Entrevista in .: O Eco :. - Entrevista - Muito além da pesquisa - com Niède
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Muito além da pesquisa - com Niède Guidon e Anne-Marie
Sérgio Abranches, Marcos Sá Corrêa, Manoel Francisco Brito, Lorenzo Aldé e Carolina Elia
06.03.2005
Teresina
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Arte e Cultura
23/08/2008 - 14:52 - Leilane Nunes Festluso
Escritor português faz crossbooking de livro inédito em Teresina
O escritor português Carlos Gouveia e Melo vem à Teresina junto com o Grupo de Teatro Extremo participar do Festival de Teatro Lusófono e traz na bagagem um presente aos piauienses. Sua mais recente obra, Paulema, será passada de mão em mão. O crossbooking será organizado pelo escritor, em parceria com o Portal AZ. Paulema, segundo o próprio autor, trata da vida de dois adolescentes, o Paulo e a Ema, que fogem ao Fascismo. O livro é de leitura fácil, mais apta aos iniciados na literatura, que “lê-se ou devora-se sem qualquer dificuldade”. O lançamento oficial só acontecerá dia 03 de outubro, no Museu da Resistência, em Lisboa. “O crossbookning será o primeiro ritual do livro junto ao público”, confessa Carlos. Gouveia e Melo mora em Lisboa e está concluindo doutorado em Estudos Artísticos na especialidade de Estudos Teatrais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou, em 1998, A Escada; e A Santa Mãezinha, em 2003. É premiado em diversas áreas como pintura, encenação (duas vezes), escrita para teatro, performance e literatura (prêmio Revelação em Ficção da Associação Portuguesa de Escritores/Instituto Português de Livro e das Bibliotecas). O Festival de Teatro Lusófono acontece de 24 a 30 deste mês. A abertura acontece às 19h, com a exposição fotográfica “Luz, câmera, encenação”, na galeria do Clube dos Diários. Às 21h tem o espetáculo “Cabaré da RRRRRaça”, com o Bando de Teatro Olodum, de Salvador (BA).
Portal AZ - Informação de verdade - O portal de Notícias do Piauí
O sofrimento não tem
nenhum valor
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).
Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?
A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.
http://portalliteral.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/poema_brasileiro.shtml?porelemesmo


Parto para Teresina, no Estado do Piaui, Brasil, a 22 deste mês, para interpretar o papel de Avô-Lobo, na peça “Pedro e o Lobo”, encenação de Fernando Jorge.
A peça exibe-se no Festival de Teatro Lusófono, organizado pelo Grupo Harém, daquela cidade brasileira.
A peça baseia-se numa fábula de Esopo. Nesta um pastor engana os outros gritando "Vem ai o Lobo! E quando o lobo lhe aparece mesmo, bem pode gritar que ninguém o acredita…
Música ao vivo de Tiago Pereira, membro do grupo "Roncos do Diabo", desenhos ao vivo de João Queiroz e no papel de Pedro, nesta digressão, João Vasco.
Estreada no Natal de 2007 "Pedro e o Lobo", peça para todos, já foi vista por cerca de oito mil pessoas.
NIETZSCHE, Friederich, O Anticristo, Lisboa, ed. 70, 2006 (Ca. 108 pp. e 9.5 euros)
“O pressuposto do Budismo é um clima muito suave, uma grande gentileza e liberalidade de costumes, nenhum militarismo; e que seja nas castas superiores e até sábias que o movimento tenha o seu foco. Quer-se como fim supremo a serenidade, o silêncio, a ausência de desejo; e atinge-se o seu objectivo. O Budismo não é uma religião em que simplesmente se aspira à perfeição: a perfeição é o caso normal.
No Cristianismo, realçam-se os instintos dos servos e dos oprimidos: são as castas mais baixas que nele procuram a sua salvação. Exercita-se aqui como ocupação, como remédio contra o tédio, a casuística do pecado, a autocrítica, o exame de consciência; aqui se mantém invariável (pela oração) a emoção perante um poderoso chamado “Deus”: o mais elevado é aqui considerado como inacessível, dom, “graça”. Falta aqui também a publicidade: o esconderijo, o lugar obscuro é cristão. Aqui se despreza o corpo e se rejeita a higiene como sensualidade; a Igreja defende até da limpeza (a primeira medida dos cristãos, após a expulsão dos mouros, foi o encerramento dos banhos públicos, dos quais existiam, só em Córdoba, duzentos e setenta).
Cristão é um certo sentido de crueldade para consigo e para com os outros, o ódio aos que pensam doutro modo; a vontade de perseguir. (…) Cristão é o ódio de morte contra os senhores da terra, contra os “nobres” (…) Cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a libertinagem do espírito; cristão é o ódio contra os sentidos, contra a alegria dos sentidos, contra a alegria em geral.” (p. 35)
“Por outro lado, a violação selvagem destes almas inteiramente extraviadas [os apóstolos e acompanhantes de Cristo em sua vida – N. de Kriu] não suportou já a igualdade evangélica de todos quanto à filiação divina, que Jesus ensinara, a sua vingança consistiu em elevar Jesus de um modo extravagante, em separá-lo de si (…) O Deus único e o seu único Filho: ambos são criações de ressentiment” (p.62)
“Para que serviram os gregos? Para quê os Romanos? (…) O que hoje com indizível autodomínio – com efeito temos todos ainda de algum modo no corpo os maus instintos, os instintos cristãos – reconquistámos, o olhar livre perante a realidade, a mão circunspecta, a paciência e a seriedade no que há de mais pequeno, a total probidade do conhecimento – tudo isso já lá estava! Há mais de dois milénios! E mais ainda, o tacto e o gosto bom e apurado! (pp. 96,7)
EISLER, Riane, O Cálice e a Espada. Porto, Via Óptima, 2003, 2ª ed. (Ca. 265 pp e 15.50 euros)
« Os dois tipos humanos básicos são o masculino e o feminino. A forma como se encontra estruturado o relacionamento entre mulheres e homens é pois um modelo básico para as relações humanas. Consequentemente, todas as crianças nascidas em famílias tradicionais dominadas pelo homem interiorizam, a partir do nascimento, um modo dominador-dominado de relacionamento com os outros seres humanos. » (p. 156)
« até agora a ciência excluiu em geral as mulheres como cientistas centrando o seu estudo quase inteiramente nos homens. Excluiu igualmente aquilo que podemos chamar de « conhecimento solidário » : o conhecimento de que, como escreve Salk, precisamos hoje urgentemente de seleccionar formas humanas que se achem « em cooperação com a evolução, em vez daquelas que são anti-sobrevivência ou anti-evolucionárias ». (…) A questão directamente pertinente quanto à nossa capacidade de transformar o nosso mundo da quesília para a coexistencia pacífica consiste em como tornar o conflito produtivo em vez de destrutivo. (…)
