9/25/2010

HOBSBAWN, Eric, Globalização, Democracia e Terrorismo. Lisboa: Presença, 2008 (ca. 160 pp. e 12.50 euros)



“Visto que apenas os Estados detêm verdadeiro poder, existe o risco de as organizações internacionais virem a revelar-se incapazes (…) quando pretenderem tratar de ofensas como por exemplo «crimes de guerra» (4) (p. 30)

(4) O melhor guia para esta questão é Roy Gutman e David Rieff (editores), Crime of War: What the Public Should Know” (Nova Iorque e Londres, 1999).


“Poucas coisas são mais perigosas do que impérios correndo atrás dos seus próprios interesses e acreditando que, ao fazê-lo, estão também a fazer um favor à Humanidade” (p.141)



“É impossível dizer quanto tempo irá durar a presente superioridade dos americanos. (...) em termos históricos, será um fenómeno temporário, como foram todos os outros impérios” (p.147)


9/24/2010

Ilha das almas





O mundo que nos inunda de Paz


Depois da Guerra e aí prossegue


É um Mar onde a vida submerge


É uma Ilha onde se trocam almas







Perder







Ganhar ou perder é o tempo duma escolha


Quando já depois do caminho caminhamos


No cabo do troço ainda acima escadeamos


Cheios de pranto ou orgulho em cada bolha





Gonçalo Luís Barrra

9/19/2010

GESTÃO


CHOPRA, Deepak, As Sete Leis Espirituais. Lxª: Presença, 2010, 8ª ed. (ca. 124 pp. e 11 euros)







"Uma célula mantém-se viva e saudável quando se encontra num estado de estabilidade e equilíbrio (…) mantém-se através de uma constante actividade de dar e receber. Cada célula tem algo para dar a todas as outras e constitui suporte para todas as outras. (…) E só mantendo essa fluxo de dar, a célula pode receber e assim continuar a sua vibrante existência.” (p. 116)



(…) cada célula afirma a Lei do desprendimento, pois o seu funcionamento encontra-se desligado dos efeitos das suas intenções” (p. 117)



"A lei da Potencialidade Pura pratica-se através do silêncio, da meditação, do não julgamento, da comunhão com a natureza."

9/17/2010

GESTÃO 19

CARAPETO,Carlos e FONSECA, Fátima, Administração Pública Modernização Qualidade e Inovação. Lisboa: Ed. Sílabo, 2006, 2ª ed. (ca. 438 pp. e 25 euros)







“Um feedback eficaz é uma informação fornecida a uma pessoa sobre aquilo que ela alcançou (desempenho/comportamentos anteriores) e as consequências que daí resultaram (resultados). Não se trata de emitir uma simples opinião (por exemplo, «excelente trabalho»)



Mas sim fornecer uma informação desprovida de juízos de valor” (p. 143)



“As parcerias no sector público não são uma mera moda de gestão. (…) São a expressão de novos modos de acção pública, um novo meio de mobilização de actores e recursos” (p. 269)





“Na era do conhecimento, o capital humano é o principal recurso estratégico das organizações”
(…)




“Várias estudos conduzidos noutros países indicam que a modernização da administração pública tem de se fazer com e para os funcionários”
(…)




“Este discurso [que “culpa” os funcionários públicos pelo mau funcionamento dos serviços - N. de Kriu] tantas vezes repetido que ganhou contornos de verdade científica. Mas a verdade é que uma análise mais desta questão deita por terra esta pseudo-verdade” (in Epílogo)

TESTEMUNHOS 20


RAMO, Joshua Cooper, A Era do Imprevisível. Lisboa: Oficina do Livro, 2010 (ca. 270 pp. e 16 euros)




“(…) precisamos de decisores e pensadores políticos que tenham a percepção revolucionária intuitiva das exigências inevitáveis da inovação. (…) Por exemplo, acreditar que o triunfo da democracia e do capitalismo é inevitável deveria afastar-vos de imediato de um cargo sério em política externa.

