9/10/2008

ALTERNATIVA 10

BOVE, J. e DUFOUR, F, O Mundo Não É Uma Mercadoria – Camponeses Contra a Comida Ruim - Entrevistas a Gilles Lumeau - São Paulo, Editora Unesp, 2001. (Ca. 255 pp. e 16 euros)
JB: “Na agricultura [os transgénicos - N. de Kriu] só servem para resolver, mal e perigosamente, os problemas colocados pelo produtivismo, em particular os da monocultura que concentra parasitas (insectos e ervas daninhas) que os pesticidas não conseguem combater. É assim que se introduz no cromossomo do milho um gene de um organismo naturalmente insecticida (…) Quando uma lagarta devora o milho ela morre de imediato.
(…) o pesticida não desaparece assim tão facilmente das sementes: no caso do nosso milho, os insectos predadores de uma borboleta, cuja lagarta devora os pés de milho, também ingerem o veneno. Os pesticidas acumulam-se e concentram-se na cadeia alimentar. O homem é o grande animal no fim dela.
(…) No Brasil verificou-se um aumento de alergias à soja com o aumento de soja transgénica.
(…) Última preocupação: ratos de laboratório que comeram baratas transgénicas sofrem de problemas imunológicos graves (…) nenhum estudo foi feito para analisar a acumulação na cadeia alimentar de substâncias tóxicas
(…) Esses riscos de “bola de neve” não foram avaliados. (p.120)

GL: Mas esses transgénicos não foram testados antes da sua comercialização?
JB: As grandes empresas de sementes e farmacêuticas apostaram na política do facto consumado: tornam os transgénicos inevitáveis a partir do momento em que estiverem já disseminados na cadeia alimentar e no meio ambiente (particularmente através dos produtos importados, como a soja e o milho provenientes dos Estados Unidos e da América do Sul.) E estão a obter regulamentos minimalistas por parte dos Estados.
Estamos convencidos de que se levássemos em conta os custos de avaliação (o que seria indispensável) dos efeitos transgénicos na cadeia alimentar e no meio ambiente – custos muito altos pois essa avaliação pode levar cinco a dez anos – constataríamos que esses produtos não são rentáveis.
(…) As empresas agroquímicas fizeram que os transgénicos fossem classificados como produtos fitossanitários com o fim de impedir que a sua imagem apareça como insuportável ao consumidor e de evitar mais um entrave administrativo à sua inserção no mercado” (p.121)

Dez princípios da agricultura camponesa
(Resumo)
1. Repartir os volumes da produção no intuito de permitir à maioria o acesso à profissão e viver dela.
2. Ser solidário com outros camponeses de outras regiões
3. Respeitar a natureza.
4. Valorizar os recursos abundantes e economizar os recursos parcos.
5. Buscar a transparência no acto da compra, da produção, da transformação e venda de produtos agrícolas.
6. Assegurar a boa qualidade gustativa e sanitária dos produtos.
7. Visar ao máximo de autonomia no funcionamento das unidades agrícolas.
8. Buscar parcerias com outros actores do mundo rural.
9. Manter a diversidade das populações animais e das variedades vegetais.
10. Raciocinar sempre a longo prazo e de maneira geral.










para chegar ao Museu da Resistência por metro desça em "Alto do Moinho"


9/09/2008


PAULEMA


"Paulema" só se encontra à venda na Livraria Rodrigues, Rua do Ouro, 188 em Lisboa.
(Neste blog extractos)


DEPOIS DO LANÇAMENTO NO BRASIL (TERESINA) LANÇAMENTO EM PORTUGAL (LISBOA) NO MUSEU DA RESISTÊNCIA, EST. DE BENFICA, 419, ÀS 19 HORAS DE 3 DE OUTUBRO.



PAULEMA QUE DÁ TITULO AO LIVRO - UMA TRILOGIA - CONTA O AMOR DE DOIS ADOLESCENTES. MAS SERÁ ISSO?


ANABELA TEIXEIRA E RUI QUINTAS LERÃO PARTES


"Estou convicta que há muito tempo, talvez anos, não tenha lido algo tão forte, intenso, denso (...) Acho que é sobre o Amor"


Graça Costa




"Devora-se, identificamo-nos, sente-se. É forte, muito forte. É bom, sim, é bom"


Gabriela Fonseca

9/06/2008

POLÍTICA 4




GLUCKSMANN, André e Rafael, O Maio de 68 explicado a Nicole Sarkozy, Lisboa, ed. Guerra e Paz, 2008 (Ca. 234 pp. e 14 euros)

“A França e o mundo mudaram bastante desde os famosos “Acontecimentos de Maio”: o gaulismo e o comunismo já não dominam o pensamento e a cena política, o muro de Berlim e as torres gémeas de Manhattan caíram, a guerra fria acabou (…) substituída pelas guerras quentes do pós-comunismo, por todo o lado se sente a ameaça de um terrorismo nihilista, a sida desabou sobre o planeta, a Europa democrática foi parcialmente reunificada, dois genocídios vieram, no Cambodja e no Ruanda, sobrecarregar ainda mais as contas de uma incorrigível humanidade, o euro substituiu o franco, a esquerda assumiu o poder para depois o perder, os antigos revolucionários aburguesaram-se, a interrupção voluntária da gravidez, a pílula abortiva e o pacto civil de solidariedade já são aquisições consensuais, o século XX morreu, um novo milénio começa. Qual a actualidade de 68 em 2007?” (p.11)

“A ruptura contemporânea não se contenta com dessacralizar a ordem estabelecida: dessacraliza-se em permanência” (p.198)

“A ruptura histórica é gigantesca. Com Maio de 68, Lisboa de 1974 e Kiev em 2004, a revolução entra na era godeliana de “incompletude”, e da inconsciência. Deixa de se viver como sistema fechado e deixa de devorar, tal como Saturno, os próprios filhos. Abandona toda e qualquer ideia de luta final ou de solução com o mesmo nome, “deixa de ser para existir” e, assim fazendo, rompe com quatro séculos de busca proteiforme de Absoluto.
Reencontra uma nova energia” (p.201)

“O instante sagrado em que o indivíduo deixa de ser ele próprio para se transformar em Estado, para se inscrever numa tradição, em códigos, em costumes que o ultrapassam (…) Curiosa alienação do povo que se transforma em servido do Estado.
Tendo compreendido a natureza do poder e apercebendo-se de que eram demasiado frágeis para o enfrentar, os militantes de 68 fugiram da política institucional como da peste. Deixaram o Estado marinar no seu arcaísmo e a França mergulhar na esquizofrenia. A “limpeza do pó” feita por Maio deve por fim atingir esse grande totem veneziano [alusão ao retrato do doge Loredan pintado por Bellini – N. de Kriu] implantado no coração da Republica” (p. 233)