Como disse Gandhi, o objectivo é transformar o conflito em vez de o suprimir ou fazer explodir em violência » (pp.178, 9)
« Miller assinala como, psicologicamente, a putativa necessidade de controlar e dominar os outros é função, não de uma sensação de poder, mas antes de impotência. Distinguindo entre « poder para o próprio e poder para os outros » ela escreve : (…) Num sentido básico quanto maior for o desenvolvimento de cada indivíduo, tanto mais capaz e eficaz será ele ou ela, e tanto menos necessidade sentirá de limitar ou restringir os outros » (p. 179)
« A transformação de uma sociedade dominadora numa sociedade de parceria acarretaria obviamente uma mudança na nossa orientação tecnológica (…) Ao mesmo tempo o desperdício e consumo exagerado que agora priva os necessitados começaria também a extinguir-se. Pois, como observaram muitos comentadores sociais, no núcleo do nosso complexo ocidental de consumo exagerado e desperdício encontra-se o facto de estarmos culturalmente obcecados com a posse, a construção – e o desperdício – de coisas, como um substituto para as relações emocionalmente satisfatórias que nos são negadas pelos estilos de educação infantil e valores adultos do sistema presente » (p. 182)
«existe uma consciência emergente de que as designadas esferas pública e privada se encontram inextricavelmente ligadas. Numa palavra, pessoas de todo o mundo estão a tomar consciência de que não poderá haver mudança sustentável sem mudanças nas relações fundacionais entre homens e mulheres e pais e filhos. » (p. 194)
HELLER, Eva, A Psicologia das Cores – Como actuam as cores sobre os sentimentos e a razão, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, SL, 2007. (309 pp., ca.31 euros)
“Vestir-se de vermelho que era na Idade Média um privilégio dos nobres (…) enquanto de azul podia ir qualquer pessoa mas não em todos os tons de azul. O azul celeste luminoso era uma cor nobre, era o azul da nobreza.
Da Ásia importavam-se tecidos de seda tingidos com índigo (…) Desde o séc. XIII, os mantos de coroação dos reis franceses eram de um azul brilhante. No séc. XVII, na época de Luís XIV, quando legalizou o índigo, o azul era a cor na moda da corte. (…)
A lã e o linho coloridos, quando se tingiam com blasto, ganhavam uma cor azul turva, suja. Era a cor das classes baixas, que também usavam as criadas e os servos – algo muito prático, pois o azul é a cor em que menos se nota a sujidade.
Com o índigo veio também um novo material para as roupas toscas: o algodão. (…) os tecidos de algodão podiam-se estampar muito bem em azul. (…) Estes estampados ainda são apreciados para os trajes regionais. É que o azul sempre foi uma cor quotidiana. (…) A indumentária laboral acabou por se tingir de índigo no mundo inteiro (…) Na América e em Inglaterra chama-se aos operários blue-collar workers” (…)
Os desfiles das casas de alta-costura já não servem para vender os modelos exibidos mas sim a imagem de empresas que depois venderão produtos de massa, desde perfumes a porcelanas. (…)
Por volta de 1970 todos os tecidos se podiam tingir com tinta tão duradoura como nunca tinha acontecido: a roupa era mais barata que nunca (…) Iniciara-se a era do consumo. Os críticos da cultura falavam do “terror do consumo” e da “sociedade do esfarrapado”.
Nesta altura originou-se o movimento dos que rejeitavam o consumo, cujo símbolo eram as calças de ganga gasta” (pp. 42,4)
“Por que a Europa é azul? (…) O azul era a cor que se podia encontrar em todas as religiões mas em nenhum partido. Era a cor ideal da paz.” (p.48)
“Os antropólogos Brent Berlin e Paul Kay verificaram numa investigação sobre os nomes das cores, em 98 idiomas, que em muitas línguas simples não havia nenhuma palavra para a cor azul que se considera como um matiz do verde. Em todas as línguas aparecem primeiro as palavras para branco e preto, derivadas das utilizadas para o claro e o escuro, o dia e a noite. Depois vem a vez para o vermelho. E em seguida as palavras para o verde e o amarelo, pois o verde e o amarelo estão presentes na comida. Só em último lugar se formaram palavras independentes para o azul e para as outras cores (…) Também não temos uma palavra independente para todas as cores: “alaranjado” ou cor de laranja refere-se à cor da fruta” (p.49)
“O branco é a cor dos deuses: o deus Zeus aparece à Europa como um touro branco (…) o Espírito Santo apresenta-se como uma pomba branca (…) Não é por acaso que a residência do presidente dos Estados Unidos seja a Casa Branca” (p.157)

DRUCKER, Peter F., O essencial de Drucker Uma selecção das melhores teorias do pai da Gestão, Lisboa, Actual Editorial, 2008.
“A sociedade de conhecimento tornar-se-á inevitavelmente muito mais competitiva do que qualquer outra sociedade pela simples razão de que, com o conhecimento acessível a todos, não existem desculpas para um fraco desempenho. Não existirão países “pobres”. Só existirão países ignorantes.
(…) “Os trabalhadores do conhecimento vão, por definição, ser especializados. O conhecimento aplicado só é eficaz quando é especializado. De facto, quanto mais especializado for, mais eficaz é.
Igualmente importante é a segunda implicação do facto de os trabalhadores do conhecimento serem, por necessidade, especialistas: a necessidade de trabalharem como elementos de uma organização. Só a organização pode proporcionar a continuidade básica que os trabalhadores do conhecimento necessitam para serem eficazes. Só a organização pode converter o conhecimento especializado do trabalhador do conhecimento num desempenho (…) A sociedade do conhecimento é uma sociedade de colaboradores."(pp. 333,4)
“Apenas no final do sec. XIX é que a fábrica, e não o proprietário, passou a ser o empregador. E só no séc. XX é que a empresa, e não a fábrica, se tornou o empregador. Só neste século é que o “amo” foi substituído pelo chefe que, ele próprio, 99 em cada cem vezes, é um colaborador que tem um chefe.” (p. 336)
SILVA, Vaz Salvador, Catedral. Primebooks, s.d.
