10/13/2008

TESTEMUNHO 12

SILVA, Vaz Salvador, Catedral. Primebooks, s.d.
[V.S.S, português de Lisboa, ao saber-se com um cancro múltiplo abriu um blog onde foi conversando sobre a sua experiência que, em príncipio, seria terminal… N. de Kriu]

“Foi nos seis meses que tinha pela frente que derrotei a doença, não cedendo às adversidades que representavam os inúmeros efeitos secundários ds tratamentos nem à radical alteração da minha vida diária. Estive praticamente cego, tornei-me diabético agudo devido às doses brutais de corticóides que tinha de tomar para o cérebro, estive à beira do coma, dias houve em que outras pessoas tiveram que me caarregar em ombros e amparar porque eu não tinha força para me levantar. Fui impedido de conduzir carro e moto, perdendo assim a autonomia a que estava habituado. Apesar de tudo isto, não fiquei voluntariamente na cama um único dia.
Venci a doença com todos os tratamentos sempre referidos e com centenas de Amgios a darem-me força todos os dias sem excepção, como está bem espelhado neste livro. Fiquei verdadeiramente impressionado com a enorme bondade e dedicação das pessoas com quem me relacionei estes meses passados, e essa realidade alterou completamente a percepção anterior que eu tinha da vida.
Ajudar desinteressadamente quem precisa de ajuda, levando junto de pessoas dedicação, atenção, força, fé e esperança é uma forma sublime de realização pessoal e de sermos úteis ao longo da vida, fazendo de nós parte do todo para contribuir para o avanço do mundo no sentido certo” (p.238)





10/12/2008

TESTEMUNHOS 11

VASSEUR, Nadine, Eu não lhe disse que estava a escrever este livro, Filhos de Sobreviventes do Holocausto Testemunham, Colares, ed. Pedra da Lua, 2008 (158 pp. ca.15 euros)

“Há alguns anos o meu pai disse-nos que era lá [no campo de concentração nazi de Auschwitz - N. de Kriu] que ele queria acabar.(…) Ao exprimir esse desejo o que ele revela é obviamente que Auschwitz foi central na sua vida. (…)
Tive sempre o sentimento de que o meu pai morreu uma primeira vez. Que era um ressuscitado. Que ele queira acabar lá, é coerente. Por muito sedento de futuro que tenha sido, o que ele finalmente nos lega é que não é possível arrancar-se ao passado, à sua história.” (Marc Pepelman, p.36)

“O que é que no seu comportamento lhe parece herdado da história do pai? Uma certa forma de dureza, sem dúvida. (…) O meu pai e a minha mãe encontraram-se em 1945, à saída daquela experiência e o casal construiu-se na recusa do afectivo, ou antes, em mantê-lo a certa distância. Algo do afectivo se tornara impossível. Três dias depois do enterro da minha mãe, há um ano, o meu pai confidenciou-me que eles só tinham conseguido dizer “amo-te” duas semanas antes, no seu leito de agonia. Em cinquenta anos de casamento, era a primeira vez que eles diziam “amo-te”. Quase nunca se beijaram.” (p.57)

“Porque aceitei testemunhar neste livro? (…) Porque é importante que se saiba que esta história não terminou e que é necessário estar atento ao que se preparara para o futuro. (…) Porque infelizmente a Humanidade terá sempre outros meios de matar. Porque é importante guardar a memória do que se passou. Não para os judeus. Para a Humanidade”. (Yves Khan, p.61)

“Entrei na única câmara de gás que foi conservada e tentei imaginar o que minha avó sentira antes de lá morrer. Leva tempo a morrer numa câmara de gás, demora pelo menos dez minutos.” (Dany Choukrow, p.105)




10/11/2008

CAPITALISMO 20

FINKELSTEIN, Normam, A Indústria do Holocausto, Reflexões sobre a Exploração do Sofrimento dos Judeus, Lisboa, 2001, 1ªedição (169 pp. ca. 12 euros)

“ O que me levou a escrever este livro foi o estudo pioneiro de Peter Novick, “The Holocaust in American Life” (…) Na análise de Norvick, a categoria central é a “memória”. Actualmente na berra na torre de marfim dos académicos a “memória” é sem dúvida o conceito mais pobre que nos últimos tempos apareceu (…) Antigamente os intelectuais dissidentes utilizavam categorias sólidas como “poder” e “interesses” por um lado e, por outro, “ideologia”. Hoje só restam termos frouxos e despolitizados como “problemas” e “memórias”. No entanto, dadas as provas invocadas por Norvick, a memória do Holocausto é uma construção ideológica ligada a interesses precisos. (…) Originalmente o meu interesse pelo holocausto nazi era pessoal. Os meus pais foram sobreviventes do Gueto de Varsóvia e dos campos de concentração nazis.” (pp.12 a 14)

“Desde a sua fundação em 1948 até à guerra de Julho de 1967, Israel não foi um elemento central no planeamento estratégico americano.” (p.27)

“Todos os que escrevem sobre o Holocausto afirmam que é único mas poucos ou nenhum explicam porquê” (p.53)

“Se o Holocausto não tem precedentes na história, coloca-se acima dela e portanto não é possível a história compreendê-lo.” (p.55)

“Os nazis exterminaram meio milhão de ciganos o que proporcionalmente equivale a pouco mais ou menos o genocídio dos judeus” (p.88,9)

“Novick salienta a cumplicidade dos Estados Unidos em desastres humanos que, embora diferentes do extermínio nazi, têm a mesma dimensão. Depois de uma coligação dirigida pelos Estados Unidos ter desvastado o Iraque em 1991 para castigar “Saddam-Hitler” os Estados Unidos impuseram sanções criminosas através das Nações Unidas (…) É provável que tenham morrido um milhão de crianças como no holocausto nazi. Interrogada na televisão nacional sobre essa hecatombe terrível, a secretária de Estado Madeleine Albright respondeu que “o preço justifica-se” (p. 166)

“O desafio actual é restaurar o holocausto nazi como um tema racional de investigação. Só nessa altura poderemos de facto aprender com ele” (p. 169)



10/04/2008

PORTUGAL 4



AAVV, Optimismo e Pessimismo Acerca do Futuro de Portugal, Lisboa, Ed. Colibri/Fundação Mário Soares, 2008 (154 pp. e ca. 8.5 euros)

Fernando Catroga:
“Seja na metáfora vintista da “pátria moribunda”, seja na concepção espiritualista e orgânico-historicista de Herculano, seja no organicismo centífico-metafísico de Antero de Quental e de Oliveira Martins, seja no organicismo historista e psicofisiológico (com a pretensão de ser cientifico) de Teófilo Braga e de republicanos positivistas, seja ainda naquele outro, nacionalista, essencialista e místico, de Pascoaes e da Renasceça Portuguesa ou, no plano politicamente oposto, de António Sardinha e seus companheiros do Integralismo Lusitano, detecta-se a omnipresença de um pano de fundo comum: a previsão (ao contrário) de que no passado existiu um momento de apogeu o qual, contudo, por culpas próprias e, sobretudo alheias, (Inquisição, Absolutismo, Napoleão, Inglaterra, etc.) virou em decadência a páginas tantas do livro da história (p.11)