9/05/2008

ALTERNATIVA 9 RESERVA NATURAL DA SERRA DE CAPIVARA - BRASIL

Dentro e fora do Brasil, o nome da arqueóloga Niède Guidon está associado à teoria de que o homem ocupou o continente americano há 50 mil anos, e não há 15 mil, como acredita a maioria dos cientistas. Mas no Piauí, na região do Parque Nacional da Capivara, onde ela encontrou os vestígios pré-históricos que levaram à formulação da hipótese, ela é muito mais que isso. Chegou como pesquisadora, mas teve que virar guardiã dos sítios arqueológicos para evitar que fossem destruídos pelo que o homem moderno chama de desenvolvimento. Trinta anos depois, apesar da criação dos parques da Capivara e da Serra das Confusões e da Fundação Museu do Homem Americano, Niède ainda não tem condições de ser apenas pesquisadora. Entre uma escavação e outra, tem que expulsar caçadores do parque, proteger as pinturas da depredação de invasores e convencer o governo de que ali não é lugar para assentar sem-terra. No momento, o Incra deseja assentar mil famílias na corredor ecológico que liga os dois parques. Se isso acontecer, ela alerta: acabarão com as pinturas e com a fauna e flora existentes na região. Crime que já estaria consumado se não fosse a presença da arqueóloga no Piauí. Em reconhecimento à sua batalha, Niède Guidon ganhou no dia 2 de março o Prêmio Faz Diferença, entregue pelo jornal O Globo a pessoas que não brincam em serviço. O Eco aproveitou a rara presença dela no Rio de Janeiro e a convidou, junto com a arqueóloga e braço direito Anne-Marie Pessis, para um bate-papo.
Como está a situação?
Niède: Estamos com todo o lado leste do parque ocupado e estão programando fazer o mesmo com o norte, o oeste e entre os dois parques (Serra da Capivara e Serra das Confusões), na zona que devia ser o corredor ecológico. Porque quando chega a seca na Serra da Capivara nós ficamos sem água. Antigamente, os mamíferos grandes migravam nesta época para a Serra das Confusões através do corredor, mas agora não podem mais. O parque da Serra da Capivara virou uma ilha cercada de gente. Nós estamos tendo que botar água e comida para os animais. Daqui a pouco vai ter um problema genético.
Houve alteração de comportamento?
Niède: Nós espalhamos a comida pelo parque para não concentrá-la em um único lugar. Colocamos milho, mandioca, e banana para os macacos. Esses sim, como são muito parecidos com a gente, ficaram mal acostumados.
São macacos-pregos?
Niède: Tem os pregos, tem aqueles pequeninos,os guaribas, mas dos guaribas nós temos pouco. Agora os pregos são terríveis. Eles já sabem que os carros do parque vêm para trazer comida e se alguém vai para outra região levar comida eles ficam bravos.
Quando começou a ocupação?
Niède: A região foi invadida há cerca de 20 anos e tudo começou quando quiseram abrir uma estrada asfaltada. O pessoal que veio trabalhar na obra ficou por ali. Construíram casas e depois foram abertos vários poços para fornecer água para a cidade. No alto da Serra é um lugar mais fresco do que a cidade, o que aconteceu? Políticos e comerciantes ricos simplesmente chegaram lá e construíram suas casas nos terrenos do governo estadual. Casas com piscina e churrasqueira. Aí vieram os agregados, as pessoas que trabalham para eles.
Quais foram as conseqüências?
Niède: A caça é um exemplo. Quando eles dizem que os pobres caçam para comer não é verdade. Os homens estão caçando para vender para os ricos. Você vende um tatu por 30 reais e com o dinheiro consegue comprar muitos quilos de carne, que é bem melhor do que comer um tatu. Esses caseiros caçam porque no fim de semana a família chega para ficar lá na beira da piscina comendo tatu assado. Eu avisei ao Ibama, mas eles alegaram que para entrar nas casas é necessária uma ordem judicial. Eu chego, dou cem reais para o caseiro deixar eu entrar, abro o congelador e está cheio de tatu.
Mas e os sem-terra?
Niède: Eles inventaram esta história que ali tem mil famílias para assentar. O que sei é que não tem. No máximo tem duzentas. Eles querem assentar os pobres para eles, os ricos que invadiram a área, ganharem o título de propriedade das terras e regularizar a situação. Eu acho esquisito um governo de esquerda regularizar isso. Porque eu que compro e pago o cartório para ter um título de propriedade, e pago os impostos todo ano, estou me sentindo uma cretina. Quem invadiu e nunca pagou imposto agora vai ter tudo. Acho que tinham que exigir pelo menos o retorno social, que pagassem os caseiros um salário mínimo e não deixassem caçar e nem andar armados.
Quantas casas dessas invasões de rico você acha que tem ali?
Niède: Deve ter umas 30 mais ou menos, entre 30 a 40. Agora cada uma não é apenas uma casa, é uma casa com agregados.
Anne-Marie: E dados mostram que essas invasões, e os desmatamentos e queimadas provocados por elas, levaram muitas fontes de água a secar. O Rio Piauí não corre mais. Tudo que é sujeira e lixo eles jogam dentro do rio e das lagoas, aterram e depois fazem as casas em cima. A calha do Piauí esta tomada por casas monumentais de prefeitos e de políticos que constroem dentro do rio. O Ibama um dia foi lá porque eles aterraram parte do leito para construir uma casa de show para 15 mil pessoas.
E tem 15 mil pessoas para assistir a um show?
Niède: Essa é outra questão de todo este problema social do Nordeste. Tenho amigos franceses que vão lá e ficam impressionados. Numa cidade pequena do interior da França você não vê pessoas à noite, durante a semana, nos bares. Eles estão sempre cheios e tem mesinhas na rua pro pessoal ficar bebendo até tarde. Cada um que chega abre o carro equipado com poderosos alto-falantes e liga o rádio no máximo. Um barulho infernal. E as pessoas ficam ali até tarde e no dia seguinte ninguém vai trabalhar.
Agora, de onde eles tiram dinheiro para isso?É a população local rural?
Niède: A população rural praticamente não existe mais, porque ninguém mais quer ficar na zona rural. Os jovens todos querem vir para a cidade. Há oito anos, o Incra assentou 200 famílias na região e deu 15 mil reais para cada uma construir uma casa. A associação dos moradores fechou um contrato com uma empresa de Petrolina que construiu umas casas horrorosas, que não chegam a ter 30 metros quadrados, por 3500 reais e cada família embolsou a diferença. Com o dinheiro elas compraram casas na cidade, carros e motocicletas. Hoje em dia só existem umas 20 famílias que vivem ali. Elas vendem a madeira e pegam o dinheiro da agricultura familiar que elas recebem todo ano para comprar sementes e adubo e não compram nada. Ficam com aquele dinheiro e não plantam nada.
Quantas pessoas existem ali?
Niède: Deve haver mais de cem mil no entorno do parque. O problema é que, com a crise no sul, muitas pessoas que tinham ido para São Paulo e Brasília voltaram para lá e levaram junto costumes da bandidagem, como assalto. A região também virou rota de tráfico de droga.
Qual tipo de economia daria certo ali?
Niède: Daqui a 10 anos só vai ter deserto, não vai ter nada e o pessoal vai continuar pobre do mesmo jeito. Se o Incra tem tanto dinheiro assim, por que não instala estufas e começa a incentivar o cultivo de plantas ornamentais? Porque a imbecilidade chega a tal ponto que as floriculturas de Teresina vendem cactos bonitinhos, tudo comprado na Holambra de São Paulo. Os cactos vão para lá de avião. O mercado internacional de plantas ornamentais é imenso, na França eles pagam mais de mil euros por um cactos. Mas você fala isso pro pessoal e eles te perguntam: “Mas doutora, quem vai comprar esta porcaria cheia de espinhos?” Por que não fazem para os mais jovens cursos para guias turísticos, cursos para guarda-parques? Ao invés de dar 15 mil reais e todo ano dar o dinheiro da agricultura familiar, por que não dá logo um emprego? Cria emprego para esse pessoal. A Serra das Confusões só tem um funcionário e estão acabando com o tamanduá-bandeira e com os tatus canastra da região. Dentro do parque nacional da Serra da Capivara nós temos hoje uns quatro tamanduás-bandeira e quando eu cheguei lá você cruzava com um a cada 10 minutos.
