugal!

Mas agora sim, a coisa fia fino e surge o tal bilhetinho. 

Vá lá, foi ao fim de trinta e quatro anos de democracia! (Afinal o primeiro abrigo numa paragem da carris surgiu “apenas” ao fim de quinze…)


Outra curiosidade: o erro que uma geração inteira faz ao escrever “fala-mos”, em vez de “falamos”; “dize-mos” em vez de “dizemos”, “transporta-mos” em vez de “transportamos”, isto é, tornar reflexa a primeira pessoa do plural ou, dito de forma mais abreviada: pessoalizar o colectivo.


Para mim este erro tem uma razão que mistura política e português.


Na década de oitenta – quando a tal geração que hoje é licenciada e escreve com aquele erro aprendia (mal) na Escola – na década de oitenta está-se em plena anestesia política à revolução de Abril: os livros deixam de contar o  que foi a dinâmica do povo, o Natal regressou ao segredo dos lares e as telenovelas já dominam os serões, ou seja, quanto respeite ao mexer popular deixou de ter qualquer referência nos media e nas escolas. E o resultado foi este erro que hoje surge como a sombra do pecado cometido contra a memória histórica.


Que significa sinalizar de forma reflexa a primeira pessoa do plural, pois é disso que se trata quando se escreve “fala-mos” em vez de “falamos” ou “dize-mos” por “dizemos” - senão que o colectivo – o nós – se fecha sobre si próprio, se reflecte, passa a ver ao espelho, em vez de no/com o Outro?

 

O erro da geração que ora vai na casa dos trinta reflecte, como acima disse, as vicissitudes da política portuguesa: em determinado momento da nossa história pós-revolucionária mais precisamente a partir do golpe de 25 de Novembro e respectiva imposição do “estado de sítio”, o povo português – agora diz-se o “cidadão comum” - foi obrigado a dobrar-se sobre si próprio, “umbiguizar-se” (olhar para o umbigo)  deixando de discutir a política na rua, abdicando de reunir política e sociedade, como entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro  de 1975 sucedeu. (“Marx escreve em “A Questão Judaica” e noutros sítios que os enigmas da política moderna serão resolvidos quando «o homem real e individual» conseguir reunir de novo em si «o cidadão abstracto [político] de modo que a política e a sociedade voltem a estar unidos, e «só então se realizará a emancipação humana» (Paul Ginsbor, in A Democracia Que Não Há – Que Fazer Para Proteger O Bem Político Mais Precioso do Nosso Tempo – As Multinacionais e Os Impérios de Tv e Comunicação Social Estão a Dominar os Lobbys Políticos Por Todo o Mundo. Será Possível Salvar a Democracia?, Lisboa, Teorema, 2008. p. 72,3).

Ou seja, “cala-mos”, “sofre-mos”, “paga-mos” em vez de “calamos”, “sofremos” ou “pagamos”, e outros disparates gramaticais idênticos próprios de uma “Geração  Anestesiada” (da memória portuguesa, da formação de Portugal, e, sobretudo, de si mesma!) uma geração sacrificada às passagens administrativas na Escola, a fim de que os fundos europeus não fugissem do País – e fossem, não para a educação e ferrovia como deveria ter sido, mas exclusivamente para os lobis das petrolíferas/construção de estradas -  e então, dizia eu, “cala-mos” “sofre-mos” ou outros erros idênticos não são, pois, meros erros gramaticais mas verdadeiras vinganças da memória, a mostrarem à saciedede a história dos tempos pós-revolucionários: depois da festa, do mundo onde a politica e a sociedade estiveram de facto reunidas, veio o reflexo sobre si próprio, o virar-se para o espelho, a perda do sentido do Outro, do colectivo.

Por isso a geração que sofreu, ainda em criança, as consequências da anestesia lançada sobre os pais – e o país -  escreve hoje, quando já adulta, “faze-mos” em vez de “fazemos”.

Como se ainda achasse que fazemos… sozinhos.  

 

 

 

 

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12/09/2008

FUTUROLOGIA 2

Brockman, John, (coord.) Grandes Ideias Perigosas, Lisboa, Tinta de China, 2008 (Ca. 373 pp. e 17.90)

J.Brockman, in Prefácio:

“Em 1991, propus a ideia de que uma terceira cultura, que «consiste nos cientistas e outros pensadores do mundo empírico que, através do seu trabalho e dos seus ensaios, estão a tomar o lugar do intelectual tradicional na tarefa de tornar visível o significado mais profundo da vida, redefinindo quem somos e aquilo que somos».  Em 1997, o crescimento da internet permitiu a implementação de uma casa para a terceira cultura, um site chamado Edge (www.edge.org (...) onde «pensar com esperteza» prevalece sobre a anestesia da sabedoria. (p.17)


John Hogan:

“A ideia perigosa (provavelmente verdadeira)(…) é a de que nós humanos não temos alma” (p.37)


Keith Dovlin:

"Criaturas vivas capazes de reflectir sobre a sua própria existência são um acidente normal existindo por um breve momento na história do universo. Pode existir vida noutra parte do universo mas não terá consciência e auto-reflexão. Não há Desígnio Inteligente e nenhum objectivo mais elevado para as nossas vidas (…) Muitas pessoas acham que esta sugestão é perigosa porque vêem-na como um caminho para uma vida desprovida de significado ou valores morais (…) O facto de a nossa existência não ter um propósito para além de si mesma é completamente irrelevante para  a maneira como vivemos a nossa vida, uma vez que estamos dentro da nossa existência. O facto da nossa existência não ter um propósito para o universo – seja o que for que isso significa – não quer dizer, de maneira nenhuma, que não tem propósito para nós." (pp.72,3)