(…) “diversos estudos têm detectado o peso dos vocábulos como “revolução”, “fundação”, “regeneração” no período vintista, utilizados num contexto de esperança. É sabido que, após o seu patente incumprimento, ao período que se pensou ser de consolidação de nova ordem se chamou “regeneração”, esse nome português do capitalismo (Oliveira Martins) No entanto, contra esta levantar-se-ão os jovens intelectuais dos anos 1860-1870, talvez o primeiro núcleo que tudo fará para se autoconsagrar como “geração” (veja-se o In Memoriam dedicado a Antero de Quental” (p.29)

António Pedro Pita:
"Um duplo circuito de optimismos e de pessimismos. Entre tradição e e novidade, o povo sofre o presente numa tensão não resolvida pois, por força das circunstancias imediatas, ora parece ser dominado pela força nostálgica da tradição (é o pessimismo), ora parece ser dominado pela força deslumbrada de novidades (é o optimismo) numa oscilação de expectativas e de frustrações elementares e superficiais. Entre tradição e novidade, as elites inscrevem (quer dizer, dissolvem) o presente, ora numa história como decadência, ora numa história como progresso, que supõem dominar. Mas por razões inerentes à sua própria história, oscilam entre expectativas e frustrações não socializadas, processos que se repetem sem consequências, inovações que permanecem factos sociais desenraizados.
O problema consiste em unificar esse duplo conceito: uma tarefa histórica por que espera o presente, rebelde à dissolução no passado ou num futuro. (p. 108,9)

José Gil:
"A Europa entrou numa enorme depressão. (…) durante mais de um século, gerações e gerações que se sucederam eram levadas por um movimento geral em que havia utopia, havia esperança, em que havia futuro e em que o futuro trabalhava intensamente o presente. A situação de Portugal como é que ela se pode perspectivar hoje através disto que aconteceu na Europa? Vive-se também um efeito do que aconteceu durante 48 anos, isto é, herda-se, há um consciente que se herda por gerações. Quer dizer que um jovem que nem sabe por exemplo, quem é Salazar, quem foi Salazar, e diz “Eu sou livre” não é nada livre. Ele tem ali marcado no corpo, no seu inconsciente uma série de estigmas que herdou necessariamente porque nós ainda não os varremos do nosso corpo e do nosso espírito” (p. 152)

TEATRO 15 Cartaz de "A Perca" na Fabula Urbis


9/29/2008

TESTEMUNHO 13

KURNAZ, Murat, O Meu Inferno em Guantánamo – O testemunho de um prisioneiro, Porto, Ed. Âmbar, 2008 (284 pp. e ca. 20 euros)

“Quando regressei à gaiola não acreditei nos meus olhos: havia um novo prisioneiro [Abdul - N. de Kriu] (…) teria dezanove ou vinte anos (…) já não tinha pernas. As feridas eram muito recentes. Sentei-me na gaiola e quase não conseguia olhar para lá. (…) os cotos estavam cheios de pus. (…) Foi levado para interrogatório. (…) Ergueram-no e arrastaram-no pelo corredor, os seus cotos balançavam no ar e Abdul dava gritos horríveis “ (pp. 106/08)

“Abdul não era o único a quem tinham amputado uma parte do corpo. Assisti a isso muitas vezes em Guantánamo. Sei de um prisioneiro que se queixava de dores de dentes (…) não apenas lhe arrancaram o dente doente mas também oito dentes sãos (…) Muitos [prisioneiros] tinham pernas, braços ou pés partidos porque eram frequentemente espancados com bordões. Os ossos partidos também ficavam sem tratamento. (…) Vi um homem ser levado para o interrogatório. Quando regressou tinha o braço pendente, imóvel, apenas mantido preso ao corpo pela pele e pela carne. Nunca vi ninguém com gesso. Isso sara por si, diziam os guardas. (p.109)

“Uma vez consegui descobrir uma coisa dentro daquela gaiola (…) consigo ver o corredor através de uma fenda estreita. Teria sido melhor não ter feito isso. Porque quando os guardas chegaram com a comida e eu os estou a ver através da fenda, vejo como eles cospem na comida, antes de abrirem a portinhola e estenderem os pratos! Eles cospem em todos os pratos (…) Até àquele momento eu tinha-me alegrado quando vinha a comida. (p. 163)

9/28/2008

ZEN 2

SCHILLER, David, Le Petit Livre da la Sagesse Zen, Ed. Robert Laffont, 1998 (ca. 11 euros)

Un moine demanda à Chao-choui: “Je viens d’ entrer au monastère: je t’ en prie, donne-moi um conseil.”
- As-tu mangé ton gruau de riz? – demanda Chao-choui.
- Oui, je l’ ai mangé, répondit le moine.
- Alors, va laver ton bol.

“Le Zen est le dernier mot de la philosophie, écrivit Suzuki [Daisetz Teitaro Suzuki, viveu entre 1870 e 1966, e iniciou gerações de Ocidentais no budismo Zen – N. de Kriu] le fait psychique ultime, que survient lorsque la conscience religieuse est developpée à l’ extrême (…) chez lez bouddhistes, les chrétiens, les philosophes”
(p. 263)

“Si un homme veut
être sur de son
chemin, qu’il ferme
les yeux et marche
dans l’ obscurité.
Saint Jean de la Croix



9/26/2008

TESTEMUNHOS 11

VALDES, Roberto L. Blanco, La aflicción de los patriotas, Alianza Editorial, 2008 (Ca.260 pp. e ca. 17,50)

“Solo acaba llegando el que coñoce adónde va. (…) Según los no nacionalistas la autonomia há constituído el cemento que nos há unido en libertad; según los nacionalistas, há sido y debe seguir siendo hacia la definitiva secessión de sus Comunidades respectivas” (p.59)

“Pêro casi nada de eso [cientos de miles de parados, cientos de miles de inmigrantes, que huyen de la violência y de la miséria, miles de ancianos en la más absoluta soledad, miles de enfermos en las listas de espera, miles de mujeres sometidas a situaciones personales o professionales vejatorias, milles de estudantes que fracassan – N. de Kriu] existe pue en este país, desde hace muchos años, la llamada cuéstion vascã ocupa les energias que, en condiciones normales, merecerían ocupar los problemas referidos” (p.32)