(…) na era em que muitas das forças mais dinâmicas da sociedade vêm de fora dos círculos das elites, de tipos estranhos que, outrora, teriam sido considerados “falhados, uma tal abordagem é um erro de proporções catastróficas” (p. 44,5)

ECONOMIA

KRUGMAN, Paul, A Consciência de um Liberal. Lisboa: ed. Presença, 2009 (ca. 269 pp. e 16 euros)

 
“Nos anos 30 e 40 foram criadas instituições e estabelecidas normas que limitavam a desigualdade; a partir dos anos 70, essas instituições e normas foram anuladas, o que provocou um aumento de desigualdade.

(…) na Europa, por exemplo, os sindicatos continuam fortes e não se dissiparam as velhas normas que condenavam os salários elevados dos executivos e enfatizavam os direitos dos trabalhadores” (pp. 142,3)



“Em 2000 Katherine Harris, secretária de Estado republicana da Florida, levou a cabo aquilo a que o New York Times chamou uma «maciça purga de eleitores elegíveis». Sem essa purga, George W. Bush nunca teria conseguido chegar à Casa Branca” (123) (p.195)

(123) «Foram rejeitadas críticas à lei eleitoral», The Washington Post, 17 de Novembro de 2005, p. A01


“Ser liberal é de certa forma ser conservador: significa, em larga medida, o desejo de voltarmos a ser uma sociedade de classe média” (p.266)



“O facto central da vida política norte-americana moderna é o controlo do Partido Republicano por parte dos conservadores de movimento, cuja visão daquilo que os EUA deveriam ser é uma antítese completa da visão do movimento progressista” (p.268)

Se cada final é recomeço


E tudo é nada do avesso


A despedida é sempre desmedida


O saber uma verdade desmentida


E porque de nada me despeço


Legível ou ilegível partirei ileso





(Gonçalo Luis Barra)

9/16/2010

DESTAQUE

"CONSENSUS STATEMENT" in Conferência "Edge"

A statement of consensus reached among participants at the Edge The New Science of Morality Conference Washington, CT, June 20-22, 2010

(...) The participants in the conference described their own work, and then attempted to draft a list of points on which all could agree. They reached consensus on the eight points listed below.

 
This Consensus Statement is not intended to speak for all who study morality, nor is it intended to be a definitive pronouncement about morality. Rather, the statement is intended to be a starting point for an Edge Reality Club conversation. It is proposed as a first draft of a partial description of the state of the art, submitted to the research community for commentary and editing.
In addition, a forthcoming set of individual statements will highlight areas of disagreement among this statements signatories.

Signed by:

Roy Baumeister, Florida State University

Paul Bloom, Yale University

Joshua Greene, Harvard University

Jonathan Haidt, University of Virginia

Sam Harris, Project Reason

Joshua Knobe, Yale University

David Pizarro, Cornell University

THE REALITY CLUB: Liane Young, Robert Kurzban, Jonathan Baron, Linda J. Skitka, Kees van den Bos, Daniel R. Kelly, Peter Ditto, Alison Gopnik, Randolph Nesse, M.D.


CONSENSUS STATEMENT


1) Morality is a natural phenomenon and a cultural phenomenon

Like language, sexuality, or music, morality emerges from the interaction of multiple psychological building blocks within each person, and from the interactions of many people within a society. These building blocks are the products of evolution, with natural selection playing a critical role. They are assembled into coherent moralities as individuals mature within a cultural context. The scientific study of morality therefore requires the combined efforts of the natural sciences, the social sciences, and the humanities.



2) Many of the psychological building blocks of morality are innate

The word "innate," as we use it in the context of moral cognition, does not mean immutable, operational at birth, or visible in every known culture. It means "organized in advance of experience," although experience can revise that organization to produce variation within and across cultures.



Many of the building blocks of morality can be found, in some form, in other primates, including sympathy, friendship, hierarchical relationships, and coalition-building. Many of the building blocks of morality are visible in all human culture, including sympathy, friendship, reciprocity, and the ability to represent others' beliefs and intentions.