[V.S.S, português de Lisboa, ao saber-se com um cancro múltiplo abriu um blog onde foi conversando sobre a sua experiência que, em príncipio, seria terminal… N. de Kriu]
“Foi nos seis meses que tinha pela frente que derrotei a doença, não cedendo às adversidades que representavam os inúmeros efeitos secundários ds tratamentos nem à radical alteração da minha vida diária. Estive praticamente cego, tornei-me diabético agudo devido às doses brutais de corticóides que tinha de tomar para o cérebro, estive à beira do coma, dias houve em que outras pessoas tiveram que me caarregar em ombros e amparar porque eu não tinha força para me levantar. Fui impedido de conduzir carro e moto, perdendo assim a autonomia a que estava habituado. Apesar de tudo isto, não fiquei voluntariamente na cama um único dia.
Venci a doença com todos os tratamentos sempre referidos e com centenas de Amgios a darem-me força todos os dias sem excepção, como est+a bem espelhado neste livro. Fiquei verdadeiramente impressionado com a enorme bondade e dedicação das pessoas com quem me relacionei estes meses passados, e essa realidade alterou completamente a percepção anterior que eu tinha da vida.
Ajudar desinteressadamente quem precisa de ajuda, levando junto de pessoas dedicação, atenção, força, fé e esperança é uma forma sublime de realização pessoal e de sermos úteis ao longo da vida, fazendo de nós parte do todo para contribuir para o avanço do mundo no sentido certo” (p.238)

MANENT, Pierre, A Razão das Nações, Reflexões sobre a Democracia, Lisboa, Ed. 70, 2008 (88 pp., ca.9 euros)
“O império europeu tem de comum com o império americano o ser magnetizado pela perspectiva de um mundo onde qualquer diferença colectiva deixará de ser significativa (…) europeus e americanos estão separados pela partilha de uma mesma representação (…) O deslumbramento com a unidade humana torna-lhes cada vez mais difícil ver o estado presente do mundo, inclusive nas áreas europeia e americana. Ocupados a construírem duas torres de Babel gémeas, não vemos que a separação entre grupos humanos não pode ser inteiramente ultrapassada e que essa infeliz impotência é a condição de liberdade e de diversidade humanas.” (p.14)
“Voltou o tempo do despotismo esclarecido, designação exacta para a soma de agencias, administrações, tribunais de justiça e comissões que, na desordem mas com espírito unânime, nos dão cada vez mais meticulosamente a regra.
Acabo de sugerir que em nome da democracia, mais precisamente dos “valores democráticos” institucionalizámos a paralisia política da democracia” (p.51)
“Mas que as democracias europeias sejam obrigadas a tratar os seus cidadãos muçulmanos, respeitando escrupulosamente os seus direitos – direitos de cidadão – não significa de modo algum que elas sejam obrigadas a conceder a uma nação muçulmana o “direito” de vir a fazer parte da sua comunidade de nações
(…) que forma devemos dar à Europa se queremos que ela ultrapasse a sua passividade (…) O desafio convenientemente avaliado conduz-nos, creio, a não acolher a Turquia (…) É claro que o facto de se tratar de um grande país muçulmano teria consequências enormes sobre a liberdade de acção da União, tanto no seu interior como no exterior, e é, portanto um dos principais factores (…) que a deliberação deverá ter em conta” (pp.56,7)
“O Califado é uma fórmula política – o termo regímen não lhe convém – de tal forma indeterminada que a vida política muçulmana conhece uma divisão particularmente marcada entre a legitimidade e a necessidade. É possível ver-se ai uma das grandes causas das dificuldades do Islão em praticar efectivamente a democracia: por um lado a Lei indiscutível exclui ou limita severamente muitas liberdades pessoais que a democracia reclama; por outro a enorme latitude de conduta dos príncipes, ou dos chefes, é incompatível com o respeito pelas leis democráticas. Há ai um quiasma debilitante do qual o Islão tem enorme dificuldade em libertar-se.” (pp.64,5)
“O império é uma forma típica da política antiga. Poder-se-ia dizer que “tornamo-nos modernos” em termos encontrado uma alternativa ao império. O que caracteriza o desenvolvimento político dos europeus é o seu esforço por se governarem a si próprios e (…) tomar consciência de si, a partir de uma matriz imperial dupla: o Império Romano e a Igreja Cristã, “romana” porque começou por revestir a forma imperial. No termo do processo nações cristãs [sublinhado do autor - N. de Kriu] (…) Basta-nos aqui verificar que o Islão não conheceu uma tal transformação (…) Donde a infecundidade política dos tardios movimentos nacionais, ou nacionalistas, em termos do Islão; donde o recurso à ideia de “Nação árabe” que designa precisamente o que falta. Estamos assim em presença de um imenso império ou antes de um imenso rasto imperial sem imperador, de uma imensa superfície sensível (…) ora “nacionalista” ora “fundamentalista” (pp. 65,6)
AAVV, “A Ciência Terá Limites?” Conferência coordenada por George Steiner, Lisboa, Ed. Gradiva, 2008 (282 pp., ca. 13 euros)
George Steiner, na Introdução:
(…) parece que a observação microscópica, por mais indirecta que seja, está a aproximar-se de um limite. Os presumíveis mundos para além desta barreira permanecerão inacessíveis.
Se for este o caso, as consequências epistemológicas e psicológicas poderão ser incalculáveis. A prisão domiciliária para o homem continua a ser imensa: as fenomenologias intermédias justificariam o estudo teórico e experimental mas seria ainda assim uma prisão domiciliária. (…) Mesmo se provas fenomenais viessem a estar disponíveis, podemos não estar equipados, ou como se diz agora, “conectados” quer para registar quer para as interpretar
(…) A afirmação de Marx de que o Homem apenas levanta problemas que pode resolver é uma consolação de dois gumes. Suponhamos que estes não são os problemas mais decisivos ou mais frutíferos. Como poderíamos sabê-lo?
(…) “Não é preciso ser-se um seguidor dogmático da definição de Karl Popper de ciência aberta à experimentação e à refutação para se perceber que o que está em causa é o próprio conceito de ciência, como tem sido entendido no Ocidente durante milénios. Se a Teoria das Cordas é imune tanto à prova como à repetição (…) será ainda ciência? (…) Será que a classificação de ciência enquanto ciência se tornou obsoleta (…) A segunda grande crise é uma crise de coesão interna e comunicação. Tradicionalmente as ciências teóricas e aplicadas podiam ser ordenadas e inter-relacionadas sistematicamente. As ciências da vida, a física, o orgânico e o inorgânico podiam distinguir-se e localizar-se ao longo de eixos conceptuais e metodológicos principais. (…) Esta exposição diagramática já não é praticável. (…) Para além disso, dentro de cada área as ramificações, as subsecções são agora de tal forma múltiplas que subvertem qualquer totalidade consistente.