"Los etarras no son, desde luego los vascos generosos, los vascos laboriosos que, desde posiciones políticas distintas y legitimas (nacionalistas y no nacionalistas) luchan por mejorar la situación de su país. Los etarras no forman parte de eso imenso mayoria del admirable pueblo vasco que ha trabajado, generación tras generación, por hacer de su país, y hacer de España, un lugar donde se puedo vivir en paz y libertad. Pero sí son vascos los etarras. Son unos vascos que han llegado al convencimiento pleno y absoluto de que su lucha exige asesinar, secuestrar e extorsionar." (p. 169)

9/25/2008

TESTEMUNHOS 10


CHOMSKY, Noam, Assalto ao Médio Oriente, Lisboa, Ed. Antígona, 2003. (Ca. 192 pp. e ca. 7,5 euros)

“O 11 de Setembro teve efeito por todo o mundo, o mesmo efeito em toda a parte, perfeitamente previsível. O efeito foi o de os elementos brutais e repressivos espalhados por todo o mundo verem nos acontecimentos uma oportunidade única. Podem dar largas aos seus planos sem se sujeitarem a impedimentos, enquanto a população está assustada, obediente, silenciada, por um apelo unilateral ao patriotismo, que equivale a dizer-lhes que se cale enquanto eu aplico os meus planos de maneira ainda mais agressiva e mais implacável do que dantes” (p.147)

“uma forma de minar completamente a democracia é entregar tudo ao poder privado. O poder privado não presta contas a ninguém. Excepto através de uma ordem do Congresso, não se pode saber o que está a acontecer dentro de uma das tiranias privadas, como a General Electric ou a Enron (…) São tiranias e estão em grande parte ao abrigo de qualquer prestação de contas. Portanto, se os do poder puderem transferir a arena pública para as suas mãos, poderão fazer eleições formais sem qualquer preocupação.” (p.112)

[o jornal egípcio semi-oficial al-Abram referia-se - N. de Kriu] “ao eixo do mal composto pelos Estados Unidos, a Turquia e Israel. É um eixo real (aplausos). Quanto mais não seja existe uma aliança estreita, e não é secreta, é aberta, é sólida. É constituída pelos três: os Estados Unidos, obviamente senhores do mundo, Israel e a Turquia, as duas maiores potências militares na região, ambas mais ou menos bases militares dos Estados Unidos. (…) Era o que a administração Nixon chamava os “polícias locais de mão dura”.
(p.154)

9/22/2008

POEMA 11 Francisco Vaz, in: Sulscrito nº 2 Verão 2008 - Revista de literatura - p. 19

Francisco el chapero recuerda con agrado
el rancio sdor a macho que desprendía su tio
y el húmedo hisopo que guardaba en su entrepierna
con el que bautizou su culo imberbe de once añitos
y ahora ya ves lo que es la vida
su tío yace moribundo en el hospicio
y a él le gustaria pero no irá visitarlo
seguro que lo imagina niño aún o acaso hombre
y no desea crearle problemas de conciencia
a quien descubrió la verdad que otros tapaban
cuánta vida perra desde entonces
cuánta cama e cuánto frio
cuánto hombre e cuánta oscuridad de esquina
cuánto semen degustado e cuánta herida abierta
al asco y al azogue
cuánto azote desmedido y cuánta soledad





nunca soportó el perfume de los señoritos perversos
que adoran la polla des chapero como un trofeo oculto
y públicamente sin embargo la desprecian
fue tanta humillación repulsiva la que tuvo que tragar
y tragó a cambio del dinero necesario
para ser quiem siempre quiso ser y le negó la biologia




hoy Francisco está orgullosa de ser Paca la travesti
y se muere de amor por un currante que ni la mira
a veces se le acerca como una gatita indefensa
y cierra los ojos y aspira el aroma agridulce
que desprende su ropa de trabajo
y piensa que si él quisiera estaria dispuesta
a dárselo todo
a comprarle un trono y tenerlo como un rey
a ofrecerle los mejores años de su vida
y a amarlo hasta la muerte.

9/21/2008

CAPITALISMO 19

AAVV, We Are EverywhereThe Irresistible Rise of Global Anticapitalism, London – New York, Verso, 2003 (ca. 518 pp. A5 e ca. 19 euros)

“This book wouldn’t exist if it wasn’t for the tireless, unsung efforts of people everywhere working for no reward except the sweet knowlodge traht they are in the right place, at the right time in history, doing the right thing. This book is for them.”

“All I was trying to do was defend our local bit of land. I’ ve never thought of myself as political before but this has shown me that all life is politics – if you step out of line”
(p. 31)

“Carnival and rebellion have identical goal: to invert the social order with joyous abandon and to celebrate our indestrutible lust of life. Carnival breaks down the barriers of capital, and releases the creativity of each individual. It throws beauty back into the streets, streets in wich people begin to really live again. During Carnival, as in rebellion, we wear masks to free our inhibition, we wear masks to transform ourselves, we wear masks to show that we are your daughter, your teacher, your bus driver, your boss. Being faceless protects and unites us while they try to divide and persecute. By being faceless we show that who are is not important as what we want, and we want everything for everyone.
So we will remain faceless because we refuse the spectacles of celebrity, we will remain faceless because the world is upside down, we will remain faceless because we are everywhere. By covering our faces we show that our words, dreams, and inagination are more important than our biographies. By covering our face we recover the power of our voices and our deeds. By wearing masks we become visible once again” Alice Walker (p. 346)

“Utopia is on the horizon: when I walk two steps, it takes to steps back... I walk ten steps, and it is ten steps further away. What is utopia for? It is for this, for walking.”
Eduardo Galeano
(p. 499)

TESTEMUNHOS 9

SOLJENITSYNE, Alexandre, O Declínio da Coragem, Discursos de Harvard, Junho 1978, Lisboa, Ed. Rolim, s.d. (ca. 51 pp. e ca. 9 euros)

“É talvez o declínio da coragem o que mais chama a atenção dum estrangeiro no Ocidente de hoje. A coragem cívica não só desertou globalmente do mundo ocidental mas também de cada um dos países que a compõem (…) e, bem entendido, da Organização das Nações Unidas. Este declínio de coragem é particularmente sensível na camada dirigente e na camada intelectual dominante e daí vem a impressão de que foi de toda a sociedade que a coragem desertou. (…) Os funcionários públicos e intelectuais patenteiam este declínio, esta fraqueza e esta irresolução, tanto nos seus actos como nos seus discursos e, mais ainda, nas suas considerações teóricas que fornecem com toda a complacência, para provarem que esta maneira de agir, que alicerça a política dum Estado na cobardia e no servilismo, é pragmática, racional e justificada, seja qual for o plano intelectual, ou mesmo moral, em que nos coloquemos. Este declínio da coragem que, aqui e ali parece ir até à perda de todo e qualquer vestígio de virilidade, encontramo-lo (…) nos casos em que esses mesmos funcionários sofrem súbitos acessos de valentia e intransigência para com governos sem força de países fracos, que ninguém apoia, ou para correntes condenadas por todos e que, manifestamente, não têm qualquer possibilidade de poder ripostar, ao passo que sentem a língua secar-se-lhe e as mãos paralisarem-se-lhe diante de governos mais poderosos e das forças ameaçadoras (…) da Internacional do terror.
Será preciso lembrar que o declínio da coragem foi sempre considerado como um sinal percursor do fim? (pp. 15 a 17)

