5/01/2008

TEATRO 4 Sim, eu vi "Bonifácio do Paraíso"! (foto Paulo Marques)


Rua Augusta 4 "A Camponeza foi..."


A leitaria “A Camponeza”, na Rua do Arco do Bandeira, foi.
Retirou o aviso “fechado para melhoramentos” e abriu de novo as portas.
Em vez dos azulejos que vislumbravam alto a baixo as paredes tem agora umas placas sintéticas  e, da velha arquitectura, conserva dois painéis – ainda em azulejo – revalorizados já pela sua escassa quantidade. No tecto subsistem frisos da antiga forma.
De “A Camponeza”, quem não saiba o que foi, dirá que abriu pela primeira vez ontem as portas. Outrora as paredes eram cobertas de azulejos. Agora são iguais a quaisquer outras feitas em série. Em Paris as pastelarias também usam o mesmo tipo de painel.

"A Camponeza" foi.

4/28/2008

CAPITALISMO 3


GAGGI, Massimo e NARDUZZI, Edoardo, Low Cost O Fim da Classe Média, Ed. Teorema, 2008
“a filosofia do low cost invadirá inevitavelmente a esfera pública: para quem governa o Estado isto significa repensar a oferta levando em linha de conta a menor disponibilidade da classe da massa para suportar o ónus do seu financiamento. Por outras palavras, terá de surgir a capacidade de pôr em marcha um welfare igualmente low cost. (p. 11)

“Em suma: a Europa que “inventou” a classe média pode sobreviver ao fim dela. Chefias políticas desligadas da vida política do momento, e capazes de ler a realidade e as soluções possíveis numa perspectiva histórica, estão em condições de contribuir para o governo da sociedade low cost, mitigando a sua natural tendência para o excesso de consumismo – para o totalitarismo consumista, podemos dizer – e, portanto, para a perda de valores diferentes do simples preço de um bem ou de um serviço.
A sociedade low cost é já uma realidade, mas é um modelo incompleto, incapaz de ver o humano na sua integridade e complexidade. O capitalismo selvático e os sistemas económicos dinâmicos, mas não democráticos, não poderão, com certeza, curar-lhe as patologias. Esta nova realidade social necessita, pois, de humanização, valor plurissecular de identidade ocidental. O neo-humanismo da sociedade low cost.” (p. 166).

FILOSOFIA 2

NIETZSCHE, Friedrick, Obras Escolhidas, volume dois, Humano, Demasiado Humano, Relógio d’ Água, data a ver

"Deveria considerar-se um escritor como um malfeitor que, so nos casos mais raros, merece absolvição ou indulto: seria uma maneira de combater a multiplicação excessiva de livros" (p. 180)

"Os bobos das cortes medievais correspondem aos nossos folhetinistas; é o mesmo género de homens, semi-inteligentes, chocarreiros, exagerados, tolos que só servem para, uma vez por outra, mitigarem o patético do ambiente por meio de piadas e de palreio e ensurdecerem com a gritaria o som demasiado pesado e solene dos sinos que acompanham os grandes acontecimentos: outrora, ao serviço dos príncipes e dos nobres, agora a serviço dos partidos (tal como no espírito de partido e na disciplina de partido ainda hoje sobrevive uma boa parte da antiga sujeição nas relações do povo com o príncipe.) Mas toda a moderna casta de literatos, estão muito mais próximos dos folhetinistas; são os “bobos da cultura moderna” que a gente julga mais benevolentemente, se os tomar como não estando no pleno gozo das suas faculdades mentais. Considerar a actividade de escritor como profissão permanente deveria em boa verdade, passar por uma espécie de loucura." (p. 181)


4/26/2008

CAPITALISMO 4

LOPEZ-SÉBILLE, Philippe, Geopolíticas do Petróleo, ed. Piaget, 2006.
“a ausência de um fórum internacional dedicado a uma cooperação indispensável sobre a situação e as perspectivas do mercado petrolífero fez-se duramente sentir.” (Pág. 394).