(…) A consequência é uma crescente quebra de comunicação interna. (…) Taxinomia, técnicas experimentais, instrumentação matemática dividem e subdividem gerando uma linguagem específica, estranha mesmo para os colegas duma área próxima.
(…) a ciência tem cada vez maior dificuldade em comunicar seriamente com a comunidade em geral. (…) Os leigos educados aprendem sobre o progresso científico (…) com um jornalismo frequentemente irresponsável e banalizante. Aqueles capazes de estabelecer uma ponte – um Medawar, um Freeman Dyson – são excessivamente raros. Este incommunicado [sublinhado do autor – N. de Kriu] cresce com a escandalosa fragilidade matemática na educação e do que passa por cultura adequada. (…) No entanto as implicações são pouco menos que desastrosas. Avanços na biologia molecular, na biogenética (…) afectam, vão afectar, a existência pessoal e colectiva em cada ponto crucial. (…) O debate informado, do qual o nosso futuro pode muito bem depender, requer que o leigo faça trabalho de casa. Também requer da parte dos cientistas uma vontade de comunicar de forma lúcida e com a consciência do contexto social. As perspectivas de ambos os lados não são promissoras.
(…) O terceiro ponto importante será o mais radical mas é também o mais difícil de contextualizar. (…) O orgulhoso edifício da decibilidade sistemática, que se mantinha de pé desde Euclides, foi minado.
(…) A matemática e as ciências sabem hoje que há na lógica, nas leis do pensamento como estas parecem estar gravadas no cérebro humano constrangimentos, limitações quer à totalidade, quer à prova. (…) o indecidível, o indeterminado não são acidentes históricos a ser ultrapassados. Estão no coração do empreendimento científico, são a “matéria negra” da razão. Há, portanto, problemas que permanecerão sem solução ou, no melhor das hipóteses, sujeitos a hipóteses inconstantes, quaisquer que sejam os avanços metodológicos ou pragmáticos no conhecimento humano.
(…) Isto não significa, claro, que o progresso científico significativo não continue, que o trabalho de primeira ordem não evolua, mesmo nos domínios até agora desconhecidos.
(…) O ensino das ciências nas escolas secundárias, totalmente fundamental, está num processo precário. Dada a estrutura dos salários e o reduzido prestígio, o professor, com excessiva frequência, representa o elemento mais desapontado e medíocre do espectro. O matemático segue para as finanças e os mercados monetários. O derrotado entra para o ensino espalhando assim, de forma consciente ou não, o miasma do aborrecimento.
Mas a subversão está enterrada mais fundo. A filosofia desapaixonou-se das ciências.
(…) O que está em jogo é demasiado elevado, porque o ataque não é tanto contra a ciência como contra a própria razão. Estamos submersos em irracionalidade, em superstição (…) Cerca de vinte milhões de americanos estão convencidos que Elvis Presley ressuscitou. (…) Observe-se a manha enganosa de designações como Ciência Cristã ou Cientologia. O fundamentalismo, no núcleo histérico do qual assenta o ódio ao pensamento racional, à discordância adulta, está em marcha global. O Islão repudiou a ciência durante séculos. O fundamentalismo cristão é agora um factor preponderante na vida pública e política.(pp.23 a 29)
(…) Os cientistas (…) têm de aprender a “perder algum do seu tempo” em debate didáctico, forense e cívico, com as suas sociedades, frequentemente ignorantes, preconceituosas e traumatizadas.”
(…) “Estaremos conscientes dos estragos, possivelmente irreparáveis que o triunfo da pornografia e narcóticos, que o brutal despotismo do barulho, do incessante fornecimento de lixo está a infligir ao cérebro, nomeadamente ao cérebro dos jovens durante fases cruciais da sua educação e desenvolvimento? (…) A ameaça da loucura política e do fanatismo infantil raramente foram tão insistentes” (p.31,2)
Dieter Lust: “A previsibilidade de paisagem da teoria das cordas na física de partículas e na cosmologia” (pp.35-60)
“o grande desejo no início do século XXI é combinar a Relatividade Geral de Einstein e a Mecânica Quântica numa descrição unificada. Embora não se saiba ainda a resposta final, parece ser claro para muitos físicos que, para alcançar este objectivo, mais uma vez são necessários conceitos extensos – cordas e branas – e a existência de mais dimensões. (…) a possibilidade de o nosso universo conter mais do que três dimensões espaciais pode ser comparada com a situação descrita na parábola da caverna de Platão. Na alegoria os prisioneiros estão presos e vêem o mundo apenas num ecrã halográfico bidimensional. Por isso, depois de algum tempo, os prisioneiros vivem com a ilusão de que o mundo é apenas bidimensional.
(…) “A Mecânica Quântica descreve o mundo nas pequenas distâncias, o microcosmos, a saber, os efeitos na matéria condensada e nos átomos e as forças entre as partículas elementares. (…) Por outro lado a Relatividade Geral aplica-se à física nas muito grandes distâncias, à formação das estrelas e das galáxias e de toda a evolução do universo depois do big-bang. Porém a Mecânica Quântica e a Relatividade Geral são mutuamente incompatíveis. (…) Durante a história da física, embates como estes foram sempre resolvidos por uma descrição unificada. Portanto, de forma geral, espera-se uma teoria da Gravidade Quântica. (…)precisamos ainda de uma teoria de Gravidade Quântica para perceber a estrutura quântica do espaço e do tempo a pequena distância (espera-se que o espaço-tempo se torne discreto a pequenas distâncias, isto é, espera-se uma espuma de espaço-tempo(pp. 37 a 40)
Luiz Alvarez-Gaumé: “Factos e ficção sobre teoria das cordas e o Fim da Ciência” (pp. 109/133)
“O problema é (…) como é que o mundo clássico emerge do mundo quântico. Isto fornece um novo e saudável ponto de vista com respeito às várias teorias de “corte” entre o mundo clássico e o quântico.
(…) “O espaço e o tempo podem em última análise ser objectos emergentes, descrições longínquas de elementos mais fundamentais de natureza que ainda desconhecemos. Em particular, a nossa experiência diz-nos que a mecânica quântica odeia singularidades. Quando estudamos o colapso gravitacional em estrelas ou outros sistemas, a Teoria da Relatividade Geral de Einstein conduz a ambientes em que a curvatura espaciotemporal cresce sem fronteiras até ao ponto em que as leis da física, como as conhecemos, já não se aplicam”
“A teoria das cordas é uma ambiciosa colecção de ideias e ferramentas que tentam ir para lá do conhecimento actual das interacções fundamentais, tentando também dar resposta às questões fundamentais sobre a natureza do espaço e do tempo.
