12/11/2008

RUA AUGUSTA 7 A Vingança da Memória


Agora sim, vamos ter em Lisboa um bilhete que dá para vários transportes. 


A crise do petróleo e a ruína geral dos “capitalizados” levou a esfarrapada classe média/média-alta lisboeta pela primeira vez a andar de transporte público (sei o que digo, pois o meu juvenil “voto de despojamento” serviu-me para algo mais do que para empobrecer a escrita) e agora, sim, já a vejo, à boa burguesia, em Lisboa, como em Paris ou Londres, no metro e nos autocarros. 


E não é que surge finalmente um bilhete único para os vários transportes? 

Não há como os que mandam usarem aquilo sobre que legislam! 

Sim, porque até agora quem andava de transporte público bem podia clamar contra as diferenças entre o metro, a carris, a CP ou Transtejo que obrigavam à compra de um bilhete para cada qual, a fim de se fazer a tal hora de trajecto, coisa que encontrei já na Dinamarca em 1972 e, finalmente, é possível em Portugal!

Mas agora sim, a coisa fia fino e surge o tal bilhetinho. 

Vá lá, foi ao fim de trinta e quatro anos de democracia! (Afinal o primeiro abrigo numa paragem da carris surgiu “apenas” ao fim de quinze…)


Outra curiosidade: o erro que uma geração inteira faz ao escrever “fala-mos”, em vez de “falamos”; “dize-mos” em vez de “dizemos”, “transporta-mos” em vez de “transportamos”, isto é, tornar reflexa a primeira pessoa do plural ou, dito de forma mais abreviada: pessoalizar o colectivo.


Para mim este erro tem uma razão que mistura política e português.


Na década de oitenta – quando a tal geração que hoje é licenciada e escreve com aquele erro aprendia (mal) na Escola – na década de oitenta está-se em plena anestesia política à revolução de Abril: os livros deixam de contar o  que foi a dinâmica do povo, o Natal regressou ao segredo dos lares e as telenovelas já dominam os serões, ou seja, quanto respeite ao mexer popular deixou de ter qualquer referência nos media e nas escolas. E o resultado foi este erro que hoje surge como a sombra do pecado cometido contra a memória histórica.


Que significa sinalizar de forma reflexa a primeira pessoa do plural, pois é disso que se trata quando se escreve “fala-mos” em vez de “falamos” ou “dize-mos” por “dizemos” - senão que o colectivo – o nós – se fecha sobre si próprio, se reflecte, passa a ver ao espelho, em vez de no/com o Outro?

 

O erro da geração que ora vai na casa dos trinta reflecte, como acima disse, as vicissitudes da política portuguesa: em determinado momento da nossa história pós-revolucionária mais precisamente a partir do golpe de 25 de Novembro e respectiva imposição do “estado de sítio”, o povo português – agora diz-se o “cidadão comum” - foi obrigado a dobrar-se sobre si próprio, “umbiguizar-se” (olhar para o umbigo)  deixando de discutir a política na rua, abdicando de reunir política e sociedade, como entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro  de 1975 sucedeu. (“Marx escreve em “A Questão Judaica” e noutros sítios que os enigmas da política moderna serão resolvidos quando «o homem real e individual» conseguir reunir de novo em si «o cidadão abstracto [político] de modo que a política e a sociedade voltem a estar unidos, e «só então se realizará a emancipação humana» (Paul Ginsbor, in A Democracia Que Não Há – Que Fazer Para Proteger O Bem Político Mais Precioso do Nosso Tempo – As Multinacionais e Os Impérios de Tv e Comunicação Social Estão a Dominar os Lobbys Políticos Por Todo o Mundo. Será Possível Salvar a Democracia?, Lisboa, Teorema, 2008. p. 72,3).

