4/28/2008

FILOSOFIA 2

NIETZSCHE, Friedrick, Obras Escolhidas, volume dois, Humano, Demasiado Humano, Relógio d’ Água, data a ver

"Deveria considerar-se um escritor como um malfeitor que, so nos casos mais raros, merece absolvição ou indulto: seria uma maneira de combater a multiplicação excessiva de livros" (p. 180)

"Os bobos das cortes medievais correspondem aos nossos folhetinistas; é o mesmo género de homens, semi-inteligentes, chocarreiros, exagerados, tolos que só servem para, uma vez por outra, mitigarem o patético do ambiente por meio de piadas e de palreio e ensurdecerem com a gritaria o som demasiado pesado e solene dos sinos que acompanham os grandes acontecimentos: outrora, ao serviço dos príncipes e dos nobres, agora a serviço dos partidos (tal como no espírito de partido e na disciplina de partido ainda hoje sobrevive uma boa parte da antiga sujeição nas relações do povo com o príncipe.) Mas toda a moderna casta de literatos, estão muito mais próximos dos folhetinistas; são os “bobos da cultura moderna” que a gente julga mais benevolentemente, se os tomar como não estando no pleno gozo das suas faculdades mentais. Considerar a actividade de escritor como profissão permanente deveria em boa verdade, passar por uma espécie de loucura." (p. 181)


4/26/2008

CAPITALISMO 4

LOPEZ-SÉBILLE, Philippe, Geopolíticas do Petróleo, ed. Piaget, 2006.
“a ausência de um fórum internacional dedicado a uma cooperação indispensável sobre a situação e as perspectivas do mercado petrolífero fez-se duramente sentir.” (Pág. 394).

“Paralelamente a esta subida de preços, provocada basicamente por um consumo cada vez mais elevado, as emissões de gases com efeito de estufa aumentam também consequentemente. Esta bulimia petrolífera mundial corre o risco de ser duplamente custosa.
Para muitos analistas (…) o recurso ao petróleo corre o risco de ser limitado mais pelas restrições ligadas aos gases com efeito de estufa do que pela rarefacção de recursos.” (Pág. 395).

“É comum citarem-se duas causas principais na origem do mau desenvolvimento de muitos países produtores de petróleo: (…) deixar perigar a maior parte das actividades económicas do país apoiando-se sempre mais nos rendimentos do petróleo; as receitas (do petróleo) não incidem no desenvolvimento de outras fontes de riqueza (…) a opacidade que preside à atribuição das concessões e dos contratos petrolíferos ou a gestão danosa das receitas do petróleo (…) estimula uma corrupção já omnipresente nos aparelhos de Estado. (…) Sem uma plena e inteira colaboração dos governos, sinónimo de um abandono voluntário de soberania, o petróleo como outros recursos minerais em África e noutros lugares, pode ajudar a sair do subdesenvolvimento? O EITI foi criado para responder afirmativamente a esta questão. Esta iniciativa de várias ONGs (…) visa reforçar a transparência das operações financeiras entre companhias extractoras e os Estados. (…) Sobressaem disparidades de transparência de um país para o outro, de uma companhia para outra. Este aspecto pode fazer pensar que, em função do seu peso na produção do país, da importância do país na sua estratégia de conjunto e, claro está, dos dirigentes do país, as companhias elaboram diferentes normas e que, em matéria de transparência, não pode haver uma regra.” (Pág. 399, 400)

“É evidente que o EITI é o primeiro passo no bom sentido, mas há um caminho muito longo” (Pág. 401)

“Esta falta global de transparência a todos os níveis do negócio sublinha a pouca fiabilidade de certas previsões estatísticas dos Estados produtores, ainda que toda a gente esteja mais ou menos de acordo sobre os volumes globais. No fundo o sistema assenta quase exclusivamente nas declarações dos principais intervenientes, não verificáveis e não verificadas de maneira independente.” (…) A prioridade actual, na falta de uma solução milagrosa, consiste em desenvolver urgentemente (…) “carburantes verdes”. (Pág. 402).

”A crise que actualmente atravessamos ainda não é um choque petrolífero mas antes um aviso. Provocará algumas mudanças num sistema global que apresenta tão ostensivamente os seus limites? Dará início a um debate de fundo mais alargado, seguido por medidas concretas sobre as energias, uma melhor utilização dos recursos petrolíferos e uma certa forma de antecipação do depois do petróleo? Tantas novas incertezas… Contudo quem é que molda simultaneamente os nossos modelos de sociedade e alimenta o seu crescimento económico, sem falar de eventuais perspectivas de desenvolvimento nos países que, neste momento ainda estão privados dele? O consumo de energia.
Em África há sol, rios, vento e também petróleo e gás mas, na melhor das hipóteses, para outros mercados: apenas 10% da população têm acesso à electricidade (…) De que tipo de desenvolvimento é que se fala há quarenta anos, e como travar a imigração nestas condições?” (Págs. 406/7)

4/25/2008

ENTRANHA 5 Rua Augusta... (3)

Receita para dinheiro

Ingredientes:
- um menor
- um acordeão
- um cãozito
- um cesto pequeno
- transeuntes mal formados.

Torture-se privadamente o cãozito para que permaneça imóvel e de cesto na boca horas a fio.
Ate-se o menor ao acordeão para que do instrumento saia qualquer coisa que pareça música.
Se a receita for bem preparada, os transeuntes mal formados colocarão moedas no cesto, indiferentes:
- Ao adulto que repimpadamente recolhe em casa o dinheiro do negócio.
- À tortura do cão.
Também se pode juntar ao cozinhado, em guisa de molho, uns tantos aue fotografam a cena, levados pela “beleza” do quadro.
Serve-se frio diariamente na Rua Augusta – ou no metro – perante a mudez das associações animais e do fisco.

4/24/2008

ENTRANHA 6 Rua Augusta (2)

Nada é vão.
Esperava chegar ao contentor do entulho e, juntamente com as demais inutilidades que o tempo fabricou, atirar com um dos troféus ganhos num concurso de encenação, onde me atribuíram o segundo e o primeiro prémios - a estatueta relativa a este último safou-se do lixo porque no gabinete do conselho executivo da escola - a Passos Manuel - que então representava - mas pensava eu que, chegando ao entulho, a coisa correria calma, discreta e mesmo silenciosa, apesar do que carregava: um candeeiro, uma tenda, enfim, uma colecção de tralha, como num jogo de bonecas russas: difícil é deitar fora a primeira.
E todavia...
Todavia, no entulho, numa rua traseira à Augusta, logo dei com um grupo de imigrantes, porventura ciganos, metidos no contentor.
- Traz roupa, senhor? - perguntou um.
Não sou parvo, acho-me mesmo lúcido e desfazer-se de troféus exige despojamento. Mas praticá-lo perante os olhos ávidos de uma chusma de miseráveis é vitória sobre si próprio ou já vaidade redundante? E não desvalorizei eu o troféu - e ao seu companheiro primeiro, lá na escola porventura ainda a salvo - no dia em que os mesmos que, em nome das tais habilidades teatrais, mo entregaram, me recusaram um apoio para encenar?
Atacado por vozes e gente, já num turbilhão de sentimentos, atirei o símbolo para o contentor e logo mãos ávidas o agarraram:
- É pesado, senhor!
- E maciço! – desabafou outro.
Na hora da despedida o meu "óscar" teve finalmente a sua consagração.
Nada é vão.

4/22/2008

BIOLOGIA 2

RIDLEY, Matt, A Rainha das Copas, o sexo e a evolução da natureza humana, Ed. Gradiva, 2004
“À medida que a vida emergiu do caldo original há vários milhares de milhões de anos, as moléculas que se multiplicaram à custa de outras tornaram-se mais numerosas. Depois algumas dessas moléculas descobriram as virtudes da cooperação e por isso começaram a juntar-se em grupos, chamados cromossomas, para gerirem máquinas chamadas células, que podiam replicar esses cromossomas eficientemente. Do mesmo modo, pequenos grupos de agricultores juntaram-se a ferreiros e carpinteiros para formarem unidades cooperativas chamadas aldeias. Os cromossomas descobriram depois que vários tipos de células podiam formar uma supercélula do mesmo modo que as aldeias começaram a juntar-se, formando tribos. Foi esta a invenção da célula moderna a partir de uma equipa de bactérias diferentes. Depois, as células agregaram-se para formarem animais, plantas e fungos, grandes conglomerados de conglomerados de genes, tal como as tribos se fundiam em países e os países em impérios. Nada disto teria sido possível para a sociedade sem leis que forçassem o interesse social sobre o impulso egoísta do indivíduo, sendo o mesmo válido para os genes. Um gene tem apenas um critério pelo qual é julgado pela posteridade: tornou-se um ancestral de outros genes. Em larga medida tem de o conseguir à custa de outros genes, tal como um humano adquire riqueza principalmente ao persuadir outros a separarem-se dela (legal ou ilegalmente).” (Pág. 104)

Na actualidade existem 3 equipas de cientistas americanos que procuram o “gene da homosexualidade” (…) A mais apelativa das novas evidencias sobre o gene homossexual é que os gémeos falsos, que se desenvolveram no útero e foram criados no mesmo ambiente familiar, apenas têm uma hipótese em quatro de partilharem o mesmo hábito homossexual. Por outro lado, os gémeos verdadeiros, criados no mesmo ambiente e com os mesmos genes, têm uma hipótese em duas de partilharem o mesmo hábito homossexual. Se um gémeo verdadeiro é homossexual as hipóteses de o irmão gémeo também o ser são de 50%. (Pág. 295)

“Se as preferências sexuais dos humanos homossexuais são grandemente influenciadas (e não completamente determinadas) por um gene, então é provável que as preferências dos heterossexuais também o sejam. (Pág. 296).