(…) A teoria das cordas será testada algum dia ou então simplesmente esquecida. É assim na ciência. (…) Não existe igualmente nenhuma razão para que a actividade da teoria das cordas deva ser demonizada. (…) A maioria dos teóricos de cordas sabe o que quer dizer falsificável. Não têm que ser popperizados pelos muitos convencidos popperazzis (…) que agora abundam. (pp.129 a 131)
John Hogan: “O Fim da ciência: uma reconsideração” (pp.181-197)
“Uma área agora na moda é a psicologia evolutiva que tenta explicar a natureza humana em termos darwinianos. A psicologia evolutiva produziu algumas ideias interessantes Umas das minha preferidas é a noçao de que a capacidade do homem se enganar a si próprio pode ser uma característica adaptativa, uma vez que os mentirosos mais capazes são aqueles que acreditam nas suas próprias mentiras.
(…) Há dois problemas científicos em particular cuja resolução poderá ter consequências profundas para a humanidade: um é o código neuronal (…) um conjunto de regras, ou sintaxe, que transforma os impulsos electromagnéticos emitidos pelos neurónios em percepções, memórias, decisões, ideias (…) outro problema (…) é o da guerra. (…) A minha esperança é que os cientistas rejeitem este fatalismo [a afirmação de que “a guerra está nos nossos genes” N. de Kriu] e nos ajudem a ver na guerra um problema complexo mas solúvel como a sida”
Freeman Dyson: “A Ciência de nenhum modo perto dos seus limites” (pp. 205-218)
“a visão negatica de Steiner sobre a ciência está errada” (p.210)
“Mencionarei três modos de mudança na ciência moderna. Os cientistas estão a tornar-se mais internacionais, as ferramentas (…) mais acessíveis e as barreiras entre especialidades estão a reduzir-se. Estas tendências mostram claramente que a ciência não está perto dos seus limites” (p.213)
Jean Pierre Luminet: “A ciência tem limites?” (pp.241-266)
“A questão de a ciência estar a atingir os seus limites (…) está longe de ser nova. (…) Anteriormente presumia-se que a ciência estava a chegar aos seus limites devido a um aparente sucesso (…) o questionamento presente, pelo contrário, supõe que a ciência podia estar a chegar ao limite devido ao seu tremendo fracasso. Será esta inversão de perspectiva apenas um sinal do pessimismo geral que se faz sentir em praticamente todos os campos da actividade humana no mundo ocidental durante a primeira década do nosso século ou terá como fundamento uma verdadeira crise da ciência? (…) A minha opinião é que a ciência não está de modo algum perto do fim mas, pelo contrário, constantemente perto do começo!” (p.245)
“Afinal o critério popperiano de falsificabilidade é ele mesmo uma teoria (…) e como qualquer teoria não vejo por que razão se deva aceitar como definitiva e indiscutível” (p.251)
“Vamos supôr por um momento que a nossa tecnologia não progredirá muito mais nas próximas décadas e presumir que não estaremos em condições de testar experimentalmente algumas expectativas teóricas relativas à alta energia ou às escalas extremamente pequenas (…) nesse caso essas expectativas teóricas já não obedeceriam aos critérios habituais de Popper de previsibilidade e de falsificabilidade: tratar-se-ia realmente de uma crise da ciência? (…) A história da ciência mostra-nos como, em vários momentos, a teoria estava tão avançada relativamente aos instrumentos disponíveis (p.219)

SINGER, Peter, Libertação Animal, Porto, Via Óptima, Oficina Editorial, 2008 (Ca. 291 pp. e 17 euros)
Peter Singer relata o encontro com uma senhora que o convidara a ele e a mulher para um chá: “Dissemos-lhe que não tínhamos animais de estimação. Pareceu um pouco surpreendida e mordiscou a sandwiche. A nossa anfitriã, que tinha acabado de servir as sandwiches, juntou-se a nós e retomou a conversa: “Mas é verdade que se interessa por animais, não é Sr. Singer?”
Tentámos explicar que nos interessava evitar o sofrimento e os maus tratos; que nos opúnhamos à descriminação arbitrária; que considerávamos errada a inflicção de sofrimento desnecessário a outro ser, mesmo não sendo esse ser membro da nossa espécie; e que acreditávamos que os animais eram explorados de forma impiedosa e cruel pelos humanos e queríamos que tudo isso fosse alterado. Para além disto, os animais não nos interessavam especialmente. Nenhum de nós tinha gostado especialmente de cães, gatos ou cavalos ao contrário de algumas pessoas. Não “adorávamos” animais. Queríamos simplesmente que eles fossem tratados como os seres independentes e sencientes que são, e não como um meio para os fins humanos – como tinha sido tratado o porco, cuja carne estava agora nas sandwiches servidas pela nossa anfitriã. (Introdução, p.II)
“A afirmação de que a experimentação com animais seria essencial para fazer descobertas [criação de insulina, descoberta do vírus da poliemielite, entre outras curas N. de K.] tem sido negada por alguns opositores à realização de experimentação.