Some of the building blocks of morality become operational quite early in childhood, such as the capacity to respond with empathy to human suffering, to act altruistically, and to punish those who harm others.



3) Moral judgments are often made intuitively, with little deliberation or conscious weighing of evidence and alternatives

Like judgments about the grammaticality of sentences, moral judgments are often experienced as occurring rapidly, effortlessly, and automatically. They occur even when a person cannot articulate reasons for them.



4) Conscious moral reasoning plays multiple roles in our moral lives

People often apply moral principles and engage in moral reasoning. For example, people use reasoning to detect moral inconsistencies in others and in themselves, or when moral intuitions conflict, or are absent. Moral reasoning often serves an argumentative function; it is often a preparation for social interaction and persuasion, rather than an open-minded search for the truth. In line with its persuasive function, moral reasoning can have important causal effects interpersonally. Reasons and arguments can establish new principles (e.g., racial equality, animal rights) and produce moral change in a society.



5) Moral judgments and values are often at odds with actual behavior

People often fail to live up to their consciously-endorsed values. One of the many reasons for the disconnect is that moral action often depends on self-control, which is a fluctuating and limited resource. Doing what is morally right, especially when contrary to selfish desires, often depends on an effortful inner struggle with an uncertain outcome.



6) Many areas of the brain are recruited for moral cognition, yet there is no "moral center" in the brain

Moral judgments depend on the operation of multiple neural systems that are distinct but that interact with one another, sometimes in a competitive fashion. Many of these systems play comparable roles in non-moral contexts. For example, there are systems that support the implementation of cognitive control, the representation of mental states, and the affective representation of value in both moral and non-moral contexts.



7) Morality varies across individuals and cultures

People within each culture vary in their moral judgments and behaviors. Some of this variation is due to heritable differences in temperament (for example, agreeableness or conscientiousness) or in morally-relevant capacities (such as one’s ability to take the perspective of others). Some of this difference is due to variations in childhood experiences; some is due to the roles and contexts influencing a person at the moment of judgment or action.



Morality varies across cultures in many ways, including the overall moral domain (what kinds of things get regulated), as well as specific moral norms, practices, values, and institutions. Moral virtues and values are strongly influenced by local and historical circumstances, such as the nature of economic activity, form of government, frequency of warfare, and strength of institutions for dispute resolution.



8) Moral systems support human flourishing, to varying degrees

The emergence of morality allowed much larger groups of people to live together and reap the benefits of trust, trade, shared security, long term planning, and a variety of other non-zero-sum interactions. Some moral systems do this better than others, and therefore it is possible to make some comparative judgments.



The existence of moral diversity as an empirical fact does not support an "anything-goes" version of moral relativism in which all moral systems must be judged to be equally good. We note, however, that moral evaluations across cultures must be made cautiously because there are multiple justifiable visions of flourishing and wellbeing, even within Western societies. Furthermore, because of the power of moral intuitions to influence reasoning, social scientists studying morality are at risk of being biased by their own culturally shaped values and desires.



Signed by:

Roy Baumeister, Florida State University

Paul Bloom, Yale University

Joshua Greene, Harvard University

Jonathan Haidt, University of Virginia

Sam Harris, Project Reason

Joshua Knobe, Yale University

David Pizarro, Cornell University



9/03/2010

PSICOLOGIA

WILKINSON, Richard e PICKETT, Kate, O Espirito de Igualdade  - Por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor. Lisboa: Ed. Presença, 2010 (Ca 350 pp. e 18.50 euros)

"Embora boas escolas marquem uma diferença, a maior influencia no sucesso escolar (…) é o meio familiar” (p. 137)

“A maior parte de nós deseja actualmente comer menos e não mais. E pela primeira vez na História, os pobres são – em média – mais gordos que os ricos”. (p. 26)