“Paralelamente a esta subida de preços, provocada basicamente por um consumo cada vez mais elevado, as emissões de gases com efeito de estufa aumentam também consequentemente. Esta bulimia petrolífera mundial corre o risco de ser duplamente custosa.
Para muitos analistas (…) o recurso ao petróleo corre o risco de ser limitado mais pelas restrições ligadas aos gases com efeito de estufa do que pela rarefacção de recursos.” (Pág. 395).

“É comum citarem-se duas causas principais na origem do mau desenvolvimento de muitos países produtores de petróleo: (…) deixar perigar a maior parte das actividades económicas do país apoiando-se sempre mais nos rendimentos do petróleo; as receitas (do petróleo) não incidem no desenvolvimento de outras fontes de riqueza (…) a opacidade que preside à atribuição das concessões e dos contratos petrolíferos ou a gestão danosa das receitas do petróleo (…) estimula uma corrupção já omnipresente nos aparelhos de Estado. (…) Sem uma plena e inteira colaboração dos governos, sinónimo de um abandono voluntário de soberania, o petróleo como outros recursos minerais em África e noutros lugares, pode ajudar a sair do subdesenvolvimento? O EITI foi criado para responder afirmativamente a esta questão. Esta iniciativa de várias ONGs (…) visa reforçar a transparência das operações financeiras entre companhias extractoras e os Estados. (…) Sobressaem disparidades de transparência de um país para o outro, de uma companhia para outra. Este aspecto pode fazer pensar que, em função do seu peso na produção do país, da importância do país na sua estratégia de conjunto e, claro está, dos dirigentes do país, as companhias elaboram diferentes normas e que, em matéria de transparência, não pode haver uma regra.” (Pág. 399, 400)

“É evidente que o EITI é o primeiro passo no bom sentido, mas há um caminho muito longo” (Pág. 401)

“Esta falta global de transparência a todos os níveis do negócio sublinha a pouca fiabilidade de certas previsões estatísticas dos Estados produtores, ainda que toda a gente esteja mais ou menos de acordo sobre os volumes globais. No fundo o sistema assenta quase exclusivamente nas declarações dos principais intervenientes, não verificáveis e não verificadas de maneira independente.” (…) A prioridade actual, na falta de uma solução milagrosa, consiste em desenvolver urgentemente (…) “carburantes verdes”. (Pág. 402).

”A crise que actualmente atravessamos ainda não é um choque petrolífero mas antes um aviso. Provocará algumas mudanças num sistema global que apresenta tão ostensivamente os seus limites? Dará início a um debate de fundo mais alargado, seguido por medidas concretas sobre as energias, uma melhor utilização dos recursos petrolíferos e uma certa forma de antecipação do depois do petróleo? Tantas novas incertezas… Contudo quem é que molda simultaneamente os nossos modelos de sociedade e alimenta o seu crescimento económico, sem falar de eventuais perspectivas de desenvolvimento nos países que, neste momento ainda estão privados dele? O consumo de energia.
Em África há sol, rios, vento e também petróleo e gás mas, na melhor das hipóteses, para outros mercados: apenas 10% da população têm acesso à electricidade (…) De que tipo de desenvolvimento é que se fala há quarenta anos, e como travar a imigração nestas condições?” (Págs. 406/7)

4/25/2008

ENTRANHA 5 Rua Augusta... (3)

Receita para dinheiro

Ingredientes:
- um menor
- um acordeão
- um cãozito
- um cesto pequeno
- transeuntes mal formados.

Torture-se privadamente o cãozito para que permaneça imóvel e de cesto na boca horas a fio.
Ate-se o menor ao acordeão para que do instrumento saia qualquer coisa que pareça música.
Se a receita for bem preparada, os transeuntes mal formados colocarão moedas no cesto, indiferentes:
- Ao adulto que repimpadamente recolhe em casa o dinheiro do negócio.
- À tortura do cão.
Também se pode juntar ao cozinhado, em guisa de molho, uns tantos aue fotografam a cena, levados pela “beleza” do quadro.
Serve-se frio diariamente na Rua Augusta – ou no metro – perante a mudez das associações animais e do fisco.