Ou seja, “cala-mos”, “sofre-mos”, “paga-mos” em vez de “calamos”, “sofremos” ou “pagamos”, e outros disparates gramaticais idênticos próprios de uma “Geração  Anestesiada” (da memória portuguesa, da formação de Portugal, e, sobretudo, de si mesma!) uma geração sacrificada às passagens administrativas na Escola, a fim de que os fundos europeus não fugissem do País – e fossem, não para a educação e ferrovia como deveria ter sido, mas exclusivamente para os lobis das petrolíferas/construção de estradas -  e então, dizia eu, “cala-mos” “sofre-mos” ou outros erros idênticos não são, pois, meros erros gramaticais mas verdadeiras vinganças da memória, a mostrarem à saciedede a história dos tempos pós-revolucionários: depois da festa, do mundo onde a politica e a sociedade estiveram de facto reunidas, veio o reflexo sobre si próprio, o virar-se para o espelho, a perda do sentido do Outro, do colectivo.

Por isso a geração que sofreu, ainda em criança, as consequências da anestesia lançada sobre os pais – e o país -  escreve hoje, quando já adulta, “faze-mos” em vez de “fazemos”.

Como se ainda achasse que fazemos… sozinhos.  

 

 

 

 

12/09/2008

FUTUROLOGIA 2

Brockman, John, (coord.) Grandes Ideias Perigosas, Lisboa, Tinta de China, 2008 (Ca. 373 pp. e 17.90)

J.Brockman, in Prefácio:

“Em 1991, propus a ideia de que uma terceira cultura, que «consiste nos cientistas e outros pensadores do mundo empírico que, através do seu trabalho e dos seus ensaios, estão a tomar o lugar do intelectual tradicional na tarefa de tornar visível o significado mais profundo da vida, redefinindo quem somos e aquilo que somos».  Em 1997, o crescimento da internet permitiu a implementação de uma casa para a terceira cultura, um site chamado Edge (www.edge.org (...) onde «pensar com esperteza» prevalece sobre a anestesia da sabedoria. (p.17)


John Hogan:

“A ideia perigosa (provavelmente verdadeira)(…) é a de que nós humanos não temos alma” (p.37)


Keith Dovlin:

"Criaturas vivas capazes de reflectir sobre a sua própria existência são um acidente normal existindo por um breve momento na história do universo. Pode existir vida noutra parte do universo mas não terá consciência e auto-reflexão. Não há Desígnio Inteligente e nenhum objectivo mais elevado para as nossas vidas (…) Muitas pessoas acham que esta sugestão é perigosa porque vêem-na como um caminho para uma vida desprovida de significado ou valores morais (…) O facto de a nossa existência não ter um propósito para além de si mesma é completamente irrelevante para  a maneira como vivemos a nossa vida, uma vez que estamos dentro da nossa existência. O facto da nossa existência não ter um propósito para o universo – seja o que for que isso significa – não quer dizer, de maneira nenhuma, que não tem propósito para nós." (pp.72,3)

 

David Gelernter:

“Se esta é de facto a “era da informação” então as pessoas estão bem informadas acerca de quê, concretamente?” (p.123)

 

Lee Smolin:

“Acredito que alcançaremos a clareza relativamente a estas e outras implicações assustadoras da ideia de que todas as regularidades observáveis, incluindo aquelas que nos habituamos a designar como leis, são o resultado de evolução por relação natural. E acredito que, quando isto for alcançado, Einstein e Darwin serão encarados como parceiros na maior revolução ainda por acontecer na ciência, uma revolução que ensina que o mundo em que nos encontramos não é senão uma rede de relações sempre em evolução.” (p.160)

 

 

TESTEMUNHOS 16


AZEVEDO, Paulo, Uma Vida Normal, Porto, Porto Editora, 2008 ca.174 pp. e 13.90 euros

 

“Para mim na altura como agora não fazia sentido usar próteses apenas por questões estéticas” (p.59)

 

“… é  a partir do momento em que uma pessoa percebe que é diferente que pode aprender a lidar com isso e  aceitar-se melhor na diferença” (p.60)

 

“No ano em que me envolvi mais a sério nas competições, percebi (…) as dificuldades por que passam os atletas paraolímpicos por melhor que sejam. Não é apenas a ausência de apoios, é   a indiferença. Nesse ano por exemplo houve doze pessoas a representar Portugal na competição internacional dos paraolímpicos (…) Trouxeram 12 medalhas quase todas de ouro e todas ignoradas” (p.135)