“Quando nos sentimos felizes ou seguros de nós mesmos, os nossos cérebros beneficiam da libertação de dopamina, o químico da recompensa, o que também reforça a memória, a atenção e a resolução de problemas. (…) Quando nos sentimos ameaçados e impotentes ou stressados, os nossos corpos são inundados pela hormona cortisol, que inibe o pensamento e a memória. Por conseguinte desigualdades (…) quer na sociedade quer nas escolas, têm um efeito directo na aprendizagem e no desempenho educativo” (p.148)

9/02/2010

BIOGRAFIA 1

MENEZES, Filipe Ribeiro, Salazar. Lisboa: Dom Quixote, 2010 (Ca. 800 pp. e 37 euros)



“Ao contrário de outros «grandes ditadores» do século XX, Salazar embrenhou-se nas minudências do governo e da administração, mantendo um prodigioso ritmo de trabalho ao longo dos seus quarenta anos no poder” (“Introdução”, p. 14)



(…) o presente volume nunca foi concebido como uma biografia exaustiva de Salazar (…) Aspira, não obstante a ser muito mais do que uma simples visita introdutória à sua vida política (“Introdução”, p. 16)

“Salazar estava cada dia mais perdido no mundo moderno e não fazia ideia da realidade existente para além das fronteiras portuguesas” (P. 640)


“Abandonar o poder enquanto ainda era capaz de agir e decidir equivalia a admitir que poderia ter estado errado no passado e que outros poderiam desempenhar melhor o cargo. Isso ele não quis nunca admitir” (P. 653)

8/11/2010

CRÓNICA 1

AMARELINHA  por Nair Lucia de Britto

Não tinha nome, nem dono. Surgiu simplesmente, certo dia, no grande terraço da casa de D. Ernestina. Quem a viu primeiro foi a arrumadeira, que em seguida chamou pela patrôa:
-- D. Ernestina! Veja só!


Ela atendeu curiosa. E deu com uma gata amarela, um tanto magra, um pouco tímida e com um grande par de olhos, cheios de meiguice.


-- Pobrezinha! Se já não tivéssemos tantos gatos, poderíamos ficar com ela – e suspirou com resignação. -- Dê-lhe um pouco de comida e deixe que ela volte à rua.


A arrumadeira obedeceu.


No dia seguinte, entretanto, a gata voltou e no outro também. A ordem foi a mesma: comida e rua!


No quarto dia, porém, a gata relutou. Veio se chegando, mansamente; tão carinhosa, tão dengosa pros lados de D. Ernestina, que esta se deixou vencer:


-- Entre! Pronto!... Fique, a casa é sua!


É claro que Amarelinha entrou e ficou. Fez logo amizade com o Duducho, um gatão muito esnobe que, em vez de fazer “miau” fazia “minhon”; com Mãezinha, que era a mãe de todos os outros gatos; e com os demais gatos da casa.


Em pouco tempo, Amarelinha já fazia parte da família. E, quando não estava ao pé de sua dona, estava a procurar por ela.


Certo dia, segundo instruções do veterinário, Amarelinha precisava ser operada. D. Ernestina titubiava. A operação embora necessária era arriscada. Afinal se decicidiu: se era para o bem da bichana, fosse o que Deus quisesse!


Com o coração apertado, D. Ernestina levou a Amarelinha para a clínica veterinária. Do lado de fora da sala de cirurgia, ficou aguardando muito aflita pelo final da intervenção. Tudo pronto, trouxe-a de volta ao lar, toda envolta em faixas e ainda sob o efeito da anestesia.


Chegou a noite daquele mesmo dia. D. Ernestina estava à mesa, jantando. Porém, não conseguia comer. Sentia-se, subtamente incomodada por um mau- pressentimento.


Imediatamente, abandonou o prato ainda cheio de comida e foi ao encontro da gata, no andar de cima da casa.


