9/05/2008

ALTERNATIVA 9 RESERVA NATURAL DA SERRA DE CAPIVARA - BRASIL

Dentro e fora do Brasil, o nome da arqueóloga Niède Guidon está associado à teoria de que o homem ocupou o continente americano há 50 mil anos, e não há 15 mil, como acredita a maioria dos cientistas. Mas no Piauí, na região do Parque Nacional da Capivara, onde ela encontrou os vestígios pré-históricos que levaram à formulação da hipótese, ela é muito mais que isso. Chegou como pesquisadora, mas teve que virar guardiã dos sítios arqueológicos para evitar que fossem destruídos pelo que o homem moderno chama de desenvolvimento. Trinta anos depois, apesar da criação dos parques da Capivara e da Serra das Confusões e da Fundação Museu do Homem Americano, Niède ainda não tem condições de ser apenas pesquisadora. Entre uma escavação e outra, tem que expulsar caçadores do parque, proteger as pinturas da depredação de invasores e convencer o governo de que ali não é lugar para assentar sem-terra. No momento, o Incra deseja assentar mil famílias na corredor ecológico que liga os dois parques. Se isso acontecer, ela alerta: acabarão com as pinturas e com a fauna e flora existentes na região. Crime que já estaria consumado se não fosse a presença da arqueóloga no Piauí. Em reconhecimento à sua batalha, Niède Guidon ganhou no dia 2 de março o Prêmio Faz Diferença, entregue pelo jornal O Globo a pessoas que não brincam em serviço. O Eco aproveitou a rara presença dela no Rio de Janeiro e a convidou, junto com a arqueóloga e braço direito Anne-Marie Pessis, para um bate-papo.
Como está a situação?
Niède: Estamos com todo o lado leste do parque ocupado e estão programando fazer o mesmo com o norte, o oeste e entre os dois parques (Serra da Capivara e Serra das Confusões), na zona que devia ser o corredor ecológico. Porque quando chega a seca na Serra da Capivara nós ficamos sem água. Antigamente, os mamíferos grandes migravam nesta época para a Serra das Confusões através do corredor, mas agora não podem mais. O parque da Serra da Capivara virou uma ilha cercada de gente. Nós estamos tendo que botar água e comida para os animais. Daqui a pouco vai ter um problema genético.
Houve alteração de comportamento?
Niède: Nós espalhamos a comida pelo parque para não concentrá-la em um único lugar. Colocamos milho, mandioca, e banana para os macacos. Esses sim, como são muito parecidos com a gente, ficaram mal acostumados.
São macacos-pregos?
Niède: Tem os pregos, tem aqueles pequeninos,os guaribas, mas dos guaribas nós temos pouco. Agora os pregos são terríveis. Eles já sabem que os carros do parque vêm para trazer comida e se alguém vai para outra região levar comida eles ficam bravos.
Quando começou a ocupação?
Niède: A região foi invadida há cerca de 20 anos e tudo começou quando quiseram abrir uma estrada asfaltada. O pessoal que veio trabalhar na obra ficou por ali. Construíram casas e depois foram abertos vários poços para fornecer água para a cidade. No alto da Serra é um lugar mais fresco do que a cidade, o que aconteceu? Políticos e comerciantes ricos simplesmente chegaram lá e construíram suas casas nos terrenos do governo estadual. Casas com piscina e churrasqueira. Aí vieram os agregados, as pessoas que trabalham para eles.
Quais foram as conseqüências?
Niède: A caça é um exemplo. Quando eles dizem que os pobres caçam para comer não é verdade. Os homens estão caçando para vender para os ricos. Você vende um tatu por 30 reais e com o dinheiro consegue comprar muitos quilos de carne, que é bem melhor do que comer um tatu. Esses caseiros caçam porque no fim de semana a família chega para ficar lá na beira da piscina comendo tatu assado. Eu avisei ao Ibama, mas eles alegaram que para entrar nas casas é necessária uma ordem judicial. Eu chego, dou cem reais para o caseiro deixar eu entrar, abro o congelador e está cheio de tatu.
Mas e os sem-terra?
Niède: Eles inventaram esta história que ali tem mil famílias para assentar. O que sei é que não tem. No máximo tem duzentas. Eles querem assentar os pobres para eles, os ricos que invadiram a área, ganharem o título de propriedade das terras e regularizar a situação. Eu acho esquisito um governo de esquerda regularizar isso. Porque eu que compro e pago o cartório para ter um título de propriedade, e pago os impostos todo ano, estou me sentindo uma cretina. Quem invadiu e nunca pagou imposto agora vai ter tudo. Acho que tinham que exigir pelo menos o retorno social, que pagassem os caseiros um salário mínimo e não deixassem caçar e nem andar armados.
Quantas casas dessas invasões de rico você acha que tem ali?
Niède: Deve ter umas 30 mais ou menos, entre 30 a 40. Agora cada uma não é apenas uma casa, é uma casa com agregados.
Anne-Marie: E dados mostram que essas invasões, e os desmatamentos e queimadas provocados por elas, levaram muitas fontes de água a secar. O Rio Piauí não corre mais. Tudo que é sujeira e lixo eles jogam dentro do rio e das lagoas, aterram e depois fazem as casas em cima. A calha do Piauí esta tomada por casas monumentais de prefeitos e de políticos que constroem dentro do rio. O Ibama um dia foi lá porque eles aterraram parte do leito para construir uma casa de show para 15 mil pessoas.
E tem 15 mil pessoas para assistir a um show?
Niède: Essa é outra questão de todo este problema social do Nordeste. Tenho amigos franceses que vão lá e ficam impressionados. Numa cidade pequena do interior da França você não vê pessoas à noite, durante a semana, nos bares. Eles estão sempre cheios e tem mesinhas na rua pro pessoal ficar bebendo até tarde. Cada um que chega abre o carro equipado com poderosos alto-falantes e liga o rádio no máximo. Um barulho infernal. E as pessoas ficam ali até tarde e no dia seguinte ninguém vai trabalhar.
Agora, de onde eles tiram dinheiro para isso?É a população local rural?
Niède: A população rural praticamente não existe mais, porque ninguém mais quer ficar na zona rural. Os jovens todos querem vir para a cidade. Há oito anos, o Incra assentou 200 famílias na região e deu 15 mil reais para cada uma construir uma casa. A associação dos moradores fechou um contrato com uma empresa de Petrolina que construiu umas casas horrorosas, que não chegam a ter 30 metros quadrados, por 3500 reais e cada família embolsou a diferença. Com o dinheiro elas compraram casas na cidade, carros e motocicletas. Hoje em dia só existem umas 20 famílias que vivem ali. Elas vendem a madeira e pegam o dinheiro da agricultura familiar que elas recebem todo ano para comprar sementes e adubo e não compram nada. Ficam com aquele dinheiro e não plantam nada.
Quantas pessoas existem ali?
Niède: Deve haver mais de cem mil no entorno do parque. O problema é que, com a crise no sul, muitas pessoas que tinham ido para São Paulo e Brasília voltaram para lá e levaram junto costumes da bandidagem, como assalto. A região também virou rota de tráfico de droga.
Qual tipo de economia daria certo ali?
Niède: Daqui a 10 anos só vai ter deserto, não vai ter nada e o pessoal vai continuar pobre do mesmo jeito. Se o Incra tem tanto dinheiro assim, por que não instala estufas e começa a incentivar o cultivo de plantas ornamentais? Porque a imbecilidade chega a tal ponto que as floriculturas de Teresina vendem cactos bonitinhos, tudo comprado na Holambra de São Paulo. Os cactos vão para lá de avião. O mercado internacional de plantas ornamentais é imenso, na França eles pagam mais de mil euros por um cactos. Mas você fala isso pro pessoal e eles te perguntam: “Mas doutora, quem vai comprar esta porcaria cheia de espinhos?” Por que não fazem para os mais jovens cursos para guias turísticos, cursos para guarda-parques? Ao invés de dar 15 mil reais e todo ano dar o dinheiro da agricultura familiar, por que não dá logo um emprego? Cria emprego para esse pessoal. A Serra das Confusões só tem um funcionário e estão acabando com o tamanduá-bandeira e com os tatus canastra da região. Dentro do parque nacional da Serra da Capivara nós temos hoje uns quatro tamanduás-bandeira e quando eu cheguei lá você cruzava com um a cada 10 minutos.
Quando você chegou na região?
Niède: A primeira vez que estive lá foi em 1970, mas a pesquisa mesmo começou com uma missão oficial em 73, e em 78 nós fizemos uma missão de 6 meses com o pessoal da geologia, da botânica e da ecologia.
Como era a região?
Niède: Quando eu cheguei lá era tudo floresta. A caatinga veio depois.Você tinha caatinga arbórea no planalto. Na planície era tudo floresta pau d´arco e aroeira. O rio Piauí corria, a cidade de São Raimundo tinha uns 10 lagos cheios de garça e pássaros. Eu tenho foto de tudo isso. Nós preparamos toda a documentação e fizemos um levantamento, inclusive fundiário do pessoal que estava na região. Na Serra da Capivara só tinha um pequeno povoado com cerca de cento e poucas famílias. Eles iam lá fazer roça, não moravam ali. Na Serra das Confusões não tinha ninguém. Era completamente vazio, era tudo mata atlântica.
Já havia um processo de degradação?
Niède: Na planície, porque tinha rio e lagoas. Lá no alto, no planalto, onde está a maioria das pinturas rupestres, eles nem tinham entrado ainda. Eles ocuparam aquela região depois da década de 70, com os projetos da Sudene e do Banco do Nordeste. Infelizmente nesses projetos você recebe uma pequena quantia de dinheiro, desmata e aí é que você recebe o grosso do dinheiro.
Conte um pouco sobre a criação do parque.
Niède: Nós fomos para lá com a finalidade de fazer pesquisa. A Serra das Confusões não tinha ninguém. Era tudo vazio, tudo mata atlântica. Enviamos um documento para o governo do estado alertando sobre a importância da região e que seria importante se criar um parque nacional. O governador na época era o Dirceu Arcoverde e lendo o relatório ele descobriu que nas Confusões tinha água, rios, tinha tudo. O que o governo fez? Criou a Serra da Capivara em 1979 e fez doações para políticos e para empresas em direção à Serra das Confusões. Ficou só a Serra da Capivara e a gente começou a trabalhar ali. Pensei que com a criação do parque nacional o problema estava resolvido. Achei que o Ibama da época, o IBDF, ia colocar gente lá, mas passaram-se 3 anos e nada. Não mandaram nenhum funcionário e o pessoal começou a dizer que quem quisesse caçar ou precisasse de madeira era só ir ao parque, porque era do governo, mas ninguém tomava conta. Em 1986 nós criamos a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) para ter uma pessoa jurídica podendo intervir junto a Brasília. Foi daí que começamos a nos ocupar do parque. Mas foi só em 1988, dez anos depois da sua criação, que foi feito o primeiro plano de manejo. A partir de 94 nós passamos a ter uma co-gestão com o Ibama. Mas a história agora é a seguinte: o pessoal do Incra me disse que eles têm mais de 25 milhões para fazer assentamentos na região. Durante o ano de 2004 inteirinho, a chefia do Parque da Serra da Capivara recebeu 40 mil.
Mas qual é a perspectiva?
Niède: Nós conversamos com Brasília e eles estão montando uma comissão interministerial com o ministério do meio ambiente, do desenvolvimento agrário, da agricultura, o Incra e o ministério do turismo. O ministro do turismo inclusive chamou o governador e disse que estava fazendo uma estrada ligando os dois parques para desenvolver o turismo. Em Teresina, um procurador da república e um procurador do meio ambiente mandaram o Incra parar com os assentamentos porque o projeto não foi aprovado pelo Ibama. Houve também uma reunião com o Irphan, porque eles são responsáveis por todos os sítios, e eles também não autorizaram. A questão está parada.