 

“Se alguém com voto na matéria chegar ao pé de mim e me disser que eu não tenho talento, ai abandono tudo mas se me disserem que não posso ser actor por não ter mãos e pernas, me fecharem essa porta, eu bato a outra porta” (p.169)

 

“Quando não consigo fazer alguma coisa – mas só em ultimo caso, admito – peço ajuda. E isso não é motivo de embaraço, é sinal de carácter. Todos temos fragilidades.” (173)

12/08/2008

TESTEMUNHOS 15


KISSINGER, Henry, Diplomacia, Lisboa, Gradiva, 2007, 3ª edição (794 pp., ca. de 37.50 euros)

“Nenhuma nação [EUA,n. de Kriu] tem sido tão pragmática na sua conduta diplomática quotidiana” (p.11)

“o pensamento americano tem oscilado entre o isolacionismo e o empenhamento, embora desde a Segunda Guerra Mundial estas duas realidades tenham permanecido predominantemente interligadas (…) ambas as abordagens (…) reflectem uma crença subjacente comum: a de os Estados Unidos possuírem o melhor sistema governativo do mundo e do resto da humanidade poder alcançar a paz e a prosperidade abandonando a diplomacia tradicional e adoptando o respeito da América pelo direito internacional e pela democracia.” (p.12)

“No período do Vietname a América foi obrigada a reconhecer as suas limitações” (p.611)

“Uma das principais tarefas do político consiste em compreender quais os assuntos que se encontram verdadeiramente relacionados e podem ser usados para se reforçarem mutuamente. (…) em última análise, é a realidade e não a política que liga os acontecimentos. O papel do homem de estado consiste em reconhecer a relação quando ela existe – por outras palavras, criar uma rede de incentivos e punições a fim de obter o resultado mais favorável” (p.625)

“Para ser fiel a si própria a América tem de tentar forjar o maior consenso moral possível à volta de um compromisso global com a democracia. Mas não deve ousar negligenciar a análise dos equilíbrios de poder, porque a procura de um consenso moral torna-se frustrante quando destrói o equilíbrio” (p.729)

12/07/2008

HISTÓRIA 4


 

CORBIN, Alain, História dos Tempos Livres, Lisboa, ed. Teorema, 2001 (514 pp. e ca. 14.50 euros)

 

“O nosso projecto consiste em seguir a invenção das maneiras de imaginar, utilizar ou simplesmente viver uma gama de tempos disponíveis (…) das sociedades ocidentais entre 1850 e 1960” (p.5)

 

“Na Inglaterra, tal como nos Estados Unidos, elabora-se uma industria e uma cultura populares do divertimento (…) Ao longo da década de 1850 são projectados o Bois de Boulogne e o Central Park “ (p.7)

 

“ Os americanos inverteram o antigo pavor do tempo perdido. Consideraram o tempo livre um tempo ganho, poupado ao trabalho: como um (…) resultado benéfico da civilização dos Estgados Unidos.” (p. 10)

 

 

“ O aumento do tempo disponível. A desqualificação dos saberes artesanais, e, em maior medida, as transformações da estrutura temporal das sociedades ocidentais acentuaram  na verdade o medo do vazio, dos tempos livres e agravaram a incapacidade do indivíduo de produzir tempo para si próprio. (…) Ou deveremos pensar que, a despeito do declínio histórico do trabalho, as limitações que são as dos tempos laborais não param de se transpôr para o tempo disponível e determinar os seus conteúdos?” (p.13)

 

“Mais ou menos todos os militantes do turismo social propagavam os «três D», «funções importantes do lazer» (…) descanso, que liberta da fadiga, divertimento, que liberta do tédio, e desenvolvimento da personalidade que «liberta dos automatismos de pensamento e da acção quotidiana». A sociedade de consumo substitui-os pelos três S: Sea, Sex and Sun.”(p.497)