Quando você chegou na região?
Niède: A primeira vez que estive lá foi em 1970, mas a pesquisa mesmo começou com uma missão oficial em 73, e em 78 nós fizemos uma missão de 6 meses com o pessoal da geologia, da botânica e da ecologia.
Como era a região?
Niède: Quando eu cheguei lá era tudo floresta. A caatinga veio depois.Você tinha caatinga arbórea no planalto. Na planície era tudo floresta pau d´arco e aroeira. O rio Piauí corria, a cidade de São Raimundo tinha uns 10 lagos cheios de garça e pássaros. Eu tenho foto de tudo isso. Nós preparamos toda a documentação e fizemos um levantamento, inclusive fundiário do pessoal que estava na região. Na Serra da Capivara só tinha um pequeno povoado com cerca de cento e poucas famílias. Eles iam lá fazer roça, não moravam ali. Na Serra das Confusões não tinha ninguém. Era completamente vazio, era tudo mata atlântica.
Já havia um processo de degradação?
Niède: Na planície, porque tinha rio e lagoas. Lá no alto, no planalto, onde está a maioria das pinturas rupestres, eles nem tinham entrado ainda. Eles ocuparam aquela região depois da década de 70, com os projetos da Sudene e do Banco do Nordeste. Infelizmente nesses projetos você recebe uma pequena quantia de dinheiro, desmata e aí é que você recebe o grosso do dinheiro.
Conte um pouco sobre a criação do parque.
Niède: Nós fomos para lá com a finalidade de fazer pesquisa. A Serra das Confusões não tinha ninguém. Era tudo vazio, tudo mata atlântica. Enviamos um documento para o governo do estado alertando sobre a importância da região e que seria importante se criar um parque nacional. O governador na época era o Dirceu Arcoverde e lendo o relatório ele descobriu que nas Confusões tinha água, rios, tinha tudo. O que o governo fez? Criou a Serra da Capivara em 1979 e fez doações para políticos e para empresas em direção à Serra das Confusões. Ficou só a Serra da Capivara e a gente começou a trabalhar ali. Pensei que com a criação do parque nacional o problema estava resolvido. Achei que o Ibama da época, o IBDF, ia colocar gente lá, mas passaram-se 3 anos e nada. Não mandaram nenhum funcionário e o pessoal começou a dizer que quem quisesse caçar ou precisasse de madeira era só ir ao parque, porque era do governo, mas ninguém tomava conta. Em 1986 nós criamos a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) para ter uma pessoa jurídica podendo intervir junto a Brasília. Foi daí que começamos a nos ocupar do parque. Mas foi só em 1988, dez anos depois da sua criação, que foi feito o primeiro plano de manejo. A partir de 94 nós passamos a ter uma co-gestão com o Ibama. Mas a história agora é a seguinte: o pessoal do Incra me disse que eles têm mais de 25 milhões para fazer assentamentos na região. Durante o ano de 2004 inteirinho, a chefia do Parque da Serra da Capivara recebeu 40 mil.
Mas qual é a perspectiva?
Niède: Nós conversamos com Brasília e eles estão montando uma comissão interministerial com o ministério do meio ambiente, do desenvolvimento agrário, da agricultura, o Incra e o ministério do turismo. O ministro do turismo inclusive chamou o governador e disse que estava fazendo uma estrada ligando os dois parques para desenvolver o turismo. Em Teresina, um procurador da república e um procurador do meio ambiente mandaram o Incra parar com os assentamentos porque o projeto não foi aprovado pelo Ibama. Houve também uma reunião com o Irphan, porque eles são responsáveis por todos os sítios, e eles também não autorizaram. A questão está parada.
Há diálogo com o Incra?
Niède: O presidente do Incra, que no início tinha saído com uma porção de coisas contra a gente, veio falar comigo que não sabia que a Fundação tinha um projeto social e que tinha gostado muito da idéia das plantas ornamentais. Sugeriu que poderíamos fazer um novo modelo de assentamento e eu disse que, se for assim, nós podemos trabalhar juntos. No corredor ecológico, não é preciso remover ninguém. O problema é que o Incra insiste que a lei mudou e que área de proteção permanente não existe mais porque ela tem que ser definida por um plano de manejo. Como o plano de manejo foi feito em 88, ele expirou e o Ibama nunca mais teve dinheiro para fazer outro.
Você ameaçou retirar as pinturas do parque?
Niède: O ministro da Cultura, Gilberto Gil, convocou um comitê interministerial para decidir se a área seria turística ou uma área de reforma agrária. Eu disse a ele que se for para reforma agrária o pessoal vai destruir tudo. O fogo arrebenta as pinturas rupestres. Como eu vi caçadores brincando de tiro ao alvo com elas, se for realmente para a reforma agrária, eu acho que o melhor que se tem a fazer é tirar as pinturas de lá. O ministério depois decide para aonde levar, eu organizo e o governo tira de lá. Existe tecnologia para isso. Mas aí já disseram que eu estava querendo levar para a França, aquelas coisas. Uma vez a Federação dos Trabalhadores Agrícolas e a Pastoral da Terra organizaram uma passeata com carros de som passando pela cidade dizendo que Deus criou a Terra para os homens, e os animais para os homens comerem. Mas a doutora Niède Guidon não deixa caçar, portanto, ela é contra Deus. Porque Deus fez a Terra para os homens e a doutora Niéde Guidon quer guardar o parque nacional só para os animais. Logo ela é contra Deus. Quem quer guardar o parque nacional sou eu. É como se o parque não fosse uma instituição federal.
Anne-Marie: O que estamos querendo fazer agora, junto ao CNPQ, é um projeto de documentação fotogramétrica dos sitios de pintura rupestre.
Não existe?
Anne-Marie: Não, é caríssimo. Um dos equipamentos custa 30 mil euros. Antes, registrar as pinturas não nos preocupava, mas o fogo começou a estourar tudo. Os assentados queimam pneus embaixo das figuras porque se não tem mais pintura, não tem mais o quê preservar. O problema acaba, ninguém mais vai encomodá-los. O projeto de fotogrametria é fundamental para que este patrimônio exista no futuro.
Niède, você sofre muitas ameaças?
Niède: Não. Agora, por exemplo, nós estamos tentando abrir uma variante do parque nacional que tem sítios importantíssimos. A parede é do parque, mas a terra da frente é particular e uma parte está queimando e vai derrubar todas as pinturas. Fui lá conversar com eles e com alguns entrei em acordo, mas tem aqueles valentes: “Aqui a senhora não entra porque se entrar eu mato”, é um costume deles, porque se matar não acontece nada, o que é um problema. Mas houve muita ameaça no começo por causa da questão do calcário. No calcário temos muitos sítios e eles pegavam o calcário e queimavam. Calcário é mármore negro. Veja a inteligência da exploração comercial, eles pegavam mármore negro, quebravam e queimavam árvores de lei para transformarem aquilo em cal. Pegavam dois produtos nobres para produzir uma porcaria sem valor. As pessoas trabalhavam em regime escravo e nós denunciamos. Um dia um guia nosso veio me avisar que eles tinham se reunido para juntar dinheiro para contratar um pistoleiro do Mato Grosso para me matar. Aí eu fui à casa de quem eu sabia ser o mandante, levei um talão de cheque meu do Citibank de Nova Iorque, junto com o extrato bancário, e disse: vocês estão vendo isso daqui? É um depósito em dólar nos EUA. Se me acontecer alguma coisa eu tenho uns amigos no Rio que com esse dinheiro vão contratar um pessoal de um lugar chamado Rocinha para virem para cá e acabar com você e toda a sua família. Desde o bebezinho até a mulher. Eu não tenho nada a perder, pode me matar. Ele disse: “Não doutora, nós adoramos a senhora”, e a coisa acabou assim.
