12/07/2008

HISTÓRIA 4


 

CORBIN, Alain, História dos Tempos Livres, Lisboa, ed. Teorema, 2001 (514 pp. e ca. 14.50 euros)

 

“O nosso projecto consiste em seguir a invenção das maneiras de imaginar, utilizar ou simplesmente viver uma gama de tempos disponíveis (…) das sociedades ocidentais entre 1850 e 1960” (p.5)

 

“Na Inglaterra, tal como nos Estados Unidos, elabora-se uma industria e uma cultura populares do divertimento (…) Ao longo da década de 1850 são projectados o Bois de Boulogne e o Central Park “ (p.7)

 

“ Os americanos inverteram o antigo pavor do tempo perdido. Consideraram o tempo livre um tempo ganho, poupado ao trabalho: como um (…) resultado benéfico da civilização dos Estgados Unidos.” (p. 10)

 

 

“ O aumento do tempo disponível. A desqualificação dos saberes artesanais, e, em maior medida, as transformações da estrutura temporal das sociedades ocidentais acentuaram  na verdade o medo do vazio, dos tempos livres e agravaram a incapacidade do indivíduo de produzir tempo para si próprio. (…) Ou deveremos pensar que, a despeito do declínio histórico do trabalho, as limitações que são as dos tempos laborais não param de se transpôr para o tempo disponível e determinar os seus conteúdos?” (p.13)

 

“Mais ou menos todos os militantes do turismo social propagavam os «três D», «funções importantes do lazer» (…) descanso, que liberta da fadiga, divertimento, que liberta do tédio, e desenvolvimento da personalidade que «liberta dos automatismos de pensamento e da acção quotidiana». A sociedade de consumo substitui-os pelos três S: Sea, Sex and Sun.”(p.497)

12/04/2008

POEMA 12 Gonçalo Barra

Segredo


Pousei nas tuas mãos uma rosa rara

Deixei cair certa mentira pura e cara

A dura côdea que me sustem a alma

Morna jaze na concha da tua palma

 

Guarda bem esse pão que é meu tesouro

Afaga no teu regaço essa rosa minha dona

E dona minha te suspiro que silêncio é ouro


















Urgência


Como se eu pudesse adivinhar entre as dobras da tua pele

Um coração que vê o mar e sente a brisa afagar-lhe o rosto

Como se as minhas mãos fossem água e a minha boca mel

Docemente a imergir até o ventre te estalar cheio de mosto

 

Estou dentro de ti, sem começo, permeio nem acabamento

Uma andorinha na busca eterna do sol a brilhar na tua alma

Serei em ti sempre nada mais do que a brisa dum momento

Um doce beijo no veludo do teu seio ao final da tarde calma

 

Festejo o calor do vento que te lambe o corpo a alma e as entranhas

A força do fantasioso ritmo que te entontece os pés e levita o desejo

Que tua boca amor reencontre fome de colher da andorinha um beijo


















Butterflies


Do sangue vermelho surgem borboletas de todas as cores,

Como se o teu magenta fosse o branco eterno e completo,

Um Sol a desvendar em si o espectro do cabo além dores,

A Boa Esperança enfeitada por asas de cromático dialecto.

 

Não vejo drama na borboleta pousada no cerejo fontanário,

Nem a vergonha brota dos vulcões sob o leito onde se esvai,

Onde a coragem ordenou lavrar sobre a pele o seu glossário,

Sílabas de fogo guardadas pelos Deuses quando a noite cai.

 

Não pedem meu perdão as marcianas borboletas que o teu rio enfeitam,

Não escuto o prenúncio da azáfama sanguinosa dos abutres em festim,

Só ouço o mensageiro vento a passar por nossas vidas e à vida dizer sim.

 

12/01/2008

PORTUGAL 6


FIGUEIRAS, Rita, O Comentário Político e a Política do Comentário, Lisboa, Paulus Editora, 2008 (ca. 542 pp. e 25 euros)

 

“Rita Figueiras vem levantar uma questão muito actual e pertinente para a avaliação do estado da democracia portuguesa: estará o espaço de opinião (…) nos media portugueses a contribuir para uma asfixiante (…) politização da opinião publicada? (…) Estas páginas merecem leitura atenta pois como eu própro penso o espaço publico português é actualmente uma babilónia de fabricadores de opinião que de tanto falarem entre si, anulam-se uns aos outros.  (J.M.P.Oliveira in Prefácio, pp. 8,9)