“Se me perguntarem se eu quero propôr ao meu país como modelo o Ocidente, tal como hoje se apresenta, devo responder com franqueza: não, não posso recomendar a vossa sociedade como ideal para a transformação da nossa (…) Uma sociedade não pode permanecer no fundo do abismo sem leis, como é o nosso caso, mas será irrisório manter-se à superfície lisa dum juridismo sem alma, como sucede convosco. Uma alma humana acabrunhada por muitas dezenas de anos de violência aspira a algo de mais elevado, mais quente e mais puro do que o que pode propôr-lhe a existência de massa no Ocidente, anunciada, como se fosse um cartão de visita, por uma pressão enjoativa de publicidade, pelo embrutecimento da televisão e por uma música insuportável. (…) O modo de vida ocidental tem cada vez menos probabilidades de vir a ser o modo de vida dominante” (pp. 33,4).

“Pusemos demasiadas esperanças nas transformações políticas-sociais e notamos que nos tiraram o que tínhamos de mais precioso: a nossa vida interior. A Leste, é a feira do Partido,(…) a Oeste a feira do Comércio” (p. 49)

“(…) esta viragem [da História – n. de Kriu] exigirá de nós uma nova altitude de vistas (…) em que a nossa natureza física terá deixado de estar entregue à maldição, como na Idade Média, mas na qual a nossa natureza espiritual terá também deixado de estar calcada aos pés como era na Idade Média” (p. 51)

9/11/2008

Não te dês ao trabalho de tentar ser simplesmente melhor do que os teus contemporâneos ou os teus antecessores. Tenta ser melhor que tu mesmo.
William Faulkner

9/10/2008

ALTERNATIVA 10

BOVE, J. e DUFOUR, F, O Mundo Não É Uma Mercadoria – Camponeses Contra a Comida Ruim - Entrevistas a Gilles Lumeau - São Paulo, Editora Unesp, 2001. (Ca. 255 pp. e 16 euros)
JB: “Na agricultura [os transgénicos - N. de Kriu] só servem para resolver, mal e perigosamente, os problemas colocados pelo produtivismo, em particular os da monocultura que concentra parasitas (insectos e ervas daninhas) que os pesticidas não conseguem combater. É assim que se introduz no cromossomo do milho um gene de um organismo naturalmente insecticida (…) Quando uma lagarta devora o milho ela morre de imediato.
(…) o pesticida não desaparece assim tão facilmente das sementes: no caso do nosso milho, os insectos predadores de uma borboleta, cuja lagarta devora os pés de milho, também ingerem o veneno. Os pesticidas acumulam-se e concentram-se na cadeia alimentar. O homem é o grande animal no fim dela.
(…) No Brasil verificou-se um aumento de alergias à soja com o aumento de soja transgénica.
(…) Última preocupação: ratos de laboratório que comeram baratas transgénicas sofrem de problemas imunológicos graves (…) nenhum estudo foi feito para analisar a acumulação na cadeia alimentar de substâncias tóxicas
(…) Esses riscos de “bola de neve” não foram avaliados. (p.120)

GL: Mas esses transgénicos não foram testados antes da sua comercialização?
JB: As grandes empresas de sementes e farmacêuticas apostaram na política do facto consumado: tornam os transgénicos inevitáveis a partir do momento em que estiverem já disseminados na cadeia alimentar e no meio ambiente (particularmente através dos produtos importados, como a soja e o milho provenientes dos Estados Unidos e da América do Sul.) E estão a obter regulamentos minimalistas por parte dos Estados.
Estamos convencidos de que se levássemos em conta os custos de avaliação (o que seria indispensável) dos efeitos transgénicos na cadeia alimentar e no meio ambiente – custos muito altos pois essa avaliação pode levar cinco a dez anos – constataríamos que esses produtos não são rentáveis.
(…) As empresas agroquímicas fizeram que os transgénicos fossem classificados como produtos fitossanitários com o fim de impedir que a sua imagem apareça como insuportável ao consumidor e de evitar mais um entrave administrativo à sua inserção no mercado” (p.121)

Dez princípios da agricultura camponesa
(Resumo)
1. Repartir os volumes da produção no intuito de permitir à maioria o acesso à profissão e viver dela.
2. Ser solidário com outros camponeses de outras regiões
3. Respeitar a natureza.
4. Valorizar os recursos abundantes e economizar os recursos parcos.
5. Buscar a transparência no acto da compra, da produção, da transformação e venda de produtos agrícolas.
6. Assegurar a boa qualidade gustativa e sanitária dos produtos.
7. Visar ao máximo de autonomia no funcionamento das unidades agrícolas.
8. Buscar parcerias com outros actores do mundo rural.
9. Manter a diversidade das populações animais e das variedades vegetais.
10. Raciocinar sempre a longo prazo e de maneira geral.










para chegar ao Museu da Resistência por metro desça em "Alto do Moinho"


9/09/2008


PAULEMA


"Paulema" só se encontra à venda na Livraria Rodrigues, Rua do Ouro, 188 em Lisboa.
(Neste blog extractos)


DEPOIS DO LANÇAMENTO NO BRASIL (TERESINA) LANÇAMENTO EM PORTUGAL (LISBOA) NO MUSEU DA RESISTÊNCIA, EST. DE BENFICA, 419, ÀS 19 HORAS DE 3 DE OUTUBRO.



PAULEMA QUE DÁ TITULO AO LIVRO - UMA TRILOGIA - CONTA O AMOR DE DOIS ADOLESCENTES. MAS SERÁ ISSO?


ANABELA TEIXEIRA E RUI QUINTAS LERÃO PARTES


"Estou convicta que há muito tempo, talvez anos, não tenha lido algo tão forte, intenso, denso (...) Acho que é sobre o Amor"


Graça Costa




"Devora-se, identificamo-nos, sente-se. É forte, muito forte. É bom, sim, é bom"


Gabriela Fonseca

9/06/2008

POLÍTICA 4




GLUCKSMANN, André e Rafael, O Maio de 68 explicado a Nicole Sarkozy, Lisboa, ed. Guerra e Paz, 2008 (Ca. 234 pp. e 14 euros)