Há diálogo com o Incra?
Niède: O presidente do Incra, que no início tinha saído com uma porção de coisas contra a gente, veio falar comigo que não sabia que a Fundação tinha um projeto social e que tinha gostado muito da idéia das plantas ornamentais. Sugeriu que poderíamos fazer um novo modelo de assentamento e eu disse que, se for assim, nós podemos trabalhar juntos. No corredor ecológico, não é preciso remover ninguém. O problema é que o Incra insiste que a lei mudou e que área de proteção permanente não existe mais porque ela tem que ser definida por um plano de manejo. Como o plano de manejo foi feito em 88, ele expirou e o Ibama nunca mais teve dinheiro para fazer outro.
Você ameaçou retirar as pinturas do parque?
Niède: O ministro da Cultura, Gilberto Gil, convocou um comitê interministerial para decidir se a área seria turística ou uma área de reforma agrária. Eu disse a ele que se for para reforma agrária o pessoal vai destruir tudo. O fogo arrebenta as pinturas rupestres. Como eu vi caçadores brincando de tiro ao alvo com elas, se for realmente para a reforma agrária, eu acho que o melhor que se tem a fazer é tirar as pinturas de lá. O ministério depois decide para aonde levar, eu organizo e o governo tira de lá. Existe tecnologia para isso. Mas aí já disseram que eu estava querendo levar para a França, aquelas coisas. Uma vez a Federação dos Trabalhadores Agrícolas e a Pastoral da Terra organizaram uma passeata com carros de som passando pela cidade dizendo que Deus criou a Terra para os homens, e os animais para os homens comerem. Mas a doutora Niède Guidon não deixa caçar, portanto, ela é contra Deus. Porque Deus fez a Terra para os homens e a doutora Niéde Guidon quer guardar o parque nacional só para os animais. Logo ela é contra Deus. Quem quer guardar o parque nacional sou eu. É como se o parque não fosse uma instituição federal.
Anne-Marie: O que estamos querendo fazer agora, junto ao CNPQ, é um projeto de documentação fotogramétrica dos sitios de pintura rupestre.
Não existe?
Anne-Marie: Não, é caríssimo. Um dos equipamentos custa 30 mil euros. Antes, registrar as pinturas não nos preocupava, mas o fogo começou a estourar tudo. Os assentados queimam pneus embaixo das figuras porque se não tem mais pintura, não tem mais o quê preservar. O problema acaba, ninguém mais vai encomodá-los. O projeto de fotogrametria é fundamental para que este patrimônio exista no futuro.
Niède, você sofre muitas ameaças?
Niède: Não. Agora, por exemplo, nós estamos tentando abrir uma variante do parque nacional que tem sítios importantíssimos. A parede é do parque, mas a terra da frente é particular e uma parte está queimando e vai derrubar todas as pinturas. Fui lá conversar com eles e com alguns entrei em acordo, mas tem aqueles valentes: “Aqui a senhora não entra porque se entrar eu mato”, é um costume deles, porque se matar não acontece nada, o que é um problema. Mas houve muita ameaça no começo por causa da questão do calcário. No calcário temos muitos sítios e eles pegavam o calcário e queimavam. Calcário é mármore negro. Veja a inteligência da exploração comercial, eles pegavam mármore negro, quebravam e queimavam árvores de lei para transformarem aquilo em cal. Pegavam dois produtos nobres para produzir uma porcaria sem valor. As pessoas trabalhavam em regime escravo e nós denunciamos. Um dia um guia nosso veio me avisar que eles tinham se reunido para juntar dinheiro para contratar um pistoleiro do Mato Grosso para me matar. Aí eu fui à casa de quem eu sabia ser o mandante, levei um talão de cheque meu do Citibank de Nova Iorque, junto com o extrato bancário, e disse: vocês estão vendo isso daqui? É um depósito em dólar nos EUA. Se me acontecer alguma coisa eu tenho uns amigos no Rio que com esse dinheiro vão contratar um pessoal de um lugar chamado Rocinha para virem para cá e acabar com você e toda a sua família. Desde o bebezinho até a mulher. Eu não tenho nada a perder, pode me matar. Ele disse: “Não doutora, nós adoramos a senhora”, e a coisa acabou assim.
Você anda armada?
Niède: Todo mundo lá anda armado, mas eu não ando e mando sempre o meu pessoal andar sem arma. Se nós andarmos armados nós vamos ser presos, os outros não. Eu nunca dou chance para eles nos pegarem descumprindo alguma lei. Só teve uma vez que eu ameacei pegar em arma. Depois das eleições presidenciais, me apareceu um fulano dizendo ser o novo superintendente do Ibama, mas que queria deixar claro que não entendia nada de meio ambiente e que tinha sido nomeado por ser amigo do senador Da Silva. Na Serra da Capivara o cargo sempre foi ocupado por técnicos, não por políticos. Então avisei ao superior dele: se você nomear um político para cá eu já vou avisando que vou me armar e esperá-lo lá dentro do parque. Quando ele chegar, eu mato. Vocês podem pegar todos os cargos do Piauí menos os da Serra da Capivara.
Circulam pessoas armadas dentro do parque?
Niède: Em dezembro prendemos caçadores armados com carabina de 12mm, que é uma arma poderosa, e um monte de bicho morto. Eles tinham chumbo para matar elefante. Mas o que é que acontece? O juiz federal liberou. Veio uma sentença da justiça federal dizendo que, por serem pessoas pobres e miseráveis, a posse de arma não é um crime porque o pobre e miserável precisa de uma arma para poder caçar, que é a única maneira que ele tem de alimentar a sua família. Então é melhor acabar com os parques nacionais e transformar tudo em reservas de caça. Não existe o programa Fome Zero, como é que a única maneira do pobre se alimentar é caçar? Você não tem apoio de nenhuma autoridade, nem da justiça federal. Colocamos para Brasília que estamos gastando o dinheiro público inutilmente, porque eu estou pagando cento e tantos guardas, gastando combustível de motocicletas e carros para prender pessoas que imediatamente serão soltas.
O que vocês fazem quando pegam alguém caçando?
Niède: A gente prende, leva o caçador para cidade e o entrega para o Ibama. Eles anotam, o autuam e ele vai embora. Então para eles tanto faz porque são presos e saem na mesma hora. Ano passado, um grupo foi preso e alegou que estava morrendo de fome. Decidimos então fazer uma experiência. Quando alguém era preso tinha duas alternativas: ser autuado em São Raimundo e pela lei não poder ter empréstimo, ou ficar e trabalhar na conservação das estradas do parque. Se trabalhasse bem, era contratado. Consultei um amigo advogado sobre a legalidade do projeto e ele deu parecer favorável, só sugeriu que eu pagasse um salário mínimo.
E todos aceitaram?
Niède: Ninguém quis ir pra cidade preso. Preferiram ficar e começaram a trabalhar recebendo três refeições por dia. Eu já tinha mais de 20 e poucos contratados quando apareceram mais três caçadores interessados. Na segunda-feira de manhã veio a esposa de um deles, era uma mulata grande e bonita: “A senhora prendeu o meu marido". ”Eu não prendi , foi ele quem escolheu ir trabalhar". “Mas ele não pode, ele tem que voltar porque ele tem um emprego e se não for trabalhar hoje vai ser demitido”. Eu perguntei: "O seu marido tem um emprego e estava aqui caçando?“. E ela: "Ele mora em Petrolina, veio passar o fim de semana comigo, mas aí os outros convidaram e ele foi junto”. Eu olhei para ela e disse: "Minha senhora, o seu marido vem passar o fim de semana com uma mulher linda assim e vai para o mato com os homens pra caçar?". Ela saiu de lá bravíssima e foi falar com o promotor da cidade. Ele desconsiderou o fato de nós sermos uma instituição vinculada ao governo federal e ao Ibama, pegou aquela mulher e mandou a polícia ir imediatamente ao Parque Nacional. Chegando lá, me acusaram de manter pessoas em cárcere privado e em condições subumanas. Não tinha ninguém armado, quem quisesse era só ir embora. Me chateei de tal forma que dispensei todo mundo, acabei com o programa. Azar, ninguém mais ia ter emprego. Ainda estou sendo processada pela crueldade de ter feito eles voltarem a pé para casa à noite, com o perigo de serem atacados por animais ferozes. Quando é para caçar não tem problema.
Quantos processos você já tem?
Niède: Estou com quatro de quatro caçadores que estavam neste grupo, e sabe por quê? Era gente rica. A moça era filha de um comerciante e ela dizia que o marido tinha de estar pronto para a posse do novo prefeito porque ele seria nomeado para um cargo importantíssimo. Avisei ao prefeito que se ele o nomeasse eu entraria com um processo contra ele. Acabou não nomeando.
Como é a mão-de-obra de vocês?
Niède: Nós formamos todos os nossos técnicos. Nosso topógrafo não sabia ler nem escrever e hoje ele trabalha com computadores. A pessoa que cuida das pinturas rupestres se formou em química em São Paulo, fez arqueologia conosco e depois a enviamos para Paris, onde ficou quase 5 anos trabalhando nos laboratórios dos museus da França. Agora, ela é professora em Teresina e forma o nosso pessoal técnico. Com ajuda do Bird, nós desenvolvemos atividades economicamente rentáveis, como a apicultura racional numa região onde não existia. Criamos um centro de tratamento do mel, distribuímos 5 mil colméias, formamos cooperativas e hoje o Piauí é o maior exportador de mel de todo o Nordeste. Depois nós construímos uma oficina de cerâmica, porque a região era tão pobre que não tinha nem artesanato. Os produtos são exportados para o Brasil inteiro. Mensalmente, nós jogamos na cidade cerca de 150 a 200 mil reais. Isso para a economia local é muita coisa. A Fundação levou muita coisa para lá. A universidade é um exemplo. Todos os pesquisadores alugam carros e gastam dinheiro na cidade. Vão fazer pesquisa e ficam por lá.
Vocês inventaram um artesanato em um local que não tinha tradição?
Niède: Os adolescentes fazem os desenhos das pinturas rupestres e vendem, fazem ímãs de geladeira. Os jovens não têm mais a cultura da caatinga, não conhecem nada, e o pior é que o ensino oferecido a eles é muito ruim.Vocês conseguiram criar uma universidade lá?
Anne-Marie: A faculdade de arqueologia está funcionando no prédio da Fundação e agora eles vão construir em 2005 um campus, que também vai criar mais trabalho na região. A questão é, se pelo menos houvesse uma continuidade de trabalho com o governo. Cada vez que muda o governo mudam-se os técnicos, deveriam mudar os governos, mas não a atividade técnica.
Niède: Nós trabalhamos com o CNPq há mais de 30 anos e antigamente você chegava lá e as pessoas sabiam quem você era, perguntavam pelo projeto. Outro dia cheguei lá e não sabiam quem eu era, falei meu nome, Niède Guidon, e disseram Dona Neide. Agora morri, pensei. Virei Dona Neide.
Se houver uma política de assentamento, o programa de vocês acaba?
Niède: Exatamente, tudo o que foi feito. Dentro do parque nacional temos um investimento de cerca de 20 milhões dólares. Hoje é o melhor parque de pinturas rupestres da América.
E a idéia de tirar as pinturas de lá é pra valer?
Niède: Se a governo federal realmente decidir fazer um assentamento lá, tem que tirar tudo. Porque aquilo acaba em alguns meses. Inclusive a fauna. Outro dia nós pegamos um caçador com 23 tatus. Dezenove eram fêmeas e todas estavam prenhas. Aqui vale tudo, podem matar tudo. Se vier um juiz federal me dizer que pobre para comer tem que caçar, vou perguntar a ele se nós voltamos para o paleolítico.