 “Nesta obra analizamos a democraticidade do espaço ”Opinião” e pretendemos aferir a qualidade  do debate que se trava nas colunas de opinião sobre a política portuguesa” (p.13)


“Sob o ponto de vista de muitos indicadores tem-se assistido a uma rápida aproximação do país a padrões médios das sociedades desenvolvidas (…)  O sector dos media tem acompanhado as tendências internacionais (…) O core do universo do comentário de imprensa de referencia parece denunciar os vestígios de uma sociedade mais arcaica. (…) o universo dos comentadores tem-se mantido relativamente imune às profundas mudanças ocorridas na sociedade portuguesa ao longo destes 26 anos sobre os quais existem dados sobre o espaço “Opinião” (1980-2005). (...) esta secção tem conseguido recriar-se através de um processo de selectividade e sem precisar de se abrir verdadeiramente ao exterior. (…) A persistência destas características tende, de certa forma, a dificultar algumas das transformações em curso no país, nomeadamente a autonomização do espaço “Opinião” dos referidos círculos de maior concentração de autoridade e poder, dificultando a possibilidade de ser uma instância promotora de debate público esclarecedor e o aprofundar da democracia (pp.483,4)

Nota de Kriu: O livro de RF contém vinte e cinco páginas de bibliografia relacionada com o tema dos media (pp.507,732)

11/26/2008

PORTUGAL 5 O Atestado Médico, por José Ricardo Costa

Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter defazer uma vigilância. Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa. Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?
Passemos então à parte divertida.
A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico.
Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.
Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
O professor sabe que não está doente.
O médico sabe que ele não está doente.
O presidente do executivo sabe que ele não está doente.
O director regional sabe que ele não está doente.
O Ministério da Educação sabe que ele não está doente.
O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.
Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.
Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade. Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: - Uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: - Quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados! Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranhoa ver o 'ET', que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D.Afonso Henriques, que Deus me perdoe.A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismodisfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade. Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casashorríveis e fábricas desactivadas. Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo. Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame porficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio
URGE MUDAR ESTE ESTADO DE COISAS.
ESTÁ NA SUA MÃO, NA MINHA E DAQUELES A QUEM A MENSAGEM CHEGAR!

TESTEMUNHOS 14


E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?
Por Mia Couto
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. (...) Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos. Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas - tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.Inconclusivas conclusõesFique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.
in Jornal "SAVANA" - 14 de Novembro de 2008

11/25/2008

POLÍTICA 5


GINSBORG, Paul, A Democracia Que Não Há – Que Fazer Para Proteger O Bem Político Mais Precioso do Nosso Tempo – As Multinacionais e Os Impérios de Tv e Comunicação Social Estão a Dominar os Lobbys Políticos Por Todo o Mundo. Será Possível Salvar a Democracia?, Lisboa, Teorema, 2008. (140 pp. e ca.12 euros)

"A necessidade actual de ligar de novo a esfera política à sociedade, de superar uma separação hoje entendida como um abismo, é fortíssima” (...) Marx escreve (…) em “A Questão Judaica” e noutros sítios que os enigmas da política moderna serão resolvidos quando «o homem real e individual» conseguir reunir de novo em si «o cidadão abstracto [político] de modo que a política e a sociedade voltem a estar unidos, e «só então se realizará a emancipação humana» (…) (p. 72,3)

“As experiências e as propostas de democracia deliberativa têm assumido uma gama de formas tão complexa que não me é possível prestar justiça a todas neste lugar. Refiro-me à alemã Plannungszelle, aos Júris de Cidadãos americanos e britânicos, aos Town Meetings, às Consensus Conferences, à proposta de James Fishkin nos Estados Unidos de criar um dia nacional de deliberação dos cidadãos na gestão da obra pública e de instrução pública, em Chicago, ao site e-the-People, ao empowerment dos pais dinamarqueses nas escolas primárias e assim por diante (1)
(1) Cf. J. CASTIL e P. LEVINE, The Deliberative Democracy Handbook, Strategies for Effective Civic Engagement, in the XXIst. Century, Jossey Bass, San Francisco, 2005.

“A arena da governance internacional até agora tem sido povoada quase exclusivamente pelas vozes dos diplomatas, dos políticos, dos burocratas e dos especialistas funcionais. Os seus procedimentos são opacos e está afastada dos cidadãos. Mas não é uma esfera inexpugnável” (p.127)


A Democracia É Um Sistema Político Mutável e, ao Mesmo Tempo, Vulnerável. Para a Revitalizarmos, É Hoje Indispensável Conjugar a Representação e a Participação, a Economia e a Política, a Família e as Instituições (in contra-capa)

Livro citado no texto: SIEDENTOP, Larry, A Democracia na Europa.