Deparou-se com a bichana inerte, sem dar qualquer sinal de vida. Rapidamente, tomou-lhe as patinhas entre suas mãos trêmulas: estavam hirtas e frias. Ao perceber que Amarelinha, sua companheira constante, estava morrendo, foi dominada pelo pânico. Um gemido agudo saiu dos seus lábios. E lágrimas corriam dos seus olhos, grossas e intensas.






Neste exato momento, aconteceu algo extraordinário!


Com um esforço supremo, a gata abandonou sua posição de inércia e voltou vagarosamente a cabeça, com os olhos em direção à sua dona. Era um olhar comprido; muito expressivo, mas indescretível!


Era como que se quisesse impedir o sofrimento de sua dona. Então resolveu, de repente, reunir todas as suas forças para sobreviver. E dessa luta saiu vencedora!


Depois de uma noite difícil e longa, sob o acalanto carinhoso de sua protetora, Amarelinha amanheceu completamente fora de qualquer perigo. Era o milagre do amor...


Hoje, Amarelinha está forte e saudável... Quando não está correndo atrás de sua dona, está a procurar por ela. Da operação nenhum vestígio. Nem mesmo uma cicatriz.


Como agradecimento, D. Ernestina construiu no jardim do seu sítio, entre lindas plantas, uma capelinha com a imagem de São Francisco de Assis.

7/23/2010

TESTEMUNHOS 19

NUZI, Gianluigi, Vaticano S.A.. Lisboa: Ed. Presença, 2010 (ca 270 pp. e 17 euros)

“O próprio monsenhor Dardozzi tinha feito do silêncio uma regra

de vida. Nunca fez uma declaração, entrevista ou fotografia. Nem sequer

uma citação. O seu interminável arquivo, que reconstrói, a partir



de dentro, os acontecimentos financeiros mais inquietantes da Igreja



Romana, não poderia ter sido tornado público antes. É somente depois



da sua morte que Dardozzi abandona o caminho obscuro que traçou



para si durante toda a sua vida. Eis a sua última vontade testamentária:



«Tornar públicos estes documentos para que todos saibam o que aconteceu.»



p. 13




“Na primeira parte reconstitui-se a gestão das finanças do Vaticano



passo a passo com base nas cartas secretas de Dardozzi. Uma vez



fechado o arquivo de Dardozzi, na segunda parte, resultado de factos



e de testemunhos inéditos, relata-se as operações financeiras arrojadas



e que terão levado monsenhores e prelados a apoiar o nascimento de



um novo grande partido do centro, depois da queda da Democrazia



Cristiana, e até a reciclar dinheiro da Máfia." (p.15)

7/22/2010

DESTAQUE 16

SACHS, D. JEFFREY, «Economia e Justiça». Jornal de Negócios”, 20/07/2010. Trad. de Ana Luisa Marques.


Graças (…) às medicinas modernas (…) os cuidados de saúde primários são actualmente (…) baratos, custando cerca de 54 dólares por pessoa por ano nos países pobres.


(…) os orçamentos nacionais dos países pobres só podem financiar cerca de 14 dólares por pessoa.


(…) O “gap” financeiro é de 26 mil milhões de dólares.


(…)


Os países ricos poderiam facilmente reunir este dinheiro.


Primeiro os Estados Unidos podiam terminar a cara e falhada guerra no Afaguenistão (…) Se os Estados Unidos dessem uma pequena percentagem desse valor para ajudar o desenvolvimento do Afaguenistão, haveria muito mais probabilidades de alcançar a paz e a estabilidade


(..)


Uma segunda hipótese seria aplicar impostos aos grandes bancos internacionais


(…)


È tempo de aplicar um imposto internacional sobre os lucros dos bancos (…) Os países em desenvolvimento devem fazer pressão para que este imposto seja criado e não devem aceitar desculpas débeis dos Estados Unidos e outros países para protegerem os seus bancos.


Uma terceira hipótese seria obter contribuições dos homens mais ricos do mundo. Vários deles, incluindo Bill Gates, Georges Soros, Warrn Buffet e Jeffrey Skoll são já mega-filantropos. (…) Ainda assim, outros milionários têm ainda de fazer doações semelhantes.