9/02/2008

FACTA 11 - LANÇAMENTO DE "PAULEMA" NO BRASIL


Teresina
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Arte e Cultura
23/08/2008 - 14:52 - Leilane Nunes Festluso
Escritor português faz crossbooking de livro inédito em Teresina
O escritor português Carlos Gouveia e Melo vem à Teresina junto com o Grupo de Teatro Extremo participar do Festival de Teatro Lusófono e traz na bagagem um presente aos piauienses. Sua mais recente obra, Paulema, será passada de mão em mão. O crossbooking será organizado pelo escritor, em parceria com o Portal AZ. Paulema, segundo o próprio autor, trata da
vida de dois adolescentes, o Paulo e a Ema, que fogem ao Fascismo. O livro é de leitura fácil, mais apta aos iniciados na literatura, que “lê-se ou devora-se sem qualquer dificuldade”. O lançamento oficial só acontecerá dia 03 de outubro, no Museu da Resistência, em Lisboa. “O crossbookning será o primeiro ritual do livro junto ao público”, confessa Carlos. Gouveia e Melo mora em Lisboa e está concluindo doutorado em Estudos Artísticos na especialidade de Estudos Teatrais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou, em 1998, A Escada; e A Santa Mãezinha, em 2003. É premiado em diversas áreas como pintura, encenação (duas vezes), escrita para teatro, performance e literatura (prêmio Revelação em Ficção da Associação Portuguesa de Escritores/Instituto Português de Livro e das Bibliotecas). O Festival de Teatro Lusófono acontece de 24 a 30 deste mês. A abertura acontece às 19h, com a exposição fotográfica “Luz, câmera, encenação”, na galeria do Clube dos Diários. Às 21h tem o espetáculo “Cabaré da RRRRRaça”, com o Bando de Teatro Olodum, de Salvador (BA).
Portal AZ - Informação de verdade - O portal de
Notícias do Piauí

8/27/2008

ARTE 10

BENJAMIM, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio d’ Água, 1992
“Aquilo que nos leva a fixar a história na memória é sobretudo a sua sóbria concisão que dispensa uma analise psicológica. E quanto mais naturalmente o narrador recuncia à vertente psicológica, tanto mais facilmente a narrativa se gravará na memória do ouvinte, tanto mais perfeitamente se integrará na sua experiência, e o ouvinte desejará recontá-la mais cedo ou mais tarde. Este processo de assimilação que se dá a um nível profundo do indivíduo precisa de um estado de descontracção que é cada vez mais raro. O tédio é o pássaro do sonho que choca os ovos da experiência. O simples sussurrar das folhagens afugenta-o. Os seus ninhos – as actividades intimamente ligadas ao tédio – já desapareceram das cidades e estão em vias de extinção no campo. Assim se perde o dom de ouvir, assim desapareceram as comunidades de ouvintes.” (pp.36,7)

8/19/2008

POEMA 10 "A ALEGRIA" de FERREIRA GULLAR, poeta do Estado de Piauí, Brasil

O sofrimento não tem

nenhum valor

Não acende um halo

em volta de tua cabeça, não

ilumina trecho algum

de tua carne escura

(nem mesmo o que iluminaria

a lembrança ou a ilusão

de uma alegria).