 

David Gelernter:

“Se esta é de facto a “era da informação” então as pessoas estão bem informadas acerca de quê, concretamente?” (p.123)

 

Lee Smolin:

“Acredito que alcançaremos a clareza relativamente a estas e outras implicações assustadoras da ideia de que todas as regularidades observáveis, incluindo aquelas que nos habituamos a designar como leis, são o resultado de evolução por relação natural. E acredito que, quando isto for alcançado, Einstein e Darwin serão encarados como parceiros na maior revolução ainda por acontecer na ciência, uma revolução que ensina que o mundo em que nos encontramos não é senão uma rede de relações sempre em evolução.” (p.160)

 

 

TESTEMUNHOS 16


AZEVEDO, Paulo, Uma Vida Normal, Porto, Porto Editora, 2008 ca.174 pp. e 13.90 euros

 

“Para mim na altura como agora não fazia sentido usar próteses apenas por questões estéticas” (p.59)

 

“… é  a partir do momento em que uma pessoa percebe que é diferente que pode aprender a lidar com isso e  aceitar-se melhor na diferença” (p.60)

 

“No ano em que me envolvi mais a sério nas competições, percebi (…) as dificuldades por que passam os atletas paraolímpicos por melhor que sejam. Não é apenas a ausência de apoios, é   a indiferença. Nesse ano por exemplo houve doze pessoas a representar Portugal na competição internacional dos paraolímpicos (…) Trouxeram 12 medalhas quase todas de ouro e todas ignoradas” (p.135)

 

“Se alguém com voto na matéria chegar ao pé de mim e me disser que eu não tenho talento, ai abandono tudo mas se me disserem que não posso ser actor por não ter mãos e pernas, me fecharem essa porta, eu bato a outra porta” (p.169)

 

“Quando não consigo fazer alguma coisa – mas só em ultimo caso, admito – peço ajuda. E isso não é motivo de embaraço, é sinal de carácter. Todos temos fragilidades.” (173)

12/08/2008

TESTEMUNHOS 15


KISSINGER, Henry, Diplomacia, Lisboa, Gradiva, 2007, 3ª edição (794 pp., ca. de 37.50 euros)

“Nenhuma nação [EUA,n. de Kriu] tem sido tão pragmática na sua conduta diplomática quotidiana” (p.11)

“o pensamento americano tem oscilado entre o isolacionismo e o empenhamento, embora desde a Segunda Guerra Mundial estas duas realidades tenham permanecido predominantemente interligadas (…) ambas as abordagens (…) reflectem uma crença subjacente comum: a de os Estados Unidos possuírem o melhor sistema governativo do mundo e do resto da humanidade poder alcançar a paz e a prosperidade abandonando a diplomacia tradicional e adoptando o respeito da América pelo direito internacional e pela democracia.” (p.12)

“No período do Vietname a América foi obrigada a reconhecer as suas limitações” (p.611)

“Uma das principais tarefas do político consiste em compreender quais os assuntos que se encontram verdadeiramente relacionados e podem ser usados para se reforçarem mutuamente. (…) em última análise, é a realidade e não a política que liga os acontecimentos. O papel do homem de estado consiste em reconhecer a relação quando ela existe – por outras palavras, criar uma rede de incentivos e punições a fim de obter o resultado mais favorável” (p.625)

“Para ser fiel a si própria a América tem de tentar forjar o maior consenso moral possível à volta de um compromisso global com a democracia. Mas não deve ousar negligenciar a análise dos equilíbrios de poder, porque a procura de um consenso moral torna-se frustrante quando destrói o equilíbrio” (p.729)

12/07/2008

HISTÓRIA 4


 

CORBIN, Alain, História dos Tempos Livres, Lisboa, ed. Teorema, 2001 (514 pp. e ca. 14.50 euros)

 

“O nosso projecto consiste em seguir a invenção das maneiras de imaginar, utilizar ou simplesmente viver uma gama de tempos disponíveis (…) das sociedades ocidentais entre 1850 e 1960” (p.5)

 

“Na Inglaterra, tal como nos Estados Unidos, elabora-se uma industria e uma cultura populares do divertimento (…) Ao longo da década de 1850 são projectados o Bois de Boulogne e o Central Park “ (p.7)

 

“ Os americanos inverteram o antigo pavor do tempo perdido. Consideraram o tempo livre um tempo ganho, poupado ao trabalho: como um (…) resultado benéfico da civilização dos Estgados Unidos.” (p. 10)

 

 

“ O aumento do tempo disponível. A desqualificação dos saberes artesanais, e, em maior medida, as transformações da estrutura temporal das sociedades ocidentais acentuaram  na verdade o medo do vazio, dos tempos livres e agravaram a incapacidade do indivíduo de produzir tempo para si próprio. (…) Ou deveremos pensar que, a despeito do declínio histórico do trabalho, as limitações que são as dos tempos laborais não param de se transpôr para o tempo disponível e determinar os seus conteúdos?” (p.13)

 

“Mais ou menos todos os militantes do turismo social propagavam os «três D», «funções importantes do lazer» (…) descanso, que liberta da fadiga, divertimento, que liberta do tédio, e desenvolvimento da personalidade que «liberta dos automatismos de pensamento e da acção quotidiana». A sociedade de consumo substitui-os pelos três S: Sea, Sex and Sun.”(p.497)

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