4/24/2008

ENTRANHA 6 Rua Augusta (2)

Nada é vão.
Esperava chegar ao contentor do entulho e, juntamente com as demais inutilidades que o tempo fabricou, atirar com um dos troféus ganhos num concurso de encenação, onde me atribuíram o segundo e o primeiro prémios - a estatueta relativa a este último safou-se do lixo porque no gabinete do conselho executivo da escola - a Passos Manuel - que então representava - mas pensava eu que, chegando ao entulho, a coisa correria calma, discreta e mesmo silenciosa, apesar do que carregava: um candeeiro, uma tenda, enfim, uma colecção de tralha, como num jogo de bonecas russas: difícil é deitar fora a primeira.
E todavia...
Todavia, no entulho, numa rua traseira à Augusta, logo dei com um grupo de imigrantes, porventura ciganos, metidos no contentor.
- Traz roupa, senhor? - perguntou um.
Não sou parvo, acho-me mesmo lúcido e desfazer-se de troféus exige despojamento. Mas praticá-lo perante os olhos ávidos de uma chusma de miseráveis é vitória sobre si próprio ou já vaidade redundante? E não desvalorizei eu o troféu - e ao seu companheiro primeiro, lá na escola porventura ainda a salvo - no dia em que os mesmos que, em nome das tais habilidades teatrais, mo entregaram, me recusaram um apoio para encenar?
Atacado por vozes e gente, já num turbilhão de sentimentos, atirei o símbolo para o contentor e logo mãos ávidas o agarraram:
- É pesado, senhor!
- E maciço! – desabafou outro.
Na hora da despedida o meu "óscar" teve finalmente a sua consagração.
Nada é vão.

4/22/2008

BIOLOGIA 2

RIDLEY, Matt, A Rainha das Copas, o sexo e a evolução da natureza humana, Ed. Gradiva, 2004
“À medida que a vida emergiu do caldo original há vários milhares de milhões de anos, as moléculas que se multiplicaram à custa de outras tornaram-se mais numerosas. Depois algumas dessas moléculas descobriram as virtudes da cooperação e por isso começaram a juntar-se em grupos, chamados cromossomas, para gerirem máquinas chamadas células, que podiam replicar esses cromossomas eficientemente. Do mesmo modo, pequenos grupos de agricultores juntaram-se a ferreiros e carpinteiros para formarem unidades cooperativas chamadas aldeias. Os cromossomas descobriram depois que vários tipos de células podiam formar uma supercélula do mesmo modo que as aldeias começaram a juntar-se, formando tribos. Foi esta a invenção da célula moderna a partir de uma equipa de bactérias diferentes. Depois, as células agregaram-se para formarem animais, plantas e fungos, grandes conglomerados de conglomerados de genes, tal como as tribos se fundiam em países e os países em impérios. Nada disto teria sido possível para a sociedade sem leis que forçassem o interesse social sobre o impulso egoísta do indivíduo, sendo o mesmo válido para os genes. Um gene tem apenas um critério pelo qual é julgado pela posteridade: tornou-se um ancestral de outros genes. Em larga medida tem de o conseguir à custa de outros genes, tal como um humano adquire riqueza principalmente ao persuadir outros a separarem-se dela (legal ou ilegalmente).” (Pág. 104)

Na actualidade existem 3 equipas de cientistas americanos que procuram o “gene da homosexualidade” (…) A mais apelativa das novas evidencias sobre o gene homossexual é que os gémeos falsos, que se desenvolveram no útero e foram criados no mesmo ambiente familiar, apenas têm uma hipótese em quatro de partilharem o mesmo hábito homossexual. Por outro lado, os gémeos verdadeiros, criados no mesmo ambiente e com os mesmos genes, têm uma hipótese em duas de partilharem o mesmo hábito homossexual. Se um gémeo verdadeiro é homossexual as hipóteses de o irmão gémeo também o ser são de 50%. (Pág. 295)

“Se as preferências sexuais dos humanos homossexuais são grandemente influenciadas (e não completamente determinadas) por um gene, então é provável que as preferências dos heterossexuais também o sejam. (Pág. 296).