12/04/2008

POEMA 12 Gonçalo Barra

Segredo


Pousei nas tuas mãos uma rosa rara

Deixei cair certa mentira pura e cara

A dura côdea que me sustem a alma

Morna jaze na concha da tua palma

 

Guarda bem esse pão que é meu tesouro

Afaga no teu regaço essa rosa minha dona

E dona minha te suspiro que silêncio é ouro


















Urgência


Como se eu pudesse adivinhar entre as dobras da tua pele

Um coração que vê o mar e sente a brisa afagar-lhe o rosto

Como se as minhas mãos fossem água e a minha boca mel

Docemente a imergir até o ventre te estalar cheio de mosto

 

Estou dentro de ti, sem começo, permeio nem acabamento

Uma andorinha na busca eterna do sol a brilhar na tua alma

Serei em ti sempre nada mais do que a brisa dum momento

Um doce beijo no veludo do teu seio ao final da tarde calma

 

Festejo o calor do vento que te lambe o corpo a alma e as entranhas

A força do fantasioso ritmo que te entontece os pés e levita o desejo

Que tua boca amor reencontre fome de colher da andorinha um beijo


















Butterflies


Do sangue vermelho surgem borboletas de todas as cores,

Como se o teu magenta fosse o branco eterno e completo,

Um Sol a desvendar em si o espectro do cabo além dores,

A Boa Esperança enfeitada por asas de cromático dialecto.

 

Não vejo drama na borboleta pousada no cerejo fontanário,

Nem a vergonha brota dos vulcões sob o leito onde se esvai,

Onde a coragem ordenou lavrar sobre a pele o seu glossário,

Sílabas de fogo guardadas pelos Deuses quando a noite cai.

 

Não pedem meu perdão as marcianas borboletas que o teu rio enfeitam,

Não escuto o prenúncio da azáfama sanguinosa dos abutres em festim,

Só ouço o mensageiro vento a passar por nossas vidas e à vida dizer sim.

 

12/01/2008

PORTUGAL 6


FIGUEIRAS, Rita, O Comentário Político e a Política do Comentário, Lisboa, Paulus Editora, 2008 (ca. 542 pp. e 25 euros)

 

“Rita Figueiras vem levantar uma questão muito actual e pertinente para a avaliação do estado da democracia portuguesa: estará o espaço de opinião (…) nos media portugueses a contribuir para uma asfixiante (…) politização da opinião publicada? (…) Estas páginas merecem leitura atenta pois como eu própro penso o espaço publico português é actualmente uma babilónia de fabricadores de opinião que de tanto falarem entre si, anulam-se uns aos outros.  (J.M.P.Oliveira in Prefácio, pp. 8,9)

 “Nesta obra analizamos a democraticidade do espaço ”Opinião” e pretendemos aferir a qualidade  do debate que se trava nas colunas de opinião sobre a política portuguesa” (p.13)


“Sob o ponto de vista de muitos indicadores tem-se assistido a uma rápida aproximação do país a padrões médios das sociedades desenvolvidas (…)  O sector dos media tem acompanhado as tendências internacionais (…) O core do universo do comentário de imprensa de referencia parece denunciar os vestígios de uma sociedade mais arcaica. (…) o universo dos comentadores tem-se mantido relativamente imune às profundas mudanças ocorridas na sociedade portuguesa ao longo destes 26 anos sobre os quais existem dados sobre o espaço “Opinião” (1980-2005). (...) esta secção tem conseguido recriar-se através de um processo de selectividade e sem precisar de se abrir verdadeiramente ao exterior. (…) A persistência destas características tende, de certa forma, a dificultar algumas das transformações em curso no país, nomeadamente a autonomização do espaço “Opinião” dos referidos círculos de maior concentração de autoridade e poder, dificultando a possibilidade de ser uma instância promotora de debate público esclarecedor e o aprofundar da democracia (pp.483,4)

Nota de Kriu: O livro de RF contém vinte e cinco páginas de bibliografia relacionada com o tema dos media (pp.507,732)