“A França e o mundo mudaram bastante desde os famosos “Acontecimentos de Maio”: o gaulismo e o comunismo já não dominam o pensamento e a cena política, o muro de Berlim e as torres gémeas de Manhattan caíram, a guerra fria acabou (…) substituída pelas guerras quentes do pós-comunismo, por todo o lado se sente a ameaça de um terrorismo nihilista, a sida desabou sobre o planeta, a Europa democrática foi parcialmente reunificada, dois genocídios vieram, no Cambodja e no Ruanda, sobrecarregar ainda mais as contas de uma incorrigível humanidade, o euro substituiu o franco, a esquerda assumiu o poder para depois o perder, os antigos revolucionários aburguesaram-se, a interrupção voluntária da gravidez, a pílula abortiva e o pacto civil de solidariedade já são aquisições consensuais, o século XX morreu, um novo milénio começa. Qual a actualidade de 68 em 2007?” (p.11)

“A ruptura contemporânea não se contenta com dessacralizar a ordem estabelecida: dessacraliza-se em permanência” (p.198)

“A ruptura histórica é gigantesca. Com Maio de 68, Lisboa de 1974 e Kiev em 2004, a revolução entra na era godeliana de “incompletude”, e da inconsciência. Deixa de se viver como sistema fechado e deixa de devorar, tal como Saturno, os próprios filhos. Abandona toda e qualquer ideia de luta final ou de solução com o mesmo nome, “deixa de ser para existir” e, assim fazendo, rompe com quatro séculos de busca proteiforme de Absoluto.
Reencontra uma nova energia” (p.201)

“O instante sagrado em que o indivíduo deixa de ser ele próprio para se transformar em Estado, para se inscrever numa tradição, em códigos, em costumes que o ultrapassam (…) Curiosa alienação do povo que se transforma em servido do Estado.
Tendo compreendido a natureza do poder e apercebendo-se de que eram demasiado frágeis para o enfrentar, os militantes de 68 fugiram da política institucional como da peste. Deixaram o Estado marinar no seu arcaísmo e a França mergulhar na esquizofrenia. A “limpeza do pó” feita por Maio deve por fim atingir esse grande totem veneziano [alusão ao retrato do doge Loredan pintado por Bellini – N. de Kriu] implantado no coração da Republica” (p. 233)