“apenas compreendendo como é que evoluiu a atracção sexual será possível fazer sentido a mistura de cultura e instinto e compreender porque mudam certas características como a moda e outras resistem.” (Pág.297)

ENTRANHA 7 Capital e natureza

A questão que levanta a frase "o capitalismo é o estado natural do homem" é a de saber se devemos aceitar o dado tal qual, isto é, se o humano é um dado ou um ponto de chegada.
Caso seja um dado, devemos então preservá-lo o melhor possível e não lhe alterar as características. Caso o dado seja apenas algo a ter em conta para uma possível educação - nos animais chamar-se-à amestração - então esse mesmo dado é apenas um entre tantos. Assim o humano está feito quando nasce - e desenvolverá naturalmente o capitalismo - ou deveremos intervir para que ultrapasse a natureza e se crie outro?
A experiência diz-nos que somos o produto de uma educação e que a ideia de um humano “natural” é um lirismo.
Portanto, resta-nos a formação.
Formar homens e mulheres capitalistas, isto é, que ponham a frente de tudo o mais o apelo pelo lucro? O objectivo é absurdo, pois a meta da educação deverá ser a reintegração do humano na natureza, apesar do obstáculo da cultura.
Na prática reintegrar na natureza significa preservá-la, lá onde não seja indispensável destruí-la, isto é, agir à semelhança do mundo natural: por imperiosa necessidade. Esta obrigar-nos-á, porque o sol se extingue, a abandonar o planeta.

Rua Augusta 1


Já no metro, sim senhor, é-se na rua, deixou-se a cama e talvez se volte – para quê certezas? Só empecilham! – se a noite cair ou os que me acompanham na ida, forem também na volta: vida de conjunto.
Ontem – ou antes ainda – o telé roubado do bolso pois gripes, chatos e carteiristas fazem parte da massa e a cada um seu quinhão: amanhã eu, depois tu e, por fim, tanto faz, se não roubo também não restituo. Ah, se matar fosse legal ou mesmo premiado.
No barco – passou-se do combóio para a barcaça prisioneira do Tejo – o Sol chapinha no convés e, por momentos, a luz do dia, ainda púbere, promete êxtases. Mas logo a viagem acaba – tantos que nem florescem - e outros galgam para a barca, desejosos do mesmo cais donde há pouco partiram.
Insatisfação nas caras, deformadas na pressa, no desencontro entre fazer agora e pensar num antes ou depois. Correr. Corrida. Contra o próprio de cada um, suicídio eficaz que florescerá na sargeta ou na reforma. Ou em ambas simultâneamente
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4/16/2008

FOTOGRAFIA 1

BAURES, Gabriel, A Fotografia - História - Estilos - Tendências -Aplicações, Lisboa, Ed. 70, 2006.
In rubrica "A fotografia de moda na actualidade":
"Embora algumas redacções tentem ainda por todo o mundo favorecer uma fotografia de arte criativa, é necessário reconhecer que as coisas mudaram porque as leis do mercado agora são diferentes. Actualmente (...) o pormenor do vestuário está muitas vezes em primeiro plano nas preocupações do fotógrafo, e a sua margem de intervenção pessoal é muito reduzida. (...) A moda confunde-se com o modo de vida. Mais do que verdadeiras representações de vestuário, o que se propõe são ambientes. Em determinadas sectores da sociedade actual, não é tanto o vestuário que faz a moda mas sim o look, quer dizer, a aparência ou então a imagem. (...) Sem dúvida porque o pronto-a-vestir e a sua indústria deram origem a um mercado demasiado importante para se entregar a sua promoção redactorial a "artistas". A independência das revistas face a este mercado é hoje muito difícil de manter, o que explica igualmente o facto de as páginas redactoriais terem, por vezes, tendencia a confundir-se com as páginas publicitárias e não passarem de réplicas destas, de forma mais ou menos habilidosa." (Pág. 71).

TEATRO 5 "A Perca", de m/ autoria, no auditório de Alfornelos 18 e 19/04 às 22 H.


