3/07/2008

FÍSICA 2

DEES, Martin, O Meu Habitat Cósmico, Lisboa, Gradiva, 2002
“Se a matéria estivesse informalmente distribuída ao longo de um espaço infinito (…) uma parte acabaria por se agrupar numa certa massa e a outra parte noutra, de forma a produzir um número infinito de grandes massas, espalhadas a grandes distâncias umas das outras através do espaço infinito. Assim poderiam ser formado o Sol e as estrelas”
Newton, citado a pág. 87.

“A física elementar diz-nos que nenhum “dispositivo calorífico” pode funcionar e nenhuma complexidade surgir se tudo estiver em equilíbrio térmico: tem de haver regiões mais quentes que outras (…) As entidades estudadas pelos astrónomos – como as estrelas e as galáxias – mostram tendência para a diferenciação e a complexidade, da mesma forma que um animal ou uma planta” (pág. 88,9)

TEATRO 12 Olhando a m/ maquilhagem no papel de Avô/Lobo em "Pedro e o Lobo" enc. de Fernando Jorge, Teatro Extremo, Almada, 2008/03/15


ALTERNATIVA 2

In; http://www.ecoblogue.net/index.php?, 20.20 horas de 2008/03 /05
"Mas vão surgindo focos de resistência, um pouco por todo o mundo dito desenvolvido. O “downshifting”, ou “simplicidade voluntária”, consiste num movimento nascido nos Estados Unidos da América, formado por pessoas que aceitam viver com menos. Fartos de jornadas de trabalho que pouco tempo deixam para o lazer e a vida familiar, muitos “yuppies” acabam por se demitir do emprego que os escraviza para aceitar um emprego com uma menor carga horária. O passo que se segue é o “downsizing”, isto é, a redução do consumo. Viver com menos implica para estes trabalhadores mudar para uma casa mais pequena, trocando uma McMansão por um apartamento, trocar de carro e cortar nas despesas supérfluas (jóias, produtos de cosmética, consolas, “home cinemas”, etc.).
Os adeptos da simplicidade voluntária têm de enfrentar os constrangimentos que decorrem de viverem numa sociedade consumista e orientada para o trabalho. Uma pessoa que rejeita o materialismo de forma tão radical será facilmente rotulada como louca ou como membro de uma seita religiosa. É ainda comum estes trabalhadores serem acusados de tentar disfarçar o seu falhanço no mundo do trabalho. Nada que preocupe quem vive a vida com um sorriso na cara, é claro.
Muitos movimentos em todo o mundo foram ainda mais longe, pondo em causa todo o consumo. Os “freegans” (palavra que resulta de juntar “free” - gratuito – e “vegan”) adoptam um estilo de vida baseado na minimização do consumo. Fartos de um sistema económico que é agressivo para com as pessoas, os animais e o meio ambiente, os “freegans” chegam ao ponto de revirar caixotes do lixo, cultivar hortas urbanas e ocupar casas para reduzir ao mínimo as despesas e assim trabalhar o mínimo possível. Associado a este movimento surgiu ainda o “Freecycle” como plataforma para a troca directa de produtos utilizando a Internet ou lojas onde as pessoas podem levar o que quiserem sem pagar no fim.
Para quem ainda não está preparado para viver uma vida de sem-abrigo, existe ainda a opção de criar um núcleo de “compacters” (compactadores), pessoas que se comprometem a comprar apenas os produtos de primeira necessidade, recorrendo a mercados de usados ou de troca directa sempre que possível. O movimento The Compact defende o apoio ao comércio de proximidade, a redução do desperdício e a simplificação das vidas, contando já com dezenas de comunidades nos EUA.
Mais insólita ainda é a “Church of Stop Shopping”, do Reverendo Billy. Regularmente, Bill Tallen e o seu grupo de “acólitos” invadem espaços comerciais cantando músicas religiosas que apelam ao não-consumo. Recriando o ambiente das igrejas evangélicas pentecostistas, este grupo formado por um actor profissional e voluntários apela aos valores cristãos para por em causa de forma sarcástica o consumismo presente na sociedade americana.