9/05/2008

ALTERNATIVA 9 RESERVA NATURAL DA SERRA DE CAPIVARA - BRASIL

Dentro e fora do Brasil, o nome da arqueóloga Niède Guidon está associado à teoria de que o homem ocupou o continente americano há 50 mil anos, e não há 15 mil, como acredita a maioria dos cientistas. Mas no Piauí, na região do Parque Nacional da Capivara, onde ela encontrou os vestígios pré-históricos que levaram à formulação da hipótese, ela é muito mais que isso. Chegou como pesquisadora, mas teve que virar guardiã dos sítios arqueológicos para evitar que fossem destruídos pelo que o homem moderno chama de desenvolvimento. Trinta anos depois, apesar da criação dos parques da Capivara e da Serra das Confusões e da Fundação Museu do Homem Americano, Niède ainda não tem condições de ser apenas pesquisadora. Entre uma escavação e outra, tem que expulsar caçadores do parque, proteger as pinturas da depredação de invasores e convencer o governo de que ali não é lugar para assentar sem-terra. No momento, o Incra deseja assentar mil famílias na corredor ecológico que liga os dois parques. Se isso acontecer, ela alerta: acabarão com as pinturas e com a fauna e flora existentes na região. Crime que já estaria consumado se não fosse a presença da arqueóloga no Piauí. Em reconhecimento à sua batalha, Niède Guidon ganhou no dia 2 de março o Prêmio Faz Diferença, entregue pelo jornal O Globo a pessoas que não brincam em serviço. O Eco aproveitou a rara presença dela no Rio de Janeiro e a convidou, junto com a arqueóloga e braço direito Anne-Marie Pessis, para um bate-papo.
Como está a situação?
Niède: Estamos com todo o lado leste do parque ocupado e estão programando fazer o mesmo com o norte, o oeste e entre os dois parques (Serra da Capivara e Serra das Confusões), na zona que devia ser o corredor ecológico. Porque quando chega a seca na Serra da Capivara nós ficamos sem água. Antigamente, os mamíferos grandes migravam nesta época para a Serra das Confusões através do corredor, mas agora não podem mais. O parque da Serra da Capivara virou uma ilha cercada de gente. Nós estamos tendo que botar água e comida para os animais. Daqui a pouco vai ter um problema genético.
Houve alteração de comportamento?
Niède: Nós espalhamos a comida pelo parque para não concentrá-la em um único lugar. Colocamos milho, mandioca, e banana para os macacos. Esses sim, como são muito parecidos com a gente, ficaram mal acostumados.
São macacos-pregos?
Niède: Tem os pregos, tem aqueles pequeninos,os guaribas, mas dos guaribas nós temos pouco. Agora os pregos são terríveis. Eles já sabem que os carros do parque vêm para trazer comida e se alguém vai para outra região levar comida eles ficam bravos.
Quando começou a ocupação?
Niède: A região foi invadida há cerca de 20 anos e tudo começou quando quiseram abrir uma estrada asfaltada. O pessoal que veio trabalhar na obra ficou por ali. Construíram casas e depois foram abertos vários poços para fornecer água para a cidade. No alto da Serra é um lugar mais fresco do que a cidade, o que aconteceu? Políticos e comerciantes ricos simplesmente chegaram lá e construíram suas casas nos terrenos do governo estadual. Casas com piscina e churrasqueira. Aí vieram os agregados, as pessoas que trabalham para eles.
Quais foram as conseqüências?
Niède: A caça é um exemplo. Quando eles dizem que os pobres caçam para comer não é verdade. Os homens estão caçando para vender para os ricos. Você vende um tatu por 30 reais e com o dinheiro consegue comprar muitos quilos de carne, que é bem melhor do que comer um tatu. Esses caseiros caçam porque no fim de semana a família chega para ficar lá na beira da piscina comendo tatu assado. Eu avisei ao Ibama, mas eles alegaram que para entrar nas casas é necessária uma ordem judicial. Eu chego, dou cem reais para o caseiro deixar eu entrar, abro o congelador e está cheio de tatu.
Mas e os sem-terra?
Niède: Eles inventaram esta história que ali tem mil famílias para assentar. O que sei é que não tem. No máximo tem duzentas. Eles querem assentar os pobres para eles, os ricos que invadiram a área, ganharem o título de propriedade das terras e regularizar a situação. Eu acho esquisito um governo de esquerda regularizar isso. Porque eu que compro e pago o cartório para ter um título de propriedade, e pago os impostos todo ano, estou me sentindo uma cretina. Quem invadiu e nunca pagou imposto agora vai ter tudo. Acho que tinham que exigir pelo menos o retorno social, que pagassem os caseiros um salário mínimo e não deixassem caçar e nem andar armados.
Quantas casas dessas invasões de rico você acha que tem ali?
Niède: Deve ter umas 30 mais ou menos, entre 30 a 40. Agora cada uma não é apenas uma casa, é uma casa com agregados.
Anne-Marie: E dados mostram que essas invasões, e os desmatamentos e queimadas provocados por elas, levaram muitas fontes de água a secar. O Rio Piauí não corre mais. Tudo que é sujeira e lixo eles jogam dentro do rio e das lagoas, aterram e depois fazem as casas em cima. A calha do Piauí esta tomada por casas monumentais de prefeitos e de políticos que constroem dentro do rio. O Ibama um dia foi lá porque eles aterraram parte do leito para construir uma casa de show para 15 mil pessoas.
E tem 15 mil pessoas para assistir a um show?
Niède: Essa é outra questão de todo este problema social do Nordeste. Tenho amigos franceses que vão lá e ficam impressionados. Numa cidade pequena do interior da França você não vê pessoas à noite, durante a semana, nos bares. Eles estão sempre cheios e tem mesinhas na rua pro pessoal ficar bebendo até tarde. Cada um que chega abre o carro equipado com poderosos alto-falantes e liga o rádio no máximo. Um barulho infernal. E as pessoas ficam ali até tarde e no dia seguinte ninguém vai trabalhar.
Agora, de onde eles tiram dinheiro para isso?É a população local rural?
Niède: A população rural praticamente não existe mais, porque ninguém mais quer ficar na zona rural. Os jovens todos querem vir para a cidade. Há oito anos, o Incra assentou 200 famílias na região e deu 15 mil reais para cada uma construir uma casa. A associação dos moradores fechou um contrato com uma empresa de Petrolina que construiu umas casas horrorosas, que não chegam a ter 30 metros quadrados, por 3500 reais e cada família embolsou a diferença. Com o dinheiro elas compraram casas na cidade, carros e motocicletas. Hoje em dia só existem umas 20 famílias que vivem ali. Elas vendem a madeira e pegam o dinheiro da agricultura familiar que elas recebem todo ano para comprar sementes e adubo e não compram nada. Ficam com aquele dinheiro e não plantam nada.
Quantas pessoas existem ali?
Niède: Deve haver mais de cem mil no entorno do parque. O problema é que, com a crise no sul, muitas pessoas que tinham ido para São Paulo e Brasília voltaram para lá e levaram junto costumes da bandidagem, como assalto. A região também virou rota de tráfico de droga.
Qual tipo de economia daria certo ali?
Niède: Daqui a 10 anos só vai ter deserto, não vai ter nada e o pessoal vai continuar pobre do mesmo jeito. Se o Incra tem tanto dinheiro assim, por que não instala estufas e começa a incentivar o cultivo de plantas ornamentais? Porque a imbecilidade chega a tal ponto que as floriculturas de Teresina vendem cactos bonitinhos, tudo comprado na Holambra de São Paulo. Os cactos vão para lá de avião. O mercado internacional de plantas ornamentais é imenso, na França eles pagam mais de mil euros por um cactos. Mas você fala isso pro pessoal e eles te perguntam: “Mas doutora, quem vai comprar esta porcaria cheia de espinhos?” Por que não fazem para os mais jovens cursos para guias turísticos, cursos para guarda-parques? Ao invés de dar 15 mil reais e todo ano dar o dinheiro da agricultura familiar, por que não dá logo um emprego? Cria emprego para esse pessoal. A Serra das Confusões só tem um funcionário e estão acabando com o tamanduá-bandeira e com os tatus canastra da região. Dentro do parque nacional da Serra da Capivara nós temos hoje uns quatro tamanduás-bandeira e quando eu cheguei lá você cruzava com um a cada 10 minutos.
Quando você chegou na região?
Niède: A primeira vez que estive lá foi em 1970, mas a pesquisa mesmo começou com uma missão oficial em 73, e em 78 nós fizemos uma missão de 6 meses com o pessoal da geologia, da botânica e da ecologia.
Como era a região?
Niède: Quando eu cheguei lá era tudo floresta. A caatinga veio depois.Você tinha caatinga arbórea no planalto. Na planície era tudo floresta pau d´arco e aroeira. O rio Piauí corria, a cidade de São Raimundo tinha uns 10 lagos cheios de garça e pássaros. Eu tenho foto de tudo isso. Nós preparamos toda a documentação e fizemos um levantamento, inclusive fundiário do pessoal que estava na região. Na Serra da Capivara só tinha um pequeno povoado com cerca de cento e poucas famílias. Eles iam lá fazer roça, não moravam ali. Na Serra das Confusões não tinha ninguém. Era completamente vazio, era tudo mata atlântica.
Já havia um processo de degradação?
Niède: Na planície, porque tinha rio e lagoas. Lá no alto, no planalto, onde está a maioria das pinturas rupestres, eles nem tinham entrado ainda. Eles ocuparam aquela região depois da década de 70, com os projetos da Sudene e do Banco do Nordeste. Infelizmente nesses projetos você recebe uma pequena quantia de dinheiro, desmata e aí é que você recebe o grosso do dinheiro.
Conte um pouco sobre a criação do parque.
Niède: Nós fomos para lá com a finalidade de fazer pesquisa. A Serra das Confusões não tinha ninguém. Era tudo vazio, tudo mata atlântica. Enviamos um documento para o governo do estado alertando sobre a importância da região e que seria importante se criar um parque nacional. O governador na época era o Dirceu Arcoverde e lendo o relatório ele descobriu que nas Confusões tinha água, rios, tinha tudo. O que o governo fez? Criou a Serra da Capivara em 1979 e fez doações para políticos e para empresas em direção à Serra das Confusões. Ficou só a Serra da Capivara e a gente começou a trabalhar ali. Pensei que com a criação do parque nacional o problema estava resolvido. Achei que o Ibama da época, o IBDF, ia colocar gente lá, mas passaram-se 3 anos e nada. Não mandaram nenhum funcionário e o pessoal começou a dizer que quem quisesse caçar ou precisasse de madeira era só ir ao parque, porque era do governo, mas ninguém tomava conta. Em 1986 nós criamos a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) para ter uma pessoa jurídica podendo intervir junto a Brasília. Foi daí que começamos a nos ocupar do parque. Mas foi só em 1988, dez anos depois da sua criação, que foi feito o primeiro plano de manejo. A partir de 94 nós passamos a ter uma co-gestão com o Ibama. Mas a história agora é a seguinte: o pessoal do Incra me disse que eles têm mais de 25 milhões para fazer assentamentos na região. Durante o ano de 2004 inteirinho, a chefia do Parque da Serra da Capivara recebeu 40 mil.
Mas qual é a perspectiva?
Niède: Nós conversamos com Brasília e eles estão montando uma comissão interministerial com o ministério do meio ambiente, do desenvolvimento agrário, da agricultura, o Incra e o ministério do turismo. O ministro do turismo inclusive chamou o governador e disse que estava fazendo uma estrada ligando os dois parques para desenvolver o turismo. Em Teresina, um procurador da república e um procurador do meio ambiente mandaram o Incra parar com os assentamentos porque o projeto não foi aprovado pelo Ibama. Houve também uma reunião com o Irphan, porque eles são responsáveis por todos os sítios, e eles também não autorizaram. A questão está parada.