TEATRO 6 Eu, no "Pedro e o Lobo", Teatro Extremo até 27/04


4/14/2008

Fazer publicidade é agitar un pau dentro de um balde de comida para porcos.
George Orwell

CAPITALISMO 5

AL GORE, O Ataque à Razão, Lisboa, ed. Esfera do Caos, 2007
“O fenómenos que Galbraith identificou no mercado comercial é agora a realidade dominante. (…) O valor intrínseco ou validade das proposições políticas avançadas pelos candidatos a cargos políticos é hoje em grande medida irrelevante em comparação com as campanhas publicitárias baseadas na imagem que eles utilizam para melhorar a percepção dos eleitores. E o custo elevado destes anúncios aumentou drasticamente a importância do dinheiro na política americana – e a influência daqueles que contribuem com fundos.” (Pág. 18)

(...) “É impossível existir uma sociedade civil bem informada sem que esta esteja bem interligada. Embora a educação continue a ser importante, o factor decisivo, actualmente, é a interligação. Uma sociedade civil bem interligada é construída por homens e mulheres que discutem e debatem ideias e questões entre si, e que verificam constantemente a validade da informação e das impressões que recebem uns dos outros – bem como do governo. (Pág. 298)

4/13/2008

ARTE 1



TÀPIES, Antoni, A Prática da Arte, Lisboa, Cotovia, 2002
“O artista é um homem de laboratório. Não é um gabinete de propaganda ao qual se encomende a difusão de arbitrariedades” (Pág. 31).

“O artista de hoje não tem de se dirigir a nenhum grupo humano em particular. O seu esforço deve concentrar-se na obra: conseguir uma obra total, profunda e eficaz.” (Pág. 40)

“Nunca acreditei que a arte tenha valores intrínsecos. Em si não me parece nada. O importante é o seu papel de moda, de trampolim que nos ajuda a atingir o conhecimento. Por isso, parece-me rídículo tudo o que tende “a enriquecê-la” com acumulações seja de que for: cores, composição, trabalho… A obra é um simples suporte (…) artifício para fixar a atenção, para estabilizar ou excitar a mente; e o seu valor tem de ser medido unicamente pelos resultados.” (Pág. 54)

“Em momentos como o nosso, em que predominam por toda a estética as mentalidades dirigistas – frequentemente policiais – em que já é difícil falar de sabedoria, de espiritualidade, de sensibilidade delicada ou da arte de viver sem provocar risadas ou perseguições: a tal ponto chegou a tergiversação dos valores!, o artista verdadeiro tem forçosamente de parecer um marginal, um solitário, um estranho à parte (…) Em momentos politicamente desfavoráveis, os artistas poetas eruditos dos Sung ou dos Ming também nos ensinaram a arte de se afastarem das coisas oficiais e de não colaborarem com o que consideravam inaceitável. Nas suas cabanas solitárias, conservavam a independência longe dos funcionários ao serviço dos antigos ou novos mitos desumanos e, com as suas obras de choque, contrárias a toda a convenção e falso valor, com as suas formas desenvoltas e sem respeito pelas regras ou liturgias, armados apenas com a sua máxima exigência de submissão à natureza das coisas (…) conseguiram transformar e abanar a consciência adormecida dos seus contemporâneos. (…) Virarmos as costas e negarmos muitas coisas de hoje, resistirmos a aceitá-las, por mais prestigiadas e sagradas as auréolas com que nos são apresentadas, é um dever vital. O nosso destino está em jogo: fazer perdurar a ignorância e os falsos mitos, e portanto a opressão, ou procurar o conhecimento e a felicidade. Vale a pena dedicarmos a esta alternativa toda a nossa vida, vale a pena a aventura e o risco de passarmos por sonhadores, e até por loucos – divina loucura! – como foi o caso de alguns artistas chineses, como Mi, o Louco, ou Pa-ta Xan-Jen, que fingiu ser mudo durante quase toda a vida (…) Na realidade tenho a certeza de que esta é a única tradição que devemos aceitar de olhos fechados: a que está na linha da luta perpétua contra a ignorância, luta que foi sempre travada pela sabedoria de todos os tempos”. (Págs. 79,80)

“Mas brincar não significa fazer as coisas “só porque sim”. E como todas as brincadeiras de crianças, os artistas também não fazem as coisas “só porque sim”. A brincar… a brincar em pequenos, aprendemos a ser grandes. A brincar… A brincar fazemos crescer o nosso espírito e ampliamos o campo da nossa visão, do nosso crescimento” (Pág. 94)