11/22/2008

ANTROPOLOGIA 1 (Foto: Margarida Diogo in "A Perca" de C.G.Melo)



ADOVASIO,J.M. e outros, O Sexo Invisível, Pub. Europa-América, 2008
(288 pp. e ca. 23.90)

“Quem inventou a linguagem?
(…)Morton descobriu que basicamente todas as vocalizações breves dos mamíferos e todos os gritos de aves seguem o mesmo padrão, o que também inclui os homens.
Falamos com os bebés em registo alto mas falamos em tom baixo e áspero quando fazemos ameaças.
Portanto na comunicação vocal das aves e mamíferos, a forma corresponde à função. (…) A correspondência entre forma e função é um dos fundamentos da biologia mesmo até ao nível das moléculas” (p. 95)

“Ora tem sido na capacidade dos primatas não humanos, particularmete chimpazés e alguns babuínos, para mentir e trapacear que os cientistas conseguem captar aspectos que parecem estar na base do desenvolvimento da linguagem [Ex: produzir o som na ausência do que primeiro o justificou – N. de Kriu](p.99)

“Mas os membros de um grupo de chimpazés podem passar tanto tempo como metade de um dia, ou mesmo mais, a cuidarem uns dos outros. A vida altamente socializada não é apenas o seu modo de se adaptarem ao mundo, ela própria se torna parte do grande sistema a que têm de se adaptar. (…) «As sociedades primata seleccionam assim as capacidades comportamentais dos indivíduos que as constituem. Os indivíduos socialmente competentes no seu interior terão “vantagens” em relação aos menos competentes» [Alison Jolly, especialista em primatologia Nota de Kriu] Chegamos assim à importante noção de que a inteligência dos primatas, incluindo humanos, aumentou ao longo do tempo como um meio de enfrentar os desafios da convivência. (…) A sociedade e as suas pressões podem pois ser vistas como o motor que desencadeou a origemd a fala” (p.99)


“No paleolítico final, há cerca de 30000 anos (…) o número de adultos com idade para serem avós quadruplicou de súbito. (…) a espectacular alteração demográfica desta época pode ter constituído uma versão primitiva da recente revolução informática, com as recordações dos velhos a servirem de repositórios vivos de informações úteis” (p.143)

11/20/2008

EUROPA 6

Bruckner, Pascal, O Complexo de Culpa no Ocidente, Pub. Europa-América, 2008 (208 pp. e ca. 17.90 euros)

“Um autêntico comércio espiritual está em curso: designam-se clérigos que zelam pela sua manutenção (…) É a esta escalpelização auto-infligida que dou o nome de dever de penitência. (…) é uma máquina de guerra com várias funções: censura, tranquiliza, distingue.
Em primeiro lugar proíbe ao bloco ocidental, eternamente culpado, julgar ou combater outros regimes, estados ou religiões. Os crimes do passado intimam-nos a ficar calados (…) Definem-se assim dois ocidentes: o bom,o da velha Europa que se curva e se cala, e o mau, o dos Estados Unidos que intervém e se intromete” (pp.12,3)

“E tal como Pascal pedia à razão para “acolher o seu inimigo”, uma democracia deve, sob pena de enfraquecer, englobar o seu contrário sem se deixar destruir por ele, explorar em seu proveito os valores hostis ao seu desenvolvimento – o furor, a intransigência, o fanatismo – avançar por entre perigos que podem matá-la mas também fortalecê-la. (…) A América tem a capacidade assombrosa de conviver com uma boa dose de anarquismo estrutural, de extremismo e caos que nos mataria na Europa” (p.75)

O verdadeiro crime da velha Europa não é apenas o que ela fez noutros tempos: mas sim o que ela não faz hoje: a sua inacção nas Balcãs durante os anos 90, o seu espectadorismo escandaloso no Ruanda, o seu silêncio na Chechénia, a sua insensibilidade perante o Darfur, o Sudão Ocidental e, de uma forma geral a sua complacência, o seu ajoelhar-se, ou o seu «criadismo» para retomar um termo de Aimé Césaire, face às potencias actuais” (p.95)