(…)

Uma quarta possibilidade seria olhar para empresas como a Exxon-Mobil, que ganha milhões de dólares em África todos os anos mas que de acordo com um dos relatórios da empresa, gastou apenas cinco milhões por ano em programas de controlo da malária em Àfrica durante 2000 e 2007.




A Exxon-Mobil pode e deve financiar uma parte muito maior dos serviços de saúde primária tão urgentes em África, seja através de direitos pagos pela empresa ou de doações filantrópicas.


Em quinto lugar, os novos doadores, tal como o Brasil, a China, a Índia e a Coreia do Sul (…) . Se os Estados Unidos e a Europa são negligentes para cumprirem as suas responsabilidades, as economias emergentes podem e vão realizar parte delas. Felizmente estes novos doadores estão a tornar-se parceiros de confiança em África.
O mundo rico diz que há falta de dinheiro para fazer mais. Mas o que falta é imaginação e não recursos.


(…)


Os Estados Unidos deviam deixar de desperdiçar dinheiro em gastos militares e destiná-lo aos financiamentos do sistema de saúde. O mundo deveria implementar um imposto global sobre o sector bancário. Os multimilionários deviam aumentar o seu nível de filantropia. As empresas petrolíferas deviam pagar mais. Os novos doadores, como a China, podem preencher o “gap” financeiro deixado pelos países doadores tradicionais.

O dinheiro existe. As necessidades são urgentes. É um desafio à moralidade e à capacidade de visão. [sublinhado de kriu]

6/14/2010

Texto publicado no site da Escola Fernão Mendes Pinto de Almada (adaptação)





“Mauern”, “Falo…” e “Rei Ubu”  no teatro Extremo

No dia 17 de Junho pelas 21.30 H será possível ver no Teatro Extremo, Rua Serpa Pinto, em Almada (Velha) o produto do meu trabalho artístico, assessorado dramaturgicamente pela Profª Lurdes Cruz, levado a cabo no ano lectivo de 2009/2010 na Escola.  

A sessão começará com “Mauern” (...) depois do qual estreará “Falo… Falas… Falamos? Exercício teatral sobre a linguagem e as suas silábicas questões” e, finalmente, “Rei Ubu”, de Alfred Jarry (extractos). 

 “Falo… Falas…” marcará a estreia do Grupo de Teatro Multicultural, cuja actividade se iniciou em Janeiro de 2010.

(...) eis algumas pistas de leitura, justificadas aqui pelo contexto pedagógico em que foram criadas:

1. “Mauern”: comecei a investigar o material que serviria de fundamento a “Mauern” em Junho de 2009. Mas decisiva foi a minha estadia em Agosto último, em Berlim, através de uma bolsa de estudo do Goethe Institut de Portugal, que me permitiu a descoberta da lápide que assinala, na Zimmerstrasse, o local onde agonizou Peter Fechter.
“Mauern” não é a primeira obra dedicada a Peter Fechter: logo após o seu assassínio diversos artistas lhe dedicaram obras e, na semana seguinte à da sua morte, realizou-se um concerto evocador do jovem de 18 anos que, ferido junto ao muro de Berlin quando tentava passá-lo, gritou por socorro cinquenta e um minutos, antes que as autoridades permitissem (tarde demais) socorrê-lo. Mauern é, pois, uma obra sobre a impiedade humana e, neste sentido, toda a violência que a peça possa expressar nunca excederá aquela – bem real – que lhe deu origem. 

Na construção dramaturgica de “Mauern”, além de escritos meus e do prólogo de autoria de Lurdes Cruz, utilizo textos de Goethe (alheio ao “consome e deita fora” ou exacerbação da “originalidade”, gosto de citar adereços/personagens das minhas obras anteriores: em “Mauern” reaparece o cão-Mefistófeles  do “Fausto”), assim como um extracto do “Despertar da Primavera”, de Wedkind, e ainda citações de Schiller e Lutero. Estes ingredientes constroem, sobre a tragédia de uma morte – a de Pet – o percurso de uma mãe -  Grete – em busca da sua criança desaparecida.  
No final o Coro dirá a Grete, que chora caída no chão: “Grete, steh auf!” (“Grete, levanta-te!”) enquanto avança direcção ao “muro”: um tal epílogo diz-me a mim, seu arquitecto, que ainda acredito na vitória do esforço humano.