A tartaruga ultrapassa a lebre
Outra fonte de resistência à sociedade do consumo é o movimento “slow”, que leva à prática o velho ditado “depressa e bem não há quem”, defendendo uma redução de intensidade no ritmo das nossas vidas como forma de contrariar a lógica alienante do super-stresse. O ponto de partida foi o movimento “slow food”, criado em Roma em 1986 na sequência de protestos contra a abertura de um McDonald's. Em 1999, a cidade de Greve, na Toscana (norte da Itália), tornou-se a primeira "città slow" (cidade lenta), tendo como modelo as comunas italianas do século XII. A moda pegou e hoje há dezenas de cidades na Europa, (inclusive cidades portuguesas) que aderiram a este clube restrito, tendo que respeitar as seguintes regras: não podem circular carros nos centros, não são admitidos super ou hiper-mercados nem restaurantes “fast food”, os alimentos são produzidos localmente, a energia consumida é de origem renovável e a cidade não pode ter mais de 50 mil habitantes.
Na mesma linha de pensamento, a Sociedade para a Desaceleração do Tempo, fundada na Alemanha há 15 anos, promove a reflexão sobre a relação da humanidade com o tempo. Esta sociedade, que reúne milhares de pessoas todos os anos para discutir formas de desacelerar, cunhou até o termo “eigenzeit” (tempo próprio) para traduzir a ideia de que todo o ser vivo tem o seu próprio ritmo. Como forma de exprimir esta ideia, a Sociedade para a Desaceleração do Tempo vende aos seus associados relógios que apenas têm o ponteiro das horas.
Mais divertidos ainda são os japoneses do Clube da Preguiça. Os membros deste clube adoptaram a preguiça como mascote e, tal como a preguiça tem apenas três dedos, também eles têm três princípios: amor, paz e vida. Recentemente, opuseram-se à participação do Japão na guerra do Iraque com o lema “Make slow love, not fast war” (Façam amor lento, não guerra rápida).
No Reino Unido nasceu a Slower Speeds Iniciative, uma iniciativa conjunta de associações cujo fim é defender a redução da velocidade de circulação nas cidades. Forçando os automóveis a circular a velocidades reduzidas não só reduzimos o ruído e melhoramos a segurança rodoviária como melhoramos as condições para o transporte por meios não poluentes, como a bicicleta. Dois designers franceses levaram mesmo à prática este conceito de forma ousada, criando um modelo para um carro lento que pudesse circular no centro de Paris a 15 km/h.

Reclamando o tempo
Não é por acaso que a maior parte dos movimentos anti-consumismo ou pelo direito à preguiça surgem nos EUA. No país onde o capitalismo atinge o seu auge, até o direito a férias está em risco. Segundo a Take Back Your Time, uma associação que luta pelo direito a férias, o tempo de férias médio é mais baixo nos EUA que em qualquer outro país industrializado. Como não existe uma lei que estipule o direito a férias, o abuso é generalizado, pelo que esta associação procura apoios junto da indústria do turismo para pressionar os governantes.
A defesa de vidas mais simples e ritmos de vida mais ajustados às necessidades humanas deveria fazer parte das reivindicações de todo o movimento sindical. Esta não é apenas uma luta secundária protagonizada por adolescentes desiludidos com a vida, é uma prioridade para todos os trabalhadores que vêem o seu tempo a ser usurpado pela máquina capitalista. Defender jornadas de trabalho mais reduzidas, férias maiores e a simplificação da vida é combater a ideologia produtivista que está na base da destruição do planeta.
Quando perguntaram a um líder da AFL-CIO o que queriam os trabalhadores ele respondeu “mais”.
Hoje está na hora de mudar a palavra de ordem para “menos”.


É disto que eu gosto em Lord Young. Vocês apresentam-me problemas. Ele apresenta-me soluções.
Margareth Thatcher
Não sou suficientemente novo para saber tudo
J.M.Barbie

3/02/2008

TESTEMUNHOS 3

Mitos:
Camarão, Africa:
O céu estava tão perto da terra que os homens o comiam e tinham de andar curvados. Mas um dia uma jovem resolveu pilar o milho e perguntou ao deus do céu: não te poderias chegar um pouco para lá? De facto quando ela levantava o pilão batia com ele no céu!
O céu fez-lhe a vontade mas a partir daí o deus nunca mais visitou a terra

India (hindu)
Um ovo de ouro que surgiu no vazio e deu origem aos criadores.