“apenas compreendendo como é que evoluiu a atracção sexual será possível fazer sentido a mistura de cultura e instinto e compreender porque mudam certas características como a moda e outras resistem.” (Pág.297)

ENTRANHA 7 Capital e natureza

A questão que levanta a frase "o capitalismo é o estado natural do homem" é a de saber se devemos aceitar o dado tal qual, isto é, se o humano é um dado ou um ponto de chegada.
Caso seja um dado, devemos então preservá-lo o melhor possível e não lhe alterar as características. Caso o dado seja apenas algo a ter em conta para uma possível educação - nos animais chamar-se-à amestração - então esse mesmo dado é apenas um entre tantos. Assim o humano está feito quando nasce - e desenvolverá naturalmente o capitalismo - ou deveremos intervir para que ultrapasse a natureza e se crie outro?
A experiência diz-nos que somos o produto de uma educação e que a ideia de um humano “natural” é um lirismo.
Portanto, resta-nos a formação.
Formar homens e mulheres capitalistas, isto é, que ponham a frente de tudo o mais o apelo pelo lucro? O objectivo é absurdo, pois a meta da educação deverá ser a reintegração do humano na natureza, apesar do obstáculo da cultura.
Na prática reintegrar na natureza significa preservá-la, lá onde não seja indispensável destruí-la, isto é, agir à semelhança do mundo natural: por imperiosa necessidade. Esta obrigar-nos-á, porque o sol se extingue, a abandonar o planeta.

Rua Augusta 1


Já no metro, sim senhor, é-se na rua, deixou-se a cama e talvez se volte – para quê certezas? Só empecilham! – se a noite cair ou os que me acompanham na ida, forem também na volta: vida de conjunto.
Ontem – ou antes ainda – o telé roubado do bolso pois gripes, chatos e carteiristas fazem parte da massa e a cada um seu quinhão: amanhã eu, depois tu e, por fim, tanto faz, se não roubo também não restituo. Ah, se matar fosse legal ou mesmo premiado.
No barco – passou-se do combóio para a barcaça prisioneira do Tejo – o Sol chapinha no convés e, por momentos, a luz do dia, ainda púbere, promete êxtases. Mas logo a viagem acaba – tantos que nem florescem - e outros galgam para a barca, desejosos do mesmo cais donde há pouco partiram.
Insatisfação nas caras, deformadas na pressa, no desencontro entre fazer agora e pensar num antes ou depois. Correr. Corrida. Contra o próprio de cada um, suicídio eficaz que florescerá na sargeta ou na reforma. Ou em ambas simultâneamente
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4/16/2008

FOTOGRAFIA 1

BAURES, Gabriel, A Fotografia - História - Estilos - Tendências -Aplicações, Lisboa, Ed. 70, 2006.
In rubrica "A fotografia de moda na actualidade":
"Embora algumas redacções tentem ainda por todo o mundo favorecer uma fotografia de arte criativa, é necessário reconhecer que as coisas mudaram porque as leis do mercado agora são diferentes. Actualmente (...) o pormenor do vestuário está muitas vezes em primeiro plano nas preocupações do fotógrafo, e a sua margem de intervenção pessoal é muito reduzida. (...) A moda confunde-se com o modo de vida. Mais do que verdadeiras representações de vestuário, o que se propõe são ambientes. Em determinadas sectores da sociedade actual, não é tanto o vestuário que faz a moda mas sim o look, quer dizer, a aparência ou então a imagem. (...) Sem dúvida porque o pronto-a-vestir e a sua indústria deram origem a um mercado demasiado importante para se entregar a sua promoção redactorial a "artistas". A independência das revistas face a este mercado é hoje muito difícil de manter, o que explica igualmente o facto de as páginas redactoriais terem, por vezes, tendencia a confundir-se com as páginas publicitárias e não passarem de réplicas destas, de forma mais ou menos habilidosa." (Pág. 71).

TEATRO 5 "A Perca", de m/ autoria, no auditório de Alfornelos 18 e 19/04 às 22 H.


TEATRO 6 Eu, no "Pedro e o Lobo", Teatro Extremo até 27/04


4/14/2008

Fazer publicidade é agitar un pau dentro de um balde de comida para porcos.
George Orwell

CAPITALISMO 5

AL GORE, O Ataque à Razão, Lisboa, ed. Esfera do Caos, 2007
“O fenómenos que Galbraith identificou no mercado comercial é agora a realidade dominante. (…) O valor intrínseco ou validade das proposições políticas avançadas pelos candidatos a cargos políticos é hoje em grande medida irrelevante em comparação com as campanhas publicitárias baseadas na imagem que eles utilizam para melhorar a percepção dos eleitores. E o custo elevado destes anúncios aumentou drasticamente a importância do dinheiro na política americana – e a influência daqueles que contribuem com fundos.” (Pág. 18)

(...) “É impossível existir uma sociedade civil bem informada sem que esta esteja bem interligada. Embora a educação continue a ser importante, o factor decisivo, actualmente, é a interligação. Uma sociedade civil bem interligada é construída por homens e mulheres que discutem e debatem ideias e questões entre si, e que verificam constantemente a validade da informação e das impressões que recebem uns dos outros – bem como do governo. (Pág. 298)

4/13/2008

ARTE 1



TÀPIES, Antoni, A Prática da Arte, Lisboa, Cotovia, 2002
“O artista é um homem de laboratório. Não é um gabinete de propaganda ao qual se encomende a difusão de arbitrariedades” (Pág. 31).

“O artista de hoje não tem de se dirigir a nenhum grupo humano em particular. O seu esforço deve concentrar-se na obra: conseguir uma obra total, profunda e eficaz.” (Pág. 40)

“Nunca acreditei que a arte tenha valores intrínsecos. Em si não me parece nada. O importante é o seu papel de moda, de trampolim que nos ajuda a atingir o conhecimento. Por isso, parece-me rídículo tudo o que tende “a enriquecê-la” com acumulações seja de que for: cores, composição, trabalho… A obra é um simples suporte (…) artifício para fixar a atenção, para estabilizar ou excitar a mente; e o seu valor tem de ser medido unicamente pelos resultados.” (Pág. 54)

“Em momentos como o nosso, em que predominam por toda a estética as mentalidades dirigistas – frequentemente policiais – em que já é difícil falar de sabedoria, de espiritualidade, de sensibilidade delicada ou da arte de viver sem provocar risadas ou perseguições: a tal ponto chegou a tergiversação dos valores!, o artista verdadeiro tem forçosamente de parecer um marginal, um solitário, um estranho à parte (…) Em momentos politicamente desfavoráveis, os artistas poetas eruditos dos Sung ou dos Ming também nos ensinaram a arte de se afastarem das coisas oficiais e de não colaborarem com o que consideravam inaceitável. Nas suas cabanas solitárias, conservavam a independência longe dos funcionários ao serviço dos antigos ou novos mitos desumanos e, com as suas obras de choque, contrárias a toda a convenção e falso valor, com as suas formas desenvoltas e sem respeito pelas regras ou liturgias, armados apenas com a sua máxima exigência de submissão à natureza das coisas (…) conseguiram transformar e abanar a consciência adormecida dos seus contemporâneos. (…) Virarmos as costas e negarmos muitas coisas de hoje, resistirmos a aceitá-las, por mais prestigiadas e sagradas as auréolas com que nos são apresentadas, é um dever vital. O nosso destino está em jogo: fazer perdurar a ignorância e os falsos mitos, e portanto a opressão, ou procurar o conhecimento e a felicidade. Vale a pena dedicarmos a esta alternativa toda a nossa vida, vale a pena a aventura e o risco de passarmos por sonhadores, e até por loucos – divina loucura! – como foi o caso de alguns artistas chineses, como Mi, o Louco, ou Pa-ta Xan-Jen, que fingiu ser mudo durante quase toda a vida (…) Na realidade tenho a certeza de que esta é a única tradição que devemos aceitar de olhos fechados: a que está na linha da luta perpétua contra a ignorância, luta que foi sempre travada pela sabedoria de todos os tempos”. (Págs. 79,80)

“Mas brincar não significa fazer as coisas “só porque sim”. E como todas as brincadeiras de crianças, os artistas também não fazem as coisas “só porque sim”. A brincar… a brincar em pequenos, aprendemos a ser grandes. A brincar… A brincar fazemos crescer o nosso espírito e ampliamos o campo da nossa visão, do nosso crescimento” (Pág. 94)

Do capítulo “Arte e Funcionários”
“Felizmente o artista dirige os olhos para outro mundo, para outra sociedade e para outras formas mais limpas, não contaminadas nem doutrinadas, com vontade de intervir. Ali onde a sua obra, longe de ser usada como um enfeite na moda. Ou uma purga de “maus pensamentos”, ou um mero instrumento propagandístico de “colheita de louros” possa contribuir realmente para o seu desenvolvimento harmónico, possa servir, juntamente com o trabalho de todos os que lutam nas outras disciplinas humanistas, a mais autêntica libertação e aperfeiçoamento.
Com o passar do tempo fui vendo, mais agora do que nunca, que em todas as épocas – tirando muito raras excepções – o autentico artista, o poeta, o grande pensador tem sempre fatalmente de fugir para o mais longe possível do mundo dos funcionários, quer na China dos Ming, quer na corte de Filipe II, ou na Checoslováquia actual, para mostrar a toda a gente que existe um terreno onde estes jogos, estas intrigas de altas chancelarias se esvaem perante a brancura imaculada da arte que lhe serve de inspiração.” (Págs. 105,6)