“Elas [as democracias – N. de Kriu] são responsáveis pela perpetuação da própria democracia. (…) A Europa, se quiser ter a mais ínfima influencia deverá edificar a par com o seu grande vizinho [os E.U.A.- N. de Kriu] um novo bloco (…) A todos os partidários do grande cisma, que reclamam o divórcio e vêem no oceano Atlântico um lago metafísico que separa duas filosofias irredutíveis, impõe-se responder que essa rivalidade deve ser convertida numa emulação entre blocos (…) é necessário temperar o arrebatamento americano com a ponderação europeia e a razão europeia com o dinamismo americano” (pp. 202,3)

"Perguntai a um sapo o que é a beleza, o verdadeiro belo, o to kalón. Responder-vos-á que consiste na sua mulher, com os seus belos olhos redondos que se projectam para fora da pequena cabeça, o pescoço grosso achatado, o ventre verde e as costas castanhas"

Voltaire, in "Dictionnaire Philosophique"

11/19/2008

SOCIOLOGIA 2

ELIAS Norbet, Introdução à Sociologia, Lisboa, ed. 70, 2005 (Ca. 200 pp. e 15 euros)

“Da interpenetração de inúmeros interesses e intenções individuais – sejam elas competitivas ou opostas e hostis – algo vai decorrendo que, ao revelar-se, se verifica não ter sido planeado nem reequerido por nenhum individuo. No entanto apareceu devido ás intenções e actos de muitos indivíduos. E isto, na verdade, representa todo o segredo da interepenetração social – da sua obrigatoriedade e regularideade, da sua estrutura, da sua natureza processual e do seu desenvolvimento; isto é o segredo da sociogénese e da dinâmica sociais “ [Uber den Prozess des Zivilization (1969) II, p. 221) (p.12)

“Embora não planeado e não imediatamente controlável, o processo global de desenvolvimento de uma sociedade não é de modo algum incompreensível. Por detrás dele não há quaisquer forças “misteriosas”. É uma questão de consequências decorrentes de interpenetração de acções de inúmeras pessoas, cujas propriedades estruturais já foram ilustradas por meio de modelos de jogo. À medida que se entrecruzam as jogadas de milhares de jogadores interdependentes, nenhum jogador isolado ou grupo de jogadores, actuando sozinhos, poderão determinar o decurso do jogo, por muito poderosos que sejam.
(…) Lidamos com estados de equilíbrio entre duas tendências opostas para a auto-regulação dessas configurações: a tendencia para se manter como antes e a tendencia para a mudança” (p.161)

“Ao estudar a humanidade é possível fazer incidir um feixe de luz primeiro sobre as configurações formadas por muitas pessoas separadas.

(…) A cristalização que hoje fazemos destes conceitos poderia levar-nos a acreditar que o “individuo” e a “sociedade” denotam dois objectos que existem independentemente enquanto na verdade se referem a dois níveis diferentes mas inseparáveis do mundo humano”

(..) Muitas vezes os cientistas abusam do direito que têm de pôr a circular novos conceitos que exprimem novas ideias. Ora isto pode bloquear certos canais de comunicação tanto dentro da disciplina em questão como entre esta e outras disciplinas. No entanto (…) há uma razão para introduzirmos aqui o conceito de “configuração” (…) O conceito de configuração serve de simples instrumentos conceptual que tem em vista afrouxar o constrangimento social de falarmos e pensarmos como se o “indivíduo” e a “sociedade” fossem antagónicos e diferentes.

(…) Se quatro pessoas se sentarem à volta de uma mesa a jogarem, formam uma configuração. As suas acções são interdependentes. Neste caso ainda é possível curvarmo-nos perante a tradição e falamos do jogo como se este tivesse uma existencia própria. É possível dizer: “O jogo hoje à noite está muito lento!” Porém, apesar de todas as expressões que tendem a objectivá-lo, neste caso o decurso tomado pelo jogo será obviamente o resultado de acções de um grupo de indivíduos interdependentes.