Sofres tu, sofre

um cachorro ferido, um inseto

que o inseticida envenena.

Será maior a tua dor

que a daquele gato que viste

a espinha quebrada a pau

arrastando-se a berrar pela sarjeta

sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral, a injustiça

não. A dor

te iguala a ratos e baratas

que também de dentro dos esgotos

espiam o sol

e no seu corpo nojento

de entre fezes

querem estar contentes.

http://portalliteral.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/poema_brasileiro.shtml?porelemesmo

8/18/2008

FACTA 12 FESTIVAL DE TEATRO LUSO, EM TERESINA, BRASIL, COM O TEATRO EXTREMO, AGOSTO 2008






Parto para Teresina, no Estado do Piaui, Brasil, a 22 deste mês, para interpretar o papel de Avô-Lobo, na peça “Pedro e o Lobo”, encenação de Fernando Jorge.
A peça exibe-se no Festival de Teatro Lusófono, organizado pelo Grupo Harém, daquela cidade brasileira.
A peça baseia-se numa fábula de Esopo. Nesta um pastor engana os outros gritando "Vem ai o Lobo! E quando o lobo lhe aparece mesmo, bem pode gritar que ninguém o acredita…
Música ao vivo de Tiago Pereira, membro do grupo "Roncos do Diabo", desenhos ao vivo de João Queiroz e no papel de Pedro, nesta digressão, João Vasco.
Estreada no Natal de 2007 "Pedro e o Lobo", peça para todos, já foi vista por cerca de oito mil pessoas.

POEMA 9 - Eugénio de Andrade

Abrir as mãos. Como se o vento fora a
maravilha. Acariaciar-lhe a crina, a lentíssima
garganta. Deixá-lo partir, jovem ainda com
as primeiras chuvas.

www.astormentas.com/andrade.htm

8/17/2008

FILOSOFIA 5

NIETZSCHE, Friederich, O Anticristo, Lisboa, ed. 70, 2006 (Ca. 108 pp. e 9.5 euros)
“O pressuposto do Budismo é um clima muito suave, uma grande gentileza e liberalidade de costumes, nenhum militarismo; e que seja nas castas superiores e até sábias que o movimento tenha o seu foco. Quer-se como fim supremo a serenidade, o silêncio, a ausência de desejo; e atinge-se o seu objectivo. O Budismo não é uma religião em que simplesmente se aspira à perfeição: a perfeição é o caso normal.
No Cristianismo, realçam-se os instintos dos servos e dos oprimidos: são as castas mais baixas que nele procuram a sua salvação. Exercita-se aqui como ocupação, como remédio contra o tédio, a casuística do pecado, a autocrítica, o exame de consciência; aqui se mantém invariável (pela oração) a emoção perante um poderoso chamado “Deus”: o mais elevado é aqui considerado como inacessível, dom, “graça”. Falta aqui também a publicidade: o esconderijo, o lugar obscuro é cristão. Aqui se despreza o corpo e se rejeita a higiene como sensualidade; a Igreja defende até da limpeza (a primeira medida dos cristãos, após a expulsão dos mouros, foi o encerramento dos banhos públicos, dos quais existiam, só em Córdoba, duzentos e setenta).
Cristão é um certo sentido de crueldade para consigo e para com os outros, o ódio aos que pensam doutro modo; a vontade de perseguir. (…) Cristão é o ódio de morte contra os senhores da terra, contra os “nobres” (…) Cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a libertinagem do espírito; cristão é o ódio contra os sentidos, contra a alegria dos sentidos, contra a alegria em geral.” (p. 35)

“Por outro lado, a violação selvagem destes almas inteiramente extraviadas [os apóstolos e acompanhantes de Cristo em sua vida – N. de Kriu] não suportou já a igualdade evangélica de todos quanto à filiação divina, que Jesus ensinara, a sua vingança consistiu em elevar Jesus de um modo extravagante, em separá-lo de si (…) O Deus único e o seu único Filho: ambos são criações de ressentiment” (p.62)

“Para que serviram os gregos? Para quê os Romanos? (…) O que hoje com indizível autodomínio – com efeito temos todos ainda de algum modo no corpo os maus instintos, os instintos cristãos – reconquistámos, o olhar livre perante a realidade, a mão circunspecta, a paciência e a seriedade no que há de mais pequeno, a total probidade do conhecimento – tudo isso já lá estava! Há mais de dois milénios! E mais ainda, o tacto e o gosto bom e apurado! (pp. 96,7)

8/15/2008

ALTERNATIVO 9

EISLER, Riane, O Cálice e a Espada. Porto, Via Óptima, 2003, 2ª ed. (Ca. 265 pp e 15.50 euros)

« Os dois tipos humanos básicos são o masculino e o feminino. A forma como se encontra estruturado o relacionamento entre mulheres e homens é pois um modelo básico para as relações humanas. Consequentemente, todas as crianças nascidas em famílias tradicionais dominadas pelo homem interiorizam, a partir do nascimento, um modo dominador-dominado de relacionamento com os outros seres humanos. » (p. 156)

« até agora a ciência excluiu em geral as mulheres como cientistas centrando o seu estudo quase inteiramente nos homens. Excluiu igualmente aquilo que podemos chamar de « conhecimento solidário » : o conhecimento de que, como escreve Salk, precisamos hoje urgentemente de seleccionar formas humanas que se achem « em cooperação com a evolução, em vez daquelas que são anti-sobrevivência ou anti-evolucionárias ». (…) A questão directamente pertinente quanto à nossa capacidade de transformar o nosso mundo da quesília para a coexistencia pacífica consiste em como tornar o conflito produtivo em vez de destrutivo. (…)
Como disse Gandhi, o objectivo é transformar o conflito em vez de o suprimir ou fazer explodir em violência » (pp.178, 9)

« Miller assinala como, psicologicamente, a putativa necessidade de controlar e dominar os outros é função, não de uma sensação de poder, mas antes de impotência. Distinguindo entre « poder para o próprio e poder para os outros » ela escreve : (…) Num sentido básico quanto maior for o desenvolvimento de cada indivíduo, tanto mais capaz e eficaz será ele ou ela, e tanto menos necessidade sentirá de limitar ou restringir os outros » (p. 179)

« A transformação de uma sociedade dominadora numa sociedade de parceria acarretaria obviamente uma mudança na nossa orientação tecnológica (…) Ao mesmo tempo o desperdício e consumo exagerado que agora priva os necessitados começaria também a extinguir-se. Pois, como observaram muitos comentadores sociais, no núcleo do nosso complexo ocidental de consumo exagerado e desperdício encontra-se o facto de estarmos culturalmente obcecados com a posse, a construção – e o desperdício – de coisas, como um substituto para as relações emocionalmente satisfatórias que nos são negadas pelos estilos de educação infantil e valores adultos do sistema presente » (p. 182)

«existe uma consciência emergente de que as designadas esferas pública e privada se encontram inextricavelmente ligadas. Numa palavra, pessoas de todo o mundo estão a tomar consciência de que não poderá haver mudança sustentável sem mudanças nas relações fundacionais entre homens e mulheres e pais e filhos. » (p. 194)

8/13/2008

HISTÓRIA 3

ELIAS, Norbert, O Processo Civilizacional, Lisboa, Dom Quixote, 2006, 2ª edição (ca. 780 pp. e 33 euros)

“Se tivermos uma visão de conjunto de todos estes movimentos passados, o que vemos é uma transformação numa direcção muito definida (…) As transformações pretéritas do tecido social só adquirem contornos nítidos quando as vemos em conjunto com os acontecimentos do nosso próprio tempo (…) a observação dos acontecimentos mais actuais ilumina a compreensão dos passados e o aprofundamento do passado ilumina o presente. (…) De novo se verifica uma situação em que muitas unidades de soberania rivais estão tão interligadas que aquela que se mantém estacionária, que não aumenta a sua força, corre o risco de enfraquecer e se tornar dependente de outro Estados. (…) Está em pleno curso a luta pela hegemonia (…) pela formação de monopólios territoriais de uma ordem de grandeza ainda superior (…) num sistema que abrange toda a terra habitada.” (pp. 717 a 719)

“Tal como outrora, nos lutas seculares entre domínios territoriais, assim também hoje é impossível predizer quanto tempo decorrerá até que essa luta [entre Estados – N. de Kriu] seja finalmente decidida. E tal como os membros das unidades sociais que, lutando, lentamente deram origem a Estados, assim também nós não temos, por enquanto, senão uma vaga noção de como poderão ser a estrutura, a organização e a instituições das unidades de soberania maiores que as acções de hoje tendem a formar. Quer os actores o saibam ou não. Só uma coisa é certa: a direcção em que impele o tipo de interdependência da nossa época. (…) as tensões competitivas entre os Estados não podem ser resolvidas enquanto não se tiverem estabilizado, através de uma série de provas de força, sangrentas ou não, monopólios de violência e organizações centrais de âmbito supra-estatal (…) Neste aspecto, desde a época de extrema desintegração feudal até a presente, a engrenagem dos mecanismos de integração prossegue a transformação da sociedade ocidental numa direcção que se mantém constante:” (pp. 720,1)