Indios da América do Sul, Colombia
No começo era o mar. Não havia nem sol nem animais... nada.

Caldeia, Babilónia 2500 AC
A água suporte comum do céu e da terra.
Uma montanha vazia flutua sobre o oceano.
O vazio é o país dos mortos, sob a abóboda celeste circulam os astros, o sol no seu carro chega pela parte oriental e desaparece pelo poente, retomando a sua posição diurna através de uma caverna.

Egipto, 2000 AC
O céu é sustentado por 4 pilares elevados, as estrelas suspensas a cabos iluminam a noite, o deus Ra circula com o Sol numa barca.

China, 1700 AC
O mundo é um carro no qual a terra, quadrada, constitui a caixa. O céu a tampa.
Quatro muros rodeiam a terra. Alem deles vivem seres fantásticos e deuses. No cimo habita o Senhor no nono andar. A face interior, plana, repousa sobre oito pilares.

FÍSICA 3

BARROW, Jonh D., 2005, Impossibilidade – Limites da Ciência a Ciência dos Limites, Lisboa, ed. Bizâncio.
“Nos últimos anos foi identificado uma forma importante de composição complexa (…) Exibe um tipo de comportamento que se tornou conhecido como sistema criticamente auto-organizado (Self organizing criticality – SOC). (…) É um estado complexo organizado (…) criado por um encadeamento de eventos (…) que, considerados individualmente, são caoticamente imprevisíveis. (págs. 197,8) (Exemplo que Barrow apresenta: a pirâmide de areia que, quando se lhe junta mais grãos, provoca avalanches de outros grãos, mantendo sensivelmente o mesmo declive).

“A nossa experiência com sistemas complexos diz-nos que eles mostram uma tendência para se organizarem em estados críticos muito sensíveis, que permitem que pequenos ajustamentos produzam efeitos compensadores em todo o sistema. Consequentemente são imprevisíveis no pormenor. Se se tratar de grãos de areia ou de pensamentos que estão a auto-organizar-se o movimento seguinte é sempre uma surpresa” (pág. 342)

A propósito da questão de saber se o nosso universo se expande ou contrai:
“Um universo crítico possui um equilíbrio exacto entre a energia de expansão e o impulso gravitacional da matéria no seu interior. Nos universos “abertos” a energia da expansão ultrapassa o impulso gravitacional, enquanto nos universos “fechados” a gravidade prevalece.” (pág. 237)
O difícil é aquilo que pode ser feito imediatamente, o impossível é o que leva um pouco mais de tempo"
George Santayana

3/01/2008

POEMA 6

(...)
Como um sonho é esta tarde que tomba
e o nevoeiro que nos ramos se espessa
Com o frio perene das sombras.
E eu não sei se caminho por este cemitério
que é real no alto deste monte
com caminhos de candeeiros já acesos
ou se caminho pelos trânsitos quotidianos
da gente de lá fora
ou pelo cemitério indiscutivelmente real
do meu coração.
Se por acasao também eu sou somente
a máscara inventada da vida
por onde falam os mortos.
Não sei. Do que tenho agora apenas
alguma certeza é que sou um homem
que veio até aqui
para pôr flores no seu próprio túmulo
e que dá um passo e diz: Já está!
(extracto de "Um Mundo Apócrifo" de Diego Doncel, in Em Nenhum Paraíso, Lisboa, Averno, 2007)
Não sou cruel nem romântico, apenas não tenho ilusões a propósito de mim mesmo.
Gottried Benn