2. “Falo… Falas… Falamos? Exercício teatral sobre a linguagem e as suas silábicas questões” corresponde a uma proposta para que tratasse a multiculturalidade presente na Escola, onde existe um número elevado de diferentes nacionalidades
A peça começa num tempo em que o humano mal se expressa - mas logo inventa a roda - e procura, através de breves quadros, transmitir os diversos usos da linguagem: o dar nomes às coisas, a aprendizagem da frase, no caso um poema de Camões, a sua utilização em diversos registos, a linguagem como ferramenta argumentativa (luta por um objecto) anestésica (quadro da canção de embalar) a fala-manipulatória – “Tu ficas com o papá!” -  a linguagem, enfim, do discurso político. Por último, as palavras amorosas, ou o encontro da “alma gémea”, o qual tudo apazigua, com a peça a voltar ao principio, embora noutro patamar evolutivo, dando entrada aos bebés que aprendem a falar e a fazer a roda. 
“Falo…Falas… “ procura explicar as diferenças culturais partindo da própria linguagem.  

3. “Rei Ubu” de Alfred Jarry (extractos)
A escolha dos extractos obedeceu à razão da sua encenação: trata-se do texto que o “Festival Studantesco Lingue in Scena” de Turim colocou como obrigatórios aos grupos participantes.
Talvez o caminho mais fácil para encenar “Ubu” seja o do grotesco, tirando partido da expressão desbragada das personagens.  
Não foi a opção.
Achando que “Ubu”, na sociedade de raiz democrática ocidental, é todo aquele que sonha elevar-se materialmente acima dos demais – quantos semanalmente vêem o euromilhões como uma solução de vida? – a encenação faz do personagem “Ubu” um cidadão comum: daí que o Poder surja cenicamente sustentado pelo sofrimento daqueles sobre os quais ele se eleva.
Mas o sonho embala o humano e, no final, o casal “Ubu” iguala qualquer par romântico que idealiza a sua estrada.
Homo hominis lupus?

Propositadamente falei até aqui das opções dramatúrgicas das três peças mas  não da forma que as embrulha ou… embala.
(...)
Quais são, pois, as minhas preferências estéticas, sob que roupagens gosto de vestir as obras que faço?
O meu trabalho cénico fundamenta-se no labor do actor (concordo com Grotowski quando diz que o teatro é apenas o que se passa entre um actor e um espectador) e, em cena, tudo o mais me parece circunstancial, ou de evitar. “Teatro nu”, portanto, para não lhe chamar “Pobre” como dizia o referido Grotowski. Não me lembro de colocar um disco a servir de banda sonora numa das minhas peças (é fácil reunir créditos à custa de excepcionais gravações) e, mesmo o nu, chamariz fácil de tanta obra, foi em “Mauern” que senti pela primeira vez a sua inapelável necessidade: como apresentar doutra forma a força energética (Baal?) que ri de todas as fardas, senão vestindo o personagem que a encarna apenas com a única veste de que, de facto, não nos podemos ver livres: o próprio corpo humano? (Por razões pedagógicas (?) este nu, todavia, não foi apresentado no contexto da Escola.)
Teatro essencial?
Teatro de facto nu?
(...) O espectador mais atento encontrará decerto outras pistas e, porventura, até contraditórias com as que sugiro. Pessoalmente gosto da contradição: a ela devemos a vida.
(...)
Nota: "Mauern" e "Rei Ubu" estrearam no "Festival Studentesco Lingue in Scena de Torino 2010".
"Mauern" é a versão original (em alemão) de "Muros", apresentado na Quinzena da Juventude de Almada em Março último.