“A constante ansiedade do pai e da mãe sobre se o filho atingirá o comportamento da sua classe ou até de uma classe superior (…) medos desta espécie rodeiam a criança desde tenra idade mas muito mais na classe média, nos estratos em vias de ascensão, do que nos estratos superiores.” (p. 730)

8/09/2008

PSI 3

HELLER, Eva, A Psicologia das Cores – Como actuam as cores sobre os sentimentos e a razão, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, SL, 2007. (309 pp., ca.31 euros)

“Vestir-se de vermelho que era na Idade Média um privilégio dos nobres (…) enquanto de azul podia ir qualquer pessoa mas não em todos os tons de azul. O azul celeste luminoso era uma cor nobre, era o azul da nobreza.
Da Ásia importavam-se tecidos de seda tingidos com índigo (…) Desde o séc. XIII, os mantos de coroação dos reis franceses eram de um azul brilhante. No séc. XVII, na época de Luís XIV, quando legalizou o índigo, o azul era a cor na moda da corte. (…)
A lã e o linho coloridos, quando se tingiam com blasto, ganhavam uma cor azul turva, suja. Era a cor das classes baixas, que também usavam as criadas e os servos – algo muito prático, pois o azul é a cor em que menos se nota a sujidade.
Com o índigo veio também um novo material para as roupas toscas: o algodão. (…) os tecidos de algodão podiam-se estampar muito bem em azul. (…) Estes estampados ainda são apreciados para os trajes regionais. É que o azul sempre foi uma cor quotidiana. (…) A indumentária laboral acabou por se tingir de índigo no mundo inteiro (…) Na América e em Inglaterra chama-se aos operários blue-collar workers” (…)
Os desfiles das casas de alta-costura já não servem para vender os modelos exibidos mas sim a imagem de empresas que depois venderão produtos de massa, desde perfumes a porcelanas. (…)
Por volta de 1970 todos os tecidos se podiam tingir com tinta tão duradoura como nunca tinha acontecido: a roupa era mais barata que nunca (…) Iniciara-se a era do consumo. Os críticos da cultura falavam do “terror do consumo” e da “sociedade do esfarrapado”.
Nesta altura originou-se o movimento dos que rejeitavam o consumo, cujo símbolo eram as calças de ganga gasta” (pp. 42,4)

“Por que a Europa é azul? (…) O azul era a cor que se podia encontrar em todas as religiões mas em nenhum partido. Era a cor ideal da paz.” (p.48)

“Os antropólogos Brent Berlin e Paul Kay verificaram numa investigação sobre os nomes das cores, em 98 idiomas, que em muitas línguas simples não havia nenhuma palavra para a cor azul que se considera como um matiz do verde. Em todas as línguas aparecem primeiro as palavras para branco e preto, derivadas das utilizadas para o claro e o escuro, o dia e a noite. Depois vem a vez para o vermelho. E em seguida as palavras para o verde e o amarelo, pois o verde e o amarelo estão presentes na comida. Só em último lugar se formaram palavras independentes para o azul e para as outras cores (…) Também não temos uma palavra independente para todas as cores: “alaranjado” ou cor de laranja refere-se à cor da fruta” (p.49)

“O branco é a cor dos deuses: o deus Zeus aparece à Europa como um touro branco (…) o Espírito Santo apresenta-se como uma pomba branca (…) Não é por acaso que a residência do presidente dos Estados Unidos seja a Casa Branca” (p.157)

8/08/2008

POEMA 8

kriu agradece a Hugo Cristovão o envio deste poema de Gabriel Celaya (Cantos Iberos, Alicante, Verbo, 1955)

Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmando,
como un pulso que golpea las tinieblas,

cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.

Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.

Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque a penas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas.
Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.

Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica, qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.

Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.

Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra, son actos.

8/06/2008

ARTE 9


ARNHEIM,Rudolph, O Poder do Centro, Lisboa, ed. 70, s.d.

“Ao observar as realizações das artes ao longo dos tempos como uma tentativa colectiva da humanidade por explorar os modos incessantemente variáveis de dar forma a uma coisa – a Arte – convenci-me cada vez mais de que a composição, em qualquer estilo ou meio, deriva da intersecção de dois princípios visuais a que agora chamo os sistemas centricos e excêntricos” (p.12)

“Psicologicamente, a tendência centrica representa a atitude autocentrica que caracteriza a perspectiva e a motivação humanas (…) A criança vê-se a si própria como cento do mundo. (…) Muito cedo, contudo, o indivíduo ou grupo centrado em si próprio é compelido a reconhecer que o seu próprio centro é apenas um centro entre outros (…) Esta visão do mundo mais realista, complementa a tendencia centrica com a excêntrica (…) A tensão entre as duas tendências antagónicas tentando encontrar o equilíbrio, constitui o verdadeiro condimento da experiência humana e qualquer manifestação estética que não consiga responder a esse desafio parecer-nos-à deficiente. (pp.18,19)

“A moldura é a base em que está assente a composição de uma pintura. (…) a estrutura vazia estabelece o seu próprio centro simplesmente através da interacção dinâmica dos seus quatro lados (…) Este centro de estrutura é também o centro da composição, no sentido em que todos os pesos das formas e cores organizados pelo pintor se equilibram à volta do meio. Terá necessariamente de ser assim? Será o artista compelido a equilibrar a sua composição ou é livre de não o fazer? A resposta é, creio eu, que o equilíbrio é necessário para fazer que a afirmação do artista seja definitiva. Se a composição estiver desequilibrada, surgirá como um movimento interrompido, uma acção paralisada no seu trajecto em direcção ao estado de repouso. De forma semelhante ao que os músicos chamam a meia cadencia, tal estado intermédio fará o observador sentir que a solução necessária está ali próxima mas não foi verdadeiramente alcançada. Assim, se o artista desejar que o seu trabalho transmita preferencialmente a sua própria mensagem, em vez de estimular simplesmente o observador a encetar aquela actividade própria, a composição terá de ser equilibrada".

GESTÃO 12

DRUCKER, Peter F., O essencial de Drucker Uma selecção das melhores teorias do pai da Gestão, Lisboa, Actual Editorial, 2008.

“A sociedade de conhecimento tornar-se-á inevitavelmente muito mais competitiva do que qualquer outra sociedade pela simples razão de que, com o conhecimento acessível a todos, não existem desculpas para um fraco desempenho. Não existirão países “pobres”. Só existirão países ignorantes.
(…) “Os trabalhadores do conhecimento vão, por definição, ser especializados. O conhecimento aplicado só é eficaz quando é especializado. De facto, quanto mais especializado for, mais eficaz é.
Igualmente importante é a segunda implicação do facto de os trabalhadores do conhecimento serem, por necessidade, especialistas: a necessidade de trabalharem como elementos de uma organização. Só a organização pode proporcionar a continuidade básica que os trabalhadores do conhecimento necessitam para serem eficazes. Só a organização pode converter o conhecimento especializado do trabalhador do conhecimento num desempenho (…) A sociedade do conhecimento é uma sociedade de colaboradores."(pp. 333,4)

“Apenas no final do sec. XIX é que a fábrica, e não o proprietário, passou a ser o empregador. E só no séc. XX é que a empresa, e não a fábrica, se tornou o empregador. Só neste século é que o “amo” foi substituído pelo chefe que, ele próprio, 99 em cada cem vezes, é um colaborador que tem um chefe.” (p. 336)

8/04/2008

TESTEMUNHOS 6

SILVA, Vaz Salvador, Catedral. Primebooks, s.d.
[V.S.S, português de Lisboa, ao saber-se com um cancro múltiplo abriu um blog onde foi conversando sobre a sua experiência que, em príncipio, seria terminal… N. de Kriu]

“Foi nos seis meses que tinha pela frente que derrotei a doença, não cedendo às adversidades que representavam os inúmeros efeitos secundários ds tratamentos nem à radical alteração da minha vida diária. Estive praticamente cego, tornei-me diabético agudo devido às doses brutais de corticóides que tinha de tomar para o cérebro, estive à beira do coma, dias houve em que outras pessoas tiveram que me caarregar em ombros e amparar porque eu não tinha força para me levantar. Fui impedido de conduzir carro e moto, perdendo assim a autonomia a que estava habituado. Apesar de tudo isto, não fiquei voluntariamente na cama um único dia.
Venci a doença com todos os tratamentos sempre referidos e com centenas de Amgios a darem-me força todos os dias sem excepção, como est+a bem espelhado neste livro. Fiquei verdadeiramente impressionado com a enorme bondade e dedicação das pessoas com quem me relacionei estes meses passados, e essa realidade alterou completamente a percepção anterior que eu tinha da vida.
Ajudar desinteressadamente quem precisa de ajuda, levando junto de pessoas dedicação, atenção, força, fé e esperança é uma forma sublime de realização pessoal e de sermos úteis ao longo da vida, fazendo de nós parte do todo para contribuir para o avanço do mundo no sentido certo” (p.238)