“O certo é que sempre haverá quem, de maneira mais inesperada, num recanto de sua casa, servindo-se sabe-se lá de que materiais – dos quais, naturalmente, e para já, os escritores profissionais dirão que não são arte – ou combinando sabe-se lá que espécie de textos – dos quais dirão que não é poesia – ou sons – que para alguns não serão música – poderá chegar a comover mais tarde uma geração. E certas formas que parecem de grande inocência semântica (…) acabam por converter-se, sem que ninguém o tenha conseguido provar, no verdadeiro estilo de uma época. Foi sempre perigosa a tentação, por parte dos que se dedicam à estética, de profetizar demais. As vezes são professores muito cultos que se servem de um aparelho bibliográfico impressionante e que, naturalmente, fazem o papel de inapeláveis diante do grande público. Mas a experiência ensina precisamente o contrário. Geralmente enganam-se. Pretendem encerrar o fenómeno artístico nas malhas das suas análises trabalhadas e demoradas; porém, quando julgam que o conseguiram, já não encontram nada, porque a vida seguiu por outros caminhos, são vítimas da análise. Parecem dar razão àquele personagem de Thomas Mann que dizia: “A análise é boa como instrumento do progresso e da civilização, boa na medida em que destrói convicções estúpidas, dissipa perconceitos e mina a autoridade. Por outras palavras: na medida em que humaniza e prepara os oprimidos para a liberdade. Mas é má, muito má, na medida que coloca obstáculos à acção, prejudica as raízes da vida e é impotente para lhe dar forma. A análise pode ser uma coisa muito pouco desejável, tão pouco desejável como a morte de que na realidade se alimenta.
Esquecem-se precisamente, que o poeta, o artista, o músico e o pensador independente se alimentam sempre, entre muitas coisas, de um estranho fervor rebelde perante qualquer tentativa que pretenda reduzi-los ou classificá-los num qualquer esquema. É uma espécie de necessidade, que parece inerente a todo o artista – está seguramente aqui a matéria primordial do acto criativo – de ludibriar os que esperam que determinada coisa aconteça num determinado momento. É a exclamação de Liszt ao ouvir Chopin: “Surpreendente; nesta passagem tinha de estar inevitavelmente um fá e este homem sai-nos com um si bumol”. (Págs. 129,130)

4/12/2008

ECOLOGIA 1

WEISMAN, Allan, O Mundo Sem Nós, Ed. Estrela Polar, 2002, 2ª ed.
«Se os seres humanos desaparecessem» diz o ornitólogo Steve Hilty, «pelo menos um terço das aves da Terra poderiam nem dar-se conta disso».
(...) "Seríamos literalmente chorados por criaturas que não conseguem viver sem nós porque evoluíram a viver em nós: (...) o piolho do cabelo e do corpo."

4/09/2008

PERFORMANCE 1

GOLGBERG, Rosellee, A Arte da Performance, Lisboa, Ouro Negro, 2007
"A performance passa a ser reconhecida como meio de expressão artístico independente na década de 1970. Nessa época, uma arte que não se destinasse a ser comprada ou vendida estava no seu apogeu e a performance, frequentemente uma demonstração, ou execução, dessas ideias, tornou-se assim a forma de arte mais visível deste período. Surgiram espaços dedicados às artes da performance nos maiores centros artísticos internacionais, os museus patrocinavam festivais, as escolas de arte introduziam a performance nos seus cursos e fundavam-se revistas especializadas."
(...)
"Afinal os artistas não se serviam de performance para pura e simplesmente atrair publicidade sobre si próprios, mas com o objectivo de pôr em prática diversas ideias formais e conceptuais na base da criação arística."
(...)
"Devido à sua postura radical, a performance tornou-se um catalisador na história da arte do século XX; cada vez que determinada escola - quer se tratasse do cubismo, do minimalismo ou da arte conceptual - parecia ter chegado a um impasse, os artistas recorriam à performance para demolirem categorias e apontar para novas direcções. Além do mais, no âmbito da história da vanguarda - refiro-me aqui aos artistas que, sucessivamente, lideraram o processo de rutpura com a tradição - a performance situou-se, ao longo do século XX, no primeiro plano dessas actividades: uma vanguarda de vanguarda.
(...)
Os manifestos de performnce, desde os futuristas até aos nossos dias, representam a expressão de dissidentes que têm procurado outros meios de avaliar a experiência artística no quotidiano. A performance serve para comunicar directamente com um grande público, bem como para escandalizar os espectadores, obrigando-os a reavaliar os seus conceitos de arte e a sua relação com a cultura. O interesse recíproco do público por tal meio de expressão artística, sobretudo na década de 1980, provém de uma aparente vontade de ter acesso ao mundo da arte, de se tornar espectador dos seus rituais e da sua comunidade diferenciada, de se deixar surpreender pelas criações inusitadas, sempre transgressoras, destes artistas. A obra pode ter a forma de espectáculo a solo, ou em grupo, com iluminação, música ou elementos visuais criados pelo próprio performer ou em colaboração com outros artistas e ser apresentada em lugares como uma galeria de arte, um museu, um "espaço alternativo", um teatro, um bar, um café ou uma esquina. Ao contrário do que acontece na tradição teatral, o performer é o artista, quase nunca uma personagem, como acontece com os actores, e o conteúdo raramente segue um enredo ou uma narrativa nos moldes tradicionais. A performance pode também consistir numa série de gestos íntimos ou numa manifestação teatral com elementos visuais em grande escala e durar apenas alguns minutos ou várias horas; pode ser apresentada uma única vez ou repetidas vezes e seguir, ou não, um guião, tanto pode ser feita de improvisaçao espontânea como dar lugar a meses de ensaios. (in Prefácio)
"É a própria presença do artista performativo em tempo real, a "suspensão do tempo" pelos performers ao vivo, que confere a este novo meio de expressão uma posição central.
(...)
A expressão "arte de performance" tornou-se um signo abrangente que designa todo o tipo de apresentações ao vivo - desde intalações interactivas em museus a desfiles de moda altamente criativos ou a apresentações de DJs em clubes nocturnos - obrigando o público e os críticos a deslindarem as respectivas estratégias conceptuais, verificando se estas se enquadram melhor nos estudos de performance ou numa análise mais convencional de cultura popular."
(...)
"No passado a história da arte de performance assemelhava-se a uma sucessão de vagas: ia e vinha (...) Desde a década de 1970, porém esta sua história tem sido mais constante; en vez de de desistirem da performance, após um breve período de envolvimento activo (...) inúmeros artistas (...) têm trabalhado exclusivamente com a performance. (Págs. 281,2)

4/08/2008

HUISMAN, Denis, A Estética, Lisboa, ed. 70, 2008.
“A sociologia do século XX considera a arte com muito mais benevolência. Mas é justamente porque ela não encara a arte como um jogo gratuito, como aquela actividade indigna e estéril que o século XIX via nela frequentemente. Etienne Sourian no seu Avenir de l’ Esthétique notou a semelhança impressionante de arte e da industria, opondo no entanto o “trabalho operário” ao “trabalho de arte” apesar de ambos estarem unidos, tanto na arte como na indústria: quando o operário se contenta com “seguir a máquina” sem gosto, sem apreciação dos resultados, fazendo uma execução rigorosamente profissional, trata-se de um trabalho operário. Mas também o é o gesto “puramente habitual” do pintor que “pela centésima vez “refaz «o lago de Santa Cucufa, no mês de Maio, às dez horas da manhã» porque o empresário lho pede”; mais “operário” ainda do que o “trabalho de arte” do desenhador industrial que tem de fazer uma “obra inovadora”, ou do que o engenheiro dando as suas instruções para a carroçaria de luxo de um “Hispano-Suiza”. Assim, a arte e a indústria devem estar colocadas uma ao lado da outra, na divisão do trabalho social: não diferem pelo “processo, nomeadamente, manual ou mecânico”. Mas a arte é criadora e a indústria é produtora. A arte é, portanto, como que a quintessência da industria, é uma espécie de industria transcendente, isto é, a industria por excelência. Ars, no sentido de trabalhos muito sólidos. A arte dos jardins, a arte do oleiro, a arte do ferreiro, são actividades simultaneamente estéticas e utilitárias. Não se pode aliás destruir a arte sem destruir ao mesmo tempo todas as grandes actividades humanas: pois a arte é substancial a todas as divisões do trabalho social. Não é possível isolá-la. Mas é preciso tentar reconhecê-la onde quer que esteja, fazê-la sair dos seus inúmeros esconderijos. É preciso analisá-la onde se esconde. Como não é possível tentar estudá-la através das suas inúmeras especificações, há que surpreendê-la nas atitudes dos que a vivem, que a sofrem e que a sentem. Renunciando a uma metafísica do Belo, há que tentar uma Psicologia da Arte." (Págs. 80/1)
(…)
“O Belo não tem existência física” dizia Benedetto Croce. O mesmo é dizer que o objecto não conta: só importa o sujeito. Se não se pode conhecer a arte por métodos objectivos, onde se poderá encontrar a sensibilidade estética? Principalmente na psicologia do produtor, do consumidor, do operário e do utente, mas também no estudo dos seus traços de união, o intermediário, o intérprete (seja virtuoso ou negociante de quadros). Noutros termos, trata-se essencialmente de estudar a criação, a contemplação e execução da obra de arte. (Págs. 83)

“O carácter estético de um objecto não é uma qualidade desse objecto mas uma actividade do nosso eu, uma atitude que assumimos em face do objecto” (Victor Basch, citado pág. 83)

“Não sei quem teria dito, nem onde, que a literatura e as artes influenciam os costumes. Quem quer que fosse, é indubitavelmente um grande idiota, é como se alguém dissesse: as ervilhas fazem crescer a Primavera. (Theophile Gautier, citado pág. 114)

4/07/2008

FASCISMO 2


PAXTON, Robert D., The Anatomy of Fascism, London, Penguin Books, 2005
“Can Fascism still exist? Clarly Stage One mouvements can still be found in all major democracies. More crucially, can they reach Stage Two again by becoming rooted and influencial? We need not look for exact replicas, in which fascists veterans dust off their swastikas. Collectors of Nazi paraphrenalia and hard-core neo-Nazi sects are capable of provoking destructive violence and polarization. As long as they remain excluded from the alliances with the establishment necessary to join the political mainstream or share power, however, they remain more a law and order problem than a political threat. Much more likely to exert an influence are extreme right mouvements that have learned to moderate their language, abandon classical fascist symbolism, and appear “normal”.
It is by understanding how past fascisms worked, and not by checking the color of shirts, or seaking echoes of the rethoric of the national-syndicalist dissidents of the opening of the twentieth century, that we may be able to recognize it. The well-known warning signals – extreme nationalist propaganda and hate crimes – are important but insufficient. Knowing what we do about the fascist cycle, we can find more ominous warning signals in situation of political deadloock in the face of crisis, threatened conservatives looking for their allies, ready to give up due process and the rule of law, seeking mass support by nationalist and racialist demagoguery. Fascist are close to power when conservatives begin to borrow their techniques, appeal to their “mobilizing passions” and try to co-opt the fascist following.Armed by historical knowledge, we may be able to distinguish todday’s ugly but isolated imitations, with their shaved haeds and swastiks tatoos, from authentic functional equivalents in the form of a mature fascist-conservative alliance. Forewarned, we may be able to detect the real thing when it comes along.