Você anda armada?
Niède: Todo mundo lá anda armado, mas eu não ando e mando sempre o meu pessoal andar sem arma. Se nós andarmos armados nós vamos ser presos, os outros não. Eu nunca dou chance para eles nos pegarem descumprindo alguma lei. Só teve uma vez que eu ameacei pegar em arma. Depois das eleições presidenciais, me apareceu um fulano dizendo ser o novo superintendente do Ibama, mas que queria deixar claro que não entendia nada de meio ambiente e que tinha sido nomeado por ser amigo do senador Da Silva. Na Serra da Capivara o cargo sempre foi ocupado por técnicos, não por políticos. Então avisei ao superior dele: se você nomear um político para cá eu já vou avisando que vou me armar e esperá-lo lá dentro do parque. Quando ele chegar, eu mato. Vocês podem pegar todos os cargos do Piauí menos os da Serra da Capivara.
Circulam pessoas armadas dentro do parque?
Niède: Em dezembro prendemos caçadores armados com carabina de 12mm, que é uma arma poderosa, e um monte de bicho morto. Eles tinham chumbo para matar elefante. Mas o que é que acontece? O juiz federal liberou. Veio uma sentença da justiça federal dizendo que, por serem pessoas pobres e miseráveis, a posse de arma não é um crime porque o pobre e miserável precisa de uma arma para poder caçar, que é a única maneira que ele tem de alimentar a sua família. Então é melhor acabar com os parques nacionais e transformar tudo em reservas de caça. Não existe o programa Fome Zero, como é que a única maneira do pobre se alimentar é caçar? Você não tem apoio de nenhuma autoridade, nem da justiça federal. Colocamos para Brasília que estamos gastando o dinheiro público inutilmente, porque eu estou pagando cento e tantos guardas, gastando combustível de motocicletas e carros para prender pessoas que imediatamente serão soltas.
O que vocês fazem quando pegam alguém caçando?
Niède: A gente prende, leva o caçador para cidade e o entrega para o Ibama. Eles anotam, o autuam e ele vai embora. Então para eles tanto faz porque são presos e saem na mesma hora. Ano passado, um grupo foi preso e alegou que estava morrendo de fome. Decidimos então fazer uma experiência. Quando alguém era preso tinha duas alternativas: ser autuado em São Raimundo e pela lei não poder ter empréstimo, ou ficar e trabalhar na conservação das estradas do parque. Se trabalhasse bem, era contratado. Consultei um amigo advogado sobre a legalidade do projeto e ele deu parecer favorável, só sugeriu que eu pagasse um salário mínimo.
E todos aceitaram?
Niède: Ninguém quis ir pra cidade preso. Preferiram ficar e começaram a trabalhar recebendo três refeições por dia. Eu já tinha mais de 20 e poucos contratados quando apareceram mais três caçadores interessados. Na segunda-feira de manhã veio a esposa de um deles, era uma mulata grande e bonita: “A senhora prendeu o meu marido". ”Eu não prendi , foi ele quem escolheu ir trabalhar". “Mas ele não pode, ele tem que voltar porque ele tem um emprego e se não for trabalhar hoje vai ser demitido”. Eu perguntei: "O seu marido tem um emprego e estava aqui caçando?“. E ela: "Ele mora em Petrolina, veio passar o fim de semana comigo, mas aí os outros convidaram e ele foi junto”. Eu olhei para ela e disse: "Minha senhora, o seu marido vem passar o fim de semana com uma mulher linda assim e vai para o mato com os homens pra caçar?". Ela saiu de lá bravíssima e foi falar com o promotor da cidade. Ele desconsiderou o fato de nós sermos uma instituição vinculada ao governo federal e ao Ibama, pegou aquela mulher e mandou a polícia ir imediatamente ao Parque Nacional. Chegando lá, me acusaram de manter pessoas em cárcere privado e em condições subumanas. Não tinha ninguém armado, quem quisesse era só ir embora. Me chateei de tal forma que dispensei todo mundo, acabei com o programa. Azar, ninguém mais ia ter emprego. Ainda estou sendo processada pela crueldade de ter feito eles voltarem a pé para casa à noite, com o perigo de serem atacados por animais ferozes. Quando é para caçar não tem problema.
Quantos processos você já tem?
Niède: Estou com quatro de quatro caçadores que estavam neste grupo, e sabe por quê? Era gente rica. A moça era filha de um comerciante e ela dizia que o marido tinha de estar pronto para a posse do novo prefeito porque ele seria nomeado para um cargo importantíssimo. Avisei ao prefeito que se ele o nomeasse eu entraria com um processo contra ele. Acabou não nomeando.
Como é a mão-de-obra de vocês?
Niède: Nós formamos todos os nossos técnicos. Nosso topógrafo não sabia ler nem escrever e hoje ele trabalha com computadores. A pessoa que cuida das pinturas rupestres se formou em química em São Paulo, fez arqueologia conosco e depois a enviamos para Paris, onde ficou quase 5 anos trabalhando nos laboratórios dos museus da França. Agora, ela é professora em Teresina e forma o nosso pessoal técnico. Com ajuda do Bird, nós desenvolvemos atividades economicamente rentáveis, como a apicultura racional numa região onde não existia. Criamos um centro de tratamento do mel, distribuímos 5 mil colméias, formamos cooperativas e hoje o Piauí é o maior exportador de mel de todo o Nordeste. Depois nós construímos uma oficina de cerâmica, porque a região era tão pobre que não tinha nem artesanato. Os produtos são exportados para o Brasil inteiro. Mensalmente, nós jogamos na cidade cerca de 150 a 200 mil reais. Isso para a economia local é muita coisa. A Fundação levou muita coisa para lá. A universidade é um exemplo. Todos os pesquisadores alugam carros e gastam dinheiro na cidade. Vão fazer pesquisa e ficam por lá.
Vocês inventaram um artesanato em um local que não tinha tradição?
Niède: Os adolescentes fazem os desenhos das pinturas rupestres e vendem, fazem ímãs de geladeira. Os jovens não têm mais a cultura da caatinga, não conhecem nada, e o pior é que o ensino oferecido a eles é muito ruim.Vocês conseguiram criar uma universidade lá?
Anne-Marie: A faculdade de arqueologia está funcionando no prédio da Fundação e agora eles vão construir em 2005 um campus, que também vai criar mais trabalho na região. A questão é, se pelo menos houvesse uma continuidade de trabalho com o governo. Cada vez que muda o governo mudam-se os técnicos, deveriam mudar os governos, mas não a atividade técnica.
Niède: Nós trabalhamos com o CNPq há mais de 30 anos e antigamente você chegava lá e as pessoas sabiam quem você era, perguntavam pelo projeto. Outro dia cheguei lá e não sabiam quem eu era, falei meu nome, Niède Guidon, e disseram Dona Neide. Agora morri, pensei. Virei Dona Neide.
Se houver uma política de assentamento, o programa de vocês acaba?
Niède: Exatamente, tudo o que foi feito. Dentro do parque nacional temos um investimento de cerca de 20 milhões dólares. Hoje é o melhor parque de pinturas rupestres da América.
E a idéia de tirar as pinturas de lá é pra valer?
Niède: Se a governo federal realmente decidir fazer um assentamento lá, tem que tirar tudo. Porque aquilo acaba em alguns meses. Inclusive a fauna. Outro dia nós pegamos um caçador com 23 tatus. Dezenove eram fêmeas e todas estavam prenhas. Aqui vale tudo, podem matar tudo. Se vier um juiz federal me dizer que pobre para comer tem que caçar, vou perguntar a ele se nós voltamos para o paleolítico.