8/02/2008

Sociologia 2


http://www.milieuristas.es
FREIRE, Laura Espido, Milieuristas, o retrato de uma geração com grandes expectativas mas que vive hoje com o ordenado mínimo, Porto, Âmbar, 2008 (246 pp., ca.17 euros)
[Nota de Kriu: A análise de L.E.F. caracteriza uma geração espanhola mas porventura com paralelo em Portugal, e ganhando ainda menos]
“o milieurista é uma pessoa nascida entre 1965 e 1980 (…) o seu salário ronda os mil euros mensais ou nem chega a isso. Recebeu uma formação universitária (…) está familiarizado com os tempos livres e (…) tecnologias. (…) Nasceu numa cidade ou mudou-se para ela. Apresenta uma ideologia de vida que a diferencia claramente dos grupos nascidos 15 anos antes ou 15 anos depois. E convive com companheiros da mesma idade que não partilham de modo algum estas características. (pp. 16,17)

“Os milieuristas não fazem referência a um marco temporal. Até se ter inventado o termo [numa carta a um jornal uma jovem auto-denominou-se “milieurista” - N. de K.] falava-se de “outra geração dos anos 80 (…) os da geração X ou os JASP (jovens Aunque Sobredamente Preparados). Falou-se também dos GP (Guapos Pobres) (…) Em contrapartida, o termo “milieurista” triunfou porque ao conceito de idade sobrepunha uma definição económica, imediata e verificável (…) Face à geração anterior, capitalista, antigos sonhadores, obcecados com o poder e com a juventude, a juventude X mostrava-se discreta e tecnológica, ecologista e alternativa, universitária e desesperada. (…) Cresceram na prosperidade dos anos 80 mas com a certeza de que não viriam a desfrutar dela”
(…) “A distinção entre Geração X e Geração Y era confusa. Os da Geração Y não poderiam ser acusados de apatia. Pelo contrário, eram combativos. Os mais jovens já não eram filhos dos Baby Boomers mas netos e por isso já não se sentiam obrigados a contradizê-los. Como os seus avós questionavam tudo, transbordavam de auto-confiança e não acreditavam nas ideias que, até certo ponto, os X defendiam: nem a ecologia nem o downshifting. Para os Y o dinheiro recuperara a sua importância mas curiosamente não associado ao trabalho. Os X queriam trabalhar menos e melhor. E os Y não queriam trabalhar” (pp. 21,23)

“Em que se baseava então o crescimento espanhol? Em dois grandes pilares básicos que explicam, ao mesmo tempo, os conflitos milieuristas: um desenvolvimento excessivo e selvagem da construção e da especulação dos solos, e na procura do consumo interno. Os resultados colaterais vieram a ser o endividamento excessivo das famílias e a criação de postos de trabalho mal remunerados e pouco estáveis.” (p.34)

“Normas de sobrevivência” [do milieurista - N. de K.]
1. Aproveita o impulso do inimigo (…)
2. Investe no que já possuis [referência a uma aprendizagem colateral que se pode de facto revelar-se uma boa saída profissional - N. de K.]
3. Não sejas turista: viaja (…)
4. Sê flexível como um junco (…)
5. Recicla (…)
6. Estuda todos os dias (…)
7. Transforma-te em pesquisador de tesouros (….)
8. Confia unicamente em ti mesmo.: não esperes nada dos outros e alegra-te se o receberes.
9. Não desprezes a pressão do grupo (…)
10. Pratica a moderação e a constância: ser milieurista não é uma condenação, apenas uma situação. Está nas tuas mãos mudá-lo” (p.173

“Grande parte das ajudas recebidas da União Europeia eram destinadas à construção de auto-estradas. (…) Seria suposto falar de fracasso, de falta de sentido, de geração perdida (…) Enquanto cresciam na sombra, ou se ocupavam de trabalhos pesados e mal pagos, a sociedade foi também moldada pela mentalidade milieurista.(…) Com a morte ou a reforma dos Baby Boomers, existirá uma possibilidade dos milieuristas demonstrarem os êxitos da sua educação, do seu requinte, da tecnologia e da globalização. Então, se tudo correr como esta previsto, será o momento de deixar que tudo mude. De ceder o poder, por incómodo e desagradável que pareça, aos Y, para que a situação vivida por eles não se repita e para que o avanço geracional não seja travado. Para que tudo continue igual ou até melhore. (p.246)




7/28/2008

EUROPA 5

MANENT, Pierre, A Razão das Nações, Reflexões sobre a Democracia, Lisboa, Ed. 70, 2008 (88 pp., ca.9 euros)
“O império europeu tem de comum com o império americano o ser magnetizado pela perspectiva de um mundo onde qualquer diferença colectiva deixará de ser significativa (…) europeus e americanos estão separados pela partilha de uma mesma representação (…) O deslumbramento com a unidade humana torna-lhes cada vez mais difícil ver o estado presente do mundo, inclusive nas áreas europeia e americana. Ocupados a construírem duas torres de Babel gémeas, não vemos que a separação entre grupos humanos não pode ser inteiramente ultrapassada e que essa infeliz impotência é a condição de liberdade e de diversidade humanas.” (p.14)

“Voltou o tempo do despotismo esclarecido, designação exacta para a soma de agencias, administrações, tribunais de justiça e comissões que, na desordem mas com espírito unânime, nos dão cada vez mais meticulosamente a regra.
Acabo de sugerir que em nome da democracia, mais precisamente dos “valores democráticos” institucionalizámos a paralisia política da democracia” (p.51)

“Mas que as democracias europeias sejam obrigadas a tratar os seus cidadãos muçulmanos, respeitando escrupulosamente os seus direitos – direitos de cidadão – não significa de modo algum que elas sejam obrigadas a conceder a uma nação muçulmana o “direito” de vir a fazer parte da sua comunidade de nações

(…) que forma devemos dar à Europa se queremos que ela ultrapasse a sua passividade (…) O desafio convenientemente avaliado conduz-nos, creio, a não acolher a Turquia (…) É claro que o facto de se tratar de um grande país muçulmano teria consequências enormes sobre a liberdade de acção da União, tanto no seu interior como no exterior, e é, portanto um dos principais factores (…) que a deliberação deverá ter em conta” (pp.56,7)

“O Califado é uma fórmula política – o termo regímen não lhe convém – de tal forma indeterminada que a vida política muçulmana conhece uma divisão particularmente marcada entre a legitimidade e a necessidade. É possível ver-se ai uma das grandes causas das dificuldades do Islão em praticar efectivamente a democracia: por um lado a Lei indiscutível exclui ou limita severamente muitas liberdades pessoais que a democracia reclama; por outro a enorme latitude de conduta dos príncipes, ou dos chefes, é incompatível com o respeito pelas leis democráticas. Há ai um quiasma debilitante do qual o Islão tem enorme dificuldade em libertar-se.” (pp.64,5)

“O império é uma forma típica da política antiga. Poder-se-ia dizer que “tornamo-nos modernos” em termos encontrado uma alternativa ao império. O que caracteriza o desenvolvimento político dos europeus é o seu esforço por se governarem a si próprios e (…) tomar consciência de si, a partir de uma matriz imperial dupla: o Império Romano e a Igreja Cristã, “romana” porque começou por revestir a forma imperial. No termo do processo nações cristãs [sublinhado do autor - N. de Kriu] (…) Basta-nos aqui verificar que o Islão não conheceu uma tal transformação (…) Donde a infecundidade política dos tardios movimentos nacionais, ou nacionalistas, em termos do Islão; donde o recurso à ideia de “Nação árabe” que designa precisamente o que falta. Estamos assim em presença de um imenso império ou antes de um imenso rasto imperial sem imperador, de uma imensa superfície sensível (…) ora “nacionalista” ora “fundamentalista” (pp. 65,6)

7/27/2008

FILOSOFIA 5

AAVV, “A Ciência Terá Limites?” Conferência coordenada por George Steiner, Lisboa, Ed. Gradiva, 2008 (282 pp., ca. 13 euros)