2/28/2008

FÍSICA 4

REEVES, Hubert, Ciência dos Átomos e das Galáxias, Lisboa, Gradiva, 2008
“No imenso calor do Big-Bang, as reacções de criação e aniquilação de pares, parecidas com as que criamos em laboratório, eram omnipresentes e inumeráveis. Consequentemente nos primeiros tempos do universo, as populações de partículas de matéria e de anti-matéria deviam ser estritamente iguais. Contudo, ao longo do arrefecimento, durante os primeiros micro-segundos do cosmos, produziram-se fenómenos chamados de “transição de fase”. (…) Estas transições de fase deram origem a um pouco mais de matéria. (…) Então a matéria, arrefecida pela expansão, deixou de estar suficientemente quente (já não tinha suficiente energia) para engendrar novas criações de pares. (…) Pelo contrário, as aniquilações de pares, que não exigem energia, mas ao contrário libertam bastante, continuavam a produzir-se. Assim, em seguida, cada partícula de anti-matéria pôde encontrar um parceiro de matéria e aniquilar-se com ele. A anti-matéria desaparece do universo neste período. (…) Mas, e reside aqui o ponto crucial, o minúsculo excesso de matéria produzido anteriormente não pôde encontrar parceiro para se aniquilar (…) E foi deste pequeno excesso que o nosso universo se formou. (Págs 148,9)

“Um quark é uma partícula que não suporta a solidão. Deve estar sempe rodeada de outros quarks. Quanto mais se tenta afastá-lo dos seus vizinhos, mais aumenta a força que os atrai, é impossível isolá-los” (pág. 157)

“A presença de um buraco negro colossal no centro de uma glaxia parece ser um fenómeno universal. As duas estruturas terão aparecido simultaneamente, sem que saibamos precisamente como isso se passou. Supomos que uma parte da matéria da galáxia em formação não se põe em órbita circular, mas recai ao centro, formando assim o buraco negro. Este colapso provoca a emissão de potente radiação energética (o quasar) descrito precedentemente. Mas quando a galáxia completa a sua formação, o fluxo de matéria que se dirige para o buraco negro diminui progressivamente (…) Se não houver outros acontecimentos a estimulá-lo ocasionalmente, apagar-se-à” (págs. 91,2)

“Simplificando eis o que diz a teoria da relatividade geral: a massa dos objectos modifica a geometria do espaço em volta deles. Esta deformação manifesta-se sob a forma de uma curvatura local do espaço. Esta curvatura influencia os movimentos dos corpos neste espaço. Um exemplo: a curvatura do espaço provocada pela massa da Terra constrange a Lua (e todas os satélites artificiais) a girarem em volta do nosso planeta em vez de escaparem em direcção aos espaços” longínquos. Esta curvatura é a corrente que os retém presos. Na realidade, pode-se exprimir a situação da seguinte amneira: a Lua desloca-se sobre carris imateriais, curvados pelo campo de gravidade terrestre, que a trazem sem fim sobre a mesma órbita. (…) A analise da radiação de fundo mostrou que, à escala do universo observável, o espaço cósmico não tem curvatura. (Pág. 127)

Einstein: Não me diga que a Lua não existe quando não estou a olhar para ela!
Bohr: Como quer que saiba? (citado pág. 134)

2/27/2008

TEATRO 13 Teatro de "baba e ranho", a partir de duas peças: Amador e Stabat Matter, exibidas pelos Artistas Unidos, de Lisboa