9/02/2008

FACTA 11 - LANÇAMENTO DE "PAULEMA" NO BRASIL


Teresina
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Arte e Cultura
23/08/2008 - 14:52 - Leilane Nunes Festluso
Escritor português faz crossbooking de livro inédito em Teresina
O escritor português Carlos Gouveia e Melo vem à Teresina junto com o Grupo de Teatro Extremo participar do Festival de Teatro Lusófono e traz na bagagem um presente aos piauienses. Sua mais recente obra, Paulema, será passada de mão em mão. O crossbooking será organizado pelo escritor, em parceria com o Portal AZ. Paulema, segundo o próprio autor, trata da
vida de dois adolescentes, o Paulo e a Ema, que fogem ao Fascismo. O livro é de leitura fácil, mais apta aos iniciados na literatura, que “lê-se ou devora-se sem qualquer dificuldade”. O lançamento oficial só acontecerá dia 03 de outubro, no Museu da Resistência, em Lisboa. “O crossbookning será o primeiro ritual do livro junto ao público”, confessa Carlos. Gouveia e Melo mora em Lisboa e está concluindo doutorado em Estudos Artísticos na especialidade de Estudos Teatrais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou, em 1998, A Escada; e A Santa Mãezinha, em 2003. É premiado em diversas áreas como pintura, encenação (duas vezes), escrita para teatro, performance e literatura (prêmio Revelação em Ficção da Associação Portuguesa de Escritores/Instituto Português de Livro e das Bibliotecas). O Festival de Teatro Lusófono acontece de 24 a 30 deste mês. A abertura acontece às 19h, com a exposição fotográfica “Luz, câmera, encenação”, na galeria do Clube dos Diários. Às 21h tem o espetáculo “Cabaré da RRRRRaça”, com o Bando de Teatro Olodum, de Salvador (BA).
Portal AZ - Informação de verdade - O portal de
Notícias do Piauí