(…) Mas este decurso não tem substância. não tem ser, não tem uma existência independente dos jogadores, como poderia ser sugerido pelo termo “jogo” (…) Por configuração entendemos o padrão mutável criado pelo conjunto dos jogadores” (p.141,2)

11/18/2008

TESTEMUNHOS 13

Ziegler, Jean, Os Novos Senhores e os seus Opositores , Lisboa, Terramar, 2006. (Ca. 289 pp. e 17 euros)

“Bourdieu precisa: «Tudo quanto se descreve sob o nome simultaneamente descritivo e normativo de “mundialização” é a consequência, não de uma fatalidade económica, mas de uma política consciente e deliberada que levou (…) um conjunto de países economicamente avançados a abdicar do poder de controlar as forças económicas” (p.51)

“Habermas também se interroga como é que se pode conceber uma legitimação democrática das decisões fora da organização estatal? (…) É a organização das Nações Unidas a única a ser capaz de recolher e fazer renascer a herança normativa e moral dos estados nacionais deliquescentes. “ (p.211)

“Onde está a esperança? Na nova sociedade civil planetária. (…) A sociedade civil desempenhou um papel determinante na ruptura com o mundo feudal. O triunfo rápido do Estado Republicano afastou-a do palco da história, atirando-a em seguida para o esquecimento. Ela vive hoje um renascimento espectacular.
A sociedade civil é o lugar onde nascem novos movimentos sociais, onde se afirmam funções e estruturas inéditas, onde se inventam relações novas entre os homens e nações, onde se pensam o mundo e a sociedade fora dos cânones cristalizados da doxa dominante ou da sua negação habitual” (p.213)

11/17/2008

TESTEMUNHOS 12

PHILLIPS; Melanie, Londonistão Como na Grã-Bretanha se Vive um Clima de Terror, Lisboa, Atheleia ed., 2008.

“A Grã-Bretanha tornou-se uma sociedade decadente, enfraquecida por tendências alarmantes para um suicídio social e cultural. Virando-se contra si mesma (…) minou progressivamente os valores, leis e tradições que a tornaram uma nação, criando um espaço que foi explorado por sua vez pelo islamismo radical.
(…) Este livro é uma tentativa para (…) mostrar como a pressão mortífera de uma ideologia agressiva sobre uma sociedade que perdeu o rumo levou à emergência do Londonistão. (…) Não pretende concluir se o Islão é intrinsecamente uma religião de conquista violenta ou se foi apenas sequestrado por uma ideologia revisionista” (p.19)

“Uma Igreja que já não consegue distinguir a verdade de uma mentira já não acredita que a sua própria mensagem seja verdadeira” (p.204)


“À medida que [a Igreja Anglicana – n. de Kriu}] renunciava à sua própria cultura, abraçava outras, ao mesmo tempo que nunca cessava de se humilhar pelo antigo pecado de acreditar em si própria. Quando a sociedade secular denunciou os crimes do imperialismo político e cultural britânico, também a Igreja Anglicana se rebaixou pelo seu próprio crime de imperialismo religioso (…) Não foi reconhecido o facto de o cristianismo ter levado a civilização a essas zonas remotas do mundo (…) Pois a suposição implícita era que os valores cristãos são superados pela convicção de que a cultura de toda a gente tem valor igual (…) Isto conduz directamente, claro, à opinião (…) de que a poligamia, excisão feminina ou apedrejamento de adúlteras devem ser considerados como tendo mérito igual ao conceito de dignidade humana essencial para o cristianismo (p.206)


“Infelizmente, para além de alguns exemplos corajosos, muito poucos líderes religiosos muçulmanos condenam, de forma clara e incondicional, a iniquidade dos bombistas suicidas que matam pessoas inocentes. Precisamos de ouvir condenar sem rodeios, teologias, que afirmam que os bombistas suicidas são “mártires” e recebem a recompensa dos mártires. Precisamos de ouvir muçulmanos a exprimir a sua indignação e a condenar esse mal”
(Lord Carey, cit. p.208)

“Na longa história do martírio cristão ou judaico não houve uma única pessoa que tivesse matado outro para ser mártir” (p.209)

“Em face de uma sociedade que perdeu a sua bússola moral e desceu ao nihilismo da relatividade moral, a Igreja [Anglicana – n. de Kriu] seguiu-lhe debilmente os passos. A sua opinião dominante como observou um bispo é de que”não existe uma verdade única e temos todos de respeitar as verdades dos outros”




11/16/2008

CAPITALISMO 22


ZAKARIA, Fareed, O Mundo Pós-Americano, ed. Gradiva, 2008 (251 pp. e ca. 14 euros)

“Estamos a perder o interesse nas coisas básicas – a matemática, a industria transformadora, o trabalho árduo, a poupança – e a tornarmo-nos uma sociedade pós-industrial especializada no consumo e no ócio. «Em 2006 haverá nos Estados Unidos mais pessoas a acabar cursos de Desporto que de Engenharia Electrónica» diz Jeffrey Immelt, administrador da General Electric.” (p. 17)