As peças Stabat Matter e o Amador configuram aquilo a que chamo teatro de "baba e ranho". Explico:
1. As personagens deste género dramático apresentam-se num estado de desespero.
2. Este desespero surge numa forma circular, isto é, nunca é explicada uma razão social/económica/política para esse facto psicológico, pelo que o desespero se alimenta, por fim, de si mesmo.
3. As razões do desespero - quando surgem - são sempre do foro psicológico, devidas à psique do Outro, em regra um "Ele/a(s)" ausente.
4. O Espectador(a) serve de confessor, tornando-se no ouvinte privilegiado do "caso" da personagem (o dispositivo espaço italiano acentua a função voyeurista do público).
6. Este teatro, devedor do big brother, espelha uma sociedade que tudo traduz por razões psicológicas: a casa do brother é um universo de psiques auto-suficientes, para as quais a dimensão económico/social e política se reduz a um "Ele" distante: fornece, filma, vigia, premeia e castiga os habitantes da Casa e nunca se explica/justifica.
Em Amador o protagonista – crítico de teatro - barafusta contra um determinada dramaturgia que apelida de “morta”, fazendo entretanto a apologia do teatro “vivo”, lá onde sucede a vida e a morte. Ao mesmo tempo, no seu próprio lar, ocorrem actos de vida e de morte de que o protagonista se alheia. O cruzamento de ambas as realidades resulta num elogio da cena a que o Espectador(a) assiste, cheia de gritos, exaltações, baba e ranho, em suma. E é aqui que a peça se fecha, ao desligar a personagem do social/político que a produz, fazendo-a agir num circuito fechado: o desespero aumenta o desespero, as lágrimas chamam as lágrimas e o Espectador(a) assiste, do princípio ao fim, a desabafos e confissões. É verdade que a personagem acusa uma certa estética como causa da sua irritação. Mas nada explica a existência dessa mesma estética e a sua filiação é simplesmente atribuída a um "eles".
Em Stabat Matter uma mulher reclama contra uma ausência. E que diz? Lamenta-se e enfurece-se contra alguém que falta ao encontro. São cinquenta minutos de verborreia contra o Outro e esta revolta é-o contra um "Ele", cuja ausência é linguísticamente dupla, pois o pronome pessoal da terceira pessoa, “Ele”, denota já, como se sabe, uma ausência. No final a mulher irá embora, depois de confessar o seu "caso", castigando com a sua partida a dupla ausência, a do tal "Ele" que também nunca chegou.
Esta atribuição da culpa a um "Ele(s)" consubstancia o conhecido processo da vitimação: “Eles” - o mundo, a sociedade, os mandantes, o Outro, enfim, são os culpados do mal da personagem que se apresenta como lugar de sofrimento, cuja expressão se esgota em si mesma.
E resta então chorar baba e ranho, lamentar/confessar a sua impotência no “ombro” do Espectador, expressando um mal nunca fundamentado económico/social ou politicamente. (Em Stabat Matter a certa altura chega a dar a impressão que o “mal” está na sexualidade do tal “ele”!)
A projecção da figura do "inimigo" num “Ele” identifica-se com os que citam o governo como o universo de um mítico “Eles”.
Numa tal visão, a sociedade divide-se em duas castas sem ligação, embora as “vítimas” elejam periodicamente os respectivos “carrascos”: de um lado “Eles”, os “maus”, na outra um "Eu” choroso e vitimado. A união de vários "Eus" para constituir um "Eles" alternativo não surge nunca como hipótese possível.
Trata-de, pois, de duas peças – Amador e Stabat Mater - filhas directa da sociedade big-brother ou do “jornalismo popular” onde, à semelhança da célebre casa, tudo se dimensiona no psicológico, esvaziado do seu contexto económico/político.
O teatro de “baba e ranho” agrada tanto mais quanto satisfaz o universo pequeno-burguês – a sociedade ocidental tornou-se, para o bem e para mal, pequeno-burguesa – preso, por antecedentes ainda recentes no tempo, ao campesinato, ao seu atávico conservadorismo e intervenção social sempre historicamente epidérmica e sem grandes perspectivas.
E todavia a Terra muda…
CGM

2/26/2008

FUTUROLOGIA 2

BROCKMAN, Jonh, coord, Grandes Ideias Impossíveis de Provar, Lisboa, ed. Tinta da China, 2008.
Danniel C. Dennett:
“Acredito, mas não posso ainda prová-lo que a aquisição de uma linguagem humana (oral ou gestual) é uma pre-condição necessária para a consciência – no sentido de existir um sujeito, um “eu”, um “algo que seja como ser aquilo”. Daqui decorreria que os animais não humanos e as crianças pré-linguísticas (…) não são realmente conscientes, neste sentido profundo: não existe ainda um sujeito organizado que seja o usufruidor ou o sofredor, alguém que seja o proprietário de experiências, por comparação com um mero locus cerebral de efeitos” (pág. 156)
Robert R. Provine:
"Em vez de nos perguntarmos se outros animais são conscientes, ou se têm uma consciência diferente da nossa, mais ou menos elevada, não deveríamos antes perguntarmo-nos se o nosso comportamento não estará sob um controlo semelhante ao deles?" (pág. 180)
Alex Pentland:
"Pode ser útil começar a pensar nos seres humanos como detentores de uma mente tribal, colectiva, para além das suas mentes pessoais" (pág. 190)
Irene Pepperberg:
"O trabalho nos neurónios-espelho, isto é, neurónios que disparam ambos quando um deles exerce uma determinada acção e quando um observa o outro a executá-la - ao longo da ultima década forneceu provas intrigantes (embora não sólidas) que fundamentam as origens gestuais da fala" (pág. 191)
Brian Godwin:
"Acredito que a natureza e a cultura podem ser entendidas como um processo unificado" (pág. 204)