11/26/2008

PORTUGAL 5 O Atestado Médico, por José Ricardo Costa

Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter defazer uma vigilância. Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa. Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?
Passemos então à parte divertida.
A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico.
Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.
Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
O professor sabe que não está doente.
O médico sabe que ele não está doente.
O presidente do executivo sabe que ele não está doente.
O director regional sabe que ele não está doente.
O Ministério da Educação sabe que ele não está doente.
O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.
Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.
Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade. Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: - Uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: - Quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados! Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranhoa ver o 'ET', que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D.Afonso Henriques, que Deus me perdoe.A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismodisfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade. Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casashorríveis e fábricas desactivadas. Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo. Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame porficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio
URGE MUDAR ESTE ESTADO DE COISAS.
ESTÁ NA SUA MÃO, NA MINHA E DAQUELES A QUEM A MENSAGEM CHEGAR!

TESTEMUNHOS 14


E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?
Por Mia Couto
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. (...) Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos. Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas - tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.Inconclusivas conclusõesFique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.
in Jornal "SAVANA" - 14 de Novembro de 2008

11/25/2008

POLÍTICA 5


GINSBORG, Paul, A Democracia Que Não Há – Que Fazer Para Proteger O Bem Político Mais Precioso do Nosso Tempo – As Multinacionais e Os Impérios de Tv e Comunicação Social Estão a Dominar os Lobbys Políticos Por Todo o Mundo. Será Possível Salvar a Democracia?, Lisboa, Teorema, 2008. (140 pp. e ca.12 euros)

"A necessidade actual de ligar de novo a esfera política à sociedade, de superar uma separação hoje entendida como um abismo, é fortíssima” (...) Marx escreve (…) em “A Questão Judaica” e noutros sítios que os enigmas da política moderna serão resolvidos quando «o homem real e individual» conseguir reunir de novo em si «o cidadão abstracto [político] de modo que a política e a sociedade voltem a estar unidos, e «só então se realizará a emancipação humana» (…) (p. 72,3)

“As experiências e as propostas de democracia deliberativa têm assumido uma gama de formas tão complexa que não me é possível prestar justiça a todas neste lugar. Refiro-me à alemã Plannungszelle, aos Júris de Cidadãos americanos e britânicos, aos Town Meetings, às Consensus Conferences, à proposta de James Fishkin nos Estados Unidos de criar um dia nacional de deliberação dos cidadãos na gestão da obra pública e de instrução pública, em Chicago, ao site e-the-People, ao empowerment dos pais dinamarqueses nas escolas primárias e assim por diante (1)
(1) Cf. J. CASTIL e P. LEVINE, The Deliberative Democracy Handbook, Strategies for Effective Civic Engagement, in the XXIst. Century, Jossey Bass, San Francisco, 2005.

“A arena da governance internacional até agora tem sido povoada quase exclusivamente pelas vozes dos diplomatas, dos políticos, dos burocratas e dos especialistas funcionais. Os seus procedimentos são opacos e está afastada dos cidadãos. Mas não é uma esfera inexpugnável” (p.127)


A Democracia É Um Sistema Político Mutável e, ao Mesmo Tempo, Vulnerável. Para a Revitalizarmos, É Hoje Indispensável Conjugar a Representação e a Participação, a Economia e a Política, a Família e as Instituições (in contra-capa)

Livro citado no texto: SIEDENTOP, Larry, A Democracia na Europa.

11/22/2008

ANTROPOLOGIA 1 (Foto: Margarida Diogo in "A Perca" de C.G.Melo)



ADOVASIO,J.M. e outros, O Sexo Invisível, Pub. Europa-América, 2008
(288 pp. e ca. 23.90)

“Quem inventou a linguagem?
(…)Morton descobriu que basicamente todas as vocalizações breves dos mamíferos e todos os gritos de aves seguem o mesmo padrão, o que também inclui os homens.
Falamos com os bebés em registo alto mas falamos em tom baixo e áspero quando fazemos ameaças.
Portanto na comunicação vocal das aves e mamíferos, a forma corresponde à função. (…) A correspondência entre forma e função é um dos fundamentos da biologia mesmo até ao nível das moléculas” (p. 95)