“A magnitude geral da guerra global diminuiu cerca de 60% [desde meados da década de 1980] tendo caído em 2004 para o seu nível mais baixo desde a década de 1950 (…) a extensão de guerra no interior dos estados ou entre eles diminuiu para metade na primeira primeira década após o fim da Guerra Fria” (in estudo de 2005 levado a cabo por Ted Robert Gun cit. pág. 17)

“hoje em dia, estamos provavelmente a viver o período mais pacífico de toda a existência da nossa espécie” [Steven Pinker, in a Brief Histoy of Violence, conferência de 2007, citado pág. 17]


“Daqui a várias gerações, quando os historiadores escreverem sobre os tempos actuais, vão fazer notar que nas primeiras décadas do séc. XXI os Estados Unidos tiveram êxito na sua grande missão histórica – globalizarem o mundo. Mas durante esse percurso (…) esqueceram-se de se globalizarem a si próprios “ (p.53)

“Na primeira fase da globalização toda a gente queria ver a CNN. Na segunda fase os países estão a produzir as suas próprias versões de CNN” (p.85)

“O sistema político americano perdeu a capacidade de fazer compromissos de grande escala e de aceitar algumas dificuldades hoje em troca de maiores ganhos mais tarde. (…) Os sistemas parlamentares europeus funcionam bem com partidos muito diferentes (…) Pelo contrário, o sistema americano é de partilha de poder, de funções sobrepostas, de pesos e contrapesos. O progresso exige coligações amplas entre os dois partidos, assim como políticos que mudem de lado (…) Os que advogam posições sensatas e legislação de compromisso dão por si a ser marginalizados pela liderança do partido, a perder fundos (…) e a ser constantemente atacados, na televisão e na rádio, pelo seu “lado”. (pp.200,1)




SAÚDE 2 (extracto de informações cedidas pela Profª Juliana Carvalho, Canadá)


China milk poisoning incidents make everyone afraid to look at the daily news report.
Everyday, the reports are changing. No one can clearly tell us what to eat and what not to eat.
1. What really is poisoned milk?
It is milk powder mixed with 'MELAMINE'What is Melamine used for?
It is an industrial chemical used in the production of melawares.
It is also used in home decoration. ' US resistant board'We all MUST understand that Melamine is used in INDUSTRIAL PRODUCTION
it CANNOT be eaten.
2.Why is Melamine added to milk powder?
The most important nutrient in milk is protein.
And, Melamine has this same protein that contains 'NITROGEN'Adding Melamine into milk reduces the actual milk content required,
and therefore it is cheaper than all milk. So it lowers the capital required
in the production of milk products. Therefore it earns the business man more profit!
It doesn't have any smell, so cannot be detected.
3. When was it discovered that it had been added to milk products.
In 2007, US cats and dogs died suddenly, they found that pet food from China contained Melamine.Early in 2008, in China , an abnormal increase in infant cases of kidney stones was reported.
In August 2008, China Sanlu Milk Powder tested for Melamine Sept. 2008, the New Zealand government asked China to investigate this problem Sept. 21, 2008, they found that many food products in Taiwan tested for Melamine
4.What happens when Melamine ingested and digested?
Melamine remains inside the kidneys. It forms into stones blocking the tubes.
Pain will be imminent and the person cannot urinate.
5.What foods are to be avoided?
Foods from China that contain dairy products should be avoided. The whole world is very afraid of "Made In China" 'black-hearted' goods.

6. Do you know how to differentiate which products are made in
the USA , or in the Philippines , in Taiwan , or in China ?

Here's How:
The first 3 digits of the barcode identify the country code
wherein the product was made. For Example: ALL barcodes that start with 690, 691, 692, etc., . ..
up to and including 695 are all MADE IN CHINA .. Barcodes starting with 471 are printed on products Made in Taiwan .. You have a right to know. But the government and related departments never inform or educate the public.
Therefore we must educate ourselves,
be vigilant, and RESCUE ourselves.Today, Chinese businessmen know that consumers will not select products 'Made in China '. So, they make every effort not to show or state the country
of origin on their products. However, you can now refer to the barcode.
DO remember if the first 3 digits are one of those between 690 and 695 inclusive then it is a product Made in China .
OTHER BARCODES:
00 ~ 13 USA & CANADA
30 ~ 37 FRANCE
40 ~ 44 GERMANY
49 ~ JAPAN
50 ~ UK
57 ~ Denmark
64 ~ Finland
76 ~ Switzerland and Liechtenstein
628 ~ Saudi-Arabia
629 ~ United Arab Emirates
740 ~ 745 - Central America
All 480 Codes are Made in the Philippines.