(…) Algumas descobertas provavelmente teriam sido adiadas, ou talvez nunca feitas; mas muitas pistas falsas nunca teriam sido seguidas, sendo possível que a medicina se tivesse desenvolvido numa direcção muito diferente e mais eficaz, com ênfase na vida saudável e não na cura” (pp.84,5)
“A exploração dos animais em laboratório faz parte do problema mais vasto do especismo e é pouco provável que seja eliminado totalmente antes do próprio especismo ser recusado” (p.87)
“Agora que entendemos a natureza do especismo e vimos as consequências que tem para os animais não humanos é altura de perguntar: O que podemos fazer? (…) O primeiro passo é deixarmos de comer animais. Muitas pessoas que se opõem à crueldade para com os animais detém-se frente ao vegetarianismo. Foi sobre estas pessoas que Oliver Goldsmith, ensaísta filantropo do século XVIII, escreveu: “Têm pena e comem os objectos da compaixão que sentem”. (p.149)
“Se um ser sofre, náo pode haver justificação moral para desprezar esse sofrimento ou para recusar considerar-lo de forma igual ao sofrimento de qualquer outro ser. Mas o inverso é também verdadeiro. Se um ser não for capaz de sofrer, ou de sentir prazer, não há nada a ter em conta” (p.160)
In capítulo 6 “O especismo, hoje”
“Vimos como, violando o pressuposto moral fundamental da equidade de consideração de interesses que deveria reger as nossas relações com todos os seres, os homens infligem sofrimento aos não humanos por razões triviais; e vimos como, geração após geração, os pensadores ocidentais procuraram defender o direito dos seres humanos a fazê-lo. (…) É importante desmontar e criticar esta ideologia porque, embora a atitude contemporânea face aos animais seja suficientemente benévola – numa base muito selectiva – para permitir a introdução de melhorias nas condições de vida dos animais sem questionar a nossa atitude básica, estas melhorias estão sempre em perigo se não conseguirmos alterar a posição subjacente que sanciona a exploração brutal dos não humanos para fins humanos. Só podemos construir uma fundação sólida para a abolição desta exploração se conseguirmos romper radicalmente com mais de dois mil anos de pensamento ocidental face aos animais” (pp.199,200)
“Nunca fiz a afirmação absurda de que não existe uma diferença significativa entre seres adultos normais e outros animais. O que pretendo dizer não é que os animais são capazes de agir moralmente mas que o princípio moral de consideração igual de interesses se aplica a eles como se aplica aos homens. Frequentemente é correcto incluir na esfera da consideração igual de interesses seres que não são capazes de efectuar escolhas morais, como se vê pelo tratamento que damos às crianças pequenas e a outros humanos que, por uma razão ou outra, não possuem a capacidade mental para compreender a natureza da escolha moral. Como Bentham teria dito, o que interessa não é saber se eles podem escolher mas saber se podem sofrer” (p.210)
“O movimento de Libertação Animal vai exigir mais altruísmo por parte dos seres humanos do que qualquer outro movimento de libertação. Os animais são incapazes de exigir a sua própria libertação. (…) Os seres humanos têm o poder de continuar a oprimir as outras espécies eternamente ou até tornarem este planeta impróprio para seres vivos.
Continuará a nossa tirania provando que a moral de nada vale quando entra em conflito com os interesses próprios, como sempre disseram os mais cínicos poetas e filósofos? Ou mostraremos estar à altura do desafio, provando a nossa capacidade de altruísmo genuíno e pôr fim à exploração cruel de espécies que estão sob nosso domínio, não por sermos forçados a fazê-lo por rebeldes ou terroristas mas por reconhecermos que a nossa posição é moralmente indefensável?
A forma como colectivamente respondermos a esta questão depende da forma como cada um, individualmente, lhe responder. (p.232)
LAMA, Dalai, Ética para o Novo Milénio, Lisboa, Presença, 2003
"Possa eu ser em todos os tempos hoje e sempre
O protector dos que não têm protecção
O guia dos que perderam o caminho
Um barco para os que têm de atravessar oceanos
Uma ponte para os que têm de atravessar rios
Um santuário para os que estão em perigo
Uma lâmpada para os que não têm luz
Um refúgio para os que não têm abrigo
E o servente de todos os que precisam."
SHOSHANNA, Brenda, Zen e a Arte de Amar, ed. Presença, 2007"Fazer o que é necessário que se faça a seguir""O amor começa onde a ciência acaba" (p. 152)
"A única solidão real advém de nos abandonarmos a nós mesmos, de não sermos quem realmente somos. Então voltamo-nos para outra pessoa para nos preenchermos. Quando agimos desta maneira (...) sentimo-nos abandonados e sozinhos." (p. 96)
"Aprofundai uma verdade antes de falar dela. Quando se recebe uma verdade, deve-se começar por vivê-la antes de querer propagá-la à sua volta. (...) Ao passo que se começardes a falar a torto e direito de uma verdade que acabais de aprender é certo e sabido que ela vos deixará sós, pois expuseste-la na praça pública, ela já não vos pertence e em seguida ficais de novo infelizes".
“Nas relações sadomasoquistas, um dos parceiros é dominado e vítima de abuso, e o outro é quem domina. (Os papéis podem inverter-se de tempos a tempos). Aquele que aceita o mal aceita-o porque se fixou na ideia de que é uma vítima, que é inadequado e que não merece ser amado. A culpa que sente atrai o castigo, o qual alivia temporariamente a culpa. (…) É óbvio que não há nada de amoroso neste comportamento, nem para a própria pessoa nem para o outro.
Aquele que, por fraqueza e medo da sua própria vulnerabilidade, desempenha o papel dominador sente-se muitas vezes vulnerável e descontrolado. (…) Infligir dor aos outros torna-se uma protecção relativamente à dor que está a sentir. Isto constitui não só uma degradação do relacionamento, como também é o oposto completo de um coração amoroso.
Todas estas permutas de dor e lutas de poder nos relacionamentos são o resultado de não se saber como lidar com os golpes que a vida nos dá. A permanência em relacionamentos prejudiciais ou dolorosos deve-se ao facto de não desejarmos realmente sentir, compreender e finalmente soltar a dor. O Zen ensina-nos a nunca concedermos a outrema autonomia ou a autoridade sobre a nossa vida. Cada um de nós tem a sabedoria, a força e a beleza para cuidar de tudo.
Podemos decidir, em qualquer momento (…) que já chega de dor. Quando sentimos inteiramente a nossa dor, é mais fácil desistirmos dela e escolhermos o bem-estar. A escolha é sempre nossa. Quando originamos ou permanecemos em relações que são fundamentalmente prejudiciais e negamos os princípios fundamentais do amor, é inevitável que suceda o sofrimento, tal como a noite sucede ao dia. (pp.121,2)


O Diamantino aos quatro anos quando foi posto na Rua Augusta a pedir.
Estava-se em plena "paixão pela educação" e quando eu chamava a atenção da polícia, cheguei a ouvir "Mas ele está a fazer o "dele"!" E a minha insistencia para todas as instituições infantis e mesmo para a presidência da República, para além de junto da PSP para que averiguassem quem explorava o infante foi tanta que cheguei a receber a visita de uma delegação de quatro PSPês em casa que me vieram explicar, e de certo modo pedir desculpa, pela sua impotência: não podiam prender a criança e as instituições infantis nada faziam.
Hoje, passados 11 anos, o Diamantino lá continua. Podem sempre vê-lo (entretanto apareceram também o Igor e o Rafael) mais os cãezitos de cesta na boca. As pessoas acham muitas piada, chegam a pousar para a foto junto do "grupo", eu pergunto-me a que tortura não deve ser submetido o animal (que muda com frequência) para suportar N horas de cesto na boca e também quanto já não fez quem arrecada em casa o dinheiro. Onde as instituições de apoio à infância? Onde as instituições de denúncia de mau trato animal? (A foto respeita a um evento que então organizava na Escola Secundaria Padre António Vieira)
COW PARADE
As vacas servem para tudo: usam-se por baixo, ao lado, de frente, entre os cornos, montam-nas, naturalmente, roubam-lhe os adereços mais vulneraveis – há vacas com brincos e uma veste lingerie – e tambem já vi um cidadão pôr no cachaço da cow o seu "lulu", dizendo-lhe com ar peremptório “Aguenta-te!” como num rodeo onde o animal – o mais pequeno – devesse ser o cow boy, e tudo para a indispensavel foto.