1/13/2008

POLÍTICA 1

WOLFSON, Adam, in AAVV Direita e Esquerda, Divisões Ideológicas do Sec. XXI, Lisboa, Univ. Católica, 2007.
“Se não tivéssemos perdido de vista os fins próprios da educação, se não começássemos a considerá-la como uma forma de expandir os campos da memória e da velocidade de processamento do pensamento, nunca aceitaríamos a engenharia genética como uma ferramenta legítima de educação”
“Nós não estamos a submeter as máquinas à nossa vontade, estamos a lançar-nos para os seus braços”

BIOLOGIA 3


RIDLEY, Matt,
Genoma, Autobiografia de uma Espécie em 23 Capítulos, Lisboa, Gradiva, 2001.
"A mente conduz o corpo (pág. 166)
”A serotonina encontra-se ricamente presente nos macacos dominantes e muito mais diluída nos cérebros dos subordinados. Causa ou efeito: parece razoável que o comportamento dominante resulte do produto químico, e não vice-versa. Acontece que é o contrário: os níveis de serotonina respondem à percepção pelo macaco da sua posição na hierarquia, e não vice-versa.” (p.180)
“O corpo humano contém, aproximadamente, 1000 biliões (milhões de milhões) de células, a maioria das quais têm menos de um décimo de um milímetro de diâmetro. Dentro de cada célula existe uma massa negra chamada NUCLEO. Dentro do núcleo estão dois conjuntos de genoma humano (com excepção dos óvulos e dos espermatozóides que têm uma cópia cada um, e dos glóbulos vermelhos que não têm nenhum). Um conjunto do genoma vem da mãe e o outro do pai. Em princípio cada conjunto inclui uns 60 000 – 80 000 GENES nos mesmos 23 cromossomas. Na prática existem diferenças pequenas e subtis entre as versões paternas e maternas de cada gene, diferenças que explicam, por exemplo, os olhos azuis ou castanhos. Quando nos reproduzimos, transmitimos um conjunto completo, mas apenas depois de termos trocado pedaços de cromossomas paterno e materno num processo conhecido como RECOMBINAÇÂO.
Imaginemos um livro chamado CROMOSSOMA.
Cada capítulo contém vários milhares de histórias, chamadas GENES.
Cada história é feita de parágrafos, chamados EXÕES, que são interrompidos por anúncios chamados INTRÕES.
Cada parágrafo é feito de palavras, chamadas CODÕES.
Cada palavra é escrita com letras, chamadas BASES.”
(págs. 13/14)

TESTEMUNHOS 4

TAMMET, Daniel, Nascido Num Dia Azul, Lisboa, ed. Estrela Polar, 2007
O relato de alguém diferente - um autista - que nos faz sentir melhores.

SOCIOLOGIA 1

CAMPEHOUDT, Luc van, Introdução à análise dos fenómenos sociais, Lisboa, Gradiva, 2003.
“Não existe uma concepção universalmente admitida de trabalho científico em ciências sociais, sendo que o único ponto de acordo, mais ou menos geral, é o de que a própria concepção do trabalho científico em ciências sociais deve ser objecto de um intenso debate. A acumulação científica não se encontra num armazenamento de verdades mas antes num progresso na capacidade de formular, sobre melhores bases teóricas e empíricas, os desacordos” (pág. 293)
Livro acessível e de divulgação, útil para ficar ao corrente das últimas correntes teóricas da sociologia.