4/01/2008


Relaciona-te e serás.
Kriu

POLÍTICA 1

WOLFSON, Adam, in AAVV Direita e Esquerda, Divisões Ideológicas do Sec. XXI, Lisboa, Univ. Católica, 2007.
“Se não tivéssemos perdido de vista os fins próprios da educação, se não começássemos a considerá-la como uma forma de expandir os campos da memória e da velocidade de processamento do pensamento, nunca aceitaríamos a engenharia genética como uma ferramenta legítima de educação”
“Nós não estamos a submeter as máquinas à nossa vontade, estamos a lançar-nos para os seus braços” (sem notação de páginas).

GESTÃO 4

António Câmara
(Prémio Pessoa 2006, pela inovação, extractos de entrevista publicada in: aeiou.expressoemprego.pt ; ooh. 20 m.; 2008/04/01 )
Como é que surgiu a Y-Dreams?
Esta empresa resulta de dez anos de investigação em multimédia, realidade virtual e computação móvel no seio da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Ao fim desses dez anos muitas das pessoas do grupo foram convidadas para irem para empresas em Silicon Valley e para universidades americanas. Eu fui como professor visitante para o American Research Institute of Technology durante 98/99. Nesse ano cheguei à conclusão que em muitas áreas, daquelas que eu citei, tínhamos vantagens comparativas e na altura eu pensei desenvolver um laboratório de investigação que rivalizasse com a Medialab. Quando cheguei a Portugal verifiquei que a melhor alternativa era criar uma empresa no seio da universidade. Isto foi em Junho de 2000. Nós iniciámos as operações nessa altura e dois anos depois estamos, de facto, muito satisfeitos com a opção tomada.
O que é que esta empresa traz de novo ao mercado das novas tecnologias?
Nós temos três áreas totalmente novas a nível mundial. A primeira é que nós percebemos que através do telemóvel as pessoas podem ter uma relação com o espaço exterior muito mais próxima e isso significa que os tradicionais sistemas de informação geográfica, que são baseados em mapas da cidade, podem ser substituídos por mapas muito mais refinados, e assim criámos um novo conceito a que chamámos microgeografia em que, por exemplo, um livro numa prateleira de uma biblioteca pode ser georreferenciado. Estamos a estabelecer relações a nível mundial com operadores de supermercados, com as pessoas que estão a criar os novos códigos de barras que vão ser baseados em rádio para trazer toda essa nova abordagem para os utilizadores de telemóvel, de forma que uma pessoa quando está num centro comercial sabe onde é que deixou o carro, sabe onde é que está a loja que pretende e dentro da loja sabe onde está o produto que pretende. Isso vai demorar algum tempo a posicionar-se no mercado mas vai ser uma revolução.A segunda área que nós desenvolvemos, mesmo antes dos telemóveis terem imagem, primeiro com o WAP, mas sobretudo com o Multimedia Messaging Service, foi a de criar ferramentas para processamento de imagem já há dois anos que permitem, por exemplo, visualizar os golos de futebol em telemóveis, ver as imagens do trânsito, ver imagens relacionadas com câmaras de segurança. Novamente criámos uma série de ligações a nível internacional que nos permitem ver o futuro com alguma esperança.Finalmente, nós percebemos que o telemóvel é a primeira ferramenta de interface para algo a que todos nós pertencemos, que são as comunidades. Cada pessoa tem o seu clube, tem um partido, tem uma igreja, tem um grupo de amigos, etc. Portanto está inserido num conjunto de comunidades e nós achamos que o telemóvel vai ser a principal interface da pessoa dessas comunidades. Tem os números à mão, tem os menus à mão, tem tudo o que precisa e o que nós fizemos foi começar a criar esse conceito, de telemóveis para as comunidades. E os telemóveis abrem-se e têm um conjunto de menus que representam as diferentes comunidades a que a pessoa pertence. São estes três conceitos: microgeografia, imagens em telemóveis e telemóveis para as comunidades que são as nossas principais vantagens comparativas desta empresa
Qual é o seu papel?
Eu sou essencialmente o director geral e o meu papel passa por ser o rosto da empresa. Tenho tido um papel preponderante a definir a visão da empresa e fundamentalmente a recrutar pessoas melhores do que eu.
Mas a ideia também partiu de si, não foi?
A ideia partiu de mim mas a melhor coisa que eu tenho feito é recrutar pessoas melhores do que eu.
Video com palavras de António Câmara:

POEMA 2

Eu acendo a beleza das planícies
Faço brilhar as águas,
Queimo-me ao sol, à lua e à luz das estrelas...
Adoro tudo na terra.
Sou a brisa que alimenta todas as coisas verdes...
Sou a chuva que vem do orvalho e que leva as ervas
A rirem com a alegria da vida

Alegremo-nos nós também.

(Abadessa Hildegard, séc. XII)
Se todos nós fizéssemos as coisas que temos capacidade para fazer,
ficaríamos verdadeiramente impressionados connosco mesmo.
Thomas Edison

TEATRO 7




Bonifácio do Paraíso


Texto, encenação e interpretação:
Carlos G Melo

Adereços:
Carlos G Melo e Gabriela Fonseca

Dias: 18, 19 e 25, 26
Abril de 2008 às 22h

Sala Estúdio
Fábrica Braço de Prata

Poço do Bispo
Autocarros: 28 e 755

Reservas: 961472408






3/31/2008

Uma vida programa-se mas não se retoca.
Kriu

Se as pessoas se habituam a fazer aquilo que lhes apetece já não conseguem fazer o que querem
J. P. Abreu

POEMA 3

Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim

(Adília Lopes, in Caras Baratas, Relógio d' Água)

3/30/2008


CAPITALISMO 6

GREENSPAN, Alan, A Era da Turbulência Contribuição para um Mundo em Mudança, Presença, 2007
“O que está a acontecer é que milhões de negociantes de todo o mundo procuram comprar títulos subvalorizados e vender aqueles que parecem ter um preço exagerado. É um processo que melhora continuadamente a eficiência de canalização das escassas poupanças para os investimentos mais produtivos. Este processo, apesar de caracterizado pelas críticas populistas como especulação, contribui em muito para o crescimento da produtividade de um país e do seu nível de vida. Porém, a incessante procura de vantagens vai equilibrando continuadamente a oferta e a procura, a um ritmo demasiado rápido para a compreensão humana. Forçosamente os negócios estão a ficar cada vez mais computarizados, e a negociação “ruidosa” no centro do salão da bolsa de Valores ou de Mercadorias está a ser rapidamente substituída pelos algoritmos dos computadores. (…) a distinção entre o que constitui finanças e comércio desaparecerá em grande parte.
Os mercados tornam-se demasiado grandes, complexos e acelerados para estarem sujeitos à supervisão e às normas do século XX. Não admira, então, que este monstro financeiro globalizado ultrapasse a plena compreensão até dos mais sofisticados participantes no mercado. Os reguladores financeiros têm de fiscalizar um sistema bem mais complexo do que o existente quando as normas que regiam os mercados financeiros começaram por ser escritas. Hoje, a fiscalização destas transacções processa-se essencialmente através da vigilância individual dos parceiros intervenientes no mercado. Cada entidade de crédito protege os seus accionistas e controla as posições dos investimentos dos seus clientes. Os reguladores podem continuar a fingir que fiscalizam mas as suas capacidades estão muito diminuídas e tendem a reduzir-se ainda mais. Durante mais de dezoito anos, eu e os meus colegas do Conselho de Governadores presidimos a grande parte deste processo no FED. Só tardiamente nos apercebemos de que o poder de regular administrativamente estava a desaparecer. (…) Dado os mercados se terem tornado demasiado complexos para a intervenção humana eficaz, as políticas anti-crise mais promissoras são aquelas que mantêm a máxima flexibilidade do mercado, liberdade de acção para os principais participantes no mercado, como os fundos de risco, os fundos privados de acções e os bancos de investimento.
(…)Muitos críticos acham perturbadora esta confiança na mão invisível como precaução e reforço, perguntam-se não deveriam os agentes financeiros mundiais como os ministros das Finanças e banqueiros centrais procurar regulamentar esta nova e imensa presença global? Há quem defenda que, se não fizer bem, a regulação global não fará mal. Mas faz. A regulação, pela sua própria natureza, inibe a liberdade de acção do mercado e é essa liberdade de agir expeditamente que reequilibra o mercado. Elimine-se a liberdade e todo o processo de equilíbrio do mercado é posto em risco. (…) No mundo dos nossos dias, não consigo ver de que forma um aumento de regulação governamental poderia ajudar. A recolha de dados sobre os balancetes dos fundos de risco, por exemplo, seria inútil uma vez que provavelmente estariam obsoletos antes de a tinta secar. Deveríamos criar um sistema de informação global com as posições dos fundos de risco e fundos de acções privadas para ver se existem quaisquer concentrações que possam indiciar riscos de implosões financeiras? Há quase seis décadas que lido com relatórios dos mercados financeiros. Não conseguiria determinar através desses relatórios, se as concentrações de posições reflectiam de facto a actividade que compete aos mercados – eliminar os desequilíbrios do sistema – ou se estaria para surgir algum negócio perigoso. Surpreende-me-ia deveras se alguém o conseguisse. Na verdade a “mão invisível” pressupõe que os participantes no mercado ajam de acordo com os seus interesses. E há ocasiões em que as pessoas correm riscos manifestamente desnecessários. (…) Globalmente, o quadro de problemas financeiros com que o próximo quarto de século se confronta não é muito risonho. No entanto já suportámos bem pior. Nenhum deles afectarão para sempre as nossas instituições, nem sequer é provável que derrubem a economia americana do seu lugar de liderança mundial. (Págs. 524/526)
“Até que ponto é o nosso actual sistema, desenvolvido para um mundo em que os valores físicos predominavam, adequado a uma economia em que o valor é cada vez mais consubstanciado em ideias e não em capitais palpáveis? Infelizmente, a decisão económica mais importante que os nossos legisladores e tribunais enfrentarão nos próximos vinte e cinco anos é a redefinição das regras da propriedade intelectual.” (Pág. 533)
“A situação da Europa Ocidental permanecerá pouco clara até os europeus concluírem que não podem manter um Estado-providência que exige uma população cada vez maior para o financiar. Com a sua taxa de natalidade muito abaixo do ritmo de substituição natural e pouco as previsões que antevejam uma recuperação, a força de trabalho da Europa Continental, a menos que seja significativamente reforçada por novos trabalhadores emigrantes, tende a diminuir e o número de idosos e dependentes a aumentar. Contudo a Europa não mostra vontade de acolher mais imigração. Para combater tudo isto, a produtividade da Europa teria de aumentar a um ritmo que parece estar fora do seu alcance. Reconhecendo este problema, o Conselho da Europa avançou em 2000, com um projecto ambicioso, a Agenda de Lisboa, para tornar a tecnologia do continente líder mundial. No entanto o programa sofreu atrasos e acabou por ser suspenso. Sem aumento de produtividade, é difícil ver de que forma a Europa pode continuar a manter o papel dominante que desempenhou na economia mundial desde o final da II Guerra Mundial. Mas o aparecimento de novos líderes na França, na Alemanha e na Grã-Bretanha pode constituir um sinal de que a Europa irá fortalecer o seu compromisso com os objectivos de Lisboa. A aparente convergência de perspectivas económicas de Nicolas Sarkozy, Ângela Merkel e Gordon Brown fez que o ressurgimento da Europa se afigure mais provável.” (Pág. 535)