8/27/2008

ARTE 10

BENJAMIM, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio d’ Água, 1992
“Aquilo que nos leva a fixar a história na memória é sobretudo a sua sóbria concisão que dispensa uma analise psicológica. E quanto mais naturalmente o narrador recuncia à vertente psicológica, tanto mais facilmente a narrativa se gravará na memória do ouvinte, tanto mais perfeitamente se integrará na sua experiência, e o ouvinte desejará recontá-la mais cedo ou mais tarde. Este processo de assimilação que se dá a um nível profundo do indivíduo precisa de um estado de descontracção que é cada vez mais raro. O tédio é o pássaro do sonho que choca os ovos da experiência. O simples sussurrar das folhagens afugenta-o. Os seus ninhos – as actividades intimamente ligadas ao tédio – já desapareceram das cidades e estão em vias de extinção no campo. Assim se perde o dom de ouvir, assim desapareceram as comunidades de ouvintes.” (pp.36,7)

8/19/2008

POEMA 10 "A ALEGRIA" de FERREIRA GULLAR, poeta do Estado de Piauí, Brasil

O sofrimento não tem

nenhum valor

Não acende um halo

em volta de tua cabeça, não

ilumina trecho algum

de tua carne escura

(nem mesmo o que iluminaria

a lembrança ou a ilusão

de uma alegria).

Sofres tu, sofre

um cachorro ferido, um inseto

que o inseticida envenena.

Será maior a tua dor

que a daquele gato que viste

a espinha quebrada a pau

arrastando-se a berrar pela sarjeta

sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral, a injustiça

não. A dor

te iguala a ratos e baratas

que também de dentro dos esgotos

espiam o sol

e no seu corpo nojento

de entre fezes

querem estar contentes.

http://portalliteral.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/poema_brasileiro.shtml?porelemesmo

8/18/2008

FACTA 12 FESTIVAL DE TEATRO LUSO, EM TERESINA, BRASIL, COM O TEATRO EXTREMO, AGOSTO 2008






Parto para Teresina, no Estado do Piaui, Brasil, a 22 deste mês, para interpretar o papel de Avô-Lobo, na peça “Pedro e o Lobo”, encenação de Fernando Jorge.
A peça exibe-se no Festival de Teatro Lusófono, organizado pelo Grupo Harém, daquela cidade brasileira.
A peça baseia-se numa fábula de Esopo. Nesta um pastor engana os outros gritando "Vem ai o Lobo! E quando o lobo lhe aparece mesmo, bem pode gritar que ninguém o acredita…
Música ao vivo de Tiago Pereira, membro do grupo "Roncos do Diabo", desenhos ao vivo de João Queiroz e no papel de Pedro, nesta digressão, João Vasco.
Estreada no Natal de 2007 "Pedro e o Lobo", peça para todos, já foi vista por cerca de oito mil pessoas.

POEMA 9 - Eugénio de Andrade

Abrir as mãos. Como se o vento fora a
maravilha. Acariaciar-lhe a crina, a lentíssima
garganta. Deixá-lo partir, jovem ainda com
as primeiras chuvas.

www.astormentas.com/andrade.htm

8/17/2008

FILOSOFIA 5

NIETZSCHE, Friederich, O Anticristo, Lisboa, ed. 70, 2006 (Ca. 108 pp. e 9.5 euros)
“O pressuposto do Budismo é um clima muito suave, uma grande gentileza e liberalidade de costumes, nenhum militarismo; e que seja nas castas superiores e até sábias que o movimento tenha o seu foco. Quer-se como fim supremo a serenidade, o silêncio, a ausência de desejo; e atinge-se o seu objectivo. O Budismo não é uma religião em que simplesmente se aspira à perfeição: a perfeição é o caso normal.
No Cristianismo, realçam-se os instintos dos servos e dos oprimidos: são as castas mais baixas que nele procuram a sua salvação. Exercita-se aqui como ocupação, como remédio contra o tédio, a casuística do pecado, a autocrítica, o exame de consciência; aqui se mantém invariável (pela oração) a emoção perante um poderoso chamado “Deus”: o mais elevado é aqui considerado como inacessível, dom, “graça”. Falta aqui também a publicidade: o esconderijo, o lugar obscuro é cristão. Aqui se despreza o corpo e se rejeita a higiene como sensualidade; a Igreja defende até da limpeza (a primeira medida dos cristãos, após a expulsão dos mouros, foi o encerramento dos banhos públicos, dos quais existiam, só em Córdoba, duzentos e setenta).
Cristão é um certo sentido de crueldade para consigo e para com os outros, o ódio aos que pensam doutro modo; a vontade de perseguir. (…) Cristão é o ódio de morte contra os senhores da terra, contra os “nobres” (…) Cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a libertinagem do espírito; cristão é o ódio contra os sentidos, contra a alegria dos sentidos, contra a alegria em geral.” (p. 35)

“Por outro lado, a violação selvagem destes almas inteiramente extraviadas [os apóstolos e acompanhantes de Cristo em sua vida – N. de Kriu] não suportou já a igualdade evangélica de todos quanto à filiação divina, que Jesus ensinara, a sua vingança consistiu em elevar Jesus de um modo extravagante, em separá-lo de si (…) O Deus único e o seu único Filho: ambos são criações de ressentiment” (p.62)

“Para que serviram os gregos? Para quê os Romanos? (…) O que hoje com indizível autodomínio – com efeito temos todos ainda de algum modo no corpo os maus instintos, os instintos cristãos – reconquistámos, o olhar livre perante a realidade, a mão circunspecta, a paciência e a seriedade no que há de mais pequeno, a total probidade do conhecimento – tudo isso já lá estava! Há mais de dois milénios! E mais ainda, o tacto e o gosto bom e apurado! (pp. 96,7)

8/15/2008

ALTERNATIVO 9

EISLER, Riane, O Cálice e a Espada. Porto, Via Óptima, 2003, 2ª ed. (Ca. 265 pp e 15.50 euros)

« Os dois tipos humanos básicos são o masculino e o feminino. A forma como se encontra estruturado o relacionamento entre mulheres e homens é pois um modelo básico para as relações humanas. Consequentemente, todas as crianças nascidas em famílias tradicionais dominadas pelo homem interiorizam, a partir do nascimento, um modo dominador-dominado de relacionamento com os outros seres humanos. » (p. 156)