“Ora tem sido na capacidade dos primatas não humanos, particularmete chimpazés e alguns babuínos, para mentir e trapacear que os cientistas conseguem captar aspectos que parecem estar na base do desenvolvimento da linguagem [Ex: produzir o som na ausência do que primeiro o justificou – N. de Kriu](p.99)

“Mas os membros de um grupo de chimpazés podem passar tanto tempo como metade de um dia, ou mesmo mais, a cuidarem uns dos outros. A vida altamente socializada não é apenas o seu modo de se adaptarem ao mundo, ela própria se torna parte do grande sistema a que têm de se adaptar. (…) «As sociedades primata seleccionam assim as capacidades comportamentais dos indivíduos que as constituem. Os indivíduos socialmente competentes no seu interior terão “vantagens” em relação aos menos competentes» [Alison Jolly, especialista em primatologia Nota de Kriu] Chegamos assim à importante noção de que a inteligência dos primatas, incluindo humanos, aumentou ao longo do tempo como um meio de enfrentar os desafios da convivência. (…) A sociedade e as suas pressões podem pois ser vistas como o motor que desencadeou a origemd a fala” (p.99)


“No paleolítico final, há cerca de 30000 anos (…) o número de adultos com idade para serem avós quadruplicou de súbito. (…) a espectacular alteração demográfica desta época pode ter constituído uma versão primitiva da recente revolução informática, com as recordações dos velhos a servirem de repositórios vivos de informações úteis” (p.143)

11/20/2008

EUROPA 6

Bruckner, Pascal, O Complexo de Culpa no Ocidente, Pub. Europa-América, 2008 (208 pp. e ca. 17.90 euros)

“Um autêntico comércio espiritual está em curso: designam-se clérigos que zelam pela sua manutenção (…) É a esta escalpelização auto-infligida que dou o nome de dever de penitência. (…) é uma máquina de guerra com várias funções: censura, tranquiliza, distingue.
Em primeiro lugar proíbe ao bloco ocidental, eternamente culpado, julgar ou combater outros regimes, estados ou religiões. Os crimes do passado intimam-nos a ficar calados (…) Definem-se assim dois ocidentes: o bom,o da velha Europa que se curva e se cala, e o mau, o dos Estados Unidos que intervém e se intromete” (pp.12,3)

“E tal como Pascal pedia à razão para “acolher o seu inimigo”, uma democracia deve, sob pena de enfraquecer, englobar o seu contrário sem se deixar destruir por ele, explorar em seu proveito os valores hostis ao seu desenvolvimento – o furor, a intransigência, o fanatismo – avançar por entre perigos que podem matá-la mas também fortalecê-la. (…) A América tem a capacidade assombrosa de conviver com uma boa dose de anarquismo estrutural, de extremismo e caos que nos mataria na Europa” (p.75)

O verdadeiro crime da velha Europa não é apenas o que ela fez noutros tempos: mas sim o que ela não faz hoje: a sua inacção nas Balcãs durante os anos 90, o seu espectadorismo escandaloso no Ruanda, o seu silêncio na Chechénia, a sua insensibilidade perante o Darfur, o Sudão Ocidental e, de uma forma geral a sua complacência, o seu ajoelhar-se, ou o seu «criadismo» para retomar um termo de Aimé Césaire, face às potencias actuais” (p.95)

“Elas [as democracias – N. de Kriu] são responsáveis pela perpetuação da própria democracia. (…) A Europa, se quiser ter a mais ínfima influencia deverá edificar a par com o seu grande vizinho [os E.U.A.- N. de Kriu] um novo bloco (…) A todos os partidários do grande cisma, que reclamam o divórcio e vêem no oceano Atlântico um lago metafísico que separa duas filosofias irredutíveis, impõe-se responder que essa rivalidade deve ser convertida numa emulação entre blocos (…) é necessário temperar o arrebatamento americano com a ponderação europeia e a razão europeia com o dinamismo americano” (pp. 202,3)

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