Carlos Gouveia Melo
(Encenador/dramaturgo assistente na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto)

6/12/2010

CAPITALISMO 24



COLLIER, Paul. Os Milhões da Pobreza – Porque os países mais carenciados estão a ficar cada vez mais pobres – Qual a verdadeira chave para o seu crescimento. Lisboa: Casa das Artes, 2010  (ca. 260 pp. e 15 euros)


“A esquerda tem de ultrapassar a autoflagelação e as idealizações (…) os países dos últimos mil milhões não existem para serem cobaias de experiências socialistas; têm de ser ajudados a continuarem no caminho da construção de economias de mercado. (…) Presentemente, o apelo da esquerda é feito pelo livro de Jeffrey Sachs, O Fim da Pobreza (…) penso que ele exagerou na importância da ajuda externa (…) a direita (…) tem de reconhecer que a actividade privada dos mercados globais pode, por vezes, gerar nos países mais pobres problemas que necessitam de soluções de âmbito público” (p.241)

“O processo político dos países dos últimos mil milhões não se caracteriza pela serenidade e tranquilidade do processo político das democracias ricas, mas sim por uma perigosa disputa entre dois extremos de moralidade.
(…) o nosso apoio à mudança pode ser decisivo. (…) mas necessitamos não apenas de uma abordagem mais inteligente à questão da ajuda externa mas também de acções complementares que recorrem a (…) políticas de comércio externo, estratégias de segurança, alterações nas nossas leis e novas cartas internacionais” (p.242)

6/10/2010

BIOGENÉTICA 1


HARRISON, Keith,  O Nosso Corpo – O Peixe que Evoluiu. Lisboa: ed. Presença, 2009 (Ca. 187 pp. e 13 euros)

"Por que motivo temos costelas por cima do peito e por cima do estômago, não? Por que razão os nossos cotovelos e joelhos dobram em sentido opostos (...) Este livro propõe-se responder a estas e outras questões” 
(prefácio)

“Ter todos os órgãos sensoriais concentrados na cauda não tem grande valor evolutivo. Um animal precisa de saber que está prestes a rastejar para dentro da boca  de um predador, não que acaba de entrar nela” (p.14)

“A terra tem cerca de 4 550 000 000 (quatro biliões e quinhentos e cinquenta  milhões) de anos. Se comprimíssemos todo este tempo no espaço de um ano e determinássemos que a Terra teve o seu início a 1 de Janeiro e que hoje é o dia 31 de Dezembro, os primeiros seres microscópicos teriam surgido por volta do dia 1 de Março mas os peixes – os primeiros invertebrados – só teriam aparecido no dia 21 de Novembro (…) Os anfíbios teriam aparecido a 2 de Dezembro, seguidos pelos répteis a 8. Os mamíferos no dia 13 e os dinossauros um pouco depois da hora do lanche do dia 26. Os humanos só teriam chegado na noite de 31, há poucas horas” (p.15)

“Se uma planta tivesse as características do Homo Sapiens, seria vista como uma erva daninha (…) Nós somos as maiores ervas daninhas da Terra.  
Talvez isto se deva ao facto de não termos evoluído como uma espécie global. Só recentemente adquirimos esta noção da espécie e, mesmo assim, ainda não temos uma visão inteiramente global do mundo. Para muitos de nós. «o mundo» está para lá da linha do horizonte. (…) Concentramo-nos no ambiente que nos rodeia e em contribuir para os objectivos da nossa cultura local e não nas necessidades da cultura internacional. (…) Somos por natureza uma espécie provinciana; mentalmente ainda vivemos em aldeias e a nossa inteligência é normalmente utilizada para acumular conhecimentos, não para avaliar o que eles nos podem dizer” (p. 150)

“Já foi até sugerido que devíamos parar de falar de inteligência, visto que é  praticamente impossível encontrar definições, mas agora já é demasiado tarde para isso” (p.151)

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