3/29/2008

BIOLOGIA 2

FISHER, Helen, A Natureza e a Química do Amor Romântico. Porque Amamos, Lisboa, Relógio d’ Água, 2008
(…) num estudo recente sobre a selecção de parceiros na América, os biólogos evolucionistas Peter Buston e Stephen Emlen dizem que os homens e as mulheres jovens (…) escolhem pessoas com as mesmas características. (…) O espelho fala. Homens e mulheres também tendem para ter amantes que partilhem o mesmo sentido de humor, que têm valores sociais e políticos semelhantes, e para indivíduos que tenham opiniões idênticas acerca da vida, em geral. Digno de nota é o facto de os cientistas terem determinado que muitas dessas características, incluindo os interesses ocupacionais de cada um, que se faz nas horas de lazer, muitas das nossas atitudes sociais, até a firmeza da nossa fé em Deus, são influenciadas pelos nossos genes. Portanto, os tipos genéticos tendem uns para os outros; temos tendência para sermos atraídos por pessoas como nós. (…) A preferência por parceiros semelhantes a nós é, provavelmente, bagagem que acompanha o processo evolutivo. Porquê? Porque um feto e a sua mãe são estranhos um ao outro. Se partilharem uma composição química semelhante, a mãe terá o tempo mais facilitado enquanto carregar o filho no ventre. Com efeito, parceiros geneticamente semelhantes registam menos abortos espontâneos e geram bebés que são também mais saudáveis.” (pág. 109)
(Sob a rubrica “Amor sem idade”):
“Hoje há muito mais pessoas idosas que vivem sós, em vez de viverem com os filhos. E são saudáveis. De facto, alguns demógrafos dizem que devemos começar a pensar em estender a meia-idade para os 85 anos, em grande parte porque 40% dos homens e mulheres com essa idade são perfeitamente funcionais. A humanidade está a ganhar tempo para amar.
A tecnologia está a ajudar. Hoje, cremes e pensos de testoterona mantêm o impulso sexual activo. O viagra e outros medicamentos permitem aos séniores, na grande maioria homens, ter um bom desempenho na cama. (…) Começamos cedo também. Na sociedade dos caçadores colectores as crianças começam muitas vezes a brincar ao sexo e ao amor com a tenra idade de cinco ou seis anos.
(…) “Na verdade estamos constituídos de modo a poder amar em qualquer idade. As crianças apaixonam-se. Num estudo notável sobre o amor romântico na infância, o número de jovenzinhos de cinco anos que declarou já se ter apaixonado foi igual aos dos de dezoito anos. (…) Curiosamente, um estudo que abrangeu 255 pessoas, entre adolescentes, adultos jovens, homens e mulheres de meia-idade e cidadãos séniores, os cientistas não encontraram nenhuma diferença generalizada na intensidade da paixão de cada grupo: homens e mulheres amavam com igual força, quer tivessem sessenta, quer tivessem dezasseis anos. As pessoas mais velhas fazem coisas mais variadas e mais imaginativas juntas. Mas a idade não faz diferença nos sentimentos de amor romântico” (Págs. 209/10)

GESTÃO 5

HOLMES, Chet, A Verdadeira Fábrica de Fazer Dinheiro, Casal de Cambra, Ed. Caleidoscópio, 2008.
"Se lhe tocar, resolva. É esse o primeiro passo para uma óptima gestão do tempo. Não abra um e-mail ou carta até estar pronto para lidar com eles." (...) Faça uma lista das seis coisas mais importantes que precisa de fazer e, dôa a quem doer, conclua-as nesse dia. Não significa que não possa manter uma lista de questões pendentes. Quando planeia cada dia, pode ir à sua lista longa e usá-la como fonte de itens donde retira a sua lista de seis coisas mais importantes para esse dia. (...) Não decida já quando vai fazer cada tarefa. Determine apenas, de forma realista, o tempo que vai dedicar a cada tarefa. Este é um passo importante para garantir que os seis itens da sua lista se concretizam num só dia" (págs. 39/40).

"


POEMA 4

Poemas de Amor do Antigo Egipto, Assirio e Alvim,
....
Hora da refeição: tempo de partires?
Temo que o estômago seja a tua única amante.
Para quê a pressa? Porquê ir comprar roupa
a uma hora destas? Porquê inquietares-te, meu amor?
São finos os cobertores da minha cama.
Tens sede?
Toma o meu seio
exuberante.
......
Andar a mergulhar e a nadar aqui contigo
Dá-me a oportunidade de que eu estava à espera:
Mostrar os meus atributos
Ante olhar apreciador.
O meu fato de banho do melhor material
De tecido puro,
Agora que ficou molhado
Vê-lhe a transparencia
Como está colado ao corpo.
Tenho de admitir que te acho atraente
Afasto-me a nadar mas logo venho para trás,
A chapinhar, com conversas,
Só desculpas para ter a tua companhia.
Olha! Um peixe doirado a saltar entre os meus dedos!
Vê-lo-às melhor
Se te chegares aqui
Para o pé de mim.
.....
Assim sofro pelo amor perdido
O desgosto fez-me perder metade do cabelo
Vou pô-lo aos caracóis e arranjá-lo
Pronta para o que der e vier...
.....
Lá está ele
Subamos para o abraçar
E fazer que aqui fique o dia todo.

3/28/2008

Seja o que for que queira fazer, seja qual for o sonho que tiver, comece já.
A ousadia traz-nos genialidade, poder e magia. Comece já!
Goethe

ARTE 2


Confesso que não sei onde fui buscar este naco, que recuperei da lixeira. Será H. Eco?
(…)
“Um outro problema que a teoria da arte debate, e também aqui sem satisfazer plenamente as novas exigências manifestadas pela prática e pela auto consciência dos poetas, é o problema da ideia exemplar em função da qual o artista trabalha, e por isso o problema da invenção. Durante o desenvolvimento da estética antiga, o conceito platónico da ideia, servido originariamente para desvalorizar a arte, torna-se cada vez mais conceito estético, apto a significar o fantasma interior do artista. Todo o helenismo tinha efectuado uma revolução teorética do trabalho do artista, e cada vez mais se inclinava a pensar que ele fosse capaz de propor uma imagem ideal de beleza desconhecida na natureza. Com Filóstrato pensa-se agora que o artista se pode emancipar dos modelos sensíveis e das percepções habituais. Entra em vigor um conceito de fantasia que contém já – segundo alguns intérpretes modernos – todos os pressupostos de uma estética da intuição (Cf. Rostagni, A., Sulle tracce di un’ estetica dell’ intuizione presso gli antichi, in Sritti minori. Aesthetica, Turim, bottega d’ Erasmo, 1955. pág. 356) Os estóicos contribuem para este desenvolvimento com o seu inatismo e Cícero, no De Oratore, expõe uma doutrina do fantasma interior melhor que toda a realidade sensível”.

3/27/2008

A verdadeira compaixão é mais do que atirar uma moeda a um pedinte;
é perceber que uma estrutura que produz pedintes precisa de ser reeestruturada
Martin Luther King Jr.

ALTERNATIVA 2

BORNSTEIN, David, Como Mudar o Mundo, Lisboa, Ed. Oficina do Livro, 2007.
“Os empreendedores sociais existiram desde sempre. São Francisco de Assis, fundador da Ordem de Assis, poderia ser considerado um empreendedor social, tendo criado várias organizações que geraram mudanças de padrão na sua área. A diferença nos dias de hoje é que o empreendimento social está a passar a constituir-se como uma vocação e uma área predominante (…) O crescimento do empreendedorismo social pode ser encarado como a vanguarda de um desenvolvimento notável e ocorreu por todo o mundo nas últimas três décadas: o surgimento de milhões de novas organizações de cidadania” (Pág. 30)

“Apesar de essas organizações estarem longe de ser recentes, esta mobilização dos cidadãos a nível mundial é nova em vários aspectos:
1. Está a ocorrer a escala nunca antes vista.
2. As organizações são globalmente mais diversas e díspares que no passado.
3. Cada vez mais encontramos organizações que passam das soluções de “tapa buracos” para abordagens sistémicas dos problemas – oferecendo melhores receitas e não apenas comida.
4. As organizações de cidadania estão menos ligadas à Igreja e ao Estado e, na verdade, exercem uma pressão considerável sobre os governos (como se viu com a Campanha Internacional Para a Proibição das Minas Terrestres e com a criação do Tribunal Penal Internacional.)
5. Estão a fazer parcerias com empresas, instituições académicas e governos – criando novos mercados e segmentos de actividade de impacto social híbrido, acumulando uma diversidade de experiências para a resolução de problemas e alterando a forma como os governos funcionam.
6. Devido às lutas por posições que normalmente ocorrem quando um sector que era restrito passa a ser de “entrada livre”, e novos jogadores entram em campo, o sector da cidadania está a aproveitar os efeitos benéficos do empreendedorismo, maior concorrência e colaboração e uma crescente preocupação com o desempenho.” (págs. 31/2)