11/12/2008

ÉTICA 2

SAVATER, Fernando, A Vida Eterna, Um convite a reflectir sem medo sobre a Religião, a Razão, a A Vida Eterna, Lisboa, Dom Quixote, 2008. (299 pp. e ca. 16 euros)

“Em numerosas ocasiões (ao contrário do que afirma Habermas) exigir-se-à ao crente, com todo o direito, que separe as razões seculares das religiosas e, mais ainda, que submeta as primeiras às segundas. Assim o defende José António Marina no seu livro Por Que Sou Cristão que tem como significativo subtítulo «Teoria da Dupla Verdade»: «Pelo que sei as evidências religiosas – como as estéticas – não podem ser universalizadas. Baseiam-se em experiências privadas que podem ser assimiladas e repetidas por outras pessoas, mas sem que possamos encontrar critérios objectivos para justificar a sua verdade. (…) Afirmar o carácter privado da experiência religiosa não significa expulsar a religião da vida pública, mas apenas reconhecer que quando entram em conflito com verdades universais devem regressar ao seu âmbito privado.» Também o controverso teórico muçulmano Taric Ramedan estabelece que quando a leitura literal do Corão entra em conflito com a legislação de sociedades democráticas modernas, são os valores instituídos nestas últimas que devem prevalecer (entrevista publicada na revista britânica Prospect, Julho de 2006)” (p. 169)

“Diga Maomé o que disser, os maridos não têm em Espanha o direito de sovarem as suas mulheres, nem os eclesiásticos podem incitar a sua clientela a cometer semelhante delito, da mesma maneira que – diga a Bíblia o que disser – a pena de morte está excluída do nosso ordenamento jurídico e reivindicá-la para castigar a homosexualidade seria uma aberração que não deveria ficar impune. (…) PoR muito piedoso e repleto de motivações sagradas que esteja um delinquente, continua a ser delinquente e como tal deve ser tratado pelos tribunais. (…) A tolerância pluralista é incompatível com as concessões à teocracia, seja de que culto for. A religião é um direito de cada um, mas não um dever para ninguém… nem muito menos converte em aceitável e louvável o que transgride a legalidade.”

11/11/2008

AAVV, Mai 68 – Préface de Daniel Cohn-Bendit, Paris, ed. Denoel, 2008 (384 pp. sobretudo fotos e ca. 29 euros)

“...68, ce fut cette revolte à la charnière de l’ ancien et du nouveau, des mythes, des revolutions antécédantes et des mouvements de libérations concomitants, mais aussi de formidables revendications d’ emancipation individuelle et collective, d’ un désir d’ autonomie et de liberté qui sonnait le glas de tous les totalitarismes imaginables et inimaginables, de gauche et de droite, d’ en haut ou d’ en bas, religieux ou laic, mâle ou pervers.


(...) Pourtant, c’ est vrai, nous sommes coupables de vous avoir fait peur, d’ avoir rêvé une imagination au pouvoir et d’ avoir revendiqué un monde plus juste et plus solidaire. Nous sommes coupables de vouloir poser une colle à laquelle vous n’avez jamais su répondre jusqu’à haujourd’hui “Il est interdit d’ interdire”. Une dialectique qui demeure complétement extraterrestre pour vous et que remet marxisme et hegélinisme sur leurs épaules tout en les dépassant dans une langage résolument freudienne. (...)
L’ irruption du désir et de l’ ironie dans l’ éspace politique a peut-être été le fait le plus révolutionnaire de cette époque”
(D. Cohn-Bendit in Préface)



Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um pirilampo.
Ele fugia com medo da feroz predadora, mas a cobra não desistia.
Um dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:
- Posso fazer três perguntas?
- Podes. Não costumo abrir esse precedente, mas já que te vou comer, podes perguntar.
- Pertenço à tua cadeia alimentar ?
- Não.
- Fiz-te alguma coisa de mal ?
- Não.
- Então porque é que me queres comer?
- PORQUE NÃO SUPORTO VER-TE BRILHAR!!!