Há diálogo com o Incra?
Niède: O presidente do Incra, que no início tinha saído com uma porção de coisas contra a gente, veio falar comigo que não sabia que a Fundação tinha um projeto social e que tinha gostado muito da idéia das plantas ornamentais. Sugeriu que poderíamos fazer um novo modelo de assentamento e eu disse que, se for assim, nós podemos trabalhar juntos. No corredor ecológico, não é preciso remover ninguém. O problema é que o Incra insiste que a lei mudou e que área de proteção permanente não existe mais porque ela tem que ser definida por um plano de manejo. Como o plano de manejo foi feito em 88, ele expirou e o Ibama nunca mais teve dinheiro para fazer outro.
Você ameaçou retirar as pinturas do parque?
Niède: O ministro da Cultura, Gilberto Gil, convocou um comitê interministerial para decidir se a área seria turística ou uma área de reforma agrária. Eu disse a ele que se for para reforma agrária o pessoal vai destruir tudo. O fogo arrebenta as pinturas rupestres. Como eu vi caçadores brincando de tiro ao alvo com elas, se for realmente para a reforma agrária, eu acho que o melhor que se tem a fazer é tirar as pinturas de lá. O ministério depois decide para aonde levar, eu organizo e o governo tira de lá. Existe tecnologia para isso. Mas aí já disseram que eu estava querendo levar para a França, aquelas coisas. Uma vez a Federação dos Trabalhadores Agrícolas e a Pastoral da Terra organizaram uma passeata com carros de som passando pela cidade dizendo que Deus criou a Terra para os homens, e os animais para os homens comerem. Mas a doutora Niède Guidon não deixa caçar, portanto, ela é contra Deus. Porque Deus fez a Terra para os homens e a doutora Niéde Guidon quer guardar o parque nacional só para os animais. Logo ela é contra Deus. Quem quer guardar o parque nacional sou eu. É como se o parque não fosse uma instituição federal.
Anne-Marie: O que estamos querendo fazer agora, junto ao CNPQ, é um projeto de documentação fotogramétrica dos sitios de pintura rupestre.
Não existe?
Anne-Marie: Não, é caríssimo. Um dos equipamentos custa 30 mil euros. Antes, registrar as pinturas não nos preocupava, mas o fogo começou a estourar tudo. Os assentados queimam pneus embaixo das figuras porque se não tem mais pintura, não tem mais o quê preservar. O problema acaba, ninguém mais vai encomodá-los. O projeto de fotogrametria é fundamental para que este patrimônio exista no futuro.
Niède, você sofre muitas ameaças?
Niède: Não. Agora, por exemplo, nós estamos tentando abrir uma variante do parque nacional que tem sítios importantíssimos. A parede é do parque, mas a terra da frente é particular e uma parte está queimando e vai derrubar todas as pinturas. Fui lá conversar com eles e com alguns entrei em acordo, mas tem aqueles valentes: “Aqui a senhora não entra porque se entrar eu mato”, é um costume deles, porque se matar não acontece nada, o que é um problema. Mas houve muita ameaça no começo por causa da questão do calcário. No calcário temos muitos sítios e eles pegavam o calcário e queimavam. Calcário é mármore negro. Veja a inteligência da exploração comercial, eles pegavam mármore negro, quebravam e queimavam árvores de lei para transformarem aquilo em cal. Pegavam dois produtos nobres para produzir uma porcaria sem valor. As pessoas trabalhavam em regime escravo e nós denunciamos. Um dia um guia nosso veio me avisar que eles tinham se reunido para juntar dinheiro para contratar um pistoleiro do Mato Grosso para me matar. Aí eu fui à casa de quem eu sabia ser o mandante, levei um talão de cheque meu do Citibank de Nova Iorque, junto com o extrato bancário, e disse: vocês estão vendo isso daqui? É um depósito em dólar nos EUA. Se me acontecer alguma coisa eu tenho uns amigos no Rio que com esse dinheiro vão contratar um pessoal de um lugar chamado Rocinha para virem para cá e acabar com você e toda a sua família. Desde o bebezinho até a mulher. Eu não tenho nada a perder, pode me matar. Ele disse: “Não doutora, nós adoramos a senhora”, e a coisa acabou assim.
Você anda armada?
Niède: Todo mundo lá anda armado, mas eu não ando e mando sempre o meu pessoal andar sem arma. Se nós andarmos armados nós vamos ser presos, os outros não. Eu nunca dou chance para eles nos pegarem descumprindo alguma lei. Só teve uma vez que eu ameacei pegar em arma. Depois das eleições presidenciais, me apareceu um fulano dizendo ser o novo superintendente do Ibama, mas que queria deixar claro que não entendia nada de meio ambiente e que tinha sido nomeado por ser amigo do senador Da Silva. Na Serra da Capivara o cargo sempre foi ocupado por técnicos, não por políticos. Então avisei ao superior dele: se você nomear um político para cá eu já vou avisando que vou me armar e esperá-lo lá dentro do parque. Quando ele chegar, eu mato. Vocês podem pegar todos os cargos do Piauí menos os da Serra da Capivara.
Circulam pessoas armadas dentro do parque?
Niède: Em dezembro prendemos caçadores armados com carabina de 12mm, que é uma arma poderosa, e um monte de bicho morto. Eles tinham chumbo para matar elefante. Mas o que é que acontece? O juiz federal liberou. Veio uma sentença da justiça federal dizendo que, por serem pessoas pobres e miseráveis, a posse de arma não é um crime porque o pobre e miserável precisa de uma arma para poder caçar, que é a única maneira que ele tem de alimentar a sua família. Então é melhor acabar com os parques nacionais e transformar tudo em reservas de caça. Não existe o programa Fome Zero, como é que a única maneira do pobre se alimentar é caçar? Você não tem apoio de nenhuma autoridade, nem da justiça federal. Colocamos para Brasília que estamos gastando o dinheiro público inutilmente, porque eu estou pagando cento e tantos guardas, gastando combustível de motocicletas e carros para prender pessoas que imediatamente serão soltas.
O que vocês fazem quando pegam alguém caçando?
Niède: A gente prende, leva o caçador para cidade e o entrega para o Ibama. Eles anotam, o autuam e ele vai embora. Então para eles tanto faz porque são presos e saem na mesma hora. Ano passado, um grupo foi preso e alegou que estava morrendo de fome. Decidimos então fazer uma experiência. Quando alguém era preso tinha duas alternativas: ser autuado em São Raimundo e pela lei não poder ter empréstimo, ou ficar e trabalhar na conservação das estradas do parque. Se trabalhasse bem, era contratado. Consultei um amigo advogado sobre a legalidade do projeto e ele deu parecer favorável, só sugeriu que eu pagasse um salário mínimo.
E todos aceitaram?
Niède: Ninguém quis ir pra cidade preso. Preferiram ficar e começaram a trabalhar recebendo três refeições por dia. Eu já tinha mais de 20 e poucos contratados quando apareceram mais três caçadores interessados. Na segunda-feira de manhã veio a esposa de um deles, era uma mulata grande e bonita: “A senhora prendeu o meu marido". ”Eu não prendi , foi ele quem escolheu ir trabalhar". “Mas ele não pode, ele tem que voltar porque ele tem um emprego e se não for trabalhar hoje vai ser demitido”. Eu perguntei: "O seu marido tem um emprego e estava aqui caçando?“. E ela: "Ele mora em Petrolina, veio passar o fim de semana comigo, mas aí os outros convidaram e ele foi junto”. Eu olhei para ela e disse: "Minha senhora, o seu marido vem passar o fim de semana com uma mulher linda assim e vai para o mato com os homens pra caçar?". Ela saiu de lá bravíssima e foi falar com o promotor da cidade. Ele desconsiderou o fato de nós sermos uma instituição vinculada ao governo federal e ao Ibama, pegou aquela mulher e mandou a polícia ir imediatamente ao Parque Nacional. Chegando lá, me acusaram de manter pessoas em cárcere privado e em condições subumanas. Não tinha ninguém armado, quem quisesse era só ir embora. Me chateei de tal forma que dispensei todo mundo, acabei com o programa. Azar, ninguém mais ia ter emprego. Ainda estou sendo processada pela crueldade de ter feito eles voltarem a pé para casa à noite, com o perigo de serem atacados por animais ferozes. Quando é para caçar não tem problema.
Quantos processos você já tem?
Niède: Estou com quatro de quatro caçadores que estavam neste grupo, e sabe por quê? Era gente rica. A moça era filha de um comerciante e ela dizia que o marido tinha de estar pronto para a posse do novo prefeito porque ele seria nomeado para um cargo importantíssimo. Avisei ao prefeito que se ele o nomeasse eu entraria com um processo contra ele. Acabou não nomeando.
Como é a mão-de-obra de vocês?
Niède: Nós formamos todos os nossos técnicos. Nosso topógrafo não sabia ler nem escrever e hoje ele trabalha com computadores. A pessoa que cuida das pinturas rupestres se formou em química em São Paulo, fez arqueologia conosco e depois a enviamos para Paris, onde ficou quase 5 anos trabalhando nos laboratórios dos museus da França. Agora, ela é professora em Teresina e forma o nosso pessoal técnico. Com ajuda do Bird, nós desenvolvemos atividades economicamente rentáveis, como a apicultura racional numa região onde não existia. Criamos um centro de tratamento do mel, distribuímos 5 mil colméias, formamos cooperativas e hoje o Piauí é o maior exportador de mel de todo o Nordeste. Depois nós construímos uma oficina de cerâmica, porque a região era tão pobre que não tinha nem artesanato. Os produtos são exportados para o Brasil inteiro. Mensalmente, nós jogamos na cidade cerca de 150 a 200 mil reais. Isso para a economia local é muita coisa. A Fundação levou muita coisa para lá. A universidade é um exemplo. Todos os pesquisadores alugam carros e gastam dinheiro na cidade. Vão fazer pesquisa e ficam por lá.
Vocês inventaram um artesanato em um local que não tinha tradição?
Niède: Os adolescentes fazem os desenhos das pinturas rupestres e vendem, fazem ímãs de geladeira. Os jovens não têm mais a cultura da caatinga, não conhecem nada, e o pior é que o ensino oferecido a eles é muito ruim.Vocês conseguiram criar uma universidade lá?
Anne-Marie: A faculdade de arqueologia está funcionando no prédio da Fundação e agora eles vão construir em 2005 um campus, que também vai criar mais trabalho na região. A questão é, se pelo menos houvesse uma continuidade de trabalho com o governo. Cada vez que muda o governo mudam-se os técnicos, deveriam mudar os governos, mas não a atividade técnica.
Niède: Nós trabalhamos com o CNPq há mais de 30 anos e antigamente você chegava lá e as pessoas sabiam quem você era, perguntavam pelo projeto. Outro dia cheguei lá e não sabiam quem eu era, falei meu nome, Niède Guidon, e disseram Dona Neide. Agora morri, pensei. Virei Dona Neide.
Se houver uma política de assentamento, o programa de vocês acaba?
Niède: Exatamente, tudo o que foi feito. Dentro do parque nacional temos um investimento de cerca de 20 milhões dólares. Hoje é o melhor parque de pinturas rupestres da América.
E a idéia de tirar as pinturas de lá é pra valer?
Niède: Se a governo federal realmente decidir fazer um assentamento lá, tem que tirar tudo. Porque aquilo acaba em alguns meses. Inclusive a fauna. Outro dia nós pegamos um caçador com 23 tatus. Dezenove eram fêmeas e todas estavam prenhas. Aqui vale tudo, podem matar tudo. Se vier um juiz federal me dizer que pobre para comer tem que caçar, vou perguntar a ele se nós voltamos para o paleolítico.