“Aos cidadãos que procuram criar organizações não basta ter liberdade; é preciso dinheiro. Tem de haver um excedente de riqueza na economia para financiar o seu desempenho. (…) Actualmente existem muitas organizações de cidadania que estão a desenvolver mecanismos para gerar a sua própria riqueza, através de actividades lucrativas” (pág. 33)

3/25/2008

ARTE 3

TASCHEN (Edições de Arte)
(in lombada de edição de www Giger com)
"A grande aventura Taschen começou em 1980, quando Benedikt Taschen, de 18 anos, abriu uma loja em Colónia, sua cidade natal, na Alemanha, para negociar a sua enorme colecção de banda desenhada. Ao fim de um ano começou a publicar catálogos que promoviam os seus artigos, mas só em 1984 surge o seu primeiro livro sobre Arte: adquiriu 40 000 exemplares de um livro sobre Magritte, editado em inglês, vendendo-os depois a um preço mais barato que o preço original.
Desde muito cedo que Taschen se interessava por Arte mas considerava que os livros de Arte eram demasiado caros e difíceis de obter.
(...) 25 anos depois de Benedikt Taschen ter aberto a pequena loja de banda desenha a Taschen transformou-se numa das mais importantes e singulares editoras no mercado mundial (...) we love to love books

TESTEMUNHOS 1

O Papalagui discursos de Tuiavii, chefe da tribo de Tiavea nos mares do Sul, Lisboa, ed. Antígona, 2007.

(Nota de kriu: “Papalagui” significa “homem branco” e estes discursos, transcritos por um europeu, foram feitos por Tuiavii à sua tribo, no regresso de uma viagem à Europa, no início do século XX, com o objectivo de contar o que viu.
Este Papalagui é, porventura, um best-seller editorial português. Li o Papalagui no final dos anos sessenta e tenho-o visto sucessivamente reeditado. )

“Os jornais são maus para o nosso espírito, não só porque relatam o que se passa mas também porque nos dizem o que devemos pensar disto ou daquilo, dos nossos chefes de tribo ou dos chefes de tribo doutras terras, e de todos os acontecimentos e acções dos homens. Os jornais gostariam que todos os homens pensassem o mesmo. Atacam a cabeça e os pensamentos do indivíduo. Pretendem que toda a gente tenha cabeça e pensamentos iguais aos deles. E sabem como levar isso a cabo. Quem leia, pela manhã, os muitos papéis saberá o que, ao meio-dia, o Papalagui tem na cabeça e o que pensa” (pág. 62)

“Todos os Papalaguis têm uma profissão. É difícil de explicar o que isso é. É qualquer coisa que uma pessoa devia ter vontade de fazer, mas raramente tem. (…) Há entre os Papalaguis tantas profissões quantas pedras há na lagoa. (…) O Papalagui transforma tudo quanto o homem é capaz de fazer numa profissão.(…)É raro que um Papalagui adulto saiba ainda dar trambolhões ou fazer cabriolas como uma criança. Ao andar arrasta o corpo, como se houvesse alguma coisa pesada a entravar-lhe os movimentos. (…) A profissão é, também ela, um aitu que dá cabo da vida, e promete belas coisas ao homem e ao mesmo tempo que lhe suga o sangue” (Págs. 52/54)




3/24/2008

ROCK 1

FOWLIE, Wallace, Rimbaud e Jim Morrison, os poetas rebeldes, Rio de Janeiro, Elsevier Editora, 2005.
(S/ o concerto de Miami, em 1 de Março de 1969):
"O estado de embriaguês por si só provavelmente não era suficiente para justificar o comportamento obsceno de Jim. Graças a Artaud, ele havia se interessado pelo Living Theatre, de Julien Beck e sua esposa, Judith Molina. Era comum os atores subirem nus ao palco, onde encenavam as suas peças e improvisavam esquetes. A explicação que J. Beck oferecia para aquele comportamento era a mesma de Artaud: a necessidade de sacudir o público, de retirá-lo do seu costumeiro estado semiletárgico.
Jim estava desmoralizado e fez o melhor que pode para desmoralizar o público. Existem diversas versões para o incidente e todas concordam que o que transpareceu aquela noite em Miami interrompeu em definitivo a trajectória do grupo. Jim incentivou os fans a subirem ao palco. Jim e um policial trocaram de quepe. Jim foi jogado na plateia onde organizou um trem humano. A fila que se formou atrás dele era enorme. De volta ao palco, Jim arrancou a camisa e a jogou para a multidão. Começou a abrir as calças e mais tarde declarou que acreditava ter-se mostrado.
Quando foi expedida a ordem de prisão, ele foi acusado de atentado violento ao pudor, acto obsceno e de simular sexo oral. O caso foi noticiado em toda a parte. "O Rei Lagarto se despe." Imediatamente uma grande turnê dos Doors que correria vinte cidades foi cancelada. (...) Os Doors foram banidos em toda a parte. O presidente Nixon deu o seu apoio aos organizadores de manifestações que condenavam o grupo. (Págs. 118/9)

S/ o concerto no México, em Junho de 1969:
"Danny Sugerman conta que foi das melhores apresentações de toda a história da banda. Jim tinha deixado crescer a barba e foi recebido calorosamente, apesar da publiciade negativa. Na primeira noite os mexicamos pareceram não ter entendido "The End". Mas nas noites seguintes, eles pediram a música. Quando Jim cantava "Father/yes son" os rapazes respondiam em uníssono os versos seguintes: "I want to kill you". ("Pai, quero matar-te" n.k.)

(...) Parecia que o escândalo de Miami havia sido superado. Um ensaio escrito por um jovem dramaturgo, Harvey Perr, publicado no Los Angeles Free Press, apresentava uma visão inédita sobre os The Doors. Perr falou da simpliciade das músicas. Foi dos primeiros críticos a ver em Jim um autêntico poeta americano da linhagem de Walt Whitman. Para ele, a mensagem revolucionária da música dos The Doors transcendia o rock, que seria uma forma de expressão mais limitada." (Págs. 119/20).

Sangue nas ruas da cidade de Chicago
Indios espalhados pelas estradas ao raiar do dia
Sangue nas ruas da cidade de New Haven

3/23/2008

EDUCAÇÃO 1

BRUCE, Ian, O Livro do Pai, Lisboa, Presença, 2008
(…)uma das melhores maneiras para gerir os seus níveis de stress é aprender a disciplina da meditação diária (…). Praticada regularmente contribui para reduzir os níveis de stress, baixar a tensão arterial, podendo ser mesmo uma boa ajuda para vencer vícios físicos, como o do tabaco.
(…) Sente-se no chão (…) e feche os olhos. Respire fundo algumas vezes e deixe o corpo relaxar. Mantenha a coluna o mais direita possível e pouse as mãos descontraídas no colo ou nos joelhos. Agora concentre toda a atenção na forma como respira. “Veja” o ar entrar pelas narinas a cada inspiração e sair de novo a cada expiração. Se quiser pode contar os tempos “um” para a inspiração, “dois” para a expiração, “três” para a inspiração seguinte, etc., recomeçando de princípio quando tiver contado até dez.
Prossiga com a mesma actividade durante vinte a trinta minutos, esforçando-se por se manter constantemente concentrado na respiração. É uma técnica que irá dominar com a prática e, de início, pode custar-lhe bastante manter a concentração. É natural que haja outros pensamentos a querer interrompê-lo (…) Ignore todas as distracções e volte a atenção uma vez mais para a forma como respira.
Quando terminar a sessão não salte como uma mola para regressar aos afazeres do seu dia. Respire fundo e devagar mais algumas vezes, abra os olhos e deixe que a calma da meditação o acompanhe quando voltar às suas obrigações normais.
(…) Precisa de meditar todos os dias, de preferência duas vezes ao dia e deixar que os benefícios cheguem gradualmente, quando tiverem de chegar. Se assim fizer, irá perceber que ao fim de alguns meses a meditação melhora a sua vida, muito mais do que neste momento supõe. (Págs. 150/1)

3/21/2008

CAPITALISMO 7

SOROS, George, A Era da Falibilidade, Coimbra, ed. Almedina, 2008, ca. 17 eos

“Achei que a sociedade aberta estava em perigo nos Estados Unidos – não tanto por causa dos ataques terroristas, mas antes devido à forma como o presidente Bush reagiu a esses ataques. (…) O presidente Bush resolveu invadir o Iraque com pretextos falsos. Quando a nação mais poderosa do mundo distorce a verdade, ignora a opinião mundial e insulta o direito internacional, a ordem mundial corre um grande perigo.” (pág. 135)

“Que acontece entre 1950 e 1980 aos Estados Unidos? (…) atribuiria a transformação sobretudo à ascensão do consumismo e à sua aplicação à política. Desde 1980 que a recusa de encarar a realidade tem sido exacerbada pela globalização. (…) A oferta e a procura deixaram de ser dadas de forma independente, porque a procura foi estimulada artificialmente e os mercados já não lidam com mercadorias mas sim com marcas. (…) As empresas já não supriam necessidades mas sim os desejos e manipulavam e estimulavam esses desejos. (…) Foi assim que se desenvolveu o consumismo. Foi fomentado pelas empresas na sua procura de lucros.
A pouco e pouco, os métodos desenvolvidos para uso comercial descobriram um mercado na política. Este facto alterou a política. A ideia original das eleições era que os candidatos se apresentavam e anunciavam aquilo que defendiam; o eleitorado escolheria então aquele de quem mais gostava. (…) Mas o processo foi corrompido pelos métodos adoptados da vida comercial: grupos-alvo e mensagens apelativas. Os políticos aprenderam a ir ao encontro dos desejos dos eleitores, em vez de proporem as políticas em que acreditavam. Os eleitores não deixaram de ser afectados. (...) Foi assim que a América se tornou hedonista. Foi fomentado pelos políticos que queriam ser eleitos (...) Os Estados Unidos foram também os grandes patrocinadores da globalização que, por sua vez, foi uma dávida para os Estados Unidos. Mas a posição dominante dos Estados Unidos não pode ser conservada por uma sociedade hedonista, incapaz de enfrentar realidades desagradáveis.” (págs. 164/5)

TESTEMUNHOS 2


FEYNMAN, Richard P., O significado de Tudo, Gradiva, 2ª ed. 2005 (três conferências proferidas em 1963.)