11/08/2008



SEN, Amartya, O Desenvolvimento como Liberdade, Lisboa, Gradiva, 2003
(Ca. 383 pp. e 19 euros)

“O sucesso de uma sociedade deve ser avaliado (…) primeiramente pelas liberdades concretas de que gozam os membros dessa sociedade (…) Uma maior liberdade reforça a capacidade das pessoas para se ajudarem a si mesmas e, também, para influenciarem o mundo e tais capacidades são fulcrais para o processo de desenvolvimento” (p.34)

“A abordagem adoptada centra-se num suporte factual que a diferencia de uma análise mais tradicional da ética prática e da política económica, como por exemplo, a fixação “economista” no primado do rendimento e da riqueza (mais do que nas características da vida humana e das liberdades concretas) o enfoque”utilitarista” na satisfação mental (mais do que no descontentamento criativo e na insatisfação construtiva) a preocupação “libertária” com os procedimentos em vista da liberdade” que desleixam deliberadamente as consequências que decorrem de tais procedimentos) ” (p. 35)

“A mudança de perspectiva é importante para nos facultar um olhar diferente (…) sobre a pobreza. (…) o desemprego não se resume a uma falta de rendimentos, que pode ser compensada pelo Estado (…) Entre os seus múltiplos efeitos o desemprego contribui para a “exclusão social” (…) conduz a perdas de auto-estima, de auto-confiança e de saúde física e psicológica” (p.36)

“os homens de Bangladesh têm mais hipóteses de viver para lá dos quarenta anos do que os homens afro-americanos de Harlém, na próspera cidade de Nova Yorque” (p.39)

“O reforço de liberdade humana é simultaneamente o fim principal e o meio primordial do desenvolvimento” (p.66)

11/03/2008

CAPITALISMO 21

21. WOLF, Martin, Por que funciona a Globalização - Em Defesa de Uma Economia Global de Mercado, Lisboa, Dom Quixote, 2008

“O tema principal deste livro é o choque intelectual entre o capitalismo liberal e os seus opositores” (…) O livro começa (…) com a definição de globalização económica. Prossegue (…) com argumentos a favor de uma economia de mercado liberal e com a análise das suas contribuições de longo prazo para a prosperidade, a democracia e a liberdade individual. Debruça-se sobre a relação mutuamente apoiante e interdependente entre o Mercado e o Estado democrático. Por fim examina o que acontece quando o mercado cruza fronteiras.
Na terceira parte o livro aborda a longa história da globalização” (p. 38)

“Os críticos têm razão quando dizem que as instituições designadas para gerir a economia global não funcionam tão bem quanto deviam, particularmente na área das finanças. (…)
O grande desafio é o de conciliar um mundo dividido entre Estados com capacidades enormemente desiguais, com a exploração das oportunidades de convergência, proporcionadas pela integração económica internacional.” (p. 39)

“a economia de mercado é a única conjuntura capaz de gerar aumentos sustentados de prosperidade, proporcionando os alicerces de democracias liberais estáveis e dando aos seres humanos a oportunidade de procurarem aquilo que desejam na vida.
(…) os Estados nacionais continuam a ser o local de debate e de legitimidade políticos. As instituições supranacionais adquirem a sua legitimidade e autoridade a partir dos Estados que as constituem” (p.409)

11/02/2008

FASCISMO 4

OTERO, Paulo, Os Últimos Meses de Salazar, Coimbra, ed. Almedina, 2008 (ca. 250 pp. e 20 euros)

“Primeiro no Hospital dos Capuchos (…) e depois no Hospital de São José (…) Salazar é agora um quase vulgar velhinho, acompanhado de médicos, circula em cadeira de rodas pelos corredores dos hospitais, sem ser reconhecido pelos doentes e pelo pessoal hospitalar de turno, limitando-se a murmurar ”é inacreditável, parece inacreditável.” Conta-se mesmo que, no Hospital de São José, uma enfermeira de serviço que ajudou Salazar a fazer exames se terá virado para o Prof. Eduardo Coelho e, não reconhecendo o doente, perguntou: “quem é este velhinho’” (p.49)

“O tempo passa e Salazar não é prevenido que será operado de imediato. (…) O Dr. Vasconcelos Marques toma então a resolução de ir falar com o doente; a sós, depois de ter pedido para que as enfermeiras se retirassem do quarto (…) Refere ainda Vasconcelos Marques, num relato dessa mesma conversa com Salazar que, tendo-lhe perguntado se pretendia que lhe chamassem um confessor, o doente o terá interrompido com uma interrogação seca: “Isto é um hospital ou uma igreja?” (p. 56)

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