PSI 1

ABREU, J. P., Como tornar-se doente mental , Lisboa, Dom Quixote, 2006.
“Se as pessoas se habituam a fazer aquilo que lhes apetece já não conseguem fazer o que querem.”
“Se não mentir a si próprio, descobrirá que é uma pessoa com limites e deixará de querer ir a todas, como fazem os fóbicos. Também não será dono da verdade nem tão importante como são os paranóicos. Não será o mais perfeito, o que fica para os obsessivos, nem tão brilhante ou poderoso como os histriónicos ou psicopatas. Não será uma pessoa muito original como os esquizofrénicos, nem um génio como os maníaco-depressivos. Será apenas uma pessoa comum que aceita os desafios e os paradoxos da vida, faz o possível por, em cada momento, dar o que pode e actuar em conjunto com os outros. No entanto, tem de assumir a responsabilidade completa pelas suas acções. Afinal, todos fomos expulsos do Paraíso e condenados à solidariedade. Fizemos de fraquezas forças e, uns com os outros, construímos coisas admiráveis. Convenhamos entretanto que tudo isto é muito complicado, pouco gratificante e difícil de fazer. Fácil, fácil é mesmo tornar-se doente mental. (do Epílogo)

POLÍTICA 2

NEGRI, António e SCELSI Adeus Sr. Socialismo, Porto ed. Âmbar, 2007.
“Como se consegue governar uma multidão? Procuro trabalhar esta questão maquiavélica para perceber consequentemente como pode a multidão revoltar-se. (p. 170)
Selci: Não te parece que não só estamos numa fase em que o interlocutor de amanhã é construído como, também, hoje, o do passado deixou de ter ligitimidade para falar e que entre estes cenários poderia existir uma tal destruição generalizada das garantias sociais que nos conduzisse a uma situação ao estilo de Dickens, a uma modernidade caracterizada por uma grande pobreza disseminada de megapólis compostas de plebes que vivem em situações incríveis?”
Negri: Acredito pouco na repetição destes cenários de miséria” (p. 170)

“A criança quando nasce é pobre, à volta dela investem-se discursos, afectos, relações; a criança é um discurso que nasce, a criança é o início do comum, mesmo se indesejada. O enjeitado sempre foi uma figura lindíssima deste ponto de vista” (P. 198)

“O fim do welfare deixa à autonomia social da multidão o enorme espaço para a reconstrução do comum: é face a estes problemas que as organizações da chamada esquerda já não sabem o que dizer ou fazer”

“A religião entra em campo para encobrir o vazio da política perante a plenitude da vida. É claro que a religião intervém de forma não democrática, que o fanatismo expresso à volta da intangibilidade divina do vital esconde, no nevoeiro do mistério, a possibilidade de práticas humanas de amparo e modificação do ser vivo. A religião mais uma vez situa-se contra a ciência. Mas tudo isso acontece precisamente porque a religião substitui a Democracia, reprimindo o saber e a alegria de transformar o mundo que só os laicos conhecem” (P. 198)

“O comum é a Rede, a série de bens materiais que permitem reproduzir-nos e produzir, movermo-nos e/ou fazermo-nos transportar de um lado para o outro da cidade, etc. Em suma, aquela série de coisas que nos permitem construir linguagem (bibliotecas, livros, tecnologia, informática open, instrumentos de comunicação enquanto tal). O comum +e a série completa de instrumentos de permuta entre sujeitos que se tornou rede de valor de uso, subsumido na liberdade. A Esquerda é nova e democrática quando se aplica à gestão do comum e na construção igualitária de redes de cooperação cada vez mais amplas. Enquanto isto não se consolidar como programa não pode haver nova Esquerda. De facto o que é hoje a Esquerda? Não é mais do que uma forma, entre outras, de gestão do capital e da estrutura capitalista do poder. (P. 133)

“As fronteiras que os migrantes atravessam são(-lhes) reconstruídas no interior dos países capitalistas” (p. 106)

“O problema (da Esquerda) é reinventar a produção em torno da livre participação do produtor. O produtor não pode senão ser livre e democraticamente capaz. O imigrado também. O problema grave reside em reinventar a produção projectando novas formas de cooperação e associação em torno de grandes projectos produtivos”.