Do capítulo “Arte e Funcionários”
“Felizmente o artista dirige os olhos para outro mundo, para outra sociedade e para outras formas mais limpas, não contaminadas nem doutrinadas, com vontade de intervir. Ali onde a sua obra, longe de ser usada como um enfeite na moda. Ou uma purga de “maus pensamentos”, ou um mero instrumento propagandístico de “colheita de louros” possa contribuir realmente para o seu desenvolvimento harmónico, possa servir, juntamente com o trabalho de todos os que lutam nas outras disciplinas humanistas, a mais autêntica libertação e aperfeiçoamento.
Com o passar do tempo fui vendo, mais agora do que nunca, que em todas as épocas – tirando muito raras excepções – o autentico artista, o poeta, o grande pensador tem sempre fatalmente de fugir para o mais longe possível do mundo dos funcionários, quer na China dos Ming, quer na corte de Filipe II, ou na Checoslováquia actual, para mostrar a toda a gente que existe um terreno onde estes jogos, estas intrigas de altas chancelarias se esvaem perante a brancura imaculada da arte que lhe serve de inspiração.” (Págs. 105,6)

“O certo é que sempre haverá quem, de maneira mais inesperada, num recanto de sua casa, servindo-se sabe-se lá de que materiais – dos quais, naturalmente, e para já, os escritores profissionais dirão que não são arte – ou combinando sabe-se lá que espécie de textos – dos quais dirão que não é poesia – ou sons – que para alguns não serão música – poderá chegar a comover mais tarde uma geração. E certas formas que parecem de grande inocência semântica (…) acabam por converter-se, sem que ninguém o tenha conseguido provar, no verdadeiro estilo de uma época. Foi sempre perigosa a tentação, por parte dos que se dedicam à estética, de profetizar demais. As vezes são professores muito cultos que se servem de um aparelho bibliográfico impressionante e que, naturalmente, fazem o papel de inapeláveis diante do grande público. Mas a experiência ensina precisamente o contrário. Geralmente enganam-se. Pretendem encerrar o fenómeno artístico nas malhas das suas análises trabalhadas e demoradas; porém, quando julgam que o conseguiram, já não encontram nada, porque a vida seguiu por outros caminhos, são vítimas da análise. Parecem dar razão àquele personagem de Thomas Mann que dizia: “A análise é boa como instrumento do progresso e da civilização, boa na medida em que destrói convicções estúpidas, dissipa perconceitos e mina a autoridade. Por outras palavras: na medida em que humaniza e prepara os oprimidos para a liberdade. Mas é má, muito má, na medida que coloca obstáculos à acção, prejudica as raízes da vida e é impotente para lhe dar forma. A análise pode ser uma coisa muito pouco desejável, tão pouco desejável como a morte de que na realidade se alimenta.
Esquecem-se precisamente, que o poeta, o artista, o músico e o pensador independente se alimentam sempre, entre muitas coisas, de um estranho fervor rebelde perante qualquer tentativa que pretenda reduzi-los ou classificá-los num qualquer esquema. É uma espécie de necessidade, que parece inerente a todo o artista – está seguramente aqui a matéria primordial do acto criativo – de ludibriar os que esperam que determinada coisa aconteça num determinado momento. É a exclamação de Liszt ao ouvir Chopin: “Surpreendente; nesta passagem tinha de estar inevitavelmente um fá e este homem sai-nos com um si bumol”. (Págs. 129,130)

4/12/2008

ECOLOGIA 1

WEISMAN, Allan, O Mundo Sem Nós, Ed. Estrela Polar, 2002, 2ª ed.
«Se os seres humanos desaparecessem» diz o ornitólogo Steve Hilty, «pelo menos um terço das aves da Terra poderiam nem dar-se conta disso».
(...) "Seríamos literalmente chorados por criaturas que não conseguem viver sem nós porque evoluíram a viver em nós: (...) o piolho do cabelo e do corpo."