George Steiner, na Introdução:
(…) parece que a observação microscópica, por mais indirecta que seja, está a aproximar-se de um limite. Os presumíveis mundos para além desta barreira permanecerão inacessíveis.
Se for este o caso, as consequências epistemológicas e psicológicas poderão ser incalculáveis. A prisão domiciliária para o homem continua a ser imensa: as fenomenologias intermédias justificariam o estudo teórico e experimental mas seria ainda assim uma prisão domiciliária. (…) Mesmo se provas fenomenais viessem a estar disponíveis, podemos não estar equipados, ou como se diz agora, “conectados” quer para registar quer para as interpretar
(…) A afirmação de Marx de que o Homem apenas levanta problemas que pode resolver é uma consolação de dois gumes. Suponhamos que estes não são os problemas mais decisivos ou mais frutíferos. Como poderíamos sabê-lo?
(…) “Não é preciso ser-se um seguidor dogmático da definição de Karl Popper de ciência aberta à experimentação e à refutação para se perceber que o que está em causa é o próprio conceito de ciência, como tem sido entendido no Ocidente durante milénios. Se a Teoria das Cordas é imune tanto à prova como à repetição (…) será ainda ciência? (…) Será que a classificação de ciência enquanto ciência se tornou obsoleta (…) A segunda grande crise é uma crise de coesão interna e comunicação. Tradicionalmente as ciências teóricas e aplicadas podiam ser ordenadas e inter-relacionadas sistematicamente. As ciências da vida, a física, o orgânico e o inorgânico podiam distinguir-se e localizar-se ao longo de eixos conceptuais e metodológicos principais. (…) Esta exposição diagramática já não é praticável. (…) Para além disso, dentro de cada área as ramificações, as subsecções são agora de tal forma múltiplas que subvertem qualquer totalidade consistente.
(…) A consequência é uma crescente quebra de comunicação interna. (…) Taxinomia, técnicas experimentais, instrumentação matemática dividem e subdividem gerando uma linguagem específica, estranha mesmo para os colegas duma área próxima.
(…) a ciência tem cada vez maior dificuldade em comunicar seriamente com a comunidade em geral. (…) Os leigos educados aprendem sobre o progresso científico (…) com um jornalismo frequentemente irresponsável e banalizante. Aqueles capazes de estabelecer uma ponte – um Medawar, um Freeman Dyson – são excessivamente raros. Este incommunicado [sublinhado do autor – N. de Kriu] cresce com a escandalosa fragilidade matemática na educação e do que passa por cultura adequada. (…) No entanto as implicações são pouco menos que desastrosas. Avanços na biologia molecular, na biogenética (…) afectam, vão afectar, a existência pessoal e colectiva em cada ponto crucial. (…) O debate informado, do qual o nosso futuro pode muito bem depender, requer que o leigo faça trabalho de casa. Também requer da parte dos cientistas uma vontade de comunicar de forma lúcida e com a consciência do contexto social. As perspectivas de ambos os lados não são promissoras.
(…) O terceiro ponto importante será o mais radical mas é também o mais difícil de contextualizar. (…) O orgulhoso edifício da decibilidade sistemática, que se mantinha de pé desde Euclides, foi minado.
(…) A matemática e as ciências sabem hoje que há na lógica, nas leis do pensamento como estas parecem estar gravadas no cérebro humano constrangimentos, limitações quer à totalidade, quer à prova. (…) o indecidível, o indeterminado não são acidentes históricos a ser ultrapassados. Estão no coração do empreendimento científico, são a “matéria negra” da razão. Há, portanto, problemas que permanecerão sem solução ou, no melhor das hipóteses, sujeitos a hipóteses inconstantes, quaisquer que sejam os avanços metodológicos ou pragmáticos no conhecimento humano.
(…) Isto não significa, claro, que o progresso científico significativo não continue, que o trabalho de primeira ordem não evolua, mesmo nos domínios até agora desconhecidos.
(…) O ensino das ciências nas escolas secundárias, totalmente fundamental, está num processo precário. Dada a estrutura dos salários e o reduzido prestígio, o professor, com excessiva frequência, representa o elemento mais desapontado e medíocre do espectro. O matemático segue para as finanças e os mercados monetários. O derrotado entra para o ensino espalhando assim, de forma consciente ou não, o miasma do aborrecimento.
Mas a subversão está enterrada mais fundo. A filosofia desapaixonou-se das ciências.
(…) O que está em jogo é demasiado elevado, porque o ataque não é tanto contra a ciência como contra a própria razão. Estamos submersos em irracionalidade, em superstição (…) Cerca de vinte milhões de americanos estão convencidos que Elvis Presley ressuscitou. (…) Observe-se a manha enganosa de designações como Ciência Cristã ou Cientologia. O fundamentalismo, no núcleo histérico do qual assenta o ódio ao pensamento racional, à discordância adulta, está em marcha global. O Islão repudiou a ciência durante séculos. O fundamentalismo cristão é agora um factor preponderante na vida pública e política.(pp.23 a 29)

(…) Os cientistas (…) têm de aprender a “perder algum do seu tempo” em debate didáctico, forense e cívico, com as suas sociedades, frequentemente ignorantes, preconceituosas e traumatizadas.”
(…) “Estaremos conscientes dos estragos, possivelmente irreparáveis que o triunfo da pornografia e narcóticos, que o brutal despotismo do barulho, do incessante fornecimento de lixo está a infligir ao cérebro, nomeadamente ao cérebro dos jovens durante fases cruciais da sua educação e desenvolvimento? (…) A ameaça da loucura política e do fanatismo infantil raramente foram tão insistentes” (p.31,2)

Dieter Lust: “A previsibilidade de paisagem da teoria das cordas na física de partículas e na cosmologia” (pp.35-60)
“o grande desejo no início do século XXI é combinar a Relatividade Geral de Einstein e a Mecânica Quântica numa descrição unificada. Embora não se saiba ainda a resposta final, parece ser claro para muitos físicos que, para alcançar este objectivo, mais uma vez são necessários conceitos extensos – cordas e branas – e a existência de mais dimensões. (…) a possibilidade de o nosso universo conter mais do que três dimensões espaciais pode ser comparada com a situação descrita na parábola da caverna de Platão. Na alegoria os prisioneiros estão presos e vêem o mundo apenas num ecrã halográfico bidimensional. Por isso, depois de algum tempo, os prisioneiros vivem com a ilusão de que o mundo é apenas bidimensional.
(…) “A Mecânica Quântica descreve o mundo nas pequenas distâncias, o microcosmos, a saber, os efeitos na matéria condensada e nos átomos e as forças entre as partículas elementares. (…) Por outro lado a Relatividade Geral aplica-se à física nas muito grandes distâncias, à formação das estrelas e das galáxias e de toda a evolução do universo depois do big-bang. Porém a Mecânica Quântica e a Relatividade Geral são mutuamente incompatíveis. (…) Durante a história da física, embates como estes foram sempre resolvidos por uma descrição unificada. Portanto, de forma geral, espera-se uma teoria da Gravidade Quântica. (…)precisamos ainda de uma teoria de Gravidade Quântica para perceber a estrutura quântica do espaço e do tempo a pequena distância (espera-se que o espaço-tempo se torne discreto a pequenas distâncias, isto é, espera-se uma espuma de espaço-tempo(pp. 37 a 40)

Luiz Alvarez-Gaumé: “Factos e ficção sobre teoria das cordas e o Fim da Ciência” (pp. 109/133)
“O problema é (…) como é que o mundo clássico emerge do mundo quântico. Isto fornece um novo e saudável ponto de vista com respeito às várias teorias de “corte” entre o mundo clássico e o quântico.
(…) “O espaço e o tempo podem em última análise ser objectos emergentes, descrições longínquas de elementos mais fundamentais de natureza que ainda desconhecemos. Em particular, a nossa experiência diz-nos que a mecânica quântica odeia singularidades. Quando estudamos o colapso gravitacional em estrelas ou outros sistemas, a Teoria da Relatividade Geral de Einstein conduz a ambientes em que a curvatura espaciotemporal cresce sem fronteiras até ao ponto em que as leis da física, como as conhecemos, já não se aplicam”
“A teoria das cordas é uma ambiciosa colecção de ideias e ferramentas que tentam ir para lá do conhecimento actual das interacções fundamentais, tentando também dar resposta às questões fundamentais sobre a natureza do espaço e do tempo.
(…) A teoria das cordas será testada algum dia ou então simplesmente esquecida. É assim na ciência. (…) Não existe igualmente nenhuma razão para que a actividade da teoria das cordas deva ser demonizada. (…) A maioria dos teóricos de cordas sabe o que quer dizer falsificável. Não têm que ser popperizados pelos muitos convencidos popperazzis (…) que agora abundam. (pp.129 a 131)

John Hogan: “O Fim da ciência: uma reconsideração” (pp.181-197)
“Uma área agora na moda é a psicologia evolutiva que tenta explicar a natureza humana em termos darwinianos. A psicologia evolutiva produziu algumas ideias interessantes Umas das minha preferidas é a noçao de que a capacidade do homem se enganar a si próprio pode ser uma característica adaptativa, uma vez que os mentirosos mais capazes são aqueles que acreditam nas suas próprias mentiras.
(…) Há dois problemas científicos em particular cuja resolução poderá ter consequências profundas para a humanidade: um é o código neuronal (…) um conjunto de regras, ou sintaxe, que transforma os impulsos electromagnéticos emitidos pelos neurónios em percepções, memórias, decisões, ideias (…) outro problema (…) é o da guerra. (…) A minha esperança é que os cientistas rejeitem este fatalismo [a afirmação de que “a guerra está nos nossos genes” N. de Kriu] e nos ajudem a ver na guerra um problema complexo mas solúvel como a sida”