« até agora a ciência excluiu em geral as mulheres como cientistas centrando o seu estudo quase inteiramente nos homens. Excluiu igualmente aquilo que podemos chamar de « conhecimento solidário » : o conhecimento de que, como escreve Salk, precisamos hoje urgentemente de seleccionar formas humanas que se achem « em cooperação com a evolução, em vez daquelas que são anti-sobrevivência ou anti-evolucionárias ». (…) A questão directamente pertinente quanto à nossa capacidade de transformar o nosso mundo da quesília para a coexistencia pacífica consiste em como tornar o conflito produtivo em vez de destrutivo. (…)
Como disse Gandhi, o objectivo é transformar o conflito em vez de o suprimir ou fazer explodir em violência » (pp.178, 9)

« Miller assinala como, psicologicamente, a putativa necessidade de controlar e dominar os outros é função, não de uma sensação de poder, mas antes de impotência. Distinguindo entre « poder para o próprio e poder para os outros » ela escreve : (…) Num sentido básico quanto maior for o desenvolvimento de cada indivíduo, tanto mais capaz e eficaz será ele ou ela, e tanto menos necessidade sentirá de limitar ou restringir os outros » (p. 179)

« A transformação de uma sociedade dominadora numa sociedade de parceria acarretaria obviamente uma mudança na nossa orientação tecnológica (…) Ao mesmo tempo o desperdício e consumo exagerado que agora priva os necessitados começaria também a extinguir-se. Pois, como observaram muitos comentadores sociais, no núcleo do nosso complexo ocidental de consumo exagerado e desperdício encontra-se o facto de estarmos culturalmente obcecados com a posse, a construção – e o desperdício – de coisas, como um substituto para as relações emocionalmente satisfatórias que nos são negadas pelos estilos de educação infantil e valores adultos do sistema presente » (p. 182)

«existe uma consciência emergente de que as designadas esferas pública e privada se encontram inextricavelmente ligadas. Numa palavra, pessoas de todo o mundo estão a tomar consciência de que não poderá haver mudança sustentável sem mudanças nas relações fundacionais entre homens e mulheres e pais e filhos. » (p. 194)

8/13/2008

HISTÓRIA 3

ELIAS, Norbert, O Processo Civilizacional, Lisboa, Dom Quixote, 2006, 2ª edição (ca. 780 pp. e 33 euros)

“Se tivermos uma visão de conjunto de todos estes movimentos passados, o que vemos é uma transformação numa direcção muito definida (…) As transformações pretéritas do tecido social só adquirem contornos nítidos quando as vemos em conjunto com os acontecimentos do nosso próprio tempo (…) a observação dos acontecimentos mais actuais ilumina a compreensão dos passados e o aprofundamento do passado ilumina o presente. (…) De novo se verifica uma situação em que muitas unidades de soberania rivais estão tão interligadas que aquela que se mantém estacionária, que não aumenta a sua força, corre o risco de enfraquecer e se tornar dependente de outro Estados. (…) Está em pleno curso a luta pela hegemonia (…) pela formação de monopólios territoriais de uma ordem de grandeza ainda superior (…) num sistema que abrange toda a terra habitada.” (pp. 717 a 719)

“Tal como outrora, nos lutas seculares entre domínios territoriais, assim também hoje é impossível predizer quanto tempo decorrerá até que essa luta [entre Estados – N. de Kriu] seja finalmente decidida. E tal como os membros das unidades sociais que, lutando, lentamente deram origem a Estados, assim também nós não temos, por enquanto, senão uma vaga noção de como poderão ser a estrutura, a organização e a instituições das unidades de soberania maiores que as acções de hoje tendem a formar. Quer os actores o saibam ou não. Só uma coisa é certa: a direcção em que impele o tipo de interdependência da nossa época. (…) as tensões competitivas entre os Estados não podem ser resolvidas enquanto não se tiverem estabilizado, através de uma série de provas de força, sangrentas ou não, monopólios de violência e organizações centrais de âmbito supra-estatal (…) Neste aspecto, desde a época de extrema desintegração feudal até a presente, a engrenagem dos mecanismos de integração prossegue a transformação da sociedade ocidental numa direcção que se mantém constante:” (pp. 720,1)

“A constante ansiedade do pai e da mãe sobre se o filho atingirá o comportamento da sua classe ou até de uma classe superior (…) medos desta espécie rodeiam a criança desde tenra idade mas muito mais na classe média, nos estratos em vias de ascensão, do que nos estratos superiores.” (p. 730)

8/09/2008

PSI 3

HELLER, Eva, A Psicologia das Cores – Como actuam as cores sobre os sentimentos e a razão, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, SL, 2007. (309 pp., ca.31 euros)

“Vestir-se de vermelho que era na Idade Média um privilégio dos nobres (…) enquanto de azul podia ir qualquer pessoa mas não em todos os tons de azul. O azul celeste luminoso era uma cor nobre, era o azul da nobreza.
Da Ásia importavam-se tecidos de seda tingidos com índigo (…) Desde o séc. XIII, os mantos de coroação dos reis franceses eram de um azul brilhante. No séc. XVII, na época de Luís XIV, quando legalizou o índigo, o azul era a cor na moda da corte. (…)
A lã e o linho coloridos, quando se tingiam com blasto, ganhavam uma cor azul turva, suja. Era a cor das classes baixas, que também usavam as criadas e os servos – algo muito prático, pois o azul é a cor em que menos se nota a sujidade.
Com o índigo veio também um novo material para as roupas toscas: o algodão. (…) os tecidos de algodão podiam-se estampar muito bem em azul. (…) Estes estampados ainda são apreciados para os trajes regionais. É que o azul sempre foi uma cor quotidiana. (…) A indumentária laboral acabou por se tingir de índigo no mundo inteiro (…) Na América e em Inglaterra chama-se aos operários blue-collar workers” (…)
Os desfiles das casas de alta-costura já não servem para vender os modelos exibidos mas sim a imagem de empresas que depois venderão produtos de massa, desde perfumes a porcelanas. (…)
Por volta de 1970 todos os tecidos se podiam tingir com tinta tão duradoura como nunca tinha acontecido: a roupa era mais barata que nunca (…) Iniciara-se a era do consumo. Os críticos da cultura falavam do “terror do consumo” e da “sociedade do esfarrapado”.
Nesta altura originou-se o movimento dos que rejeitavam o consumo, cujo símbolo eram as calças de ganga gasta” (pp. 42,4)

“Por que a Europa é azul? (…) O azul era a cor que se podia encontrar em todas as religiões mas em nenhum partido. Era a cor ideal da paz.” (p.48)