4/09/2008

PERFORMANCE 1

GOLGBERG, Rosellee, A Arte da Performance, Lisboa, Ouro Negro, 2007
"A performance passa a ser reconhecida como meio de expressão artístico independente na década de 1970. Nessa época, uma arte que não se destinasse a ser comprada ou vendida estava no seu apogeu e a performance, frequentemente uma demonstração, ou execução, dessas ideias, tornou-se assim a forma de arte mais visível deste período. Surgiram espaços dedicados às artes da performance nos maiores centros artísticos internacionais, os museus patrocinavam festivais, as escolas de arte introduziam a performance nos seus cursos e fundavam-se revistas especializadas."
(...)
"Afinal os artistas não se serviam de performance para pura e simplesmente atrair publicidade sobre si próprios, mas com o objectivo de pôr em prática diversas ideias formais e conceptuais na base da criação arística."
(...)
"Devido à sua postura radical, a performance tornou-se um catalisador na história da arte do século XX; cada vez que determinada escola - quer se tratasse do cubismo, do minimalismo ou da arte conceptual - parecia ter chegado a um impasse, os artistas recorriam à performance para demolirem categorias e apontar para novas direcções. Além do mais, no âmbito da história da vanguarda - refiro-me aqui aos artistas que, sucessivamente, lideraram o processo de rutpura com a tradição - a performance situou-se, ao longo do século XX, no primeiro plano dessas actividades: uma vanguarda de vanguarda.
(...)
Os manifestos de performnce, desde os futuristas até aos nossos dias, representam a expressão de dissidentes que têm procurado outros meios de avaliar a experiência artística no quotidiano. A performance serve para comunicar directamente com um grande público, bem como para escandalizar os espectadores, obrigando-os a reavaliar os seus conceitos de arte e a sua relação com a cultura. O interesse recíproco do público por tal meio de expressão artística, sobretudo na década de 1980, provém de uma aparente vontade de ter acesso ao mundo da arte, de se tornar espectador dos seus rituais e da sua comunidade diferenciada, de se deixar surpreender pelas criações inusitadas, sempre transgressoras, destes artistas. A obra pode ter a forma de espectáculo a solo, ou em grupo, com iluminação, música ou elementos visuais criados pelo próprio performer ou em colaboração com outros artistas e ser apresentada em lugares como uma galeria de arte, um museu, um "espaço alternativo", um teatro, um bar, um café ou uma esquina. Ao contrário do que acontece na tradição teatral, o performer é o artista, quase nunca uma personagem, como acontece com os actores, e o conteúdo raramente segue um enredo ou uma narrativa nos moldes tradicionais. A performance pode também consistir numa série de gestos íntimos ou numa manifestação teatral com elementos visuais em grande escala e durar apenas alguns minutos ou várias horas; pode ser apresentada uma única vez ou repetidas vezes e seguir, ou não, um guião, tanto pode ser feita de improvisaçao espontânea como dar lugar a meses de ensaios. (in Prefácio)
"É a própria presença do artista performativo em tempo real, a "suspensão do tempo" pelos performers ao vivo, que confere a este novo meio de expressão uma posição central.
(...)
A expressão "arte de performance" tornou-se um signo abrangente que designa todo o tipo de apresentações ao vivo - desde intalações interactivas em museus a desfiles de moda altamente criativos ou a apresentações de DJs em clubes nocturnos - obrigando o público e os críticos a deslindarem as respectivas estratégias conceptuais, verificando se estas se enquadram melhor nos estudos de performance ou numa análise mais convencional de cultura popular."
(...)
"No passado a história da arte de performance assemelhava-se a uma sucessão de vagas: ia e vinha (...) Desde a década de 1970, porém esta sua história tem sido mais constante; en vez de de desistirem da performance, após um breve período de envolvimento activo (...) inúmeros artistas (...) têm trabalhado exclusivamente com a performance. (Págs. 281,2)