“A civilização ocidental, parece-me, assenta em duas grandes heranças: uma é o espírito científico, a aventura em direcção ao desconhecido, um desconhecido que tem de ser reconhecido como tal para ser explorado, a exigência de que os mistérios mais profundos do universo permanecem sem resposta, a atitude de que tudo é incerto. Em resumo: a humildade intelectual.
A outra grande herança é a ética cristã. A acção baseada no amor, a irmandade de todos os homens, o valor do indivíduo, a humildade do espírito. Estas duas heranças são lógica e profundamente consistentes. Mas não é tudo. Precisamos de coração para seguir uma ideia. Se as pessoas regressarem à religião a que estão a regressar? Será a igreja moderna um lugar que dê consolo a um homem que duvide de Deus? Mais, a um que não crê em Deus? Será a igreja moderna o lugar para confortar e encorajar alguém com estas dúvidas? Não teremos, até hoje, canalizado a força e consolo de cada uma destas heranças consistentes para atacar os valores da outra? Será isto inevitável? Como podemos canalizar a inspiração para sustentar estes dois pilares da civilização ocidental de modo que possam manter-se juntos com total vigor, sem receio um do outro? Isso não sei. Mas colocar esta interrogação é o melhor que posso fazer a propósito da relação entre a ciência e a religião que foi no passado, e ainda é, uma fonte de código moral, bem como de inspiração para seguir esse código.” (Págs. 56/7)

“Suponhamos que dois políticos concorrem à presidência e no contacto com os agricultores lhes perguntam: “o que tenciona fazer a propósito da questão agrícola?” Um deles sabe imediatamente o que deve fazer e responde – bang, bang, bang. O outro concorrente, por sua vez, afirma: “Bem, não sei. Sou general e nada sei de agricultura. Mas parece-me ser um problema muito difícil. (…) Portanto a maneira como entendo resolver o problema da agricultura é rodear-me das pessoas que sabem algo sobre ele, estudar todas as experiências que foram tentadas e despender algum tempo a ponderar e a tentar chegar a alguma conclusão sobre a possível solução de um modo razoável, não posso dizer-lhes agora, antecipadamente, qual vai ser essa conclusão mas posso indicar-lhes alguns princípios que tentarei seguir – não dificultar a vida dos agricultores individuais; se houver problemas arranjar um modo de tratar deles; etc.”.
É claro que neste país este homem nunca chegaria a lado algum. Faz parte da atitude mental da população o imperativo de responder e que um homem que dá uma resposta é melhor do que aquele que não responde, quando em muitos casos é precisamente o oposto. O resultado desta atitude é evidente, é que o político tem que dar uma resposta. E, resultado disso, é as promessas eleitorais nunca poderem ser cumpridas. É um facto mecânico: é impossível. E daí ninguém acreditar nas promessas eleitorais. E o resultado é o descrédito geral dos políticos, uma falta de respeito geral pelas pessoas que tentam resolver os problemas e a assim sucessivamente. Tudo isto é gerado desde o início (talvez – esta é uma análise simplificada). Talvez seja tudo gerado pelo facto de a atitude da população ser a de exigir uma resposta, em vez de tentar encontrar um homem que tenha uma maneira de chegar à resposta” (págs. 73/74)

“Portanto, em resumo, não pode provar-se nada a partir de uma ou duas ocorrências. Tudo deve ser cuidadosamente verificado. A não ser assim tornamo-nos naquelas pessoas que acreditam em toda a espécie de coisas loucas e não percebem nada do mundo em que vivem. Ninguém compreende o mundo em que vivemos mas alguns percebem bem mais do que outros” (pág. 90)

“O que estou a pedir em muitas direcções é uma honestidade humilde. Acho que devia haver uma honestidade mais humilde em questões políticas. E acho que desse modo seríamos mais livres.
Gostava de sublinhar que as pessoas não são honestas. Os cientistas também não são honestos. É inútil. Ninguém é honesto. Os cientistas não são honestos. E as pessoas habitualmente pensam que o são. Isso ainda é pior. Por honesto não pretendo dizer apenas que se diga a verdade. Mas que se esclareça toda a situação. Que se deixe bem claro toda a informação necessária para que alguém inteligente possa tirar as próprias conclusões.
Por exemplo, em relação aos testes nucleares não sei se sou a favor ou contra eles. (…) Por isso não estou a dizer de que lado estou. Por isso sobre este assunto, posso ser humildemente honesto. “ (Pág. 111)

“Há uma coisa sobre o futuro que vejo com optimismo. Acho que há muitas coisas a trabalhar na direcção correcta. Em primeiro lugar, o facto de haver tantas nações e de se darem ouvidos umas às outras em virtude da comunicação, mesmo que tentem fechar os ouvidos. Por isso, há toda a espécie de opiniões a circular e o resultado político é o de que é mais difícil eliminar as ideias. E algumas das dificuldades que os Russos estão a ter para controlar pessoas como o Sr. Nakhrasov são um tipo de dificuldades que espero continuem a desenvolver-se” (pág. 123)

“Portanto a questão consiste em saber se é possível fazer algo análogo (trabalhar por analogia) com os problemas morais. Creio que não é completamente impossível que haja acordos sobre as consequências, que concordemos com o resultado final, mas talvez não com as razões porque fazemos o que temos de fazer. (…) Considero, pois, a encíclica do papa João XXIII, que li, uma das mais importantes de todo o tempo e um grande passo em frente. Não consigo encontrar melhor expressão para as minhas crenças sobre a moralidade, os deveres e responsabilidades da humanidade, das pessoas umas com as outras, do que essa encíclica. Não concordo com alguma da maquinaria que sustenta algumas ideias, talvez imanem de Deus, pessoalmente não acredito (…) Não concordo mas não vou ridicularizá-lo nem sequer discutir. (…) E reconheço esta encíclica como o princípio, provavelmente de um futuro novo, em que talvez esqueçamos as teorias sobre as razões por que acreditamos nas coisas, dado que, no fim, e no que respeita à acção, acreditamos nas mesmas coisas” (Pág. 125)

3/20/2008

TEATRO 8 Ah, popularidade!!!

Isto porque tenho duas peças de m/ autoria ( devo ser o único desde o Bernardo Santareno que chegou a ter três) em cena, e em Lisboa, ao mesmo tempo. Imaginem só! As entrevistas que tenho dado!
Pois, "A Perca" mostra-se na Fábrica de Braço de Prata (frente aos correios de Poço do Bispo, bus 28/755) dias 4 e 5 (sexta e sábado) de Abril, depois vai para o auditório de Alfornelos, a 11/12 e 18/19, tb sextas e sábados. Intérpretes: Margarida Diogo e António Craveiro.
Quanto ao "bom" do "Bonifácio do Paraíso" (apesar de ter uma asa Preta) exibe-se igualmente na Fábrica Braço de Prata a 18 e 19 / 25 e 26 (sextas e sábados) de Abril e, em Maio, estará no Café Concerto - o Bonifácio gosta de copos e ele próprio confessa que os tomou com o Diabo - da Comuna (ainda por cima a Comuna! pela meia-noite. É tão santo, pena ter a tal asa preta (Na foto não se nota porque faz sempre por disfarçá-la, enfim...)

TEATRO 9 "A Perca", segunda encenação, estreia na Mostra de Teatro de Almada, Fev. 08


TEATRO 10 "Bonifácio do Paraíso" (Estreia Sociedade Port. de Autores, Maio 2006)


POEMA 5

KOBAYASHI, Issa, Haiku, (versões de Jorge S. Borges) Lisboa, Assirio & Alvim, 2002

Da mesma boca
que mordeu uma pulga –
Uma oração a Buda.
..
Pulgas –
Para elas também a noite
é longa e solitária

..
Pulgas da minha cabana
Tão magras
Que metem dó

..
Onde há pessoas
Há moscas
e Budas
..
Que beleza –
O buraco feito na neve
Ao mijar
..
Será esta
a minha última morada
Sob metro e meio de neve.