As vacas servem para tudo e ainda só não vi uma reflexão sobre esta coisa de pegar em estátuas do ancestral animal e dá-las a pintar a artistas da nossa praça. Ou mais concretamente, sobre o que a maioria dos convidados reflectem na forma com que tratam o material base: a escultura realista do dito mamífero.
Mas também não há muito por onde variar: grande parte das vacas surgem travestidas de burguesas, encarnando os valores da sociedade que promove a cow parade e, assim, há ruminantes de lingerie – como já citei – cobertos com cores psicadélicas e frases "poéticas" vaquinhas da cor da nação, outra que fixa com o focinho uma bola, algumas delas mascaradas de camponezas, e poucas, muito poucas mesmo, onde a dignidade do animal não surge camuflada por um desejo de pô-lo ao serviço do que lhe é alheio, pois que tem a natureza a ver com símbolos do consumo ou entreténs de massa? Assim, há uma de luto, com um sinal de perigo a assinalá-la, outra onde a cor que a cobre evoca a sua representação real e lembro uma terceira com duas galinhas em cima e letreiro ao pescoço “O campo está vivo!”
Nesta coisa da cow parade – e para abreviar – o problema é que ainda existe algum campo e restam uma tantas vacas, das que não são assassinadas pelo “fast food!” (leia-se Peter Singer e a agricultura industrial) e logo, esta mostra de vaca não sabe a carne nem a peixe. A certeza que muitas crianças, a quem os pais fotografam junto à “vaquinha”, nunca viram o dito animal, a não ser esquartejado no prato, podendo mesmo imaginar a sua inexistência, e a cow parade – que poderia evocar algo definitivamente exterminado pela sociedade burguesa – o campo, o camponês e uma quantidade colossal de seres vivos – surge como a gargalhada no cemitério, quando o morto – a vaca, o campo ou o camponês - ainda batem na tampa do túmulo que os sufoca.
Cow parade, o escárneo a coroar a extinção da natureza, o seu emburguesamento, simbolizado na vaca que veste lingerie.
SINGER, Peter e MASON, Jim, Como Comemos - porque as nossas escolhas alimentares fazem a diferença, Dom Quixote, 2008 (ca. 390 pp./ca. 19 euros)
« Normalmente não pensamos naquilo que comemos como uma questão de ética. (...) Tentem pensar num político cuja ambição fosse prejudicada por revelações acerca do que ele ou ela come.
Muitos caçadores-colectores têm códigos sobre quem pode matar que animais e quando. Alguns têm rituais em que pedem perdão aos animais por terem de os matar. Na Grécia e Roma antigas, as escolhas éticas em relação à comida eram consideradas pelo menos tão importantes como as escolhas ética em relação ao sexo (1). Sobriedade e comedimento na dieta, como em tudo o resto na vida eram considerados virtudes. » (p.17)
« A maioria das pessoas concorda fortemente que devemos evitar infligir sofrimento desnecessário aos animais. Resumindo a investigação recente sobre as vidas mentais dos frangos e outros animais de criação Christine Nicol, professora de Bem-Estar animal na Universidade de Bristol (...) disse : « o nosso desejo é ensinar aos outros que cada animal é um indivíduo complexo e ajustar a nossa cultura agrícola de acordo com esse facto. (8). Estamos prestes a ver até que ponto a nossa cultura agrícola teria de mudar para alcançar isso ». (p.40)
« Se entrarem num pavilhão de criação de frangos típico, sentirão uma sensação de queimadura nos olhos e nos pulmões. É o amoníaco – vem dos excrementos das aves, que são simplesmente deixados a amontoar-se no chão sem serem limpos (...) tipicamente durante o ano inteiro, e por vezes durante vários anos (...) Níveis elevados de amoníaco provocam doenças respiratórias crónicas nas aves, feridas nas patas e jarretes e bolhas no peito. Faz os seus olhos lacrimejarem e quando é verdadeiramente mau, muitas das aves ficam cegas. À medida que as aves, que são alimentadas para terem um crescimento extremamente rápido, ficam mais pesadas, torna-se doloroso estarem sempre de pé, por isso passam grande parte do tempo sentadas no meio da cama cheia de excrementos – daí as bolhas no peito. (...) O professor John Webster da Faculdade de Ciencias Veterinárias da Universidade de Bristol, disse : « Os frangos para consumo de carne são os unicos animais de criação que sofem de dores crónicas durante, pelo menos, 20% das suas vidas. Não se mexem, não por estarem amontoados, mas porque têm muitas dores nas articulações ». Por vezes as vértebras estalam, causando paralisia. As aves paralisadas ou as aves cujas patas cederam não podem chegar à comida ou à água - e como os criadores não se dão ao trabalho, nem têm tempo de verificar as aves individualmente – morrem à sede ou à fome. Tendo em conta este problema de bem-estar e o vasto número de animais envolvidos – quase mil milhões nos Estados Unidos – Webster considerou que a produção industrial de frangos é « em magnitude como em gravidade, o exemplo mais sério e sistemático de desumanidade do Homem para com outro animal senciente. (17) » (.p. 42)
« Devido à grande velocidade da linha [de abate - N.de Kriu] até o corte de pescoço que se segue ao banho de água electrificada deixa escapar algumas aves que podem passar vivas e conscientes para a fase seguinte do processo – um tanque com água escaldada.