4/08/2008

HUISMAN, Denis, A Estética, Lisboa, ed. 70, 2008.
“A sociologia do século XX considera a arte com muito mais benevolência. Mas é justamente porque ela não encara a arte como um jogo gratuito, como aquela actividade indigna e estéril que o século XIX via nela frequentemente. Etienne Sourian no seu Avenir de l’ Esthétique notou a semelhança impressionante de arte e da industria, opondo no entanto o “trabalho operário” ao “trabalho de arte” apesar de ambos estarem unidos, tanto na arte como na indústria: quando o operário se contenta com “seguir a máquina” sem gosto, sem apreciação dos resultados, fazendo uma execução rigorosamente profissional, trata-se de um trabalho operário. Mas também o é o gesto “puramente habitual” do pintor que “pela centésima vez “refaz «o lago de Santa Cucufa, no mês de Maio, às dez horas da manhã» porque o empresário lho pede”; mais “operário” ainda do que o “trabalho de arte” do desenhador industrial que tem de fazer uma “obra inovadora”, ou do que o engenheiro dando as suas instruções para a carroçaria de luxo de um “Hispano-Suiza”. Assim, a arte e a indústria devem estar colocadas uma ao lado da outra, na divisão do trabalho social: não diferem pelo “processo, nomeadamente, manual ou mecânico”. Mas a arte é criadora e a indústria é produtora. A arte é, portanto, como que a quintessência da industria, é uma espécie de industria transcendente, isto é, a industria por excelência. Ars, no sentido de trabalhos muito sólidos. A arte dos jardins, a arte do oleiro, a arte do ferreiro, são actividades simultaneamente estéticas e utilitárias. Não se pode aliás destruir a arte sem destruir ao mesmo tempo todas as grandes actividades humanas: pois a arte é substancial a todas as divisões do trabalho social. Não é possível isolá-la. Mas é preciso tentar reconhecê-la onde quer que esteja, fazê-la sair dos seus inúmeros esconderijos. É preciso analisá-la onde se esconde. Como não é possível tentar estudá-la através das suas inúmeras especificações, há que surpreendê-la nas atitudes dos que a vivem, que a sofrem e que a sentem. Renunciando a uma metafísica do Belo, há que tentar uma Psicologia da Arte." (Págs. 80/1)
(…)
“O Belo não tem existência física” dizia Benedetto Croce. O mesmo é dizer que o objecto não conta: só importa o sujeito. Se não se pode conhecer a arte por métodos objectivos, onde se poderá encontrar a sensibilidade estética? Principalmente na psicologia do produtor, do consumidor, do operário e do utente, mas também no estudo dos seus traços de união, o intermediário, o intérprete (seja virtuoso ou negociante de quadros). Noutros termos, trata-se essencialmente de estudar a criação, a contemplação e execução da obra de arte. (Págs. 83)

“O carácter estético de um objecto não é uma qualidade desse objecto mas uma actividade do nosso eu, uma atitude que assumimos em face do objecto” (Victor Basch, citado pág. 83)

“Não sei quem teria dito, nem onde, que a literatura e as artes influenciam os costumes. Quem quer que fosse, é indubitavelmente um grande idiota, é como se alguém dissesse: as ervilhas fazem crescer a Primavera. (Theophile Gautier, citado pág. 114)

4/07/2008

FASCISMO 2


PAXTON, Robert D., The Anatomy of Fascism, London, Penguin Books, 2005
“Can Fascism still exist? Clarly Stage One mouvements can still be found in all major democracies. More crucially, can they reach Stage Two again by becoming rooted and influencial? We need not look for exact replicas, in which fascists veterans dust off their swastikas. Collectors of Nazi paraphrenalia and hard-core neo-Nazi sects are capable of provoking destructive violence and polarization. As long as they remain excluded from the alliances with the establishment necessary to join the political mainstream or share power, however, they remain more a law and order problem than a political threat. Much more likely to exert an influence are extreme right mouvements that have learned to moderate their language, abandon classical fascist symbolism, and appear “normal”.
It is by understanding how past fascisms worked, and not by checking the color of shirts, or seaking echoes of the rethoric of the national-syndicalist dissidents of the opening of the twentieth century, that we may be able to recognize it. The well-known warning signals – extreme nationalist propaganda and hate crimes – are important but insufficient. Knowing what we do about the fascist cycle, we can find more ominous warning signals in situation of political deadloock in the face of crisis, threatened conservatives looking for their allies, ready to give up due process and the rule of law, seeking mass support by nationalist and racialist demagoguery. Fascist are close to power when conservatives begin to borrow their techniques, appeal to their “mobilizing passions” and try to co-opt the fascist following.Armed by historical knowledge, we may be able to distinguish todday’s ugly but isolated imitations, with their shaved haeds and swastiks tatoos, from authentic functional equivalents in the form of a mature fascist-conservative alliance. Forewarned, we may be able to detect the real thing when it comes along.

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