Freeman Dyson: “A Ciência de nenhum modo perto dos seus limites” (pp. 205-218)
“a visão negatica de Steiner sobre a ciência está errada” (p.210)

“Mencionarei três modos de mudança na ciência moderna. Os cientistas estão a tornar-se mais internacionais, as ferramentas (…) mais acessíveis e as barreiras entre especialidades estão a reduzir-se. Estas tendências mostram claramente que a ciência não está perto dos seus limites” (p.213)

Jean Pierre Luminet: “A ciência tem limites?” (pp.241-266)
“A questão de a ciência estar a atingir os seus limites (…) está longe de ser nova. (…) Anteriormente presumia-se que a ciência estava a chegar aos seus limites devido a um aparente sucesso (…) o questionamento presente, pelo contrário, supõe que a ciência podia estar a chegar ao limite devido ao seu tremendo fracasso. Será esta inversão de perspectiva apenas um sinal do pessimismo geral que se faz sentir em praticamente todos os campos da actividade humana no mundo ocidental durante a primeira década do nosso século ou terá como fundamento uma verdadeira crise da ciência? (…) A minha opinião é que a ciência não está de modo algum perto do fim mas, pelo contrário, constantemente perto do começo!” (p.245)
“Afinal o critério popperiano de falsificabilidade é ele mesmo uma teoria (…) e como qualquer teoria não vejo por que razão se deva aceitar como definitiva e indiscutível” (p.251)

“Vamos supôr por um momento que a nossa tecnologia não progredirá muito mais nas próximas décadas e presumir que não estaremos em condições de testar experimentalmente algumas expectativas teóricas relativas à alta energia ou às escalas extremamente pequenas (…) nesse caso essas expectativas teóricas já não obedeceriam aos critérios habituais de Popper de previsibilidade e de falsificabilidade: tratar-se-ia realmente de uma crise da ciência? (…) A história da ciência mostra-nos como, em vários momentos, a teoria estava tão avançada relativamente aos instrumentos disponíveis (p.219)

ALTERNATIVA 8



SINGER, Peter, Libertação Animal, Porto, Via Óptima, Oficina Editorial, 2008 (Ca. 291 pp. e 17 euros)

Peter Singer relata o encontro com uma senhora que o convidara a ele e a mulher para um chá:
“Dissemos-lhe que não tínhamos animais de estimação. Pareceu um pouco surpreendida e mordiscou a sandwiche. A nossa anfitriã, que tinha acabado de servir as sandwiches, juntou-se a nós e retomou a conversa: “Mas é verdade que se interessa por animais, não é Sr. Singer?”
Tentámos explicar que nos interessava evitar o sofrimento e os maus tratos; que nos opúnhamos à descriminação arbitrária; que considerávamos errada a inflicção de sofrimento desnecessário a outro ser, mesmo não sendo esse ser membro da nossa espécie; e que acreditávamos que os animais eram explorados de forma impiedosa e cruel pelos humanos e queríamos que tudo isso fosse alterado. Para além disto, os animais não nos interessavam especialmente. Nenhum de nós tinha gostado especialmente de cães, gatos ou cavalos ao contrário de algumas pessoas. Não “adorávamos” animais. Queríamos simplesmente que eles fossem tratados como os seres independentes e sencientes que são, e não como um meio para os fins humanos – como tinha sido tratado o porco, cuja carne estava agora nas sandwiches servidas pela nossa anfitriã. (Introdução, p.II)

“A afirmação de que a experimentação com animais seria essencial para fazer descobertas [criação de insulina, descoberta do vírus da poliemielite, entre outras curas N. de K.] tem sido negada por alguns opositores à realização de experimentação.
(…) Algumas descobertas provavelmente teriam sido adiadas, ou talvez nunca feitas; mas muitas pistas falsas nunca teriam sido seguidas, sendo possível que a medicina se tivesse desenvolvido numa direcção muito diferente e mais eficaz, com ênfase na vida saudável e não na cura” (pp.84,5)

“A exploração dos animais em laboratório faz parte do problema mais vasto do especismo e é pouco provável que seja eliminado totalmente antes do próprio especismo ser recusado” (p.87)

“Agora que entendemos a natureza do especismo e vimos as consequências que tem para os animais não humanos é altura de perguntar: O que podemos fazer? (…) O primeiro passo é deixarmos de comer animais. Muitas pessoas que se opõem à crueldade para com os animais detém-se frente ao vegetarianismo. Foi sobre estas pessoas que Oliver Goldsmith, ensaísta filantropo do século XVIII, escreveu: “Têm pena e comem os objectos da compaixão que sentem”. (p.149)

“Se um ser sofre, náo pode haver justificação moral para desprezar esse sofrimento ou para recusar considerar-lo de forma igual ao sofrimento de qualquer outro ser. Mas o inverso é também verdadeiro. Se um ser não for capaz de sofrer, ou de sentir prazer, não há nada a ter em conta” (p.160)

In capítulo 6 “O especismo, hoje”
“Vimos como, violando o pressuposto moral fundamental da equidade de consideração de interesses que deveria reger as nossas relações com todos os seres, os homens infligem sofrimento aos não humanos por razões triviais; e vimos como, geração após geração, os pensadores ocidentais procuraram defender o direito dos seres humanos a fazê-lo. (…) É importante desmontar e criticar esta ideologia porque, embora a atitude contemporânea face aos animais seja suficientemente benévola – numa base muito selectiva – para permitir a introdução de melhorias nas condições de vida dos animais sem questionar a nossa atitude básica, estas melhorias estão sempre em perigo se não conseguirmos alterar a posição subjacente que sanciona a exploração brutal dos não humanos para fins humanos. Só podemos construir uma fundação sólida para a abolição desta exploração se conseguirmos romper radicalmente com mais de dois mil anos de pensamento ocidental face aos animais” (pp.199,200)

“Nunca fiz a afirmação absurda de que não existe uma diferença significativa entre seres adultos normais e outros animais. O que pretendo dizer não é que os animais são capazes de agir moralmente mas que o princípio moral de consideração igual de interesses se aplica a eles como se aplica aos homens. Frequentemente é correcto incluir na esfera da consideração igual de interesses seres que não são capazes de efectuar escolhas morais, como se vê pelo tratamento que damos às crianças pequenas e a outros humanos que, por uma razão ou outra, não possuem a capacidade mental para compreender a natureza da escolha moral. Como Bentham teria dito, o que interessa não é saber se eles podem escolher mas saber se podem sofrer” (p.210)
“O movimento de Libertação Animal vai exigir mais altruísmo por parte dos seres humanos do que qualquer outro movimento de libertação. Os animais são incapazes de exigir a sua própria libertação. (…) Os seres humanos têm o poder de continuar a oprimir as outras espécies eternamente ou até tornarem este planeta impróprio para seres vivos.
Continuará a nossa tirania provando que a moral de nada vale quando entra em conflito com os interesses próprios, como sempre disseram os mais cínicos poetas e filósofos? Ou mostraremos estar à altura do desafio, provando a nossa capacidade de altruísmo genuíno e pôr fim à exploração cruel de espécies que estão sob nosso domínio, não por sermos forçados a fazê-lo por rebeldes ou terroristas mas por reconhecermos que a nossa posição é moralmente indefensável?
A forma como colectivamente respondermos a esta questão depende da forma como cada um, individualmente, lhe responder. (p.232)

EROS 4 A Revolta das Bocas

Vinham da escola juntos, no mesmo passo e caminho, estudavam à mesma mesa e, imagine-se, até o cabelo cortavam um ao outro. Em casa de um deles, na casa de banho para sujarem o chão à vontade, ora barbeiras tu, ora barbeiro eu… Doces adolescências não fora o desejo. Pois que nunca se despedia dele sem imaginar como seria depor-lhe um beijo nos lábios, naqueles apetecíveis lábios… Mas não. Nunca o beijou – é verdade que a sua perna sentia a dele quando estudavam juntos e o estudo nesse morno amparo se fazia – mas nada sobre que algum dia falassem, referissem, enfim. Pois não teriam uma menina por namorada?
Sempre nas famílias assim fora.
Porém, alheias a tudo, surdas às conveniências, num certo serão, programado como de estudo em casa de um deles, elas, as bocas, levaram a coisa a peito e, enfurecidas pelo desejo, secas de revolta, simplesmente aproximaram-se. Ah que vitória, que…
Todavia, não houve beijo.
Iam-se a dá-lo, coladinhas uma à outra, quando a luz da mesa estoirou, e logo uma voz surgiu:
- Que há aqui?
Hoje, a resposta, não ofereceria dificuldade:
- As nossas bocas… mal se aproximam… explodem!
Por ecológica precaução, nunca mais se encontraram.

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