Virgil Butler, que passou anos a trabalhar para a Tyron Foods, na sala de abate de um matadouro em Grannis, no Arkansas, matando 80 000 frangos por noite, diz (...) : « Numa noite normal, diz ele, aproximadamente um em cada três frangos estavam vivos quando iam para o tanque com água a escaldar. Segundo Butler, as aves não atingidas [pela electrocussão – N, de Kriu] são « escaldadas vivas ». Elas « tombam, guincham, esperneiam e os olhos saem das órbitas ». Muitas vezes saem « com ossos partidos e desfiguradas, sem algumas partes do corpo, por se terem debatido tanto dentro do tanque » (pp. 44,5)
« Na Grã-Bretanha um juíz deliberou em 1997 que amontoar frangos desta maneira é cruel. (...) Depois de ouvir o testemunho de muitos peritos, o juíz Roger Bel deliberou que a acusação [contra a MacDonald’s - N. de Kriu] era verdadeira : « os frangos que são usados para produzir carne para a McDonald’s (...) passam os últimos dias de vida com muito pouco espaço para se movimentarem .» declarou ele. « A severa restrição de movimento naqueles últimos dias é terrível e a McDonad’s é culpada como responsável por essa prática cruel » (pp. 41 e 46)
« Os produtos locais não têm de percorrer grandes distgancias. Isto reduz as emissões de dióxido de carbono e os materiais de embalagem. Comprar alimentos locais também ajuda a tornar a agricultura mais lucrativa e a venda dos terrenos agrícolas para construção menos tentadora » (Texto de Food routes, citado p. 177)
« Alguns pensam que a agricultura industrial é necessária para alimentar a população crescente do planeta. (…) Criar animais com base numa alimentação de cereais continua a ser um desperdício. Muito longe de aumentar a quantidade de alimentos disponíveis para consumo humano, contribui para reduzi-la. (…) Nas explorações de engorda o gado é alimentado quase exclusivamente com cereais. (…) No seu clássico de 1971 Diet for a Small Planet, ela [Frances Moore Lappé - N. de Kriu] calculou que eram precisos 18 quilos de cereal para produzir um quilo de carne e que um acre de terra destinada ao cultivo de cereais podia produzir o quintuplo de proteína destinado à produção de carne. Desde então os produtores de bovino melhoraram a sua eficácia mas, quando temos em conta o facto de que apenas cerca de metade do peso de um novilho é carne sem osso, são precisos 10 quilos de cereais para produzir um único quilo de carne (…) Mas até estes números são losonjeadores. (…) porque um quilo de carne contém muito mais água do que um quilo de cereais. A criação de frangos é menos ineficaz. Segundo o National Chicken Council bastam 2 quilos de ração para produzir um quilo de frango mas a proporção considera o peso com o animal vivo. Após o abate, depois de o sangue, as penas e os orgãos internos serem retirados, um frango de 2.2 quilos não produzirá muito mais que 1.3 quilos de carne. Isso coloca a taxa de conversão cereal-para-carne em 3 para 1, incluindo ossos e água. Deste modo os próprios números do National Chicken Council provam que, se queremos realmente alimentar-nos de uma forma eficiente, será preferível consumirmos os cereais a dá-los [aos animais N.de K].
(…) Sabemos agora que não existem diferenças significativas na qualidade da proteína entre os rebentos de soja e a carne. (pp. 275,6)
Sob o título « O que deveríamos comer » :
« Temos o direito de saber como são produzidos os alimentos que consumimos. (…)
produzir alimentos não deveria impor custos a terceiros (…) Infligir grandes sofrimento a animais por motivo insignificante é errado. (…) os trabalhadores deveriam ter salários e condições de trabalho decentes. (…) A preservação da vida e da saúde é mais justificada do que outros desejos. (pp. 319,320)
« Vitela de produção industrial : a maioria das pessoas que pensa na ética alimentar já eliminou este item. As vitelas que são criadas para carne « branca » são retiradas de junto das mães no primeiro dia de vida, colocadas em engradados tão estreitos que não podem virar-se nem andar, privadas de palha ou cama, e mantidas deliberadamente anémicas, para que a sua carne macia e pálida – na verdade cor-de-rosa, não branca – possa ser vendida ao mais alto preço. Não é preciso dizer mais nada . » ( p.322)
« podemos ser éticos sem ser fanáticos » (p. 333)
(1) Michel Foucault, Histoire de la Sexualité 2 : L’ usage des Plaisirs, Paris, Gallimard, 1984)
(8) Jonathan Leake, « The Secret Life of Moody Cows », Sunday Times, 27 de Fevereiro de 2005
(17) Jonh Webster, Animal Welfare, A cool Eye Towards Eden, Blackwell Science, Oxford, 1995, p. 156.
Direcções citadas:
cadeia de super-mercados de produtos orgânicos: www.wholefoodsmarket.com

Postal convite da ante-estreia na cinemateca em 21 de Setembro de 2006. Gostei muito de trabalhar com o Jacopo Gandolfi. Foi mesmo dos grandes prazeres que o cinema me proporcionou, além de ter passado duas noites no castelo de São Jorge, deambulando por torres e ameias... 


"A Perca" teve duas encenações: a primeira estreada na Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, em Julho de 2004 e a segunda, também de minha autoria, na Mostra de Teatro de Almada, em Fevereiro de 2008.
Extracto da apresentação de "A Perca", na sua primeira encenação, em 2004, proferida pela Drª Maria José Pinto:
"A Perca" é um achado.
Aparentemente leve e divertido é um texto dramático, sarcástico, interventivo...fortíssimo.
(...) Um homem e uma mulher, duas personagens a procura de um sentido para a vida. Confrontam-se num duelo, num estado de pura alienação com o físico
(...) retratos obssessivos... cruéis... definitivos ajustes de contas com o passado .... [n]a luta por um sentido da vida.
(...) Com uma ironia subtil, assume a caricatura que questiona uma sociedade consumista, alienada e alienante, colocando a nu o instituído e a instituição, a falta de partilha e afectividade, o que o torna um texto de uma enorme actualidade.
A Perca deixa ao espectador a incomodidade de ter estado perto de uma qualquer verdade primordial.
A exploração da escrita de Carlos Melo reflecte a busca existencial e um caracter misteriosamente farsante
Sinopse da peça
No mito grego Orfeu busca Eurídice no Reino dos Mortos. N' "A Perca", uma mulher dá por falta do marido na discoteca e procura-o na Secção dos Perdidos. Acabará por levar o funcionário da secção que talvez seja o marido... "A Perca" reúne várias leituras, mas todas convergem numa mesma: tudo nela é, como diz o personagem masculino, Teatro."

"Através da narração e da representação metafóricas surgem os sinais da guerra, dos crimes, das torturas. Para isso o encenador Carlos Melo serviu-se de elementos muito simples, usando a técnica da repetição, cara a Bob Wilson e também a Kantor: um grito (o tiro) e uma jovem cai, imagem que se repete muitas vezes, como se repetem outras imagens e cenas inteiras, fixação obsessiva da destruição."
"A Valsa" tem como ponto de partida um texto dramático do escritor e encenador Carlos G Melo. Esta obra é um movimento interpretado por Elsa, uma mulher da idade do mundo que transporta cinquenta sacos e ainda carrega um corpo. Vivo? Morto? Ela o saberá, ou talvez não."