“Os antropólogos Brent Berlin e Paul Kay verificaram numa investigação sobre os nomes das cores, em 98 idiomas, que em muitas línguas simples não havia nenhuma palavra para a cor azul que se considera como um matiz do verde. Em todas as línguas aparecem primeiro as palavras para branco e preto, derivadas das utilizadas para o claro e o escuro, o dia e a noite. Depois vem a vez para o vermelho. E em seguida as palavras para o verde e o amarelo, pois o verde e o amarelo estão presentes na comida. Só em último lugar se formaram palavras independentes para o azul e para as outras cores (…) Também não temos uma palavra independente para todas as cores: “alaranjado” ou cor de laranja refere-se à cor da fruta” (p.49)

“O branco é a cor dos deuses: o deus Zeus aparece à Europa como um touro branco (…) o Espírito Santo apresenta-se como uma pomba branca (…) Não é por acaso que a residência do presidente dos Estados Unidos seja a Casa Branca” (p.157)

8/08/2008

POEMA 8

kriu agradece a Hugo Cristovão o envio deste poema de Gabriel Celaya (Cantos Iberos, Alicante, Verbo, 1955)

Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmando,
como un pulso que golpea las tinieblas,

cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.

Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.

Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque a penas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas.
Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.

Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica, qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.

Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.

Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra, son actos.

8/06/2008

ARTE 9


ARNHEIM,Rudolph, O Poder do Centro, Lisboa, ed. 70, s.d.

“Ao observar as realizações das artes ao longo dos tempos como uma tentativa colectiva da humanidade por explorar os modos incessantemente variáveis de dar forma a uma coisa – a Arte – convenci-me cada vez mais de que a composição, em qualquer estilo ou meio, deriva da intersecção de dois princípios visuais a que agora chamo os sistemas centricos e excêntricos” (p.12)

“Psicologicamente, a tendência centrica representa a atitude autocentrica que caracteriza a perspectiva e a motivação humanas (…) A criança vê-se a si própria como cento do mundo. (…) Muito cedo, contudo, o indivíduo ou grupo centrado em si próprio é compelido a reconhecer que o seu próprio centro é apenas um centro entre outros (…) Esta visão do mundo mais realista, complementa a tendencia centrica com a excêntrica (…) A tensão entre as duas tendências antagónicas tentando encontrar o equilíbrio, constitui o verdadeiro condimento da experiência humana e qualquer manifestação estética que não consiga responder a esse desafio parecer-nos-à deficiente. (pp.18,19)

“A moldura é a base em que está assente a composição de uma pintura. (…) a estrutura vazia estabelece o seu próprio centro simplesmente através da interacção dinâmica dos seus quatro lados (…) Este centro de estrutura é também o centro da composição, no sentido em que todos os pesos das formas e cores organizados pelo pintor se equilibram à volta do meio. Terá necessariamente de ser assim? Será o artista compelido a equilibrar a sua composição ou é livre de não o fazer? A resposta é, creio eu, que o equilíbrio é necessário para fazer que a afirmação do artista seja definitiva. Se a composição estiver desequilibrada, surgirá como um movimento interrompido, uma acção paralisada no seu trajecto em direcção ao estado de repouso. De forma semelhante ao que os músicos chamam a meia cadencia, tal estado intermédio fará o observador sentir que a solução necessária está ali próxima mas não foi verdadeiramente alcançada. Assim, se o artista desejar que o seu trabalho transmita preferencialmente a sua própria mensagem, em vez de estimular simplesmente o observador a encetar aquela actividade própria, a composição terá de ser equilibrada".

GESTÃO 12

DRUCKER, Peter F., O essencial de Drucker Uma selecção das melhores teorias do pai da Gestão, Lisboa, Actual Editorial, 2008.

“A sociedade de conhecimento tornar-se-á inevitavelmente muito mais competitiva do que qualquer outra sociedade pela simples razão de que, com o conhecimento acessível a todos, não existem desculpas para um fraco desempenho. Não existirão países “pobres”. Só existirão países ignorantes.
(…) “Os trabalhadores do conhecimento vão, por definição, ser especializados. O conhecimento aplicado só é eficaz quando é especializado. De facto, quanto mais especializado for, mais eficaz é.
Igualmente importante é a segunda implicação do facto de os trabalhadores do conhecimento serem, por necessidade, especialistas: a necessidade de trabalharem como elementos de uma organização. Só a organização pode proporcionar a continuidade básica que os trabalhadores do conhecimento necessitam para serem eficazes. Só a organização pode converter o conhecimento especializado do trabalhador do conhecimento num desempenho (…) A sociedade do conhecimento é uma sociedade de colaboradores."(pp. 333,4)

“Apenas no final do sec. XIX é que a fábrica, e não o proprietário, passou a ser o empregador. E só no séc. XX é que a empresa, e não a fábrica, se tornou o empregador. Só neste século é que o “amo” foi substituído pelo chefe que, ele próprio, 99 em cada cem vezes, é um colaborador que tem um chefe.” (p. 336)

8/04/2008

TESTEMUNHOS 6

SILVA, Vaz Salvador, Catedral. Primebooks, s.d.
[V.S.S, português de Lisboa, ao saber-se com um cancro múltiplo abriu um blog onde foi conversando sobre a sua experiência que, em príncipio, seria terminal… N. de Kriu]

“Foi nos seis meses que tinha pela frente que derrotei a doença, não cedendo às adversidades que representavam os inúmeros efeitos secundários ds tratamentos nem à radical alteração da minha vida diária. Estive praticamente cego, tornei-me diabético agudo devido às doses brutais de corticóides que tinha de tomar para o cérebro, estive à beira do coma, dias houve em que outras pessoas tiveram que me caarregar em ombros e amparar porque eu não tinha força para me levantar. Fui impedido de conduzir carro e moto, perdendo assim a autonomia a que estava habituado. Apesar de tudo isto, não fiquei voluntariamente na cama um único dia.
Venci a doença com todos os tratamentos sempre referidos e com centenas de Amgios a darem-me força todos os dias sem excepção, como est+a bem espelhado neste livro. Fiquei verdadeiramente impressionado com a enorme bondade e dedicação das pessoas com quem me relacionei estes meses passados, e essa realidade alterou completamente a percepção anterior que eu tinha da vida.
Ajudar desinteressadamente quem precisa de ajuda, levando junto de pessoas dedicação, atenção, força, fé e esperança é uma forma sublime de realização pessoal e de sermos úteis ao longo da vida, fazendo de nós parte do todo para contribuir para o avanço do mundo no sentido certo” (p.238)




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