9/02/2008

FACTA 11 - LANÇAMENTO DE "PAULEMA" NO BRASIL


Teresina
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Arte e Cultura
23/08/2008 - 14:52 - Leilane Nunes Festluso
Escritor português faz crossbooking de livro inédito em Teresina
O escritor português Carlos Gouveia e Melo vem à Teresina junto com o Grupo de Teatro Extremo participar do Festival de Teatro Lusófono e traz na bagagem um presente aos piauienses. Sua mais recente obra, Paulema, será passada de mão em mão. O crossbooking será organizado pelo escritor, em parceria com o Portal AZ. Paulema, segundo o próprio autor, trata da
vida de dois adolescentes, o Paulo e a Ema, que fogem ao Fascismo. O livro é de leitura fácil, mais apta aos iniciados na literatura, que “lê-se ou devora-se sem qualquer dificuldade”. O lançamento oficial só acontecerá dia 03 de outubro, no Museu da Resistência, em Lisboa. “O crossbookning será o primeiro ritual do livro junto ao público”, confessa Carlos. Gouveia e Melo mora em Lisboa e está concluindo doutorado em Estudos Artísticos na especialidade de Estudos Teatrais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou, em 1998, A Escada; e A Santa Mãezinha, em 2003. É premiado em diversas áreas como pintura, encenação (duas vezes), escrita para teatro, performance e literatura (prêmio Revelação em Ficção da Associação Portuguesa de Escritores/Instituto Português de Livro e das Bibliotecas). O Festival de Teatro Lusófono acontece de 24 a 30 deste mês. A abertura acontece às 19h, com a exposição fotográfica “Luz, câmera, encenação”, na galeria do Clube dos Diários. Às 21h tem o espetáculo “Cabaré da RRRRRaça”, com o Bando de Teatro Olodum, de Salvador (BA).
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