3/16/2008

CRITICA TEATRO 1 "A Cabra ou quem é Sílvia?" na Comuna, em Lisboa, Agosto 05

O meu problema com o espectáculo que vi na Comuna sobre o texto A Cabra ou Quem É Silvia - Notas para uma definição da tragédia, de Albee, é o seguinte: percebo a encenação, acho-a coerente, de boCor do textom gosto, ajustada, certa, enfim, aplico-lhe todos os adjectivos possíveis a algo que faz um todo coerente e funciona esteticamente mas... não gosto da sua forma: tal é viável?
Pode isto consubstanciar uma crítica, isto é, tenho o direito de dizer: a coisa funciona bem mas ao lado, isto é, há qualquer coisa que menoriza a opção estética da encenação, no caso a apresentação daquele texto naquela moldura?
Posso criticar algo em nome de uma hipótese que lá não está quando o que vi fez sentido e serve (a meu ver, enfim, menos bem...) o texto?
Eis o "busilis" da questão: acho que a encenação da Comuna não esta à altura das implicações do texto, enfim, não o serve tanto como outra (a qual apenas intuo) e o que a seguir se escreve é fruto, pois, de uma frustração: a peça foi feita daquela forma, ela funciona mas...
Antes do mais situo a minha leitura dramaturgica do texto: o protagonista confronta-se com um dilema trágico pois entre as duas opções que se lhe apresentam (ficar com a cabra, perdendo a companhia da sociedade humana, ou abandonar a cabra, ficando junto dos seus iguais) ambas lhe são nefastas, pois acarretam uma perda: no primeiro caso, a dos seus pares, no segundo a da amada Silvia, a cabra. Este dilema é trágico e nele me baseio para classificar o texto "A Cabra..." como trágico, independentemente da acção se passar no mesmo lugar, em vinte e quatro horas, etc, etc. etc. exigências que o tempo, no meu entender de dramaturgo, varreu para reter apenas o principal, aquilo sem o qual não há de facto lugar a tragédia: um dilema trágico, sem solução satisfatória, com o qual se defronta um protagonista.
Ora, assim sendo - o próprio Albee alude a tragédia no subtítulo do seu texto - qualquer encenação da peça deve realçar este seu aspecto, subordinando-lhe todas as opções estéticas.
Ora é aqui, nesta zona da construção do espectáculo, que a minha divergência em relação à leitura cénica d' "A Cabra...", pela Comuna, se dá. Senão veja-se:
A comuna situou a cena numa sala de estar, cara ao velho "teatro de boulevard" e, logo por isso, dando ao espectador um sinal de que o conflito em cena versará o célebre problema do casal a braços com a infidelidade de um dos cônjugues, tratado naquela óptica que as ditas "peças de boulevard" utilizam para o efeito, cujo objectivo é sobretudo divertir.
É o que acontece n' A Cabra?
Não.
O adultério do protagonista é a tal ponto radical que coloca não só a esposa mas tambem a sociedade em causa.
A questão é de extrema gravidade e ultrapassa o ambito do casal.
Mas advogue eu contra a minha própria causa e, diga que o dispositivo cénico que a comuna escolheu, a propria encenação o destrói… Mas é ainda isto verdade? A cena em que a esposa enganada parte os "tarecos" da casa não se enquadra, afinal, numa banal fita de ciúmes?
E mais: o que se destrói são as paredes, isto é, os alicerces da "casa" ou apenas os adereços, enfim uma jarra, livros, isto é, "a loiça"?
Infelizmente é apenas isso o que sucede e assim se fundamenta a minha convicção de que a encenação do texto induz em erro o espectador, isto é, traduz pela bitola mínima o que Albee propõe pela sua genial pena.
A Cabra é um dos grandes textos de despedida do sec. XX e merece um tratamento á altura do que propõe como reflexão. De contrário o espectador, enganado, vai rindo com o drama burguês da mulher enganada por uma cabra e enfim, sai do teatro feliz com a anedota. Tanto mais que a dita cabra até surge, no fim, morta, numa prova ainda da tradução literal - e linear - com que o texto foi encenado.
Tudo na encenação que vi d' A Cabra no espaço da Comuna esteve coerente. Mas como talvez dissesse Galileu, referindo a Terra que desejavam fixa: e todavia ela move-se...
Última nota: alguém que reviu "A Cabra" no festival de Almada disse-me que, no espaço ao ar livre, o cenário da "sala de estar" não "colava" ao texto e que, por isso, a tragédia do tema sobressaía. Tal parecer dá-me razão? É que na sala da comuna, onde assisti ao espectáculo, nada distanciava o dispositivo cénico. E lá se estreou.

GESTÃO 6

POST, Stephen e NEIMARK, Jill, Lisboa, Ed. Sinais de Fogo, 2008.
“Este tipo de força é a base daquilo que chamamos de coragem existencial. Os três C são o Compromisso, o Controlo e o Confronto.
Se somos fortes em compromisso, quando as coisas dão para o torto, decidimos manter o nosso envolvimento em vez de nos afastarmos para o isolamento e alienação.
Se somos fortes em controlo, esforçamo-nos por ter influência no resultado, em vez de nos afundarmos em impotência. E, se formos fortes em confronto, vemos a mudança e o stresse como uma oportunidade de crescer e aprender, e não como uma violação da nosso conforto e segurança.” (págs. 126/7)

LOSIER, Michael, Lei da Atracção - Peça Acredite Receba
Porto editora, 2007

Identifique o que o faz sentir-se bem e faça-o mais frequentemente.

Identifique o seu desejo (Peça)
Dê atenção ao seu desejo (Acredite)
Permita que o seu desejo se concretize (Permita)

Dizer “muitas coisas podem acontecer” abre possibilidades ao seu desejo.

Estabeleça o seu objectivo de vida.
Comece a avançar
Aja: uma e outra vez

CAPITALISMO 7

GEORGE, Susan, La Pensée Enchainée – Comment les droits laique et religieux se sonst amparés de l’ Amérique, Paris, Fayard, 2007,
« Je veux montrer qu’un glissement tellurique de la pensée américaine venu de droite est à l’ oeuvre depuis au moins les annéss 1970, que ses maîtres spirituels ont acquis un pouvoir important et durable que leur permet d’ influer sur la politique ; que ce nouveau systeme de pensée, tant laique que réligieux, a peu de chances de changer simplement parce qu’ un parti, ou un président est au pouvoir plutôt qu’ un autre. (...) Cette culture a été patiemment construite; elle a penetré toutes les couches de la societé américaine, depuis la classe dirigeante jusqu’ aux échelons les plus bas, et elle n’ est pas remise en question car ses prémisses sont habituelmment tacites. Celles-ci ont néaumoins conduit à um déplacement sensible du centre de gravité de la politique américaine vers la droite, cette culture repose pour un grande part sur des mensonges (sublinhado da autora) (pág. 10).
«Aujoud’hui, même le monde des années 1970, sans parler de celui des anées 1950, est à peine reconaissable. La question que je me pose (...) est la suivante: será-t-il possible de revenir à une culture et à une politique américaine plus génereuses, même si elles seront certainement moins innocentes ? Ou bien les changements apportés par um demi-siècle de construction et de diffusion de l’ idéologie néo-liberal laique et réligieuses sont-ils permanents ?
Aujourd’hui les gagnants ramassent tout, les perdants rien. (...) Ceux qui dirigent le monde de la grande entreprise et de la finance n’ éprouve au fond, que du mépris pour les faibles. Loin d’ être des frères humains méritant notre aide, les pauvres ne méritent ce qu’ ils ont – c’est-à-dire très peu en vérité. Le gouvernement est heureux d’ observer les choses depuis le banc de touche pendant que les réalisations du mouvement des droits civiques sont battues en brèche. Les attitudes, comme l’ dramatiquement révelé l’ ouragon katrina aux yeux du monde, continueront à prévaloir tant que l’opinion publique ne réclame pas de changements. Or elle ne montre pour l’instant, que peu de signes de révolte, particulièrement la population pauvre elle-même.
Au fur et à mesure que progressent les inégalités, le resultat est la destruction de la cohésion social et de la solidarité. Lors du désastre de La Nouvelle-Orléans, les gouvernements étrangers ont été plus prompts à offrir leur aide que Washington. Pourquoi en effet se soucier des pauvres, principalment de Noirs, qui ne pouvaient pas s’ échapper? Eux aussi avaient ce qu’ils méritent. Des psychologues de l’ université de Princeton ont récemment utilisé la resonance magnétique pour mésurer la réponse du cerveau des étudiants à des photographies de personnes essuies de groupes sociaux variés. Le cortéx préfrontal émet normalment des signes en réponse à des « stimuli socialment signiicatifs ». Or les chercheurs ont été

Choqués de decouvrir que les photographies de personnes appartenant à des groupes socialment « extrêmes » comme les toxicomanes, ne provoquaient aucune réponse dans cette région, suggérant que ceux qui les visualisaientt les consideraient moins qu’ humains. « C’est exactement la même chose avec les sans-abri et les mendiants dans les rues, explique (un psychologue):Les gens les considèrent comme des tas d’ ordures (*)».

*Il y a cependant de l’ espoir. Il suffisait de poser une question quelconque à propos de la personne de la photographie, comme : «Quelle nourriture pensez-vous que ce mendiant aimerait ? » pour que la zone du cerveau se mette à emetre des signaux. (Voir Mark Buchanan, « Are we Bon Prejudiced" ?("Naisson-nous avec des préjugés ? ») New Scientist, 17 Mars 2007.
(Págs. 291/2)

“Bien qu’il existe encore sans aucune doute beaucoup d’ Américains classiques, bons et génereux, la grande majorité n’ ont pas la moindre idée de ce que font leur gouvernement et leurs grandes entreprises dans le pays, et encore moins dans le monde. (...) Les medias remplissent leur rôle, qui consiste, selon le critique des media Herbert Schiller, dans «la simplification jusqu’à la stupidité, à la mode américaine" (in Monde Diplomatique et The Guardian Weekly, aôut 1999). La plupart des gens tiennent leurs informations exclusivement de la télevision, où la frontière entre information et varietés est chaque jour plus ténue, ce qui a donné naissance a l’ affreux néologisme anglais infotainement (contaction d’ information et d’ entertainment, « divertissement »). Cinq ou six grandes entreprises taransnationales jouissent d’un quasi-monopole sur les programmes, et, pour elles, offrir aux Américains des analyses ne présente aucun interêt. Ce qu’elles ne contrôlent pas est sous la coupe des réseaux de diffusion televisée et radiophoniques confessionnels. Les Américains ne reçoivent presque jamais la moindre donnée culturel qui ne vienne pas de l’Amérique d’ elle même – c’est-à-dire des sources réligieuses ou des grandes entreprises. (...) En ce qui concerne les Lumières (...) le « créationnisme » est maintenant légalment enseigné dans de nombreux États afin de permettre en « équilibre » face au darwinisme et à l’ évolution, même s’il revêt parfois les habits de cette honteuse fausse science qu’est le « Dessein intelligente ». Le dédain des dirigeants pour la science fair du tort aux peuples et à la planète. (...) Le monde educatif est aussi infesté des charlatains réligieux ; dans les universités, la police néoconservative de la pensée menace des professeurs de renvoi et les condamne à une « neutralité » sans consistence.
La religion semble avoir de moins en moins de rapport avex le fait d’ aimer son prochain et de se comporter avex les autres comme on voudrait qu’ ils se comportent envers soi ; il s’ agit de plus en plus de se réjouir à l’ idée que son prochain sera réduit en chips quand le Christ reviendra, le pêcheur ne recevant que son dû. (...) Les mesures de contrôle social sont géneralment efficaces ; parmi elles, il y a le mantien derrière les barreaux de plus de deux millions de déclassés (...) des centaines de milliers d’ entre eux sont enfermés pour des délits non violents liés à la drogue. Le taux d’ incarceration en Amérique, 773 personnes par 100.000 est le plus fort du monde. En résume, l’ usine à idéologie et à inégalités produit des biens que la plupart des gens achetent sans même le savoir. Le prix est trop élevé et nous le payons tous. (págs. 293/5)

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