ARTE 4

ECO, Humberto (dir.), História do Feio, Lisboa, Difel, 2007.
“A palavra kitsch remontaria à segunda metade do séc. XIX quando os turistas americanos, em Munique, querendo comprar um quadro, mas gastando pouco, pediam um esquisso (sketch. Daí o termo acabaria por indicar uma mercadoria vulgar para compradores de sejosos de experiências eséticas fáceis. Todavia, em dialecto meclemburguês já existia o verbo kitschen para “apanhar lenha na estrada”. Outra acepção do mesmo verbo seria “pintar móveis para parecerem antigos” enquanto também existe o verbo verkitschen para “vender barato”. Mas quem considera o kitsche pacotilha? A alta cultura define kitsche os anõezinhos do jardim, as pequenas imagens de devoção, os falsos canais venezianos dos casinos de Las Vegas, o falso grotesco do célebre Madonna Inn californiano, que pretende fornecer ao turista uma experiência “estética” excepcional. E kitsche foi definido, irremediavelmente, a arte celebrativa (que se queria popular) da ditadura estaliniana, hitleriana ou mussolínica que etiquetava como “degenerada” a arte contemporânea. (p. 394).
A essência do kitsche consiste na troca de categoria ética pela categoria estética, isto é, o artista impõe-se não um “bom” trabalho mas um “belo” trabalho, importando-lhe sobretudo o belo efeito” (Herman Broch, O Mal no Sistema de Valores da Arte (1933) citado p. 403)
“O sentimento do sublime nasce do facto de uma coisa decididamente hostil à vontade do homem se tornar objecto de pura contemplação (…) o atraente, ao contrário, faz com que o espectador desça da contemplação pura, necessária à compreensão do belo, seduzindo pela força a sua vontade com objectos que imediatamente a lisonjeiam (…) Na pintura histórica e na escultura, o atraente consiste em repreentar figuras nuas que, pelas poses, pelos meios vestidos e conjunto de composição, tendem a despertar a sensualidade no espectador; e isto destrói a contemplação estética e age em oposição ao fim da arte” (Arthur Schopenhauer in O mundo como vontade e representação” III, 40 (1819) citado p. 400)
“O camp é uma forma de sensibilidade que, mais que transformar o frívolo em sério (como poderia ter acontecido com a canonização do jazz nascido como música de postíbulo) transmuda o sério em frívolo. O camp nasce como sinal de reconhecimento entre os membros de uma elite intelectual, tão seguros do seu gosto refinado, que podem decidir a redenção do mau gosto de ontem, tendo por base um amor pelo inatural e pelo exagerado, cuja evacuação é o dandismo de O. Wilde para quem “ser natural é uma atitude tão difícil de manter” como escrevia em Um Marido Ideal. O camp não se vende pela beleza (…) mas pelo grau de artifício e de estilização e não se define tanto como estilo quanto como uma capacidade de olhar para um estilo alheio. No objecto camp deve haver algum exagero e alguma marginalidade (diz-se que “é demasiado bom ou demasiado importante para ser camp” e também alguma vulgaridade, mesmo quando pretende ser refinado. O elenco de coisas que Sontag define como objecto de olhar camp é heterogéneo e vai das lâmpadas Tiffany a Beardsly de “O Lago dos Cisnes” e das operas de Bellini às realizações de Visconti para Salomé, de certos posters fim-de-século a King Kong, das velhas bandas desenhadas de Gordon e roupas femininas dos anos 20 até aquilo que a critica cinematográfica mais refinada define como “os dez melhores filmes feios que já vi” (p. 408)

CAPITALISMO 9

SPAR, Debora L., O Negócio de Bebés, Coimbra, ed. Almedina, 2007.
“A tese central deste livro é que existe, não obstante, um mercado de bebés, um mercado que se estende a todo o mundo e envolve centenas de milhares de pessoas. (…). É um mercado repleto de tecnologia mas relutante em admiti-lo, um mercado em que os vendedores embrulham muitas vezes os seus artigos na linguagem da caridade.” (págs. 249/50)

“Um dos temas centrais deste livro é a afinidade entre todos os sectores do comércio de bebés. A adopção, o tratamento de fertilidade, a maternidade de substituição, até mesmo a engenharia genética – todos eles estão intimamente relacionadas entre si e com a promessa que encerram de providenciar filhos àqueles que desejam tê-los. (…) Enquanto sociedade temos, no entanto, de reconhecer estes meios como os substitutos que são. As analogias com o mercado podem ser desagradáveis aqui mas lançam uma luz de objectividade sobre aquilo que, de outro modo, se deixa colorir pela emoção. (…) Temos de considerar e, por último, regulamentar essas partes como um todo” (pág. 264)

A autora convida a uma visita de estudo ao site
www.rainbowkids.com

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